{"id":2074,"date":"2015-11-30T19:15:29","date_gmt":"2015-11-30T19:15:29","guid":{"rendered":"http:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/?p=2074"},"modified":"2015-11-30T21:45:25","modified_gmt":"2015-11-30T21:45:25","slug":"intoxicated-by-memories-and-feelings","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/2015\/11\/30\/intoxicated-by-memories-and-feelings\/","title":{"rendered":"{intoxicated by memories and feelings}"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Tia, como \u00e9 que se apaga a mem\u00f3ria?&#8221; perguntou-me, h\u00e1 umas semanas, o meu Um. N\u00e3o se apaga, Miguel. Respondi-lhe que a mem\u00f3ria funciona como uma s\u00e9rie de gavetas onde se guarda tudo e onde \u00e9 mais f\u00e1cil aceder a umas do que a outras, mas que nunca podemos apagar a mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo repetia para mim mesma &#8220;n\u00e3o se apaga. N\u00e3o se apaga, mas era t\u00e3o bom que se apagasse&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Mas eu quero apagar a mem\u00f3ria, tia. Quero apagar a mem\u00f3ria de ti&#8221; respondeu-me meio a rir, meio s\u00e9rio. Ri-me com ele. &#8220;E quero que tu apagues a mem\u00f3ria de mim&#8221; riu-se novamente. Ri-me com ele e disse que isso era imposs\u00edvel, porque ele \u00e9 o meu Um, parte do meu Todo. Mas, c\u00e1 dentro, respondia-lhe em segredo que tamb\u00e9m queria apagar tantas coisas&#8230;nunca ele, o meu Um, nunca o meu Dois. Mas o resto&#8230;<\/p>\n<p>&#8230;o que foi n\u00e3o sendo, ou o que n\u00e3o foi sendo, ou l\u00e1 o que foi que n\u00e3o foi mas foi!<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 doentio contar os dias. Conto-os. Todos. Para poder olhar para tr\u00e1s e perceber as diferen\u00e7as entre o dia 469 e o dia 10. Ou mesmo o dia 1 ou o dia 180.<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 doentio olhar para mem\u00f3rias de Facebook, responder a coment\u00e1rios antigos, ou mesmo deixar likes aqui e ali a coment\u00e1rios de outros tempos, de outra vida. N\u00e3o o fa\u00e7o pelos outros, fa\u00e7o-o por mim, porque de alguma forma me tocam.<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 doentio querer entender o que se passa quando percebo que algo de errado se passa. E pergunto para perceber. E perguntarei as vezes todas que forem necess\u00e1rias at\u00e9 que me expliquem. At\u00e9 que me expliques! Porque alguma coisa mudou. E sim, eu mudei. Tanto, ao longo destes 469 dias depois de 19 depois de 42. Porque esses 19 dias depois desses 42, mas especialmente esses 42 mudaram-me. Muito. Tanto que em tantas ocasi\u00f5es n\u00e3o me reconheci. Outras ainda n\u00e3o me reconhe\u00e7o.<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 doentio querer falar sobre o que aconteceu, mesmo que na minha cabe\u00e7a ressoe a c\u00e9lebre frase &#8220;se n\u00e3o aconteceu n\u00e3o \u00e9 para ser falado&#8221;. \u00c9. \u00c9 para ser falado. Porque doentio \u00e9 fazer de conta, continuar a fazer de conta que nada se passou. Porque na verdade aconteceu. Foi como foi, como tinha que ser, ou como podia ser, ou seja o que for! Foi o que foi, como foi.<\/p>\n<p>D\u00f3i ainda. Muito. Mas d\u00f3i muito mais pontas soltas, desconversas, ataques sem sentido quando tudo o que procuro \u00e9 entender o que se passa neste momento. O que foi que mudou de um dia para o outro, uma mudan\u00e7a de 180 graus. Da \u00e1gua para o vinho. Ou melhor, do vinho para a \u00e1gua&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 doentio lembrar-me todos os dias daquela imagem que se recusa a sair-me da cabe\u00e7a e que me d\u00f3i e que teima em continuar a doer, e que teima em n\u00e3o me largar por muito que n\u00e3o a procure. Porque foi a confirma\u00e7\u00e3o do fim. Porque foi a confirma\u00e7\u00e3o que sim, um dia, 42 dias, estive gr\u00e1vida at\u00e9 que deixei de o estar. Um dia, 42 dias, tive um ser dentro de mim a formar-se, a crescer, at\u00e9 que deixei de o ter. At\u00e9 que me despedi dele da forma mais cruel e dura e dorida. E essa imagem, que apenas eu vi e que era real e n\u00e3o fruto de imagina\u00e7\u00e3o, que era palp\u00e1vel, essa despedida, essa dor est\u00e1 c\u00e1. N\u00e3o passa, por muito tempo que passe. Por muitos dias que conte. Por muitos dias que diga a mim mesma que sobrevivi a mais um dia de mem\u00f3rias que doem.<\/p>\n<p>Doentio? Doentio \u00e9 n\u00e3o falar. N\u00e3o poder falar. Quando o que quero \u00e9 esquecer. Falar para esquecer. Conversar para esquecer. Para encerrar um cap\u00edtulo que, sei, nunca ser\u00e1 encerrado totalmente porque far\u00e1 sempre parte de mim. Doentio \u00e9 guardar tudo c\u00e1 dentro e ser corro\u00edda todos os dias por algo que nunca desejei conhecer. Dor. Sim. \u00c9 dor. Que chega a ser f\u00edsica. Que chega a sufocar. Que chega a apertar. D\u00f3i. Muito.<\/p>\n<p>Doentio \u00e9 ter que aguentar e suportar, sozinha, esta dor. Que, sei, \u00e9 minha. Apenas minha. Nunca o foi de outra maneira. Sim, acredito que nunca foi mais do que apenas minha. Gostava de acreditar que n\u00e3o, mas \u00e9.<\/p>\n<p>Sim, h\u00e1 tanto ainda por conversar. Para falar. Para ser dito. Para ser sentido como numa esp\u00e9cie de catarse. Lamento, mas h\u00e1 ainda tanto para ser resolvido.<\/p>\n<p>N\u00e3o gosto de pontas soltas. N\u00e3o gosto de hist\u00f3rias mal resolvidas. E por isso insisto porque gosto, sempre, de perceber o que se passa quando algo est\u00e1 t\u00e3o errado. Como agora. Porque est\u00e1.<\/p>\n<p>Sim, escrevo para mim. Mas hoje n\u00e3o em exclusivo. Hoje tento despejar no \u00e9ter aquilo que, pelos vistos, n\u00e3o posso dizer a quem tenho que o dizer. Porque sei que n\u00e3o ser\u00e1 lido. E, mesmo que o seja, nunca ser\u00e1 respondido.<\/p>\n<p>Tanto ainda por dizer&#8230;&#8230;&#8230;tanto ainda por entender. E tanto ainda a doer.<\/p>\n<p>N\u00e3o. Nada disto \u00e9 doentio. Doentio \u00e9 continuar a fazer de conta. Como nos \u00faltimos 469 dias depois de 19 depois de 42. Eu gostava de conseguir fazer de conta. Mas o que trago c\u00e1 dentro n\u00e3o mo permite. Por isso escrevo todos os dias. Para me lembrar das pequeninas coisas que d\u00e3o cor e valor aos dias, mesmo os mais negros. E para poder olhar para tr\u00e1s e perceber o caminho que j\u00e1 percorri. Que foi feito de altos e baixos. E de baixos muito, muito, muito baixos e sozinha quando n\u00e3o o devia ter sido. Porque se continuou a fazer de conta.<\/p>\n<p>D\u00f3i. N\u00e3o fa\u00e7o de conta, n\u00e3o quero fazer de conta, n\u00e3o posso fazer de conta que n\u00e3o d\u00f3i. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o posso fazer de conta que entendo o que se passa quando n\u00e3o entendo mesmo. E esse n\u00e3o entender, esse n\u00e3o falar, esse desconversar, apenas me confirma que sim, esta dor \u00e9 exclusivamente minha. Quando n\u00e3o deveria ser.<\/p>\n<p>A mem\u00f3ria. As mem\u00f3rias. Est\u00e1 c\u00e1 tudo. Gostava de poder apag\u00e1-la. N\u00e3o posso. Mas posso tentar guard\u00e1-las, \u00e0s mem\u00f3rias, todas, numa gaveta. S\u00f3 pe\u00e7o que n\u00e3o a abram, \u00e0 gaveta. E que, em abrindo, n\u00e3o remexam. Porque remexer nessa gaveta \u00e9 o mesmo que reabrir uma ferida que ainda n\u00e3o cicatrizou. Porque cada vez que essa gaveta \u00e9 remexida, cada vez que essa ferida \u00e9 reaberta, d\u00f3i. D\u00d3I! Muito! E eu estou cansada dessa dor&#8230;&#8230;&#8230;t\u00e3o cansada dessa dor. E n\u00e3o \u00e9 preciso muito para abrir a gaveta e remexer em cada minuto, em cada segundo desde o primeiro momento. E vem tudo \u00e0 tona novamente. Tudo o que senti, tudo o que ainda sinto, f\u00edsico ou n\u00e3o. E eu n\u00e3o quero mais&#8230;n\u00e3o posso mais, n\u00e3o aguento mais. Mas lido com isso. Todos os dias. Sozinha. Sozinha! \u00c0 minha maneira. Da \u00fanica maneira poss\u00edvel: um dia atr\u00e1s do outro atr\u00e1s do um. Contando os dias. Todos.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;porque estou cansada de fazer de conta. Porque aconteceu. Porque sim, estive gr\u00e1vida. E n\u00e3o, n\u00e3o tenho o meu filho. De quem sinto saudades como nunca senti de ningu\u00e9m. A quem amo como nunca amei ningu\u00e9m. Mas n\u00e3o tenho o meu filho. Nem nunca o terei. Nem nunca o poderei ver. Nem ouvir. Nem ver a crescer. Nem ver a mudar com a idade. Nem ter mil imagens diferentes dele com o passar dos anos. Porque a \u00fanica imagem que tenho, est\u00e1-me cravada na mem\u00f3ria como que a ferro quente: o dia em que o meu corpo o expulsou. E d\u00f3i. Muito. Tanto. Demasiado. E doentio n\u00e3o \u00e9 sobreviver a isto. Doentio \u00e9, repito, fazer de conta&#8230;&#8230;e eu estou cansada, t\u00e3o cansada, de fazer de conta que n\u00e3o d\u00f3i. Que j\u00e1 n\u00e3o d\u00f3i&#8230;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2075\" src=\"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/tumblr_nxnicf6Ay21ustuj7o1_500-e1448910872588.jpg\" alt=\"tumblr_nxnicf6Ay21ustuj7o1_500\" width=\"450\" height=\"416\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Tia, como \u00e9 que se apaga a mem\u00f3ria?&#8221; perguntou-me, h\u00e1 umas semanas, o meu Um. N\u00e3o se apaga, Miguel. 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