{"id":2159,"date":"2015-12-22T23:58:21","date_gmt":"2015-12-22T23:58:21","guid":{"rendered":"http:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/?p=2159"},"modified":"2015-12-22T23:58:21","modified_gmt":"2015-12-22T23:58:21","slug":"day491","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/2015\/12\/22\/day491\/","title":{"rendered":"#day491"},"content":{"rendered":"<p>A \u00faltima vez que cortei o cabelo foi h\u00e1 <a href=\"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/2014\/08\/21\/day3\/\" target=\"_blank\">488<\/a> dias. Se alguma vez tinha contado o n\u00famero de dias sem cortar o cabelo? N\u00e3o. Mas tamb\u00e9m nunca antes tinha contado os dias fosse do que fosse.<br \/>\nO n\u00famero de dias sem cortar o cabelo seria irrelevante, para mim ou para qualquer outra pessoa, se n\u00e3o fosse tamb\u00e9m parte da contagem dos meus dias. Destes dias todos que s\u00e3o j\u00e1 491 e que em breve deixarei de contar.<br \/>\nTer cortado o cabelo h\u00e1 488 dias foi, tamb\u00e9m, um novo come\u00e7o. E esse percurso de 488 dias, o tamanho do cabelo ap\u00f3s 488 dias sem o cortar, o comprimento, os danos, os sinais do tempo, relembram-me, ou relembraram at\u00e9 hoje, o meu percurso. Cresci ao mesmo tempo que ele. Fui acumulando danos, sinais do tempo. E fui deixando crescer o cabelo enquanto me permitia crescer tamb\u00e9m.<br \/>\nN\u00e3o, n\u00e3o foi nenhuma promessa como me chegaram a perguntar. Foi s\u00f3 isso mesmo: crescer e deixar crescer. E nunca o tinha deixado crescer tanto. E nunca me tinha permitido crescer tanto tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Hoje cortei o cabelo. E quero com esse corte cortar o que ficou para tr\u00e1s ao longo destes 488 dias sem cortar o cabelo e todos os outros que vieram antes desse dia. Quero cortar com o que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9, ou at\u00e9 mesmo nunca foi. Quero cortar com o que me fez doer, tanto como nunca pensei ser poss\u00edvel algum dia. Quero cortar com tanta coisa que aconteceu pelo meio e que tamb\u00e9m, de uma forma ou de outra, me deixou marcas, sinais do tempo, danos. Quero cortar com tudo isso sabendo que, mesmo cortando, o cabelo e o que me fez doer, cres\u00e7o um pouco mais todos os dias. Porque fui aprendendo que n\u00e3o posso ser de outro modo se n\u00e3o em crescendo.<\/p>\n<p>H\u00e1 tanta coisa nova \u00e0 minha espera. Um ano inteiro todo ele novo, com 366 p\u00e1ginas em branco \u00e0 espera de ser preenchido com cor. Cores. Todas. As minhas e as dos outros. Sejam prim\u00e1rias, secund\u00e1rias, sejam o que for. Desde que n\u00e3o cinzentas. Ou, mesmo que sejam cinzentas, sei hoje que a cor, as cores, est\u00e3o sempre l\u00e1. Basta saber olhar. E com tanta coisa nova \u00e0 minha espera corto com o que fui e assumo-me como o que sou: Eu, Plena. N\u00e3o importa, na verdade, o comprimento do cabelo. N\u00e3o sou Sans\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 da\u00ed que vem a minha for\u00e7a. Sou apenas Eu, assim como sou. Cor de Rosa, com dias de sombra, com dias de luz, cada vez mais dias de luz e com dias de sombra que j\u00e1 n\u00e3o permito que permane\u00e7a.<\/p>\n<p>Olho para tr\u00e1s. Tantas vezes. E o que est\u00e1 para tr\u00e1s \u00e9 l\u00e1 que tem que ficar. E vou deixando que fique. Aos poucos. Ou cortando de vez o que \u00e9 para cortar. O que me doeu. O que me doeu fica para l\u00e1 atr\u00e1s mesmo que possa visitar-me de tempos a tempos. Quando o cansa\u00e7o, como o de hoje, me deixa mais vulner\u00e1vel. Me deixe, mais uma vez, a precisar de um colo. N\u00e3o para me erguer, apenas para me aconchegar, apenas para poder, para conseguir, descansar.<\/p>\n<p>T\u00e3o cansada&#8230;um cansa\u00e7o acumulado natural desta recta final de todos os anos onde o trabalho aperta e o tempo escasseia e me deixo de parte para descansar depois, quando tiver tempo. T\u00e3o cansada&#8230;um cansa\u00e7o que me deixa vulner\u00e1vel a mem\u00f3rias, a aus\u00eancias que se queriam presentes, a saudades do que foi n\u00e3o sendo, do que n\u00e3o foi sendo e, at\u00e9, do que chegou a ser e foi quando e enquanto pode ser.<\/p>\n<p>Um cansa\u00e7o que me prende os movimentos mas que me solta as palavras. Mas que, ainda assim, n\u00e3o saem por n\u00e3o poderem sair, por n\u00e3o poderem chegar l\u00e1. Por n\u00e3o poder, mais uma vez, dizer o que n\u00e3o deve ficar por dizer.<\/p>\n<p>Um cansa\u00e7o que me pesa no corpo, que me pesa nas l\u00e1grimas que me vencem e me visitam hoje mais uma vez.<\/p>\n<p>Cansa\u00e7o. T\u00e3o simplesmente cansa\u00e7o. Porque sei que sou mais do que isto. Melhor do que isto. Mais forte do que isto. T\u00e3o menos vulner\u00e1vel, j\u00e1, do que isto. Mas falta-me o aconchego, aquele que faz respirar, que me diz que vai ficar tudo bem, seja de que cor for, mas acima de tudo vai ficar tudo bem na minha cor. Que \u00e9 minha e ser\u00e1 sempre. Prim\u00e1ria.<\/p>\n<p>E o cansa\u00e7o que me lembra que o tempo continua a correr, sem esperar por ningu\u00e9m. E eu que digo sempre que n\u00e3o tenho Tempo para perder Tempo e n\u00e3o consigo, n\u00e3o consigo, n\u00e3o consigo simplesmente alcan\u00e7ar tudo o que o meu Tempo me dita. Porque o meu Tempo \u00e9 composto de tantos tempos. E n\u00e3o consigo chegar a todos, nem todos conseguem chegar ao meu, ou simplesmente acabou o tempo ainda mesmo antes de acabar, quase antes at\u00e9 de come\u00e7ar.<\/p>\n<p>T\u00e3o cansada&#8230;&#8230;&#8230;t\u00e3o cansada de correr, de tentar preencher todo esse Tempo que \u00e9 o meu de todas as formas que tinha idealizado preencher. E n\u00e3o consigo&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p>Let it go. Deixa ir. Deixo. Solto. Deixo voar. Vejo partir. Vejo partir o que atracou pelo Tempo que tinha que atracar. E, mais uma vez, olho para tr\u00e1s. E decido, j\u00e1 tinha decidido, decido deixar ir. As marcas, os sinais do tempo, ficam c\u00e1. Sem danos. Sim, sem danos. Mas com tantas certezas.<\/p>\n<p>Let it go. Deixa ir. Deixo. Solto. Deixo voar. Vai. S\u00ea. Sou tamb\u00e9m. Vou tamb\u00e9m. V\u00f4o tamb\u00e9m. Sem danos, desta vez. Apenas com as marcas, os sinais do tempo. Tempo que foi o tempo que tinha quer ser no tempo em que tinha que ser Tempo.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;e sinto o tempo, o meu Tempo, a fugir. A fugir-me. E estou cansada. T\u00e3o cansada. E falta-me o colo, o aconchego, aquele que me permite respirar, que me permite descansar.<\/p>\n<p>E neste momento j\u00e1 s\u00f3 consigo pensar que falta t\u00e3o pouco tempo para o \u00faltimo fim de semana do ano. O \u00faltimo fim de semana que posso mais ou menos garantir que ser\u00e1 apenas meu. Aquele fim de semana em que durante algum tempo pensei ser poss\u00edvel ter esse tempo. Ser esse Tempo. Que vai ser absolutamente diferente do que me atrevi a pensar, a imaginar, a desejar.<\/p>\n<p>O cansa\u00e7o. Est\u00e1 c\u00e1. Deixa-me, novamente, vulner\u00e1vel. A aus\u00eancias, a faltas. Faltam-me sons, faltam-me palavras, faltam-me letras que completam puzzles, que se completam. Faltam-me cheiros, sabores, texturas. O cansa\u00e7o. E as aus\u00eancias. E a vulnerabilidade.<\/p>\n<p>E lembro-me de repente que hoje cortei o cabelo. O cabelo que deixei crescer durante 488 dias enquanto eu crescia tamb\u00e9m. O cabelo marcado pelos danos, pelos sinais do tempo. Como eu. Hoje cortei o cabelo mas sei que continuar\u00e1 a crescer. Hoje, o cansa\u00e7o derrubou-me e deixou-me, novamente, vulner\u00e1vel. Mas sei que tamb\u00e9m eu continuarei a crescer.<\/p>\n<p>E deixo ir o que \u00e9 de deixar ir. Deixo voar o que \u00e9 de deixar voar. Deixo partir o que atracou pelo tempo que teve que atracar, tendo-me permitido subir a bordo e n\u00e3o me arrependendo de nada. Deixo ir, sabendo que a vulnerabilidade de hoje, trazida pelo cansa\u00e7o, amanh\u00e3 j\u00e1 c\u00e1 n\u00e3o estar\u00e1. E n\u00e3o ser\u00e1 preciso nenhuma b\u00f3ia de salva\u00e7\u00e3o como tantas vezes precisei.<\/p>\n<p>Agora&#8230;? Agora termino o dia mais curto do ano entregando-me \u00e0 noite mais longa. Amanh\u00e3 volta a cor, a minha cor. Volta a luz. Volto Eu. Plena.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2160\" src=\"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/10583835_10153500574093800_3398230793926525897_n-e1450828182234.jpg\" alt=\"10583835_10153500574093800_3398230793926525897_n\" width=\"450\" height=\"338\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00faltima vez que cortei o cabelo foi h\u00e1 488 dias. Se alguma vez tinha contado o n\u00famero de dias sem cortar o cabelo? N\u00e3o. Mas tamb\u00e9m nunca antes tinha contado os dias fosse do que fosse. O n\u00famero de dias sem cortar o cabelo seria irrelevante, para mim ou para qualquer outra pessoa, se [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-2159","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-100happydays-5thround"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/symEz-day491","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2159","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2159"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2159\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2161,"href":"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2159\/revisions\/2161"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2159"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2159"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2159"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}