{"id":3696,"date":"2017-02-04T23:59:00","date_gmt":"2017-02-04T23:59:00","guid":{"rendered":"http:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/?p=3696"},"modified":"2017-02-05T03:35:03","modified_gmt":"2017-02-05T03:35:03","slug":"pagina35","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/2017\/02\/04\/pagina35\/","title":{"rendered":"{#p\u00e1gina35}\u00a0"},"content":{"rendered":"<p><em>The thing about pain is it demands to be felt.<\/em><\/p>\n<p>Ou, para alcan\u00e7ar a cura \u00e9 preciso enfrentar a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Como quando, na inf\u00e2ncia, esfolava os joelhos. Era preciso desinfect\u00e1-los, trat\u00e1-los e dar-lhes tempo e ar para cicatrizarem. Trocar os pensos era sempre penoso. A \u00e1gua oxigenada n\u00e3o ardia na pele esfolada mas n\u00e3o era confort\u00e1vel na ferida aberta. A crosta que acabaria por se formar lembrava que o processo ainda estava no in\u00edcio, que cada novo toque ainda era doloroso, que tudo era ainda demasiado fr\u00e1gil e que facilmente sangraria de novo.<\/p>\n<p>Hoje, 919 dias depois de 42, foi dia de tirar o penso. Que, como todos os pensos nos joelhos de inf\u00e2ncia, nada mais \u00e9 que uma solu\u00e7\u00e3o provis\u00f3ria. Que protege de eventuais infec\u00e7\u00f5es, \u00e9 certo, mas n\u00e3o deixa respirar.<\/p>\n<p>Foi dia de mexer na ferida. Que est\u00e1, ainda, demasiado aberta. Demasiado exposta. Demasiado grande. Demasiado dolorosa.<\/p>\n<p>Tirei o penso a medo. Foi, como sempre era tirar os pensos dos joelhos, doloroso. Exp\u00f4r a ferida por completo aos olhos de quem sabe como desinfect\u00e1-la, limp\u00e1-la, trat\u00e1-la e, quem sabe, cur\u00e1-la. Ou, pelo menos, ajudar a cicatriz\u00e1-la.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o, nome de m\u00e3e e pai. Pela primeira vez assim, completo. Um esbo\u00e7o do primeiro retrato que o tempo fez desaparecer quase por completo do papel t\u00e9rmico. E que, por me ser t\u00e3o importante esse primeiro retrato, esbo\u00e7o a grafite no papel. 20 de Julho de 2014, 18h43m, 4 semanas + 2 dias, 30 dias.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o, nome de m\u00e3e e pai. Pela primeira vez assim, completo. Nome pr\u00f3prio h\u00e1 t\u00e3o pouco tempo, nunca me tinha ocorrido conhecer-lhe o nome completo.<\/p>\n<p>\u00c9 um nome que \u00e9 meu. Porque \u00e9 o nome do meu filho. Mesmo que o meu filho n\u00e3o esteja aqui, vis\u00edvel, palp\u00e1vel, aud\u00edvel, \u00e9 o meu filho. Que merece ter nome, pr\u00f3prio e completo de m\u00e3e e pai. Porque, mesmo que o meu filho n\u00e3o esteja aqui, vis\u00edvel, palp\u00e1vel, aud\u00edvel, cresceu em mim durante 42 dias. Existiu. Foi real. E foi vis\u00edvel.<\/p>\n<p>N\u00e3o posso continuar a fazer de conta. Fazer de conta que n\u00e3o existiu, que n\u00e3o cresceu, que n\u00e3o foi vis\u00edvel. Estou cansada de fazer de conta. Ou, pelo menos, de tentar fazer de conta. N\u00e3o me importa se sou a \u00fanica a record\u00e1-lo. Se sou a \u00fanica a am\u00e1-lo. Se sou a \u00fanica a sentir-lhe a falta. N\u00e3o importa. Porque, na realidade, fui a \u00fanica que o conheceu, que ele conheceu. Fui a \u00fanica que o teve a crescer dentro do corpo. Fui a \u00fanica a v\u00ea-lo, com 42 dias, quando o meu corpo o expulsou. Fui a \u00fanica a querer t\u00ea-lo para sempre comigo. Fui a \u00fanica a pedir-lhe perd\u00e3o por n\u00e3o ter conseguido ser melhor.<\/p>\n<p>Fui a \u00fanica a assumir-lhe um nome. Jo\u00e3o, de nome pr\u00f3prio. Jo\u00e3o, nome completo de m\u00e3e e pai.<\/p>\n<p>Mexer na ferida que precisa de ar para respirar e cicatrizar fez-me perder, de novo, a capacidade de respirar eu mesma. Fez-me perder, novamente, aquele falso equil\u00edbrio que tentava manter, aquela falsa serenidade que, por ser falsa, me continua a consumir.<\/p>\n<p>N\u00e3o posso for\u00e7ar a cicatriza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o posso for\u00e7ar a cura. Mas posso tentar o meu melhor para, para j\u00e1, limp\u00e1-la, desinfect\u00e1-la, trat\u00e1-la. Mesmo que ainda tenha que mudar o penso in\u00fameras vezes. Num processo que alguns chamam de luto que nunca fiz. Num processo que devia ser feito, desde o in\u00edcio, a dois. Num processo que tenho feito sozinha desde o primeiro dia depois de 42. E que hoje me recordam que &#8220;gostava que n\u00e3o dissesses &#8216;sozinha&#8217; e sim &#8216;sem o apoio do pai&#8217;, porque n\u00e3o est\u00e1s sozinha. Eu estou aqui. Contigo e para ti. E vou estar sempre.&#8221;<\/p>\n<p>Jo\u00e3o, nome completo de m\u00e3e e pai. N\u00e3o sozinha, mas sem o apoio de. Sozinha de qualquer forma, porque sem Jo\u00e3o, nome completo de m\u00e3e e pai. Mas que trago comigo todos os dias desde o primeiro dia. E que continuarei a trazer. Porque aconteceu. Porque foi real. Porque \u00e9 o meu filho. Porque sou m\u00e3e.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o, nome completo de m\u00e3e e pai. Meu. Para sempre.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/wp-image-1847465970jpg-3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3695\" title=\"\" src=\"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/wp-image-1847465970jpg-3.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"253\" \/><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>The thing about pain is it demands to be felt. Ou, para alcan\u00e7ar a cura \u00e9 preciso enfrentar a doen\u00e7a. Como quando, na inf\u00e2ncia, esfolava os joelhos. Era preciso desinfect\u00e1-los, trat\u00e1-los e dar-lhes tempo e ar para cicatrizarem. Trocar os pensos era sempre penoso. 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