{"id":420,"date":"2014-10-15T00:52:17","date_gmt":"2014-10-14T23:52:17","guid":{"rendered":"http:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/?p=420"},"modified":"2014-10-15T00:52:17","modified_gmt":"2014-10-14T23:52:17","slug":"do-vazio-ainda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/2014\/10\/15\/do-vazio-ainda\/","title":{"rendered":"Do vazio. Ainda."},"content":{"rendered":"<p>Passam os dias. Fa\u00e7o por n\u00e3o os contar. Deixei de os contar. At\u00e9 voltar a cont\u00e1-los novamente. Porque os dias passam mas aquele vazio de nada, vazio de tudo, continua. Uns dias mais esquecido, uns dias mais sentido, uns dias mais recordado.<\/p>\n<p>Tento fugir do mundo \u00e0 minha volta e do que n\u00e3o posso fugir porque o mundo existe e \u00e9 mesmo assim. E nunca ningu\u00e9m disse que o mundo, esse \u00e0 minha volta, \u00e0 volta de tanta gente, de toda a gente, nunca ningu\u00e9m disse que esse mundo era justo. Ou certo, sequer.<\/p>\n<p>E h\u00e1 o vazio. E a aus\u00eancia. E o que podia ter sido. E n\u00e3o foi. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9. J\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 a ser. E quem sabe se algum dia, alguma vez, ser\u00e1 de novo. Duvido, como sempre duvidei at\u00e9 ser. Como sempre achei que nunca seria. At\u00e9 que foi. E de repente, num momento, deixou de ser. Ser\u00e1 alguma vez novamente? Ser\u00e1 alguma vez? Mesmo que seja, este vazio fica sempre c\u00e1. Porque \u00e9 insubstitu\u00edvel. Porque \u00e9 um vazio que tem um lugar pr\u00f3prio, s\u00f3 dele. Ou dela. N\u00e3o sei. Nunca saberei. Mas mesmo n\u00e3o sabendo n\u00e3o deixa de o ser. Ou melhor, deixou de ser para passar a n\u00e3o ser&#8230;porque j\u00e1 n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>E precisamente por j\u00e1 n\u00e3o ser, e por muito que me esforce para avan\u00e7ar, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o pensar. N\u00e3o imaginar. N\u00e3o recordar. E \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o baixar os olhos novamente e fixar apenas o ch\u00e3o. E ter novamente a vis\u00e3o turva e h\u00famida. Porque o vazio, o peso do vazio, \u00e9 todos os dias um bocadinho maior. Com o passar do tempo, que n\u00e3o conto mas sei que passa, devia ser mais pequeno. Dizem. Dizem-me. Disseram-me. Mas n\u00e3o \u00e9. N\u00e3o devia ser. Nem devia ser vazio. Mas \u00e9. \u00c9 o que tenho c\u00e1 dentro. Porque, c\u00e1 dentro, n\u00e3o h\u00e1 nada. J\u00e1 n\u00e3o.<\/p>\n<p>Tenho saudades do que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9. E imagino tantas vezes como seria neste momento se ainda o fosse. E saem-me palavras duras que digo para mim mesma que n\u00e3o podem ser, mas que saem. Porque ainda d\u00f3i. E saem tamb\u00e9m palavras doces dirigidas ao que j\u00e1 n\u00e3o existe, ao que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9. N\u00e3o faz sentido. Mas faz. Porque, para mim, \u00e9 como se ainda existisse alguma coisa. Pelo menos por momentos. At\u00e9 me recordar porque \u00e9 que ainda d\u00f3i.<\/p>\n<p>E vai doer at\u00e9 quando&#8230;? N\u00e3o sei. Sei que a mem\u00f3ria n\u00e3o se esvai, n\u00e3o se apaga, nunca.<\/p>\n<p>E continuo sem saber o que fazer com tudo o que resta do que n\u00e3o foi. Guardo comigo, mesmo n\u00e3o lhe mexendo, mesmo n\u00e3o revendo, mesmo n\u00e3o querendo olhar. Mas n\u00e3o sei o que fazer com o que resta. Com a \u00fanica coisa que resta do que n\u00e3o foi. E que eu sempre quis tanto que fosse.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei tamb\u00e9m se voltar\u00e1 algum dia a ser novamente. L\u00e1 est\u00e1, continuo a duvidar como sempre duvidei at\u00e9 ser. Mas mesmo que um dia seja, mesmo que um dia se repita, h\u00e1 sempre um vazio c\u00e1 dentro. Do que foi e n\u00e3o chegou a ser.<\/p>\n<p>E n\u00e3o ter onde ir para me sentir mais perto do que n\u00e3o foi. N\u00e3o ter onde me sentir em paz. Numa esp\u00e9cie de ponto de fuga. D\u00f3i tamb\u00e9m. E isso, tamb\u00e9m isso, faz parte do vazio do que n\u00e3o foi.<\/p>\n<p>E h\u00e1 tantos outros vazios que n\u00e3o v\u00e3o ser preenchidos. Porque o que foi j\u00e1 n\u00e3o o \u00e9. E sim, ainda d\u00f3i.<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-421\" src=\"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/tumblr_l9517nt4kj1qdhaljo1_500-e1413330519934.jpg\" alt=\"tumblr_l9517nt4kj1qdhaljo1_500\" width=\"450\" height=\"301\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Passam os dias. Fa\u00e7o por n\u00e3o os contar. Deixei de os contar. At\u00e9 voltar a cont\u00e1-los novamente. Porque os dias passam mas aquele vazio de nada, vazio de tudo, continua. Uns dias mais esquecido, uns dias mais sentido, uns dias mais recordado. 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