{"id":4231,"date":"2017-07-03T23:29:54","date_gmt":"2017-07-03T22:29:54","guid":{"rendered":"http:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/?p=4231"},"modified":"2017-07-03T23:36:20","modified_gmt":"2017-07-03T22:36:20","slug":"pagina184","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/2017\/07\/03\/pagina184\/","title":{"rendered":"{#p\u00e1gina184}\u00a0"},"content":{"rendered":"<p>\u00c1gua em P\u00f3. Est\u00e1vamos em 1992, j\u00e1 v\u00ednhamos desde 1987. N\u00e3o me recordo se a \u00c1gua em P\u00f3 ia ao micro-ondas ou se bastava juntar \u00e1gua. Mas nunca mais me esqueci da \u00c1gua em P\u00f3.<\/p>\n<p>Cruz\u00e1mo-nos pela \u00faltima vez l\u00e1 para 1997. Ou ter\u00e1 sido ainda em 1996? Recordo-me desse encontro. Completamente ao acaso. Recordo-me, tamb\u00e9m, do que fal\u00e1mos. Ele a fazer melhoria de nota. Eu a ir \u00e0 secretaria da escola. Lembro-me de o ter visto sorrir quando me viu. Sorri-lhe de volta e com gosto. Nunca mais nos cruz\u00e1mos por a\u00ed.<\/p>\n<p>Fui sabendo dele, por tr\u00e1s de ecr\u00e3s que n\u00e3o de computador. Fui, de certa forma, acompanhando-lhe o percurso. E sempre que sabia dele sorria com um misto de admira\u00e7\u00e3o e orgulho. Admira\u00e7\u00e3o n\u00e3o por me surpreender, muito pelo contr\u00e1rio, por sempre o ter sabido diferente e capaz. Orgulho exactamente pelo mesmo motivo.<\/p>\n<p>Lembro-me v\u00e1rias vezes de aulas de matem\u00e1tica ou de biologia no 5\u00b0 ano, quando dividiamos carteira. Ou melhor, mesas de grupo. Eram grupos de 4. Apenas me recordo dele. Lembro-me que conversavamos de outras coisas que n\u00e3o das aulas. Recordo algumas brincadeiras t\u00edpicas de quem tinha 10 anos e come\u00e7ava agora a crescer devagar.<\/p>\n<p>Ainda lhe oi\u00e7o a voz ao longe na mem\u00f3ria. H\u00e1 muito tempo, tanto tempo, 20 anos?, 21?, que n\u00e3o o oi\u00e7o de viva voz, mas ainda o oi\u00e7o na mem\u00f3ria dos 10 anos a dizer-me, na aula de biologia, ou ainda se chamava Ci\u00eancias da Natureza?, a dizer-me depois de me olhar nos olhos &#8220;tens olhos de cobra&#8230;tens olhos de serpente!&#8221;. Nunca lhe perguntei o que significa ter olhos de cobra, mas nunca o esqueci.<\/p>\n<p>\u00c1gua em P\u00f3 em 1992, filmes de pel\u00edcula rodados no terra\u00e7o de um pr\u00e9dio vizinho, jogos de futebol e uma bola, dele, que ficou no telhado do pavilh\u00e3o A depois de um chuto mal medido dado por mim. Jogos de basket. Visitas de estudo. Festas de anivers\u00e1rio. Segredos guardados aos 12 anos. Experi\u00eancias prometidas aos 15 numa aula de F\u00edsico-qu\u00edmica em que, mais uma vez, partilhavamos carteira mas n\u00e3o concretizadas.<\/p>\n<p>Ele sempre muito mais seguro e decidido do que eu. Mais crescido, ainda que apenas 29 dias nos separassem no calend\u00e1rio dos anivers\u00e1rios.<\/p>\n<p>Recordo-lhe a voz. E a cicatriz no queixo. E o ar trocista de quem tenta convencer da chegada do anti-cristo algu\u00e9m que o parou na rua para lhe testemunhar um qualquer deus.<\/p>\n<p>1997. Ou seria ainda 1996? N\u00e3o interessa. S\u00e3o 20 anos bem medidos num total de 30. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 \u00c1gua em P\u00f3. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 espect\u00e1culo multim\u00e9dia de uma exposi\u00e7\u00e3o universal que n\u00e3o visit\u00e1mos mas recri\u00e1mos.<\/p>\n<p>20 anos depois, &#8220;ol\u00e1, Catarina&#8221;. E voltou a \u00c1gua em P\u00f3. Voltaram as mem\u00f3rias todas que nunca se apagaram e algumas, muitas, que nem sequer adormeceram. Deste lado do ecr\u00e3 sorri. Quero acreditar que do lado de l\u00e1 ele sorriu tamb\u00e9m. Deste lado do ecr\u00e3 tanta coisa mudou, do lado de l\u00e1 tamb\u00e9m. Deste lado do ecr\u00e3 tanta coisa se mant\u00e9m igual, ali no eixo 10-15 anos onde \u00e9ramos mais presentes, tamb\u00e9m no eixo 15-20 onde a dist\u00e2ncia natural de quem percorre caminhos distantes acaba por ditar as regras. Do lado de l\u00e1 do ecr\u00e3 acredito que ainda ser\u00e1 poss\u00edvel encontrar aquele mi\u00fado da cicatriz.<\/p>\n<p>Sabia que lhe sentia a falta. De saber dele na primeira pessoa. Ainda lhe sinto a falta da voz que sei manter-se igual \u00e0 voz que ecoa na minha mem\u00f3ria. N\u00e3o sabia, n\u00e3o tinha no\u00e7\u00e3o, que ele foi, muito provavelmente, o meu melhor amigo do final da inf\u00e2ncia e in\u00edcio da adolesc\u00eancia. Nunca lho disse. Como poderia t\u00ea-lo feito se s\u00f3 hoje o percebi?<\/p>\n<p>&#8220;Ol\u00e1, Catarina. Est\u00e1s Boa?&#8221; e eu ali, sem poder dispensar muitos minutos do meu primeiro dia de trabalho depois das f\u00e9rias e a viajar 30 anos para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Fazia-me falta. E percebo hoje que ele sempre foi um dos ramos da minha \u00e1rvore. E se h\u00e1 um ano cortei um ramo que n\u00e3o me deixava crescer, hoje recupero, mesmo que atr\u00e1s de um ecr\u00e3, um ramo que me acompanhou quando ambos come\u00e7\u00e1mos a crescer. Devagar.<\/p>\n<p>A ti, Andr\u00e9, brindo com \u00e1gua. Com \u00c1gua em P\u00f3. E tu saber\u00e1s porqu\u00ea. Obrigada por voltares a sorrir-me com o teu ar trocista. Obrigada por me voltares. Tinha saudades tuas.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4230\" title=\"\" src=\"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/wp-image-842510282jpg.jpg\" alt=\"\" width=\"2000\" height=\"1125\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c1gua em P\u00f3. Est\u00e1vamos em 1992, j\u00e1 v\u00ednhamos desde 1987. N\u00e3o me recordo se a \u00c1gua em P\u00f3 ia ao micro-ondas ou se bastava juntar \u00e1gua. 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