{"id":500,"date":"2014-11-08T20:59:48","date_gmt":"2014-11-08T19:59:48","guid":{"rendered":"http:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/?p=500"},"modified":"2015-11-08T13:34:47","modified_gmt":"2015-11-08T13:34:47","slug":"365-dias-alexandre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/2014\/11\/08\/365-dias-alexandre\/","title":{"rendered":"365 dias, Alexandre"},"content":{"rendered":"<p>Parece que foi ontem, ao mesmo tempo parece que j\u00e1 foi h\u00e1 uma vida inteira. Mas ainda s\u00f3 passaram 365 dias. Ou j\u00e1 passaram 365 dias. Ainda n\u00e3o sei bem se \u00e9 s\u00f3 ou se \u00e9 j\u00e1.<\/p>\n<p>N\u00e3o me lembro do \u00faltimo dia do ciclo de 365 dias que antecedeu este ciclo que termina hoje. Foi, muito provavelmente, uma sexta feira igual \u00e0s outras, sem novidades, sem acontecimentos, sem nada para relatar. Mas lembro-me, t\u00e3o bem, da noite. As minhas noites, que nunca s\u00e3o boas, por vezes parecem alertas. E essa noite, lembro-me t\u00e3o bem, foi estranha. Passada em branco at\u00e9 ser de manh\u00e3. Inquieta com alguma coisa que nunca soube explicar, que ainda hoje n\u00e3o sei explicar. E recordo-me de pensar &#8220;mas que raio&#8230;eu estou bem, porque \u00e9 que n\u00e3o consigo dormir? Que agita\u00e7\u00e3o \u00e9 esta que tenho c\u00e1 dentro?&#8221;.<\/p>\n<p>Lembro-me de pensar nisto, e naquele sonho que tive umas semanas antes que me recuso a relatar novamente. E lembro-me tamb\u00e9m de outro pensamento que me assaltou uns dias antes e que n\u00e3o, n\u00e3o quero repetir nem recordar.<\/p>\n<p>Que noite estranha aquela. Senti-a assim. Mas n\u00e3o imaginava que, \u00e0 hora em que finalmente adormeci, j\u00e1 de dia, j\u00e1 manh\u00e3 feita, tu j\u00e1 c\u00e1 n\u00e3o estavas connosco. E tinha come\u00e7ado, poucas horas antes, o maior pesadelo dos teus pais e da tua irm\u00e3.<\/p>\n<p>Nunca mais nada foi como era antes, Alexandre. E como poderia s\u00ea-lo? N\u00e3o bastava tu j\u00e1 c\u00e1 n\u00e3o estares. Tinhas que ter sido roubado de n\u00f3s da forma atroz que todos sabemos. Porque, sempre o disse e tu sabes, Alexandre, o meu primeiro pensamento quando soube que j\u00e1 n\u00e3o te\u00a0t\u00ednhamos\u00a0foi que tinhas tido um acidente numa qualquer curva daquela estrada que eu detesto. Seria a \u00fanica coisa l\u00f3gica para a tua partida. E seria t\u00e3o mais f\u00e1cil de aceitar e encaixar.<\/p>\n<p>Quando, finalmente, soube a raz\u00e3o de j\u00e1 n\u00e3o estares connosco, n\u00e3o entendi. Ainda hoje n\u00e3o entendo. Digo que sim, que j\u00e1 encaixo. Talvez. Mas continuo sem entender.<\/p>\n<p>Sabes, sinto a tua falta. E sinto, tamb\u00e9m, a falta dos teus pais e da tua irm\u00e3 que nunca mais foram, e dificilmente voltar\u00e3o a ser, os mesmos que eram at\u00e9 ao 365\u00ba dia do ciclo anterior a este. Nenhum de n\u00f3s voltar\u00e1 a ser. Mas eles menos ainda. E tenho saudades de todos. De quando os dias eram mais f\u00e1ceis, independentemente dos problemas normais que se cruzam connosco. De quando via o teu pai rir e sorrir espontaneamente sem aquela tristeza no olhar. De quando a tua m\u00e3e era mais f\u00e1cil de acarinhar, apesar daquela armadura que sempre teve. Hoje, a armadura que veste \u00e9 muito mais impenetr\u00e1vel e por vezes mesmo intranspon\u00edvel ao ponto de n\u00e3o lhe conseguir chegar l\u00e1 dentro, onde importa. E a tua irm\u00e3, a tua irm\u00e3 continua sozinha, sem ti, e \u00e9 outra pessoa que j\u00e1 n\u00e3o conhe\u00e7o, n\u00e3o reconhe\u00e7o.<\/p>\n<p>Mas quero que saibas, Alexandre, que apesar de vos ter perdido a todos, de formas diferentes daquela que te levou de n\u00f3s, os teus pais e a tua irm\u00e3 continuam comigo. Ou melhor, eu continuo com eles. E lamento apenas a impot\u00eancia que sinto, que vivo, por n\u00e3o poder tornar os dias deles mais f\u00e1ceis. Ou apenas menos dif\u00edceis.<\/p>\n<p>Os \u00faltimos 365 dias tiveram altos e baixos. E os baixos bastante baixos, como sabes. E eles estiveram sempre l\u00e1 para mim. E fizeram com que esses meus dias muito maus fossem um pouco mais f\u00e1ceis. Souberam como faz\u00ea-lo. Mas eu, Alexandre, n\u00e3o sei como melhorar os dias deles. E \u00a0gostava tanto que me dissesses como&#8230;<\/p>\n<p>{sim, j\u00e1 me mentalizei que o port\u00e3o n\u00e3o se vai abrir para tu entrares. J\u00e1 consegui encaixar que n\u00e3o voltas. J\u00e1 consegui fechar um ciclo de tantos ciclos. J\u00e1 falo de ti em paz. Ou, pelo menos, mais tranquila. Mas n\u00e3o \u00e9 por isso que me fazes menos falta. Que NOS fazes menos falta.}<\/p>\n<p>365 dias que se encerram hoje.<\/p>\n<p>Um ano amanh\u00e3. J\u00e1. Ainda. O que for.<\/p>\n<p>Parece que foi ontem. Parece que foi h\u00e1 uma vida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Parece que foi ontem, ao mesmo tempo parece que j\u00e1 foi h\u00e1 uma vida inteira. Mas ainda s\u00f3 passaram 365 dias. Ou j\u00e1 passaram 365 dias. Ainda n\u00e3o sei bem se \u00e9 s\u00f3 ou se \u00e9 j\u00e1. N\u00e3o me lembro do \u00faltimo dia do ciclo de 365 dias que antecedeu este ciclo que termina hoje. 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