{"id":806,"date":"2015-02-12T20:08:20","date_gmt":"2015-02-12T20:08:20","guid":{"rendered":"http:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/?p=806"},"modified":"2015-02-18T21:37:47","modified_gmt":"2015-02-18T21:37:47","slug":"apav-8-meses-depois-parte-3-a-ultima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/2015\/02\/12\/apav-8-meses-depois-parte-3-a-ultima\/","title":{"rendered":"APAV 8 meses depois {parte 3, a \u00faltima}"},"content":{"rendered":"<p>Dos dias que contam: hoje, nota de alta. Hoje, \u00faltima visita ao s\u00edtio onde n\u00e3o quero voltar. Mas onde <a href=\"www.facebook.com\/APAV.Portugal\" target=\"_blank\">precisei chegar<\/a>.<br \/>\nPara reaprender a respirar sozinha. Para aprender a aceitar. Para aprender a compreender mesmo o que n\u00e3o tem explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Foram 8 meses. De um apoio que precisei muito. E que, digo sempre, ainda bem que existe. Embora a sua exist\u00eancia se deva apenas e s\u00f3 a tudo o que de mau existe.<\/p>\n<p>A <a href=\"http:\/\/www.apav.pt\/\" target=\"_blank\">APAV<\/a> n\u00e3o apoia apenas casos de viol\u00eancia dom\u00e9stica. Apoia qualquer tipo de v\u00edtima e de igual forma. E, aprendi, o que leva \u00e0 exist\u00eancia da APAV n\u00e3o acontece s\u00f3 aos outros. At\u00e9 porque os outros podemos ser n\u00f3s um dia.<\/p>\n<p>N\u00e3o me identifico como v\u00edtima. Embora me digam que sim, n\u00e3o o sou. Sou, sim, familiar de v\u00edtima de <a href=\"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/category\/nao-nao-tem-categoria\/\" target=\"_blank\">crime violento<\/a>. E tamb\u00e9m nestes casos a APAV est\u00e1 l\u00e1. E se sempre pensei que nunca iria precisar de recorrer aos seus servi\u00e7os, porque como toda a gente sempre pensei que &#8220;isso s\u00f3 acontece aos outros&#8221;, descobri \u00e0 for\u00e7a que os outros tamb\u00e9m somos n\u00f3s. De um dia para o outro, quando menos se espera, passamos para o outro lado, para o lado &#8220;dos outros&#8221;. Onde nunca quisemos estar. Onde nunca pens\u00e1mos que algum dia estar\u00edamos.<\/p>\n<p>Nunca tive problemas em pedir ajuda. Seja em que campo for. Porque ningu\u00e9m caminha sozinho, porque ningu\u00e9m sabe tudo, porque ningu\u00e9m tem sempre resposta. Sempre que precisei de ajuda, pedi. E n\u00e3o me arrependo, em nada, de ter pedido a ajuda certa \u00e0 institui\u00e7\u00e3o certa.<\/p>\n<p>Sei que algumas pessoas me olharam de lado. Outras houve que me criticaram. Duramente. A umas e outras digo apenas o mesmo: fui onde tive que ir, onde precisei, muito, de ir.<\/p>\n<p>Porque n\u00e3o soube, durante 7 meses, lidar com o que aconteceu. N\u00e3o soube aceitar. N\u00e3o soube entender. N\u00e3o soube encaixar e arrumar. E deixei, tamb\u00e9m, de saber respirar. T\u00e3o simples quanto isso: respirar.<\/p>\n<p>Elogio, muito, o trabalho da APAV e a <a href=\"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/2014\/06\/17\/apav\/\" target=\"_blank\">disponibilidade imediata<\/a> desde o primeiro telefonema. E que foi o\u00a0que bastou. E a rapidez e prontid\u00e3o com que me receberam. Bastou receber um telefonema da t\u00e9cnica respons\u00e1vel para ter o acompanhamento marcado para 24 horas depois. Acompanhamento semanal. Com hor\u00e1rio de in\u00edcio, mas sempre sem hor\u00e1rio para terminar.<br \/>\nUma hora? Duas horas? Tr\u00eas horas quando foi preciso. E foram v\u00e1rias as vezes em que foi preciso. E foi ali, devagar, que me deixaram ser, me deixaram estar. Me deixaram falar, me deixaram chorar. Me deixaram estar em sil\u00eancio. Perguntar porqu\u00ea. Perguntar &#8220;e agora?&#8221;. Perguntar apenas. As respostas foram todas dadas por mim. \u00c0 medida que fui aprendendo a encaixar. A construir gavetas para arrumar assuntos doridos. E a cada nova sess\u00e3o a certeza que respirava j\u00e1 um bocadinho melhor. E a cada nova sess\u00e3o a certeza que j\u00e1 me do\u00eda menos abrir essas gavetas e enfrentar o que l\u00e1 est\u00e1 guardado.<\/p>\n<p>Hoje, 8 meses de APAV depois, 15 meses depois daquele dia de Novembro de 2013, respiro, abro gavetas e enfrento e aceito. Ou &#8220;aceito&#8221; porque h\u00e1 coisas que simplesmente temos que &#8220;aceitar&#8221; porque nada mais h\u00e1 a fazer. Mas respiro. Estou em paz. Tranquila. J\u00e1 n\u00e3o fico \u00e0 espera que o port\u00e3o se abra. E j\u00e1 aceito que, quando abre, n\u00e3o chega quem eu gostaria de voltar a ver.<\/p>\n<p>Hoje, recordei o <a href=\"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/2014\/06\/23\/apav-parte-2\/\" target=\"_blank\">primeiro dia<\/a> de APAV. O quanto me doeu o primeiro passo para descer aquela rampa. O quanto me doeu tocar \u00e0quela campainha. O quanto eu n\u00e3o queria entrar naquele espa\u00e7o. Porque achava que n\u00e3o pertencia ali, porque &#8220;s\u00f3 acontece aos outros&#8221;. O ar que n\u00e3o entrava \u00e0 medida que me aproximava da porta. O peso que carregava dentro de mim por n\u00e3o conseguir chorar h\u00e1 7 meses.<br \/>\nEntrei. Sentei-me. E chorei. Pela primeira vez, chorei. Falei. Fiquei em sil\u00eancio. Voltei a chorar. Voltei a falar. Duas horas e meia depois, ao sair, estava mais leve. O ar entrava. E tinha uma certeza: ali vou aprender a seguir em frente.<\/p>\n<p>Hoje sa\u00ed com um sorriso. Despedi-me com um &#8220;n\u00e3o quero c\u00e1 voltar&#8221; e um &#8220;muito obrigada por tudo&#8221;. Fechei aquela porta atr\u00e1s de mim, subi a rampa, segui o meu caminho sem olhar para tr\u00e1s. E segura de que, mesmo n\u00e3o querendo l\u00e1 voltar, sei que quem precisar tem ali um porto seguro para reaprender a viver, para reaprender a respirar, para recuperar o sorriso.<\/p>\n<p>Muito obrigada a toda a equipa APAV. Aos t\u00e9cnicos, aos volunt\u00e1rios, aos funcion\u00e1rios, todos. O vosso trabalho \u00c9 muito importante. E \u00e9 feito de cora\u00e7\u00e3o. Muito obrigada por estes 8 meses, mesmo que alguns bastante doridos. Muito obrigada por me reensinarem a respirar. Muito obrigada por tudo. E em jeito de agradecimento, ser\u00e1 para a APAV que irei consignar o meu IRS daqui para a frente, n\u00e3o apenas este ano.<\/p>\n<p>\u2665<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-807\" src=\"https:\/\/kooka.org\/caixadechocolates\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/10991097_10152820331878800_6323252895147710145_n-e1423771135644.jpg\" alt=\"10991097_10152820331878800_6323252895147710145_n\" width=\"450\" height=\"337\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dos dias que contam: hoje, nota de alta. Hoje, \u00faltima visita ao s\u00edtio onde n\u00e3o quero voltar. Mas onde precisei chegar. Para reaprender a respirar sozinha. 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