Dia de acordar cedo para, finalmente, poder dizer “doutora, preciso de ajuda”…Não que a médica de família consiga ajudará muito, mas prolongou-me a baixa por mais 30 dias. E recomendou saíres de casa, ir à praia, ver o pôr do Sol e, mais importante, seria eu mesma a minha prioridade. Alguém que concordâncias comigo. Porque eu tenho que estará em primeiro lugar. O resto? Logo se vê.
Diana também para tomar uma decisão que vai resolver o meu depois. Deixa de haver uma preocupação. Do ar o corpo à ciência. Alivia uma situação delicada e ainda pode, ou posso!, ser útil.
Mas, e apesar de ter sido um dia tranquilo, estou muito cansada. Amanhã quero ir à praia de manhã. Vamos ver a que horas acordo e se terei energia de manhã.
Enfim…foi, na verdade, só mais uma ter a feira. Amanhã logo se vê como será. Mas nem dói um mau dia.
Quando eu morrer… (eh) Não levarei flores pra o meu buraco
Porque eu vou morrer… (eh…) De cancro
E não se dão flores E não se dão flores E não se dão flores A quem morre de cancro… Não há tempo
Ou então vou morrer… (eh…) Cheio de radiação
Devido a um erro qualquer… (qualquer…) Sem importância
Agressão nuclear Agressão nuclear Bem planificada e perfeitamente justa…
E se eu escapar…(oh oh…) Com vida a tudo isto
Morrerei de fome… (fome…) Comido por um bicho
E não levarei flores E não levarei flores E não levarei flores
Pra o meu buraco (pra o meu buraco) Pra o meu buraco (pra o meu buraco) Pra o meu buraco (pra o meu buraco) Pra o meu buraco (pra o meu buraco) Pra o meu buraco (pra o meu buraco) Pra o meu buraco (pra o meu buraco)
Pra o meu buraco Pra o meu buraco Pra o meu buraco Pra o meu buraco Pra o meu buraco Pra o meu buraco Pra o meu buraco
-Xutos & Pontapés-
-Quando eu morrer–
Penso na morte mais vezes do que gostaria. Se calhar até mais vezes do que seria saudável. Penso na morte dos meus, claro, mas penso, acima de tudo e mais do que gostaria de admitir, na minha própria morte.
Há muitos anos que “sinto” que o tempo, o meu tempo, se está a esgotar. Claro que nada me garante que, de facto, esteja.
Nunca tinha pensado, apesar de tudo, no depois. Não na vida depois da morte, coisa que não existe, mas no funeral e no trabalho que, depois de morta, iria dar a quem cá fica.
Digo “iria” porque hoje tomei uma decisão. Que não custa nada e ainda pode ter a sua utilidade: doar o corpo à ciência.
Mesmo que seja só daqui a muitos anos, ficam já a saber que não haverá funeral. Nem velório. Nada de cerimónias fúnebres. Quem quiser, se quiser, que se junte para um almoço ou jantar. Sushi não é obrigatório, mas não era mal pensado. E bebam um copo por mim. Façam isso. E celebrem a vida. Enquanto eu, já depois de morrer, vou também celebrar a vida e doar o corpo à ciência.
Amanhã preencho o papel. Depois é só ir ao notário e, depois de reconhecida a assinatura, é só enviar o documento para a Faculdade de Medicina.
Sempre disse que o meu papel aqui passa pelos outros, para os outros. E nada como continuar a sê-lo quando o meu tempo deste lado se esgotar.
Já sabem: um almoço ou jantar e beber um copo por mim. Eu continuarei por aí a cumprir o meu papel.