Não me recordo de quando foi que iniciei os tratamentos regulares (e permanentes…) na clínica de Fisioterapia. Aquelas 30 sessões iniciais no Hospital serviram de uma espécie de aquecimento e orientação para o que é preciso fazer para manter o que ainda tenho e evitar a perda do que ainda é meu: a mobilidade e a [minha] possibilidade [e capacidade…] de simplesmente ir. Com o apoio da minha bengala e tantas vezes também de braço dado com a minha mãe,
Terminadas as 30 sessões no Hospital e aceite a inscrição na clínica, começou também uma rotina diária que ainda não consegui aceitar que é permanente e que vai exigir de mim muito mais do que aquilo que consigo dar agora…física e emocionalmente.
As dificuldades e limitações têm vindo a surgir lentamente em alguns casos, outros há em que é quase de forma imediata, muito por causa do frio. É verdade que o calor também não ajuda, mas o frio prende músculos, tendões, articulações, tudo! E aí trabalha-se o corpo como se fosse para desenferrujar algum engenho que, agora, se move a muito custo.
As dificuldades e limitações existem e são chatas, é verdade. Mas são fáceis de entender o porquê da sua existência e fáceis de ajustar e contornar para manter a funcionalidade. Já o que não é tão fácil sequer de digerir é a dor neuropática. Que é, em tudo, tão diferente da dor muscular ou até articular.
A dor neuropática é mais forte. Chega a ser mais violenta quando se faz sentir em ondas que carregam picos de dor. É excruciante. E, sim!, chega a ser incapacitante.
É aquela dor cujo ponto de origem é difuso. Tem origem numa qualquer ligação entre nervos e cérebro em que a informação é mal lida pelo cérebro por causa da falta de material condutor e protector. O cérebro, já muito carregado de lesões e black holes, esforça-se por ler correctamente a informação….mas não consegue. E, não conseguindo ler a informação correcta, emite dor. Que é insuportável. É excruciante. É incapacitante
Esta dor está presente há menos tempo do que aquele em que faço parte da clínica, mas já é uma dor conhecida de alguns fisioterapeutas que têm feito de tudo para me ajudar a aliviar a dor, já que a medicação que inclui opióides não funciona. E foi aí que surgiu a ideia da acupuntura para aliviar a dor.
Não pensei duas vezes nem olhei para trás! O acupuntor é fisioterapeuta na clínica. Conversámos sobre resultados expectáveis, tempos de actuação, valores. Tudo acordado e a data de início o mais rápido possível porque as crises de dor são muito presentes e intensas.
Na primeira sessão seria de esperar já algum sinal de alívio da dor. Na segunda, logo no dia seguinte, o normal seria já sentir algo…que não dor!
Terceira sessão, terceira noite de crises de dor demasiado fortes, extremamente violentas, a manifestarem-se várias vezes ao longo do dia. Sempre demasiado intensas, extremamente fortes, excruciantes, incapacitantes, a dor gritada para tornar suportável o insuportável…
A acupuntura não está a resultar. O Fisioterapeuta e acupuntor que desiste desta abordagem diz-me que é preciso rapidamente ser vista por um médico porque o nível de dor que apresento é demasiado elevado para não ser observado. E no meio disto tudo a frustração visita-me novamente e a minha vontade é de chorar por não conseguir dormir nem ver soluções para esta dor…
Chorar. Aquilo que não consigo fazer facilmente. Existe, de facto, um único tema que me faz chorar com alguma facilidade, mas não!, não quero pegar nesse tema. Quero deixar tudo exactamente como está e, nesse ponto, continuar a fazer de conta. Mas seria importante conseguir chorar a dor e a incapacidade de fazer seja o que for num momento de crise…mas continuo a não conseguir.
Terminada a acupuntura por desistência do acupuntor, mantida a medicação que não faz efeito, não sei mais o que posso fazer para lidar com isto…e se me ouvirem dizer que já estou por tudo, acreditem que não é exagero…
Na clínica mantém-se a rotina diária (ou quase) que já se sabe ser permanente. Eu continuo com grande dificuldade em conseguir aceitar tudo isto. Mas, já percebi, depois de ano e meio de rotina na clínica ali acabei por encontrar uma espécie de segunda família. Se eu queria isto tudo? Na realidade não. Não queria absolutamente nada disto. Mas no meio de tanta tralha……acho que só me resta mesmo encolher os ombros, sorrir e acenar e assumir a minha postura de pinguim de Madagascar…