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Se perguntarem por mim, dir-vos-ei que não estou. Esta que vos fala é outra que não eu.

{#353.013.2025}

Dezembro de 2025, dia 22. Eram 17h22m quando o elevador fez rebentar, mais uma vez, o quadro eléctrico do prédio inteiro. De imediato sem luz, o elevador parado, trancado entre o r/ch e o primeiro andar. Eu no interior do elevador.

Não demorou muito tempo a que a luz regressasse, mas nesses curtos minutos tive tempo para procurar o Coelho Branco sem o encontrar. Assumi que era a altura certa para, ao brincar ao Faz de Conta, vestir a personagem Alice que, por um buraco escuro atrás de um Coelho Branco, foi parar ao País das Maravilhas.

Não encontrei o Coelho Branco, a electricidade voltou a acender as luzes do prédio, desbloqueou o elevador que desceu até ao r/c sem escorregar por um buraco escuro para outro país.

Voltei mais tarde ao ponto de partida: a minha casa. E agora, 23h45m, sentada de pernas cruzadas em cima da minha cama, volto a procurar o Coelho Branco. Porque, e estou realmente muito farta de falar nisto!, aquela dor estúpida que me queima e corrói o braço, não me deixa dormir e ainda me faz gritar para suportar a agonia dolorosa, a estupidez da dor neuropática excruciante de todos os dias já está presente…!…e bastava-me ver o Coelho Branco para ir atrás dele, mesmo escorregando por um buraco escuro sabia que do outro lado podia brincar ao Faz de Conta. Faz de Conta que está tudo bem quando NÃO ESTÁ. Faz de Conta que nada me faz gritar de dor quando o meu braço queima por dentro

Não sei se iria parar ao País das Maravilhas, mas preciso muito de deixar de ter esta dor

…porque juro que não aguento muito mais…

{#352.014.2025}

Diz quem sabe que a dor é sempre má. Incomoda. Magoa. Causa sofrimento. Não deixa descansar. E é verdade. A dor é tudo isso, mas também consegue ser mais qualquer coisa. Sempre mais qualquer coisa negativa.
A dor pode ser originada por tantas razões diferentes. E todas elas razões objectivas em que se percebe facilmente a relação causa/efeito.

…e eu gostava tanto que fosse tudo assim tão simples! Mas não é! Há sempre alguma coisa mais complicada, mais difícil de entender, como quando a origem da dor está numa qualquer ligação nervosa danificada por uma qualquer lesão no sistema nervoso central. No meu caso, as lesões existem tanto no cérebro (“tantas que não dá para contar…“), como na espinal medula. Sistema nervoso central corrompido, danificado pelo meu próprio sistema imunitário. É assim que funcionam as doenças auto-imunes.

Não se consegue perceber facilmente qual a lesão que neste momento me faz ter dor neuropática que anda ali literalmente à volta do braço/ombro, que tantas vezes sobe à clavícula e depois desce pela omoplata, como na noite passada, ou sobe pelo pescoço, como neste momento…

Não, não faço ideia do que fazer para isto passar. A medicação opióide tira-me a dor? Na verdade não sei. O que sei é que a noite de ontem foi passada em branco. E a noite de hoje não faço ideia de como será, mas já sei que vai ser com a presença da dor que me queima e me corrói por dentro e que me faz gritar durante a madrugada…

{#351.015.2025}

Sábado. Tranquilo durante o dia. Com saudades e muita vontade de ir ver o Mar. A chuva lá fora fez-me adiar a ida ao paredão. Mas em breve tenho que lá ir

Nunca me imaginei tão “dependente” do Mar. A viver em terra de praia há quase 16 anos nunca lhe senti tanta falta como agora. E percebo que não é só do Mar que sinto falta. É do campo também. Campo com árvores. Com muitas árvores. Uma floresta gigante! Não para me perder nela, mas talvez para me reencontrar. Para me reconectar? Se for comigo mesma, sim!

Não sei se lhes posso chamar de elementos, o Mar e a Floresta. Não são Ar, Água, Terra, Fogo. Ou será que são…? Não sei…mas começo a achar que sim. Mar – Água. Floresta – Terra. Ficam-me a faltar o Ar e o Fogo

…sei que preciso de me reencontrar e reconectar comigo mesma agora que tanta coisa nova começa a fazer parte de mim…

Não vou pensar nisso agora. Não quero pensar nisso agora. Não a meio da noite de Sábado que até correu tranquilo durante o dia e que agora começa a sentir aquela estupidez de dor no meu braço esquerdo que queima e corrói por dentro e que os remédios pesados não afastam por muito tempo…

Não sei. Na realidade, a esta hora com dores e com sono não sei absolutamente nada… Só sei que preciso de conseguir dormir para descansar e recuperar o meu corpo para, amanhã, voltar a dar algum uso às pernas. Mesmo que a custo…porque eu mesma me obrigo a dar uso às pernas TODOS OS DIAS SEM EXCEPÇÃO…!

Amanhã quero ir ver o Mar. A Floresta vai ter que esperar. O resto, neste momento, é só isso mesmo: o resto…

{#350.016.2025}

[O texto original, escrito sexta feira à noite, já deitada e perfeitamente quentinha e confortável, perde-se…foi escrito outro no sábado de manhã…]

Das coisas que até me lembro de ter feito mas que não faço ideia para onde foram parar: é sabido (ou não…) que todos os dias escrevo no blog. Desde 19 de Agosto de 2014 que é assim, TODOS OS DIAS há já mais de 11 anos. Sem excepção. É aquele momento de reflexão sobre o dia que passou, sobre os outros à minha volta, sobre mim ou sobre tudo isso ao mesmo tempo.

É uma espécie de escrita terapêutica. Desde o primeiro dia que a vejo assim e, diz quem sabe, escrever é uma excelente ferramenta terapêutica. E é. E que deverá ser para manter. Deverá, sim. Ou…sei lá eu se consigo!

Quando comecei a escrever todos os dias o desafio era para fazê-lo durante 100 dias. Lembro-me de achar que não chegaria sequer ao dia 10! Mas, quando dei por isso, já estava a publicar o dia 500!

Deixei de contar os dias, mas continuei a publicar. A escrever TODOS OS DIAS! Embora note que, nos últimos tempos, tem sido mais complicado. Mas não quero saber! É para continuar!

Até que ontem, dia 4.141 desde 19 de Agosto de 2014, 11 anos, 4 meses e 1 dia, eu SEI que escrevi. Até sei SOBRE o que escrevi: o facto de não ser perfeita. E também sobre ser uma edição limitada. Tão limitada que me lembro perfeitamente de escrever “edição MUITO limitada“. E sim, peguei nesta mesma foto para desenvolver o tema. Agora……ONDE é que eu escrevi?! Tenho ideia de o ter feito no Instagram , mas não está em lado nenhum!

Claro que também me dá vontade de rir apesar de ter perdido um texto com algum tamanho. Ainda não sei se é preferível perder um texto porque adormeci ao escrevê-lo ou se, como já aconteceu!, continuar a escrever DEPOIS de adormecer e ainda clicar em “Publicar“…

Não sei. Não sei se quero saber. Mas vou ter que mudar alguma coisa para não continuar a perder textos, até porque não foi o primeiro

Um dia, quem sabe?, talvez volte a escrever sobre o facto de não ser perfeita, já o tendo escrito tantas vezes incluindo agora!, e reforçando o que é importante não esquecer: eu sou uma edição MUITO limitada. Não por estar condicionada pelas minhas próprias dificuldades e limitações, mas porque sou Eu, tal como sou, por inteiro, sem cópias ou tentativas de “contrafacção“. Eu sou Eu. E chega-me!

{#349.017.2025}

Dormir com as dores que tenho tido no meu braço tem sido tarefa impossível. Não me lembro de quando foi a última noite tranquila, sem dores que me fazem gritar para conseguir suportá-las. Não me lembro de quando tive a última noite em que consegui descansar.

O Fisiatra já me prescreveu medicação (muito) forte para isto…nos primeiros dias, e a tomar dose mini mini mini, até nem correu muito mal. Mas rapidamente tive que passar de 1 comprimido por dia para 1 de manhã e 1 à noite… Também aí rapidamente deixou de correr bem. Novo reajuste na medicação…

…e não sei se está relacionado com o reajuste ou não, mas hoje consegui dormir SEM DORES! Dormi a noite toda. Dormi de manhã até os meus tios chegarem para o almoço. Dormi depois de terem saído e acordei a horas de jantar. Mas o que realmente importa é que consegui NÃO TER DORES! Consegui descansar! Recuperar um pouco das várias noites pouco e mal dormidas!

Ela, ao contrário do habitual, tem dormido enroscada comigo. Já percebi que, nas noites de maiores dores, quando passam os picos de dor e eu consigo finalmente relaxar, ela vem ter comigo. E tantas vezes assume o lugar que a Maria André ocupava até se ter despedido em 2016 e que nunca antes tinha escolhido para ela: a curva da minha cintura e a minha anca a servir de almofada.

Eu sei que os gatos nos protegem. Sei que nos limpam. Sei que nos tratam. A Sushi está comigo desde 2017. E nunca como agora foi tão preciso tê-la junto a mim. Felizmente ela mesma já sentiu essa necessidade…

{#348.018.2025}

Dor neuropática. Não sei até quando vou conseguir continuar a suportar a pior dor que já senti! E quando os comprimidos de grande potência não actuam sobre a dor…

…a vontade é praticamente entregar os pontos e desistir…

{#347.019.2025}

De manhã disse que, depois do almoço, queria beber café na esplanada das mesas infinitas. Fui informada de que estava muito frio, mas o estar muito frio não me assusta. Disse que iria mesmo assim. Queria ficar por lá um bocado e talvez voltar a pegar na carta que me pediram e que teimo em recusar escrever…

Durante o almoço, vi pela janela a força e permanência do vento. Sabia que soprava desde manhã e que está previsto manter-se o dia todo e entrar pela noite dentro. E se o frio não me assusta, a força do vento deixa-me alerta.

Abri mão da esplanada das mesas infinitas, mas não abri mão de um café na rua. O barulho das obras no apartamento do lado a atingir níveis assustadores, o sentir-me sempre presa e sempre fechada em casa fizeram-me querer sair de casa. E saí.

Não levei lastro mas devia ter levado. Daqui até à esplanada do costume são mais ou menos 150 metros. Mas com o vento horrível que estava a distância pareceu muito maior. E, apesar de ir de braço dado com a minha mãe, a estabilidade era muito fraca e o equilíbrio muito precário como sempre. Mas fui. E não fiquei muito tempo na esplanada do costume por causa do vento frio que, mesmo na área fechada, se fez presente.

Voltar para casa levou o seu tempo, como leva sempre!, mas a segunda passagem do dia pela caixa de correio deprimida valeu a pena! Se de manhã a caixa de correio foi vítima do bullying de mais uma conta para pagar, à tarde a caixa de correio deprimida bateu palminhas ao receber antidepressivos em formato de correio pessoal. E há tanto tempo que a minha caixa de correio deprimida não se animava!

Só por isto já valeu tanto a pena ir à rua beber um café na esplanada do costume!

——-

E quando amigos de amigos se tornam também nossos amigos, a caixa de correio deprimida bate palminhas quando o carteiro traz correio que não sejam contas para pagar. Mesmo que nesse correio me chamem nomes, como se pode ver. E agora, como dizer à Margarida que isto de chamar nomes ah e tal não pode ser assim e isso e assim e mais não sei quê……

{#346.020.2025}

Dia que despertou demasiado cedo, especialmente depois de uma noite em branco entre as 2h e as 5h com o despertador a tocar às 6h. Noite em branco assombrada e agitada e muito dorida por causa de um qualquer curto-circuito que acontece nas ligações nervosas do meu braço esquerdo e que, por força e violência da dor que me queima e corrói o braço e que sobe para o ombro e daí se dispersa, dizia eu que é um curto-circuito cuja dor me faz gritar e contorcer cada músculo do meu corpo…e a cada novo pico de dor que me faz reagir gritando a dor que me assalta claro que tenho medo. Como não ter medo? Não sei até quando vou conseguir suportar o que só posso descrever como insuportável…! Violenta! Agressiva! Excruciante! Porque dizer apenas que é demasiado dolorosa não chega…

Dia que despertou muito cedo, que me pôs em trânsito cedo, tão cedo que pude ainda matar saudades do nascer do Sol, do nascer do dia. E as saudades que eu tinha desse momento, dessas luzes, dessas cores…!

Se puder, guardo as memórias deste dia naquela caixa que é para esquecer por aí cheia de memórias menos boas. Porque o meu dia hoje teve muito desses momentos, em que visitada pelos picos de dor só quis desaparecer, mudar de corpo, sei lá eu o que mais…!

Do dia de hoje guardo esse nascer do Sol e começo de dia que há tanto tempo não via, guardo os momentos a dois com ele em que, acolhida no melhor abraço que existe!, me abstraí de tudo o que me dói e também do que me faz doer…não interessa! Guardo, como todos os dias, os momentos que são só nossos e que nos fazem tão bem.

Amanhã não há despertador a tocar. Não há fisioterapia para fazer. Mas é preciso, é-me obrigatório!, mexer! As pernas reagem mal ao frio. Mas vamos ter que descobrir a melhor forma de conseguir reagir e mexer e não deixar de andar só porque o frio é uma treta!!

Para já, é hora de ir descansar. E tentar ter uma noite sem dor…

…porque eu não sei até quando é que consigo aguentar isto…

{#345.021.2025}

É o Tempo. Eu sei, eu sei que é o Tempo sob o comando de Chronos que não espera por nada nem ninguém. Não espera, mas faz-se sempre presente quando é para o vermos passar. Passa em desfile à minha frente e sussurra baixinho que não vai esperar. Por nada nem ninguém. Nem por mim.

É o Tempo, eu sei. É aquilo que há tanto tempo digo que é a única coisa que garantidamente tenho, mesmo sem saber por quanto tempo… E tantas vezes que me fazem perder o que é meu, só meu!, o MEU tempo. Aquele que eu dividia durante o dia conforme o que tinha para fazer. E é mais do que sabido que a grande fatia do MEU tempo era passado a trabalhar e nas deslocações.

Lembro-me que tinha sempre vontade de fazer acontecer tanta coisa nova e diferente e estimulante e interessante e que acabava sempre por se fazer porque não tinha…Tempo.

Agora, mesmo como qualquer um não sabendo o quanto, tenho tempo. Ou vou tendo, não sei até quando. E tenho ideias que não quero chamar de planos porque esses me falham sempre. São ideias que quero muito concretizar. E, por enquanto, tenho tempo. Só tenho que me organizar.

Chronos não quer saber se queremos o Tempo a andar mais depressa quando estamos a trabalhar ou se o queremos a andar mais devagar quando estamos com quem nos é especial. Não quer saber e por isso corre à mesma velocidade para todos.

Mas era tão bom se, mesmo que só às vezes!, nos permitisse aceder ao botão de “Pausa” de modo a registar na memória mais um pouco de quem queremos guardar connosco para sempre…

…o MEU Tempo…e eu simplesmente a vê-lo passar…a senti-lo escapar-me…

{#344.022.2025}

Sábado, aquele dia que, durante tanto tempo, eu chamei de “dia mais aborrecido da semana“. Nunca achei que, todos estes anos depois, a coisa fosse melhorar muito, é verdade. Mas também nunca pensei ser possível que todos os dias passassem a ser tão aborrecidos.

O dia de hoje, sábado, aborrecido como sempre, foi um dia de fazer uma espécie de reset..? Foi. Lá fora acho que o céu estava azul e o Sol brilhava com força, um dia bonito de Outono quase Inverno. Mas, confesso, desta vez nem ao cadeirão no Jardim das Leguminosas eu fui. Preferi assumir a minha relação com o sofá e as mantas e manter-me por aí, mesmo durante os picos de dor que me visitaram sem convite.

Sábado, aquele dia aborrecido da semana. Que hoje foi para parar, descansar e tentar relaxar e recuperar…

{#343.023.2025}

Cansada…

Muito cansada.

…demasiado cansada!

{#342.024.2025}

Quantas vezes já te fizeram sentir que não és uma pessoa normal…? Seja lá isso o que for, não sei o que é isso de se ser uma pessoa normal. Nunca me identifiquei como tal, porque sempre tive a percepção de que a definição de “normal” é algo ou alguém que corresponde à norma………e nunca ninguém me ensinou a tal da norma. Sempre vi essa coisa da norma e de ser normal como ser o que os outros defendem que tenho que ser, que tenho que fazer, o que tenho que dizer, o que tenho que pensar, o que tenho que sentir…

…e eu cresci rebelde e com a certeza de que não “tenho que” nada! Não quando é algo definido pelos outros. Se há algum que eu realmente “tenho que” é ser fiel a mim própria! Ser eu própria! Pensar por mim própria! Tudo o que sair de mim TEM QUE vir cá de dentro. E assim tem sido. E assim vai continuar a ser!

Porque eu nunca soube encaixar nesse rótulo de ser normal. Eu sou eu. Igual a mais ninguém que não eu mesma! E até hoje sobrevivi a 100% dos meus dias maus ou muito maus. E muito por ser sempre que eu sou.

Do dito normal não tenho muita coisa. Talvez por isso sinta as coisas como sinto. Sempre de forma intensa. E talvez por isso também dê tanta importância e tanto valor ao simples acto de beber um café numa esplanada no centro da vila, mesmo sozinha à mesa, sozinha na esplanada.

…e é em momentos assim que eu brinco ao Faz de Conta que está tudo bem, mesmo não estando. Que sou tal como qualquer pessoa, mesmo não sendo. Que sou uma pessoa normal, seja lá isso o que for, mesmo não sendo porque não consigo caber na norma que não reconheço nem entendo nem aceito nem quero saber nem coisa nenhuma nem nada…!

…e percebo-me zangada por não me sentir aceite no todo que segue a tal norma e que ao me perceber diferente me recusa um lugar…

Mas um café cheio, intenso e sem açúcar numa esplanada vazia ao final do dia no centro da vila………é o melhor que me podem permitir fazer, seja lá quem for que permite ou não estas coisas. Eu vou e faço. Especialmente se me disserem que não posso…

[…eu posso TUDO o que EU quiser…!]

{#341.025.2025}

Chuva, sinónimo de ficar em casa.

Ao final da tarde, apresentar as primeiras páginas da carta que me pediram em jeito de trabalho de casa terapêutico. E aqui ainda é preciso continuar a escrever, sabendo que acabará por ser um primeiro passo para uma carta de despedida…que eu não quero escrever……

{#340.026.2025}

115… Que, para mim!, será sempre um número de emergência. E hoje, 3 meses, 3 semanas e 2 dias depois, ninguém faz ideia do esforço que tenho estado a fazer para……

……não fumar um cigarro! Que, já sei!, nunca seria só um. Um de cada vez, certamente. Mas nunca só um!

Mas o 115 já não existe e o actual número de emergência, o 112, não me pode ajudar. Talvez se eu seleccionasse a opção 4

As lágrimas estão à beira dos meus olhos e não me parece que peçam licença para começar a cair quando…

…quando voltar aos cadernos para continuar a escavacar-me completamente: joelhos e mãos esfolados, pés descalços a pisar pedrinhas no alcatrão quente

Não me posso esquecer: são palavras vs números. E um factor irrevogável: o Tempo.

Escrever a carta que me pediram. Não a de amor, ridícula como todas as cartas de amor, ou assim o afirma o Poeta. Escrever a carta que em Outubro disse não querer escrever…e que, neste momento, não vejo motivo para não escrever

Um cigarro na esplanada das mesas infinitas…alguém me traz, por favor…?

Obrigada.

…………

Duas horas se passaram na mesa do canto na esplanada das mesas infinitas. Dois cadernos onde a ideia era escrever, gravar num suporte físico tudo o que já deitei no éter. Powerbank para manter o telemóvel, não à tona de água, mas metaforicamente a salvo de um eventual mergulho em apneia a dois, o telemóvel e eu. Em apneia e sem saber nadar


O afogamento que não aconteceu porque, ao contrário do planeado, não me permiti ser vulnerável e escavacar-me por inteiro, joelhos e mãos esfolados e pés descalços a pisar pedrinhas no alcatrão quente. Porque ser vulnerável requer o que já não tenho: força. Para aguentar. Para sobreviver à vulnerabilidade.

…não escrevi. Não me escavaquei. Mas não me esqueci

Os números vão de 0 a 9 na sua raiz unitária, mas quando compostos são infinitos
vs
As letras são apenas 26, mas com a capacidade infinita de criação de palavras entre o nada e o tudo.

10.959 é sem dúvida um valor sobejamente mais elevado do que 915. E, por muito que se queira dizer o contrário, não é possível elevar 915 a algo que não é, nunca foi. E nem a organização semântica das letras com capacidade infinita de criação de novas palavras consegue fazer possível o que é irreal. Na balança que mede o peso, a força e o poder dos números infinitos e das letras e consequentes palavras, nem sempre vence o que queremos dizer, o que dizemos ou até o que já dissemos. Muitas vezes, vence a quantidade de vezes do que já foi ao longo do tanto tempo que também os números contabilizam.

Palavras vs números. Tanto uns como outros perdem qualquer significado quando confrontados com um factor irrevogável…: o Tempo.

E hoje foram 2 horas na esplanada enquanto o silêncio e a ausência já contam 7 horas…e continuam a somar…

…e, se calhar, joelhos e mãos esfolados, pés descalços a pisar pedrinhas no alcatrão quente e com isto acabei por me escavacar no permanente silêncio de quem não se pode queixar…de nada…e as lágrimas que hoje teimam em não cair são engolidas a seco e à força

…………

…e depois há aquele momento em que o tampo riscado da mesa da esplanada me leva de volta a 2017. Quando riscar a pele era tão fácil. E estupidamente apaziguador da dor que sentia, vivia?, naquela altura ainda…

os riscos na pele que traduzem dores numa linguagem que poucos entendem… É preciso chorar, as lágrimas teimam em não cair na ausência de quem me permite chorar. Permite…? Como se fosse preciso eu pedir permissão seja a quem for para verter as minhas dores em forma de lágrimas. Como se fosse preciso eu pedir permissão seja a quem for para simplesmente existir exactamente como sou! Nem mais nem menos do que e quem sou!

Vulnerável.

Escavacada.

Mas reconstruída. À força do “tem que ser“. Quando tudo o que eu queria era simplesmente poder ser. Naturalmente. À força de nada…!

As lágrimas acabarão por cair. Os riscos na pele? Tatuagens de vulnerabilidade

…e eu, aqui…

……sozinha……Sempre……

…………

São as noites. São sempre as noites. Vazias de pessoas. No silêncio para lá da música que me acompanha sempre. São sempre as noites que me confirmam: sozinha. Sempre. Desde sempre. Só eu e a música que está sempre presente.

Overwhelmed. Não gosto da tradução para português, não define exactamente o que sinto, o que estou para além de sozinha: overwhelmed. Como se tivesse nos meus ombros o peso todo do Mundo inteiro.

Mas à noite, no silêncio para lá da música que me acompanha sempre, não há ninguém. Que se sente comigo, me dê a mão enquanto procura resposta para as minhas perguntas, me acolha num abraço protector quando as respostas me agredirem com aquele choque de realidade do qual faço por fugir.

Não quero encarar o que já sei. O que vou conhecendo todos os dias mais um bocadinho depois de me ter apanhado na curva sem pedir licença.

Continua a não haver ninguém comigo que me recorde que eu não carrego o peso do Mundo inteiro nos meus ombros. Mas, quando aceitar o choque de realidade por completo, o peso de estar overwhelmed passa a ser suportável. Os ombros aliviam do peso que estupidamente carrego quando me recordar da luta dos números vs palavras. Aquela luta dos 10.959 vs a infinitude da mistura de letras cujo resultado se resume a Tempo. E é o Tempo que define a derrota. Que, como sempre, me pertence.

São as noites. São sempre as noites. Vazias de pessoas. Assim como os dias, também eles cada vez mais preenchidos de ausência e silêncio. Mas são definitivamente as noites, às 3h da manhã, em que não há ninguém para me aconchegar e me sussurre que está tudo bem…mesmo que não esteja. E são as noites que recebem aquele meu sussurro de quem, já sem voz, grita por socorro.

Socorro
que
não
vem…

{#339.027.2025}

Não me posso esquecer que números são só isso mesmo, números! Mas alguns dizem tanto mais do que gostaríamos…e não me posso esquecer que 10.959 é “infinitamente” maior do que apenas 917…mesmo que 917possa parecer tanto! Mas não é…

…e se eu chorar? Eu própria secarei as minhas lágrimas. Exactamente da mesma forma que tomarei as MINHAS decisõessozinha deixarei cair as minhas lágrimas, sozinha decidirei. Porque, lamento, eu também mereço mais…e em primeiro lugar estou eu…!

{#338.028.2025}

Savasana. A última postura, e a mais difícil de todas as posturas, a ser realizada numa prática de Yoga. Em português tem o nome de “Postura do Cadáver” e é a postura dedicada ao relaxamento no final da prática, aquele momento em que o corpo e a mente integram todas as posturas e seus benefícios executados na prática.

Habitualmente, temos feito o asana com música a acompanhar. E ajuda muito a relaxar e a deixar o corpo e a mente irem onde tiverem que ir fazer o que tiverem que fazer. Já aconteceu a música terminar a meio do relaxamento e, não nego, foi-me estranho: de um momento para o outro deixei de ter onde me agarrar enquanto relaxava. Era à música que me estava a agarrar… Mesmo sem música, costumamos ouvir os pássaros nas árvores ou nas gaiolas do r/ch, os carros que passam por ali, as ambulâncias que todos os dias a todas as horas atravessam esta terra. Muitas vezes ouvimos também a respiração de quem está mais perto…

…mas hoje…hoje o Savasana foi todo ele em silêncio. Ainda antes de começar, já não tínhamos música. Os sons da rua não nos chegavam. Não houve ambulâncias. Nada. Silêncio, apenas…

…um silêncio incomodativo de tão ensurdecedor! Faltou-me ouvir o Professor Pedro dizer que ali estamos em segurança, numa sala que conhecemos, para a prática de Yoga. Porque eu nunca tinha tido medo numa simples prática de relaxamento como tive hoje. Unicamente por estarmos em absoluto silêncio

…e a minha cabeça tem demasiado barulho, que só eu oiço, que incomoda demasiado e eu não encontro o botão para desligar o barulho…

{#337.029.2025}

Perguntou-me hoje um dos 500 Pedros dos meus dias quando conversávamos sobre as noites que eu chamo de terror por causa das dores no meu braço: “Então tu acabas por adormecer de cansaço, é isso?” e a minha resposta só pode ser “é isso exactamente!”. Porque acabo sempre por adormecer estoirada depois daqueles 30 minutos de ondas e picos de dor violenta, excruciante, a pior dor que conheço! São minutos longamente intermináveis que me esgotam por completo.

Felizmente a noite passada foi relativamente tranquila. Crise na noite anterior, crise de manhã, crise ao início da noite…
Consegui ficar acordada até um pouco mais tarde. A publicação do dia no blog foi feita à 1h08m da manhã. De seguida, o dia foi dado como terminado e fui para a cama muito perto da 1h30m. Mas já percebi que não posso estar cansada e ter o telemóvel na mão. Porque escrever no blog ou até no Instagram e carregar em publicar mas já estando a dormir não seria a primeira vez… Agora…que quereria eu dizer com a mensagem escrita e enviada à 1h56m? Não faço a mais pequena ideia. Mas não deixa de ser verdade: já era tarde, tal como agora!, e eu não me fui embora…

Vi a mensagem de manhã. Felizmente quem recebeu sabe o quanto preciso de descansar e deu a resposta que se impunha! Hoje ainda estou a tentar evitar o disparar da dor para conseguir dormir. E até ver…estou maizomenos a conseguir, por isso vou publicar isto perfeitamente acordada e consciente do que escrevi e, por dentro, a rir sozinha dos disparates de quem precisa tanto de descansar e que até sou eu…

{#336.030.2025}

Dezembro, dia 4. O dia em que, todos os anos, se marca o Dia Nacional da Pessoa Com Esclerose Múltipla. Que, por acaso, também sou Eu.

Sou Pessoa Com Esclerose Múltipla. Sim. Já aceitei o diagnóstico? Não! Nem sei se algum dia isso irá (poderá?) acontecer. Não sei se tenho espaço em mim para, no meio do tanto que já sou, ainda ser esta Pessoa também…

É verdade que sou muito certinha com consultas, exames, tratamentos, fisioterapia, análises pré e pós infusão, o que for! Mas, não duvidem!, é sempre a medo, com medo!, que sigo para cada um deles. Porque nunca sei ao certo o que esperar, ou se devo, até!, esperar alguma coisa. Se sequer posso esperar…? Para uma doença incurável nunca sei muito bem o que…pensar? Esperar? Fazer? Dizer? Não sei…

Não sei mesmo. Sei a teoria toda! Mas depois é na prática que eu tenho que lidar com isto, todos os dias, 24 horas por dia. E é nessa prática que tenho que fazer o meu luto de mim mesma, do que já fui e não volto a ser. Fazer o luto do que fui, acolher o que agora sou. E já sou tanto…! Tanto que continuo a não me ver num diagnóstico que é o meu em que eu não me reconheço…

…preciso de chorar esse diagnóstico, chorar esse luto, processar, digerir, secar as lágrimas e seguir em frente.

Não sei se sei ser Pessoa Com Esclerose Múltipla a quem o dia 4 de Dezembro é dedicado a nível nacional. Sei apenas ser Eu. Igual a mim própria. E sei que, sendo apenas Eu, sou tanto e tanta coisa ao mesmo tempo! E pergunto: não era Eu já suficiente o tanto que já era…?

{#335.031.2025}

Em véspera de Lua Cheia. Em véspera de Super Lua. A última do ano que não tarda em terminar. E dou por mim a pensar que, tudo o que um dia termina, vira memória. Recordação.
…uma espécie de nuvem de um qualquer fumo que, com o tempo, se vai dissipando. As memórias que se cruzam e baralham nessa nuvem de um qualquer fumo que o vento desfaz e dispersa.

Este ano que termina em breve vai passar a ser uma nuvem de um qualquer fumo de memórias, recordações de importância relativa consoante quem revisita a nuvem de fumo. E acredito que o mesmo acontece com quem deixa de ser. Ou deixa de estar. Ou…

…não sei. Sei apenas que, em véspera de Lua Cheia, véspera de Super Lua, a última deste ano, dei por mim a pensar que eu própria, um dia, serei apenas uma recordação. Uma nuvem de um fumo qualquer que se vai dissipando…

Sei que, para tantos, já só sou uma leve recordação sem importância. Mas, com quem se mantém no tempo presente, quero muito criar memórias com importância. Daquelas nuvens densas de recordações, de todos os tamanhos e feitios. Do gesto mais pequeno até ao outro sem tamanho que fica tatuado na memória.

Sim, um dia serei como a Lua Cheia. Super Lua, última do ano, muito rapidamente mera recordação…

…não sei se estou preparada. Preparada para quê? Não faço ideia! Para criar memórias boas de recordar. Que começo a achar que estou a falhar em grande escala…e não quero! Mas esta…esta com quem estão a criar memórias, esta sou eu! E não sei ser de outra forma…para tantos já só uma leve recordação sem importância. Que não é, de todo, o que eu vos quero ser…

…e agora já me é fácil deixar correr as lágrimas…mesmo que chore sozinha, em silêncio. Mas, finalmente!, consigo chorar

{#334.032.2025}

Um bocadinho como os dois elevadores do meu prédio: em manutenção. Se é que ainda é possível fazer manutenção às 2 relíquias…

E se, num prédio de 8 andares, é possível estarem “ambos os dois em simultâneo ao mesmo tempo” parados para manutenção o dia inteiro (que na realidade até já vai no terceiro dia…), eu também posso encostar às boxes para manutenção durante uns dias, certo? É que, diz quem sabe, é “” uma constipação, mas que sem sistema imunitário a funcionar pode tornar-se um filme (de terror?) em menos de nada. E, muito sinceramente, não me apetece…