Category Archives: {#2025.Dezembro}

{#341.025.2025}

Chuva, sinónimo de ficar em casa.

Ao final da tarde, apresentar as primeiras páginas da carta que me pediram em jeito de trabalho de casa terapêutico. E aqui ainda é preciso continuar a escrever, sabendo que acabará por ser um primeiro passo para uma carta de despedida…que eu não quero escrever……

{#340.026.2025}

115… Que, para mim!, será sempre um número de emergência. E hoje, 3 meses, 3 semanas e 2 dias depois, ninguém faz ideia do esforço que tenho estado a fazer para……

……não fumar um cigarro! Que, já sei!, nunca seria só um. Um de cada vez, certamente. Mas nunca só um!

Mas o 115 já não existe e o actual número de emergência, o 112, não me pode ajudar. Talvez se eu seleccionasse a opção 4

As lágrimas estão à beira dos meus olhos e não me parece que peçam licença para começar a cair quando…

…quando voltar aos cadernos para continuar a escavacar-me completamente: joelhos e mãos esfolados, pés descalços a pisar pedrinhas no alcatrão quente

Não me posso esquecer: são palavras vs números. E um factor irrevogável: o Tempo.

Escrever a carta que me pediram. Não a de amor, ridícula como todas as cartas de amor, ou assim o afirma o Poeta. Escrever a carta que em Outubro disse não querer escrever…e que, neste momento, não vejo motivo para não escrever

Um cigarro na esplanada das mesas infinitas…alguém me traz, por favor…?

Obrigada.

…………

Duas horas se passaram na mesa do canto na esplanada das mesas infinitas. Dois cadernos onde a ideia era escrever, gravar num suporte físico tudo o que já deitei no éter. Powerbank para manter o telemóvel, não à tona de água, mas metaforicamente a salvo de um eventual mergulho em apneia a dois, o telemóvel e eu. Em apneia e sem saber nadar


O afogamento que não aconteceu porque, ao contrário do planeado, não me permiti ser vulnerável e escavacar-me por inteiro, joelhos e mãos esfolados e pés descalços a pisar pedrinhas no alcatrão quente. Porque ser vulnerável requer o que já não tenho: força. Para aguentar. Para sobreviver à vulnerabilidade.

…não escrevi. Não me escavaquei. Mas não me esqueci

Os números vão de 0 a 9 na sua raiz unitária, mas quando compostos são infinitos
vs
As letras são apenas 26, mas com a capacidade infinita de criação de palavras entre o nada e o tudo.

10.959 é sem dúvida um valor sobejamente mais elevado do que 915. E, por muito que se queira dizer o contrário, não é possível elevar 915 a algo que não é, nunca foi. E nem a organização semântica das letras com capacidade infinita de criação de novas palavras consegue fazer possível o que é irreal. Na balança que mede o peso, a força e o poder dos números infinitos e das letras e consequentes palavras, nem sempre vence o que queremos dizer, o que dizemos ou até o que já dissemos. Muitas vezes, vence a quantidade de vezes do que já foi ao longo do tanto tempo que também os números contabilizam.

Palavras vs números. Tanto uns como outros perdem qualquer significado quando confrontados com um factor irrevogável…: o Tempo.

E hoje foram 2 horas na esplanada enquanto o silêncio e a ausência já contam 7 horas…e continuam a somar…

…e, se calhar, joelhos e mãos esfolados, pés descalços a pisar pedrinhas no alcatrão quente e com isto acabei por me escavacar no permanente silêncio de quem não se pode queixar…de nada…e as lágrimas que hoje teimam em não cair são engolidas a seco e à força

…………

…e depois há aquele momento em que o tampo riscado da mesa da esplanada me leva de volta a 2017. Quando riscar a pele era tão fácil. E estupidamente apaziguador da dor que sentia, vivia?, naquela altura ainda…

os riscos na pele que traduzem dores numa linguagem que poucos entendem… É preciso chorar, as lágrimas teimam em não cair na ausência de quem me permite chorar. Permite…? Como se fosse preciso eu pedir permissão seja a quem for para verter as minhas dores em forma de lágrimas. Como se fosse preciso eu pedir permissão seja a quem for para simplesmente existir exactamente como sou! Nem mais nem menos do que e quem sou!

Vulnerável.

Escavacada.

Mas reconstruída. À força do “tem que ser“. Quando tudo o que eu queria era simplesmente poder ser. Naturalmente. À força de nada…!

As lágrimas acabarão por cair. Os riscos na pele? Tatuagens de vulnerabilidade

…e eu, aqui…

……sozinha……Sempre……

…………

São as noites. São sempre as noites. Vazias de pessoas. No silêncio para lá da música que me acompanha sempre. São sempre as noites que me confirmam: sozinha. Sempre. Desde sempre. Só eu e a música que está sempre presente.

Overwhelmed. Não gosto da tradução para português, não define exactamente o que sinto, o que estou para além de sozinha: overwhelmed. Como se tivesse nos meus ombros o peso todo do Mundo inteiro.

Mas à noite, no silêncio para lá da música que me acompanha sempre, não há ninguém. Que se sente comigo, me dê a mão enquanto procura resposta para as minhas perguntas, me acolha num abraço protector quando as respostas me agredirem com aquele choque de realidade do qual faço por fugir.

Não quero encarar o que já sei. O que vou conhecendo todos os dias mais um bocadinho depois de me ter apanhado na curva sem pedir licença.

Continua a não haver ninguém comigo que me recorde que eu não carrego o peso do Mundo inteiro nos meus ombros. Mas, quando aceitar o choque de realidade por completo, o peso de estar overwhelmed passa a ser suportável. Os ombros aliviam do peso que estupidamente carrego quando me recordar da luta dos números vs palavras. Aquela luta dos 10.959 vs a infinitude da mistura de letras cujo resultado se resume a Tempo. E é o Tempo que define a derrota. Que, como sempre, me pertence.

São as noites. São sempre as noites. Vazias de pessoas. Assim como os dias, também eles cada vez mais preenchidos de ausência e silêncio. Mas são definitivamente as noites, às 3h da manhã, em que não há ninguém para me aconchegar e me sussurre que está tudo bem…mesmo que não esteja. E são as noites que recebem aquele meu sussurro de quem, já sem voz, grita por socorro.

Socorro
que
não
vem…

{#339.027.2025}

Não me posso esquecer que números são só isso mesmo, números! Mas alguns dizem tanto mais do que gostaríamos…e não me posso esquecer que 10.959 é “infinitamente” maior do que apenas 917…mesmo que 917possa parecer tanto! Mas não é…

…e se eu chorar? Eu própria secarei as minhas lágrimas. Exactamente da mesma forma que tomarei as MINHAS decisõessozinha deixarei cair as minhas lágrimas, sozinha decidirei. Porque, lamento, eu também mereço mais…e em primeiro lugar estou eu…!

{#338.028.2025}

Savasana. A última postura, e a mais difícil de todas as posturas, a ser realizada numa prática de Yoga. Em português tem o nome de “Postura do Cadáver” e é a postura dedicada ao relaxamento no final da prática, aquele momento em que o corpo e a mente integram todas as posturas e seus benefícios executados na prática.

Habitualmente, temos feito o asana com música a acompanhar. E ajuda muito a relaxar e a deixar o corpo e a mente irem onde tiverem que ir fazer o que tiverem que fazer. Já aconteceu a música terminar a meio do relaxamento e, não nego, foi-me estranho: de um momento para o outro deixei de ter onde me agarrar enquanto relaxava. Era à música que me estava a agarrar… Mesmo sem música, costumamos ouvir os pássaros nas árvores ou nas gaiolas do r/ch, os carros que passam por ali, as ambulâncias que todos os dias a todas as horas atravessam esta terra. Muitas vezes ouvimos também a respiração de quem está mais perto…

…mas hoje…hoje o Savasana foi todo ele em silêncio. Ainda antes de começar, já não tínhamos música. Os sons da rua não nos chegavam. Não houve ambulâncias. Nada. Silêncio, apenas…

…um silêncio incomodativo de tão ensurdecedor! Faltou-me ouvir o Professor Pedro dizer que ali estamos em segurança, numa sala que conhecemos, para a prática de Yoga. Porque eu nunca tinha tido medo numa simples prática de relaxamento como tive hoje. Unicamente por estarmos em absoluto silêncio

…e a minha cabeça tem demasiado barulho, que só eu oiço, que incomoda demasiado e eu não encontro o botão para desligar o barulho…

{#337.029.2025}

Perguntou-me hoje um dos 500 Pedros dos meus dias quando conversávamos sobre as noites que eu chamo de terror por causa das dores no meu braço: “Então tu acabas por adormecer de cansaço, é isso?” e a minha resposta só pode ser “é isso exactamente!”. Porque acabo sempre por adormecer estoirada depois daqueles 30 minutos de ondas e picos de dor violenta, excruciante, a pior dor que conheço! São minutos longamente intermináveis que me esgotam por completo.

Felizmente a noite passada foi relativamente tranquila. Crise na noite anterior, crise de manhã, crise ao início da noite…
Consegui ficar acordada até um pouco mais tarde. A publicação do dia no blog foi feita à 1h08m da manhã. De seguida, o dia foi dado como terminado e fui para a cama muito perto da 1h30m. Mas já percebi que não posso estar cansada e ter o telemóvel na mão. Porque escrever no blog ou até no Instagram e carregar em publicar mas já estando a dormir não seria a primeira vez… Agora…que quereria eu dizer com a mensagem escrita e enviada à 1h56m? Não faço a mais pequena ideia. Mas não deixa de ser verdade: já era tarde, tal como agora!, e eu não me fui embora…

Vi a mensagem de manhã. Felizmente quem recebeu sabe o quanto preciso de descansar e deu a resposta que se impunha! Hoje ainda estou a tentar evitar o disparar da dor para conseguir dormir. E até ver…estou maizomenos a conseguir, por isso vou publicar isto perfeitamente acordada e consciente do que escrevi e, por dentro, a rir sozinha dos disparates de quem precisa tanto de descansar e que até sou eu…

{#336.030.2025}

Dezembro, dia 4. O dia em que, todos os anos, se marca o Dia Nacional da Pessoa Com Esclerose Múltipla. Que, por acaso, também sou Eu.

Sou Pessoa Com Esclerose Múltipla. Sim. Já aceitei o diagnóstico? Não! Nem sei se algum dia isso irá (poderá?) acontecer. Não sei se tenho espaço em mim para, no meio do tanto que já sou, ainda ser esta Pessoa também…

É verdade que sou muito certinha com consultas, exames, tratamentos, fisioterapia, análises pré e pós infusão, o que for! Mas, não duvidem!, é sempre a medo, com medo!, que sigo para cada um deles. Porque nunca sei ao certo o que esperar, ou se devo, até!, esperar alguma coisa. Se sequer posso esperar…? Para uma doença incurável nunca sei muito bem o que…pensar? Esperar? Fazer? Dizer? Não sei…

Não sei mesmo. Sei a teoria toda! Mas depois é na prática que eu tenho que lidar com isto, todos os dias, 24 horas por dia. E é nessa prática que tenho que fazer o meu luto de mim mesma, do que já fui e não volto a ser. Fazer o luto do que fui, acolher o que agora sou. E já sou tanto…! Tanto que continuo a não me ver num diagnóstico que é o meu em que eu não me reconheço…

…preciso de chorar esse diagnóstico, chorar esse luto, processar, digerir, secar as lágrimas e seguir em frente.

Não sei se sei ser Pessoa Com Esclerose Múltipla a quem o dia 4 de Dezembro é dedicado a nível nacional. Sei apenas ser Eu. Igual a mim própria. E sei que, sendo apenas Eu, sou tanto e tanta coisa ao mesmo tempo! E pergunto: não era Eu já suficiente o tanto que já era…?

{#335.031.2025}

Em véspera de Lua Cheia. Em véspera de Super Lua. A última do ano que não tarda em terminar. E dou por mim a pensar que, tudo o que um dia termina, vira memória. Recordação.
…uma espécie de nuvem de um qualquer fumo que, com o tempo, se vai dissipando. As memórias que se cruzam e baralham nessa nuvem de um qualquer fumo que o vento desfaz e dispersa.

Este ano que termina em breve vai passar a ser uma nuvem de um qualquer fumo de memórias, recordações de importância relativa consoante quem revisita a nuvem de fumo. E acredito que o mesmo acontece com quem deixa de ser. Ou deixa de estar. Ou…

…não sei. Sei apenas que, em véspera de Lua Cheia, véspera de Super Lua, a última deste ano, dei por mim a pensar que eu própria, um dia, serei apenas uma recordação. Uma nuvem de um fumo qualquer que se vai dissipando…

Sei que, para tantos, já só sou uma leve recordação sem importância. Mas, com quem se mantém no tempo presente, quero muito criar memórias com importância. Daquelas nuvens densas de recordações, de todos os tamanhos e feitios. Do gesto mais pequeno até ao outro sem tamanho que fica tatuado na memória.

Sim, um dia serei como a Lua Cheia. Super Lua, última do ano, muito rapidamente mera recordação…

…não sei se estou preparada. Preparada para quê? Não faço ideia! Para criar memórias boas de recordar. Que começo a achar que estou a falhar em grande escala…e não quero! Mas esta…esta com quem estão a criar memórias, esta sou eu! E não sei ser de outra forma…para tantos já só uma leve recordação sem importância. Que não é, de todo, o que eu vos quero ser…

…e agora já me é fácil deixar correr as lágrimas…mesmo que chore sozinha, em silêncio. Mas, finalmente!, consigo chorar

{#334.032.2025}

Um bocadinho como os dois elevadores do meu prédio: em manutenção. Se é que ainda é possível fazer manutenção às 2 relíquias…

E se, num prédio de 8 andares, é possível estarem “ambos os dois em simultâneo ao mesmo tempo” parados para manutenção o dia inteiro (que na realidade até já vai no terceiro dia…), eu também posso encostar às boxes para manutenção durante uns dias, certo? É que, diz quem sabe, é “” uma constipação, mas que sem sistema imunitário a funcionar pode tornar-se um filme (de terror?) em menos de nada. E, muito sinceramente, não me apetece…

{#333.033.2025}

De manhã: o Sol firme num céu azul forte, o frio do Inverno que se aproxima rapidamente, o Mar de ondas marcadas pela cadência da maré.
À tarde? Lá fora não sei. Cá em casa o tempo simplesmente passou. Fiz alguma coisa digna nota? Não que me recorde.


O termómetro bateu nos 37• que é coisa demasiado rara de acontecer comigo. E que, no meu novo normal, aprendi a querer muito evitar, especialmente menos de 2 meses depois de deitar o meu sistema imunitário abaixo.

A dor pavorosa no braço esquerdo tem estado controlada graças à nova medicação da classe do que eu sempre recusei mas que, desta vez, não tenho alternativa. Mas, por algum motivo, esta noite a dor voltou… Demasiado sensível às mudanças de temperatura. Se o braço aquece, não se aguentam as dores. Destapa-se o braço para arrefecer. Está demasiado frio. O braço gela e já não se aguenta a dor novamente. Tapa o ombro ou braço ou lá o que lhe quiserem chamar. Repete todo o processo. Até quando? Não faço ideia. Só sei que, por enquanto, vou dançando a dança do “Tapa, destapa!”. Que não vai poder manter-se para sempre.

…eu só sei que não aguento, nem a dança nem a dor…