{#186.181.2024}

Às vezes é preciso parar. Às vezes é preciso virar o Mundo de pernas para o ar.
Viparita Karani, a minha mais recente melhor amiga. Ajuda-me a parar, aliviar as dores, relaxar e respirar.

Deve ser a isto que chamam morcegar. E são (por agora) 15 minutos só meus. Com o tempo os minutos para mim irão aumentar.

E, durante esse tempo, não quero saber de nada, nem do Mundo lá fora e não estou para ninguém. Nem para a minha gata que, em pânico, tenta perceber se estou bem e o que é que estou ali a fazer deitada no chão e com as pernas na parede…

E, disseram-me hoje meio a sério, meio a brincar, que a minha sina é esperar. E parece que é mesmo. Continuo à espera de uma resposta a dois emails que, aparentemente, são irrelevantes. Para um médico. Para aquele que é suposto ser o meu médico. Especialista. Que, acreditei eu no primeiro momento, era quem me ia ajudar e tratar isto que me apanhou na curva. Mas, pelos vistos, não. Não quer saber. É-lhe indiferente? Talvez. Tem casos mais graves? Não duvido que possa ter. Mas silêncio? Ignorar um doente? Não dar uma única informação tão simples como o ponto de situação do meu processo? “Tem que esperar”, disse-me em Março quando o encontrei por acaso no secretariado. Mas isto foi em Março. E Julho já chegou e está a passar a correr. E o primeiro email enviado está quase a fazer 3 semanas. E, parece-me, nem o segundo email que iria ser impresso, como foi o primeiro, com a anotação manual de “MUITO URGENTE” mereceu qualquer atenção, qualquer resposta. Silêncio. Absoluto. E, porque estou muito cansada de esperar, amanhã vou novamente insistir. Porque eu preciso de ter informação… Estamos aqui a falar de um assunto sério, que trata da minha saúde e traz implicações sérias na minha vida. E, neste momento, só estou a pedir um ponto de situação…

Por outro lado, sei que noutro lado estão dispostos a receber-me de braços abertos e a dar-me toda a ajuda que preciso e todo o acompanhamento urgente e necessário. Mas até para isso tenho que esperar… Mensagem enviada à médica de família com toda a informação e com pedido de orientação. Mensagem enviada ontem…percebi hoje que há SMS minhas que não estão a chegar ao destino. Pode ser o caso. Pelo que arrisquei reenviar pelo Whatsapp. E, para alguém que responde sempre e por vezes até telefona, não é normal também ela se remeter ao silêncio…

Eu tenho a solução ali à minha espera de braços abertos. Só falta o pedido da médica de família. E eu à espera…

À espera, sempre à espera. De tudo. Seja o que for, tenho sempre que esperar. E estou cansada. Tão cansada de esperar. Tão cansada de burocracias. Tão cansada de falta de interesse em situações sérias. Tão mas tão cansada…a vontade é de baixar os braços, desistir de tudo, incluindo de mim mesma, e chorar. Simplesmente desistir e chorar. Porque, pelos vistos, a minha sina é, de facto, esperar. E eu não quero esperar mais. Eu não posso esperar mais. Só me resta desistir. De tudo, o que implica também desistir do mais importante: eu.

Estou cansada. Tão cansada. Eu não pedi para ser apanhada na curva por coisa nenhuma! Mas fui! E, a única coisa que me dizem é “tem que esperar”…isto quando já sei que noutro lado também esperam por um pedido simples, que é feito por computador, que chega ao destino de imediato, onde me irão receber de imediato e tratar de mim como eu preciso.

Às vezes dou por mim a pensar que mereço tudo isto. O que me apanhou na curva e o silêncio e abandono de quem me deveria ajudar. Pergunto a mim mesma porquê e não sei a resposta. Mas sim, sinto que algures no tempo fiz alguma coisa muito errada e agora estou a pagar por isso. Não encontro outra explicação para todo este silêncio. Toda esta inactividade. Todo este desprezo, no fundo… Sinto-me cada vez mais sozinha e desamparada por parte de quem tem obrigação profissional de se mexer, de me acompanhar, de me seguir, de ir sabendo do agravamento da sintomatologia e de me ajudar a combater uma coisa que não tem cura, que é progressiva, que é neuro-degenerativa, que é séria. Não é terminal, não é letal. Se fosse, da forma como o processo se está a desenrolar, talvez já não estivesse aqui hoje a escrever…

Sim, estou muito desanimada. Muito perdida. A sentir-me abandonada. Desprezada. E só quero sair deste filme! Quero acordar um dia e perceber que foi só um longo sonho muito mau e, depois de acordar, seguir para a minha vida normal que já não acontece há 10 meses…! Mas, como não é um longo sonho muito mau, amanhã vou acordar para mais um dia de espera, de ver o tempo passar e de nada a acontecer…

Estou tão cansada… E tão perto de desistir. Da espera a que me obrigam. Do acompanhamento que preciso e não tenho. Do tratamento que não chega. E é tão fácil desistir disso tudo. E é tão fácil desistir de mim mesma

{#185.182.2024}

De novo as dores nas pernas. Fisioterapia de manhã em que para lá não houve qualquer problema com a marcha, exercícios ligeiros que não justificam o que veio depois…

Ao voltar para casa, sair do autocarro já com algum incómodo nas pernas, ir até à esplanada que fica em frente à paragem para um café, deixar-me ficar por ali um bocado e ganhar coragem para me fazer ao caminho. São uns 400 metros da paragem até casa, portanto nada de extraordinário. Mas, se não fosse a presença da minha mãe, não sei mesmo como iria conseguir voltar para casa… As pernas, mais uma vez, não obedeciam e gritavam-me já não terem forças para dar mais um passo…mas tiveram que dar porque eu tinha que voltar para casa. E era logo ali… Foram 400 metros com muitas pausas, muitas paragens, muitas dores que não sei de onde vêm.

Já em casa, não havia posição para estar…as dores, a falta de força, a minha vontade de chorar e não conseguir…

Lembrei-me das aulas de Yoga. Tinha que recuperar para a aula de hoje. Mas tinha também, já há uns dias, um asana sugerido pelo professor que sabia que me poderia ajudar. E hoje deixei de ser preguiçosa e fiz o que tinha que fazer. Deitada no chão, pernas na parede, respirar de forma profunda e consciente. Tempo recomendado pelo professor: 10 minutos. E assim foi.

10 minutos dedicados exclusivamente a mim e, mais uma vez, inspeccionados pela gata que, a primeira vez que fiz isto em casa, ficou assustada por me ver no chão sem reagir aos miados, às cabeçadas, aos toques com as patas. Até que, terminados os 10 minutos, me levantei e ela percebeu que estava tudo bem. Estávamos só as duas em casa e percebi que ela estava um bocadinho em pânico dessa primeira vez. Mas, na vez seguinte, sabendo que estava tudo bem, deitou-se em cima da minha barriga e do meu peito e ali ficou os 10 minutos.

A verdade é que, hoje, percebi o poder dos asanas. As dores que sentia nas pernas antes desses 10 minutos foram lentamente desaparecendo. A descoordenação e falta de força também. Quando terminei, era outra. Sem dores, a conseguir andar, sem queixas e com energia para, dali a pouco tempo, caminhar até à aula de Yoga.

Tive algum receio que as dores voltassem no final da aula, especialmente por ter sido uma aula intensa. Mas hoje também era dia de Yoga Nidra, o tal relaxamento profundo que me permitiu descansar e recuperar antes de me fazer ao caminho de volta.

Consegui fazer o caminho de volta para casa a bom ritmo, sem muitas dores ou mesmo nenhumas. Voltaram depois de parar. Mas não tão fortes como de manhã ou como ontem.

Dizem-me que o calor é o meu maior inimigo nesta coisa que me apanhou na curva. E estas dores e falta de força só podem vir daí. Não vejo outra explicação. E amanhã prevê-se, novamente, um dia muito quente. E eu tenho um compromisso marcado na vila para as 12h30, hora da torreira do Sol em que, no caminho até lá, escasseiam as sombras. Já sei que o ir até é fácil. O problema está sempre no regresso. Mas agora também já sei o que fazer para aliviar as pernas e combater as dores: Viparita Karani.

Comentei com o Pedro, o professor de Yoga, o resultado deste asana esta tarde. “Se ficaste 10 minutos, para a próxima ficas 15. E vais aumentando o tempo. Quanto mais tempo conseguires manter, melhor te faz.” Portanto, sim!, é de introduzir o Yoga no meu dia a dia devagarinho. Já há algum tempo que digo que duas aulas por semana já não me são suficientes, por isso nada melhor do que introduzir alguns asanas, mas sempre com a orientação do Pedro, claro.

E sei que o Yoga me vai ajudar. Não a melhorar, porque nesta coisa que me apanhou na curva não há melhoras, mas a manter o equilíbrio mental que necessito para trabalhar o equilíbrio físico que cada vez está pior… E enquanto não tiver acompanhamento adequado, então é que não melhoro mesmo. Se é que é possível melhorar de uma condição neuro-degenerativa…

Mas, pelo menos, hoje tive boas notícias da responsável da SPEM com quem falei ontem. Está um serviço de referência disponível para me ajudar, só falta chegar o papel da médica de família. A quem já expus a situação e de quem ainda não tive resposta, mas que sei que irá responder. Ao contrário do médico especialista que se mantém em silêncio desde Fevereiro sobre o meu processo…

Enfim. É esperar só mais um bocadinho. Mas, saber que tenho para onde me virar para pedir apoio e saber que há uma equipa de especialistas dispostos a tratarem de mim, não tem preço. A ver se isto desbloqueia de alguma forma. O que não pode acontecer é eu não ter qualquer acompanhamento do especialista. Existe agravamento de sintomatologia, existe um pedido de ponto de situação sem resposta, existe uma consulta marcada para daqui a três meses. E eu não posso esperar por Outubro para ter uma resposta que precisava ontem.

Vamos ver o dia de amanhã, como corre. Agora, e a esta hora que já é tão tarde, o mais urgente é ir descansar.

Mas é triste ver que as coisas só se mexem porque alguém conhece alguém que conhece alguém que está no sítio certo…

Enfim…é, mais uma vez, continuar a encolher os ombros, sorrir e acenar. Não posso fazer muito mais.

{#184.183.2024}

Dia estranho este. Sair de casa antes do calor em excesso para perceber que às 10h já não se aguentava o calor.

Ir à vila buscar o resultado de análises, beber um café na sombra da esplanada servida de um pouco de vento fresco. Ficar ali por um tempo a ganhar coragem para fazer o caminho de volta. O caminho para lá nem custou muito, mas o que custa sempre tanto é o regresso…

E o regresso foi penoso… Doloroso até. Os últimos 200 metros ainda não sei como foram feitos. As dores. A falta de força nas pernas. E o destino já ali à minha frente e eu sem conseguir alcançá-lo tão depressa como noutros tempos…

Chegar a casa, mudar de roupa, almoçar e uma dificuldade tremenda em deslocar-me do cadeirão para o sofá. Dores. Nas pernas. Nos joelhos. Resultado de uma caminhada de 2,810km. Que não é nada. Mas que, no meu caso, é imenso. E que me custa horrores arrastar a minha mãe para isto quando, antes disto, eu ia e vinha sozinha…

Receber entretanto uma mensagem de alguém que conhece alguém que conhece alguém que está no sítio certo para me ajudar: a SPEM. “Ela quer falar contigo, liga-lhe.” E liguei. E percebi que está ali alguém com o coração no sítio certo e que, para além disso, tem todas as ferramentas para me poder ajudar. Vamos começar aos poucos, devagar, mas já com tanta coisa que eu tenho que fazer para fazer valer os meus direitos decorrentes desta coisa que me apanhou na curva.

Agora é começar a organizar-me. E tenho mesmo que o fazer rapidamente. Amanhã é o último dia de tratamento deste ciclo de fisioterapia e depois terei que aguardar por uma vaga. Portanto, vou ter tempo para me organizar. Só preciso que o meu corpo corresponda e não ceda ao cansaço ou à fadiga e me permita fazer algo por mim, especialmente agora que tenho quem me dê a mão e me oriente…

Claro que, mais uma vez, queria deitar-me cedo. Claro que, mais uma vez, não vai acontecer. E a vontade de chorar não me larga…mas, para variar, não choro porque não consigo…

Preciso de colo, preciso de um abraço. Mas só os consigo ter à distância de um clique. E ainda bem que os tenho! Porque me fazem não desistir de mim mesmo sem saber. Já lhe disse isso. Tinha que o dizer. Por isso, agora que já é hora de enroscar e aninhar, vou só ali receber e sentir esse colo e esse abraço que tanta falta me fazem, que tão bem me fazem.

Amanhã? Logo se vê. Mas, dependendo de mim, será um dia bom. Porque é o que eu quero, é o que eu procuro, é o que eu preciso.

{#183.184.2024}

Segunda feira é sinónimo de cansaço. Muito cansaço. De quê? De nada!

Dormir tarde e acordar cedo não ajuda, é um facto. Mas o dia resumiu-se a uma manhã na Fisioterapia que, já sei, é para continuar e uma passagem rápida pelo Centro de Saúde para deixar o relatório do Fisiatra e o pedido de prescrição de continuação dos tratamentos.

Depois, foi aguentar o calor e o Sol. O chapéu, claro, ficou em casa e não pode. O Sol e o calor, já sei, não me fazem bem nenhum. Muito pelo contrário…

A visão dupla que continua presente e, ao fim de duas semanas, ainda a ausência de resposta ao email enviado ao cuidado do Neurologista onde apenas peço um ponto de situação. Reenviei o email, reforcei o pedido de resposta, informei da persistência e agravamento dos sintomas. Ainda não tive resposta ao email, claro, mas tive um telefonema da administrativa do secretariado que me tem sempre recebido tão bem e que tem sido incansável, mesmo não podendo fazer muita coisa. Garantiu a recepção e encaminhamento do primeiro email, confirmou a recepção do email de hoje e assegurou que o mesmo será encaminhado para o médico e ainda impresso com indicação de “Muito Urgente“. E, tanto num como no outro, apenas peço um ponto de situação. Nada mais.

Referi a ansiedade gerada pela ausência de informação, o agravamento da depressão e a sensação de abandono relativamente ao processo de algo que me apanhou na curva e com a qual eu não sei lidar por total ausência de informação…

Vamos ver se desta vez consigo alguma resposta. E eu só quero saber o ponto de situação. Nada mais…

Estou cansada disto. Que, já sei, é um processo longo e demorado. Mas a ausência de informação não é benéfica para ninguém…

Claro que tinha prometido a mim mesma começar a deitar-me mais cedo esta semana. Já não vai acontecer, agora que passa das 23h45. Claro que tinha prometido a mim mesma começar os exercícios de Yoga em casa hoje. Não aconteceu. Claro que tinha prometido a mim mesma começar a fazer em casa os exercícios da Fisioterapia. Também não foi hoje que aconteceu. A falta de ânimo faz-me falhar comigo mesma. E não pode continuar…

Amanhã é dia de ir buscar resultados de análises. Amanhã é dia de estar muito calor. Amanhã vamos ver como se vão conjugar esses dois factores…

Por agora, dormir é preciso. Não posso continuar a ir para a cama tão tarde. Mas a minha cabeça está sempre numa constante luta que não me permite desligar mais cedo…

Amanhã? Logo se vê. Vou tentar sobreviver ao calor e não me esquecer do chapéu em casa quando sair. De resto, é o que tiver que ser. Mas, confesso, quero muito receber uma resposta aos meus emails. E só peço um ponto de situação…

{#182.185.2024}

Domingo. Mais um dia. Menos um dia.

Menos um dia sem ti. Mais um dia contigo. À distância de um clique.

Até que um dia os meus cuddle buddies serão postos de lado. Porque a 211 vai-se impregnar na minha pele.

Um dia. Não sei quando. Não sei como. Não sei onde. Mas sei porquê. E não duvido que um dia.

{#181.186.2024}

Sábado, aquele dia aborrecido da semana. Menos de manhã.

O dia começa cedo. Acordar cedo, tomar o pequeno almoço, vestir a roupa mais confortável e desportiva. Tentar ter tempo para beber um café antes de sair. E hoje não consegui. E sair de casa de manhã cedo sem um café é difícil…

Saí já para lá da hora. Mas à hora certa estava a entrar na aula de Yoga.

As aulas de Yoga supostamente têm uma duração prevista de uma hora. Mas, ao sábado, isso raramente acontece. Duas horas? Sim, é o que acontece mais ao sábado. Mas, na verdade, nem se dá pelo tempo passar. Trabalha-se o corpo, acalma-se a mente. E, no final da aula, pede-se indicações de asanas para fazer todos os dias em casa, de manhã e ao final do dia.

Agora só falta disciplinar-me para começar essa rotina. De manhã requer apenas 5 minutos. Ao fim do dia, são 10. É possível fazer. Mas eu conheço-me… Tenho que me contrariar e iniciar esta rotina. Só me vai fazer bem. Não tenho nada a perder.

Outra rotina que tenho que começar é dormir cedo. Não está a acontecer e não me faz bem. Excepto, claro, quando alguém está de serviço à distância de um clique e tem disponibilidade para conversar, fazer companhia, trocar mimos. Aqui, a única coisa que falhou foi a conversa não acontecer olhos nos olhos e os mimos pele com pele. Mas, e já o disse a quem de direito, foi uma noite muito bonita. Quase perfeita, mesmo. Só faltou ser à distância de um abraço.

Mas são estes momentos, bem como todos os outros que temos à distância de um clique, que me completam. Não sei como é que isto aconteceu, sei apenas que deixei um Olá numa rede social para quem o quisesse receber. E alguém recebeu e retribuiu. A partir daí algo aconteceu de ambos os lados. Duas almas que se reconheceram de outras vidas? Eu sei lá. Sei apenas que, desde o primeiro momento, tudo fez sentido, as peças encaixaram e tudo o resto se desenrolou rapidamente. E com uma intensidade sem descrição possível.

O que aconteceu a partir dali, o que continua a acontecer diariamente, de manhã à noite, foi, e é!, uma espécie de magia.

Não é um sonho. Porque os sonhos não são realidade. É mais do que isso. É uma realidade só nossa. Que mais ninguém precisa de entender. Ou até de saber. É um encaixe perfeito de duas peças de Lego num jogo tantas vezes ingrato e injusto chamado Vida. É uma coisa boa que me aconteceu.

É um encontro. Ou será um reencontro? É o que for. É nosso. nosso. E é nosso todos os dias. A todas as horas. Para o bom e para o mau. Estamos sempre presentes, prontos e disponíveis um para o outro. Apesar dos 135 km que nos separam. E de tantas outras coisas que a Vida se encarregou de colocar no caminho e que não nos permitem encurtar a distância. 135 km não é nada. Mas o resto…o resto é muito.

A noite de ontem roçou a perfeição. Só faltou a pele com pele, os olhos nos olhos.

Mas não duvido que, um dia, não sei como, não sei quando, não sei onde, o que faltou ontem vai acontecer. E nessa altura vou poder dizer que a perfeição existe. E está ali, na presença de duas pessoas que se encaixam, se reconhecem, se aceitam, se amam.

Sábado, aquele dia aborrecido da semana. Manhã de Yoga. Tarde para recuperar de uma noite pouco dormida. Mas que valeu cada segundo que fui adiando o momento de dormir.

Amanhã? O tempo lá fora não convida a grandes passeios. A conversa vai continuar a acontecer à distância de um clique. E, como aprendi por aí com alguém que tem um lugar especial cá dentro, está tudo bem.

{#180.187.2024}

“It’s OK not to be OK”…

Se eu hoje podia estar melhor do que ontem? Se calhar, se não tivesse adormecido depois das 2h da manhã para acordar às 7h, podia…mas também tenho o direito a não estar a 100%. Tenha dormido mais ou tenha dormido menos, não interessa.

O que interessa é que estou cá. O resto? Logo se vê. Entretanto, é tudo devagar, devagarinho.

Bom dia que já é de tarde e já fui ali a duas horas de fisioterapia e não volto para casa tão cedo.

——-

Cheguei a casa às 17h17m, a fotografia foi tirada às 12h25m. Foi muito tempo fora de casa e a dar uso às pernas? Foi. Fez-me bem? Fez.

Mas ainda não foi hoje que o telefone tocou…

{#179.188.2024}

Quanto tempo pode demorar, cá em casa, até se iniciar uma conversa séria previamente anunciada? Muito. Demasiado. Porque, em vez de ser chamada para dar início à conversa que eu mesma anunciei, fui trocada pelas novelas da noite de ontem…

Mas hoje, ao final da tarde na esplanada do costume, ganhei coragem e puxei a conversa. Não iria conseguir fazê-lo em casa, onde cada vez me sinto mais presa.
E disse: estou cansada, estou completamente sozinha, preciso de ajuda porque não estou bem.

Falámos desta coisa que me apanhou na curva e que é a responsável pelo meu actual estado altamente depressivo (e que não só me preocupa como também me assusta). E tudo por estar completamente sozinha. E por não saber lidar com a solidão e muito menos com esta frustração que me consome.

E não me digam que não estou sozinha, porque estou. O telefone não toca. Na esplanada é mesa para um. E nem o médico respondeu ao email que enviei dia 17.
Não sei lidar com isto tudo sozinha. Não consigo. E preciso de ajuda, mas não me apetece ir novamente à urgência de psiquiatria…

A solidão dói. A solidão, em casos extremos, mata. E a mim mata-me todos os dias mais um bocadinho…

Não posso ser injusta. Quando digo que estou completamente sozinha, não estou a ser justa. Porque há 3 pessoas que tenho que referir:

– a minha mãe, claro, que tem feito o que pode e o que sabe para aguentarmos as duas todo este processo que se arrasta no tempo e todas as dificuldades e limitações que me têm chegado e que, sei-o, a afectam a ela também. Que me acompanha a todas as consultas e exames. Que, acima de tudo, aguenta o meu mau humor nos dias mais difíceis, que faz de tudo para que não me falte aquilo que eu não consigo fazer, que me serve de apoio quando só a bengala já não me é suficiente e vai comigo para o Yoga e fica lá à espera, às vezes duas horas, para eu conseguir voltar para casa…

– o Polvinho que me acompanha há pouco mais de um ano, quando tudo ainda era um Burnout que rapidamente passou a uma suspeita e que desde o primeiro momento me disse que caminhamos juntos de mão dada e que, se o caminho se tornar mais difícil, me leva ao colo. Não, não me esqueço destas palavras que ninguém, nem ele!, imagina a importância que tiveram naquele momento em que as dificuldades e limitações ainda não eram as que são hoje mas que já me davam momentos grandes de desânimo e frustração. E ainda só estávamos no campo da suspeita e à espera de marcação de consulta… Um Polvinho que não desiste de mim, que já fez questão de dizer que não pretende ir a lado nenhum quando eu mesma lhe disse que era tudo demasiado pesado e que entenderia se ele se afastasse. Todos os dias, a distância de um clique, há mais de um ano, há um Polvinho que não desiste de uma Corujinha mesmo nos dias menos bons como têm sido os últimos…

– o P de Presente, que me abanou e trouxe de volta à Terra e, quase de imediato, se fez P de Presença. Que veio até cá uma tarde. Para que eu pudesse sair de casa, ir beber um café e ter uma conversa normal, nem que fosse sobre o tempo!, e que nessa tarde tinha uma Nortada intensa e desagradável. O mesmo P de Presente, P de Presença que me levou a ver o pôr do Sol na baía como há tanto tempo eu queria, onde jantámos, conversámos e quase nos esquecemos desta coisa que me apanhou na curva. Que agora está de férias, mas que acredito que voltará a ser P de Presença quando regressar. E que percebeu, logo naquela tarde em que fomos beber café, que eu trago muita raiva em mim e que um apoio psicológico seria muito importante para mim neste momento momento.

São estas as três pessoas que me fazem sentir um bocadinho menos sozinha. Mas, tirando estas três pessoas, cada uma num papel/estatuto diferente, faltam-me os outros. Os que enviam mensagem no início de Maio e dizem “estou de férias, ligo-te e vamos beber um café no fim de semana”, mas o telefone nunca tocou e o café não aconteceu. Aqueles que dizem “esta semana vai acontecer, vamos beber um café” e desaparecem no éter. Aqueles que têm o meu contacto, seja ele de telefone, de Facebook ou Instagram. Que podem rapidamente chegar até mim sem terem que vir até cá se estiverem longe…

Na conversa desta tarde com a minha mãe foi dito o que ambas sabemos ser verdade: as pessoas, quando há uma doença pelo meio, ficam sem saber o que dizer. Acredito nisso e aceito. Mas basta que me digam Olá. E vão perceber que eu continuo a ser EU. Porque, e não me canso de dizer isto, eu TENHO uma doença, mas eu NÃO SOU a doença. Ainda por cima uma doença não transmissível, que não se pega a ninguém! As pessoas podem ficar sem saber o que dizer, mas não precisam de, simplesmente, desaparecer. E foi isso que aconteceu.

Por isso, sim!, digo que estou completamente sozinha, tirando as três excepções que já referi. E a solidão é um bicho que nos consome. E a mim está a consumir demasiado. Porque eu preciso de pessoas. De ver pessoas. Estar com pessoas. Falar com pessoas. E não estou com ninguém…

Sinto-me demasiado presa em casa. E, quando saio, é para ir a Almada à fisioterapia, ou ao Hospital para análises ou exames, ou ao CDP para consulta e medicação para a terapêutica preventiva. Curiosamente, há poucos dias dei por mim a dizer que estava cansada e farta de não sair deste rectângulo. Hoje, ao falar sobre isto com a minha mãe, percebi que não se trata de um rectângulo…casa, Almada, Hospital e CDP cruzam-se…portanto, eu não saio desta cruz!

Há um ano atrás eu ainda dizia “eu vou aí ter para um café”, fosse em Almada ou fosse em Lisboa. Porque, há um ano atrás, ainda podia. Ainda conseguia. Ainda ia sozinha para todo o lado e sem dificuldades ou limitações. Simplesmente ia. Ponto. Hoje? Não o faço. Não tenho confiança suficiente para o fazer. Ir sozinha de autocarro para Lisboa? Não me sinto segura para ir sozinha. Por isso já não digo a ninguém “eu vou aí”.

É! É um sentimento de frustração muito grande e de solidão ainda maior. E de revolta. E de negação. É querer voltar a ser quem era, como era e saber que isso nunca mais vai acontecer… É estar revoltada com tudo isto, mas acima de tudo estar revoltada e zangada comigo mesma! Porque eu não procurei isto, eu não pedi isto. E continuar há meses à espera de alguma resposta do médico gera uma enorme ansiedade que também não me faz bem e me faz sentir ainda mais sozinha, para não dizer logo abandonada

Também é querer, e precisar de!, chorar e não conseguir. Mas, acima de tudo, é a solidão, os dias vazios, ver o tempo passar, não fazer nada para além da fisioterapia 3 vezes por semana e o Yoga 2 vezes por semana. É o querer aproveitar o calor e a proximidade para fazer praia e não poder porque o calor é, nesta doença, o pior inimigo. É querer fazer caminhadas até ao paredão para ver o Mar e saber que, se o fizer, demoro 3 horas e no dia seguinte não consigo andar…

Como disse à minha mãe esta tarde, isto que me apanhou na curva é uma merda! E é. E eu estou farta. E preciso de ajuda para aprender a lidar com tudo isto, que é demasiado! E preciso de ajuda hoje, não só no dia 17 de Julho na primeira consulta com o psicólogo do Hospital. E sim, já estive mais longe de voltar à urgência de psiquiatria…

Eu não quero nada disto para mim. O que eu quero é deixar de me sentir tão sozinha. E o que eu preciso é de ajuda…

Deixo aqui este desabafo hoje. Sei que terei dias melhores. Mas a solidão está a consumir-me todos os dias mais um bocadinho. E a matar-me todos os dias mais um bocadinho. Porque a solidão dói. E a solidão mata. E eu não quero continuar completamente sozinha como me sinto agora………

{#178.189.2024}

Quarta feira é o dia mais preenchido da semana. De manhã, fisioterapia. Ao fim do dia Yoga e Nidra.

Antes de vir aqui escrever, tenho estado a pensar que não, o dia não foi bom. Mas também não foi mau. Foi só um dia que começou muito cedo, não parou para um intervalo entre o pós almoço e o lanche antes do Yoga como acontece sempre para recuperar da fisioterapia e seguir em condições para o Yoga. Nesse intervalo de tempo que eu tinha reservado para descansar, fizeram-me perder tempo em chamadas para a Segurança Social e para a parte administrativa do SNS. E esta última foi mesmo uma total perda de tempo e até algo surreal. Fez-me perder tempo. E eu detesto que me façam perder tempo…

Consegui, ainda assim e muito cansada, lanchar, mudar de roupa, arrumar na mochila o material para o Yoga, sair de casa a tempo de beber um café, seguir caminho calmamente e ainda chegar antes da hora.

Já não passo sem o Yoga e cada vez tenho mais vontade de inserir rotinas de Yoga no meu dia. Gostava de conseguir fazer um ou outro asana logo de manhã ao acordar, para alongar e energizar o corpo para o resto do dia, mesmo que não tenha nada para fazer. E terminar o dia com um ou outro assana de relaxamento para uma noite tranquila. Tenho que falar com o Pedro, o professor, sobre isso. Tenho que ter alguma coisa para fazer durante o dia. Para não me sentir como me sinto todos os dias: inútil.

E hoje, dia de Nidra depois da aula, ou seja aquele momento de relaxamento profundo com meditação guiada, a miúda do sorriso fácil que não tem conseguido sorrir em pleno relaxamento e meditação deu por si a sorrir pela experiência que estava a ter… Flutuar. Até ao azul do céu. Perto das estrelas. Por entre as nuvens. E ver, lá em baixo, a nossa casa, o planeta Terra. Só quem já experimentou algo do género me irá entender. Mas posso dizer: foi tão bom. E o sorriso simplesmente apareceu quando tudo o resto, todo o corpo, estava profundamente relaxado. E a flutuar por aí.

No final, depois de voltar ao tapete e à sala onde fazemos a aula, comentei com o Pedro a questão do meu sorriso ter aparecido no meio da meditação. E o rosto dele iluminou-se e disse-me “é porque resultou!” E, já percebi, é este o meu caminho. É por aqui.

Ficámos de falar amanhã. Com mais tempo, porque ele teve que sair logo. “Conversamos amanhã com mais tempo”, disse ele. Se vamos conversar ou não, não faço ideia, mas é bom perceber que estou no caminho certo.

No caminho de regresso a casa lembrei-me que, de manhã na fisioterapia, também tive um momento que me soube muito bem. Ao chegar ao ginásio, o Zé Tó, que conheci quando era transportada pelos Bombeiros de Almada, cumprimenta-me sempre. “Bom dia, Catarina!” Mas hoje, e para minha surpresa, acrescentou “o senhor Rui mandou um beijinho!” E o bem que me soube! O senhor Rui é um dos Bombeiros de Almada que efectua transporte de doentes não urgentes para consultas e/ou tratamentos. E que durante várias semanas me levou à fisioterapia e trazia de volta a casa. Uma pessoa cinco estrelas. Educado, bem formado, bem disposto, com quem eu ia sempre a conversar. Fosse qual fosse o assunto. Não vejo o senhor Rui desde a minha última ida ao Hospital, em que passei pelo Serviço de Medicina Física e Reabilitação a uma hora que sabia que, muito provavelmente, o iria encontrar. Fiz questão, claro, de me desviar do meu caminho para o ir cumprimentar. E fui muito bem recebida por ele. Quando comecei a fisioterapia na clínica já sabia que me iria cruzar com o Zé Tó que continua a ser transportado pelos Bombeiros de Almada, logo, pelo senhor Rui. Já tenho dito ao Zé Tó para mandar um beijinho meu ao senhor Rui, mas nunca esperei que retribuísse. Por isso, esta manhã ao ser recebida no ginásio da clínica pelo Zé Tó, soube muito bem. Um dia faço uma visita ao quartel dos Bombeiros só para dizer um Olá. Porque há pessoas que passam por nós e nos marcam pela positiva. E o senhor Rui é uma dessas pessoas.

Não me posso queixar muito do dia de hoje. Porque, para além do sorriso que surgiu na meditação e o doce recado matinal do Zé Tó, à noite tive a oportunidade (e a necessidade!) de mandar cá para fora tanta coisa que me anda a consumir nos últimos dias. Despejei tudo com quem está à distância de um clique. Mas que, há um ano, tem estado sempre. E que desde o primeiro momento que está ao corrente do que se passa comigo. Sei que, muitas vezes, a frustração lhe bate à porta quando sabe que não estou bem e não pode fazer nada. E, acredito, com tudo o que despejei hoje, a frustração voltou a incomodar. Mas, e para mim o mais importante, foi ter-me dito que não faz questão de ir a lado nenhum quando lhe disse que não era obrigado a ficar pelo peso do que me apanhou na curva.

Portanto, com calma e tempo para escrever e reflectir sobre o dia de hoje que no início deste longo texto eu achava que tinha sido uma merda, percebo agora que não, não foi. Teve pelo menos três coisas boas, três pontos positivos. E isso é o suficiente para dizer que, afinal, apesar de pelo meio me terem feito perder tempo, até foi um dia bom.

Agora que já é tarde, muito tarde, está mais do que na hora de ir, finalmente, descansar. Amanhã não tenho programa para o dia, mas gostava que o Pedro, o professor de Yoga, me ligasse para conversarmos um bocadinho sobre o Nidra de hoje e sobre outras coisas que vamos sempre deixando pelo caminho. Por isso, sim, hoje foi um bom dia. Amanhã? Vai ser um dia preguiçoso. E depois logo se vê.

{#177.190.2024}

E hoje, por uns minutos, a miúda do sorriso fácil que não sorri há algum tempo, sorriu.

Tudo porque, inesperadamente, recebeu uma mensagem que se iniciou ainda nos anos 80 naquela escola preparatória que ainda hoje desperta memórias.

Perguntou o André, talvez meio a medo de não ser lembrado, se ainda me lembro. Claro que lembro! Como não?

Estivemos na mesma turma do quinto ao fim do nono ano. 5 anos. Naquela altura em que estamos a crescer e a tentar perceber o que é, afinal, essa coisa chamada vida.

Com o André aprendi mais do que ele sabe que me ensinou. Ele também não sabe, porque nunca lhe disse, foi o meu melhor amigo naqueles anos.

André Filipe porque havia outro André e era preciso distinguir de qual André se falava. Mas para mim ficou só O André.

Fez-me ganhar o dia no tempo de um intervalo de telejornal.

A vida foi correndo o seu caminho, cada um seguiu para seu lado. Mas é tão bom quando reencontramos alguém (de quem mais ou menos se foi sabendo por onde andava) de quem gostávamos há mais de 35 anos e de quem continuamos a gostar muito.

E, naquele intervalo de telejornal em que estivemos a conversar, tudo o resto desapareceu. A dor de cabeça desapareceu, o peso do meu Mundo às costas, a ansiedade permanente…e o sorriso apareceu.

O André sabe, porque desta vez lhe disse, que me fez ganhar o dia. E tudo só porque queria saber como estou, depois de se ir cruzando com o que escrevo.

E, às vezes, são estas coisas aparentemente pequeninas que fazem toda a diferença numa pessoa sozinha como eu.

Muito obrigada, André. E vou seguir a tua prescrição: ouvir Nosferatus 3 vezes ao dia! Mas, quando for o concerto aos 50, quero assistir! Nem que seja por vídeo!

(Isto à hora de almoço. Mas as memórias continuaram a surgir durante a tarde…)

A caminho de mais uma consulta, e continuam a chegar memórias do e com o André. Como naquela tarde em que não tínhamos aulas, reunimos o grupinho do costume e nos fomos sentar no topo de um monte de, oh espanto!, brita! Havia por ali obras e, sem nada mais interessante para fazer, foi ali que nos sentámos. E foi ali, com o André, que fumei o meu primeiro cigarro. Que idade tínhamos? Não sei, nem me interessa, não é importante.

Também me lembro do dia em que fomos ao Convento que havia perto da escola para irmos comprar bolachas às freiras. “Mántêga, avêia ou côcô?” Nunca mais me esqueci. E também não me esqueci que as bolachas de aveia que comprámos naquela manhã em que tivemos um furo no horário das aulas eram muito boas. Questiono-me muitas vezes se o Convento ainda estará activo. E se continuam a vender bolachas. De quê? De mántêga, avêia ou côcô, claro.

E ainda houve aquela tarde, já perto do final do ano, em que, depois de uma aula de Educação Física e ainda à porta do pavilhão dos vestiários, decidimos jogar à bola com a bola…do André, claro. Estava a ser uma jogatana simpática e interessante até que alguém, conhecida pelo pontapé forte na bola ainda que sempre desorientado, atirou com a bola para o telhado do pavilhão em frente. Um pavilhão de dois andares. Agora, se esse alguém do pontapé forte na bola ainda que sempre desorientado fui eu, não confirmo nem desminto…


Enfim, são muitas as recordações que tenho do André. Por isso me soube tão bem aquela mensagem no intervalo do telejornal. E assim, de forma tão simples, se ganha o dia inteiro!

{#176.191.2024}

Ainda de sexta feira à noite: acho que foi ainda durante o jantar, já não me recordo do momento exacto. Ou estávamos a atravessar a feira. Não importa. Estávamos na baía do Seixal onde eu há tanto tempo queria ver o pôr do Sol. E vi. Mas não é isso o importante agora.

O importante foi aquele momento em que P de Presente, P de Presença, me disse “tu hoje até estás a andar muito bem“. Sorri. Era verdade, caminhar estava a ser fácil, sem muitos desequilíbrios e sem necessidade de ter apoio à direita, de braço dado. E depois de sorrir, ri um pouco porque estava a olhar para o chão e respondi: este chão é direito, é fácil de manter o equilíbrio, não é como a calçada deformada pelas raízes das árvores ou por pedras soltas, porque o maior desafio é, de facto, caminhar em calçada.

Lembro-me que, naquele momento, sorri…

Mas a miúda do sorriso fácil já não sorri tanto ou tão facilmente como antes. Em casa, por exemplo, dificilmente esboça um sorriso. Raramente solta uma piada. Porque ou está muito cansada ou, como hoje, tem uma dor de cabeça infernal desde as 5h da manhã…
Comenta a visão dupla, mas já nem sobre isso consegue fazer uma piada…

Quando vai à rua, mantém a simpatia e boa educação no café, e com grande esforço lá mostra um pequeno sorriso. Reforça ao dono que não consegue ir buscar um cinzeiro porque o risco de queda é grande. Um estranho, sentado na esplanada ao lado dos cinzeiros, levanta-se e traz-lhe um à mesa. Agradece profundamente e retribui o gesto com um sorriso pequenino.

A miúda do sorriso fácil era eu. Ou fui eu em tempos. Mas nos últimos tempos o sorriso sai a ferros, mesmo tendo a companhia de Presentes ou Presenças.

Hoje, mais uma vez, a vontade é de chorar. Mas não choro. Porque continuo a não conseguir fazê-lo. Vou guardando tudo para dentro, especialmente a (enorme) frustração de já não conseguir ser como era, de fazer como fazia, de sorrir facilmente como sorria.

Não, a miúda do sorriso fácil não tem sorrido tanto como sorria. E, por muito pateta que possa parecer, tem saudades de caminhar num piso fácil como o da baía do Seixal…

E continua a contar pequenas vitórias todos os dias em que sai à rua: continua sem ter caído uma única vez!

{#175.192.2024}

Ninguém imagina o esforço que eu tenho que fazer para me manter equilibrada quando páro para tirar uma fotografia com o telemóvel. Começa por ter que largar a bengala, que peço a quem vem comigo para segurar. Depois é manter-me quieta e equilibrada para captar o que quero. Mas o desequilíbrio está lá sempre. Muitas vezes tenho que pedir a quem vem comigo para me segurar, nem que seja no cós das calças!, para eu não me desequilibrar completamente.

Por isso…muita gente me diz “tu gostas de fotografar, pega na camera e vai por aí fotografar!” Pois…não vai acontecer. A última vez que peguei na camera foi dia 30 de Dezembro para fotografar os 50 anos do casamento dos meus tios. Já dava sinais de desequilíbrios e dificuldades, mas nada como agora. E só eu sei o que me custou esse dia no momento das fotografias.

Nunca o disse a ninguém. Tentei o meu melhor, mas as pernas já não obedeciam. Tanto que muita gente nesse dia me veio perguntar porque é que eu estava coxa. Não estava…mas não disse a ninguém a dificuldade que já sentia em manter-me direita…

Hoje, 23 de Junho, ao voltar do paredão pelo parque, não consegui resistir à Golden Hour e à luz maravilhosa que encontrei. Parei muitas vezes pelo caminho para pegar no telemóvel e registar o que via. E, em todas essas vezes, tive que pedir a quem veio comigo para me segurar. Porque manter-me direita e equilibrada é coisa que já não consigo fazer, por muito que me esforce…

Enfim…é nestas alturas que a raiva e a frustração me visitam. Mas não me posso esquecer do que, quem tem um diagnóstico mais grave do que o meu, me disse já várias vezes: a vida não acaba.

Agora? Faltam uns 700 metros até casa. Que, já sei, depois de 3 km já caminhados me vão custar horrores a fazer. Mas vou fazer! Devagar, devagarinho como cada caminhada que faço hoje em dia. Mas vou voltar para casa. Porque sim!, fui até ao paredão ver o Mar, o caminho não foi demasiado difícil. Mas agora é preciso regressar. Como é preciso sempre. E já só faltam 700 metros. Por isso, até já. Demore eu o tempo que demorar até chegar a casa…

{#174.193.2024}

Como desperdiçar uma tarde de Sábado? Entregar-me ao sofá e render-me ao cansaço.

Não sei de onde vem tanto cansaço, ainda não percebi essa parte, mas dizem que faz parte e que não será cansaço, será fadiga. E a minha questão é: será isso que se passa comigo? Porque juro que não entendo como é que, todos os dias, depois do almoço, o meu corpo faz uma espécie de reset. Desliga durante 2 ou 3 horas para voltar à vida e seguir o dia…

É verdade que ontem saí para jantar, mas não cheguei demasiado tarde a casa, 23h30 é aceitável. Hoje de manhã, dia de Yoga logo de manhã, custou-me muito para acordar. Duas horas de aula depois e estava cansada, claro. Valeu-me ter boleia para casa para escapar ao Sol e calor abrasador que em nada me iriam ajudar…

À tarde ainda houve oportunidade de conhecer uma realidade pior que a minha. Alguém que conheci na fisioterapia achou que me faria bem conhecer aquele grupo. E até fez sentido, apesar de ser uma situação muito distinta da minha. Porque, lá está, a vida não pára. E se eles, com um diagnóstico e limitações piores do que o meu caso, continuam a viver, eu não posso simplesmente sobreviver.

Mas tenho que ouvir o meu corpo e obedecer-lhe. Tento manter-me, de alguma forma, activa. Mas a hora do calor é para ser passada em casa. E é aí que tenho parado e desligado. Não sei se é o melhor ou se deveria ter alguma ocupação para aquelas horas…mas ainda estou a aprender. Com o tempo irei perceber o que é melhor para mim.

Agora? Quase meia noite é hora de enroscar e aninhar até amanhã, à hora que for. E não esquecendo que amanhã será melhor.

{#173.194.2024}

Quando P de Presente também é P de Presença e P de Pôr do Sol na baía e também é A. A de Amizade. Daquelas que há poucas por aí.

Foi um final de tarde bonito. Um pôr do Sol que eu há muito tempo queria ver. Um princípio de noite que se prolongou em conversas de pessoas normais que só o frio e o vento fizeram terminar mais cedo.

Foi muito bom. Sair do sítio habitual, fugir à rotina, ser e estar aceite. Desde o primeiro dia, já percebi, a caminho dos 8 anos de ser e estar. E que, mesmo agora, continuo a ser e estar. Porque, neste tempo, mesmo no meio de tudo o que veio e aconteceu, eu não deixei de ser EU. E, como tal, como sou, eu por inteiro, aceite. Desde o primeiro dia. E agora é igual. Nada mudou. E é só disso que eu preciso: que nada mude.

O próximo pôr do Sol, seja na baía, na praia ou onde for, seja em horário de pôr do Sol ou não, não interessa, mas sei que será como é desde o primeiro dia: P de Perfeito.

{#172.195.2024}

De volta à máscara? Mais ou menos. Aliás, ali onde fui à consulta não entra ninguém sem máscara. Covid? Ele anda aí e em força. Mas aqui o problema chama-se Tuberculose.

Se vocês tivessem uma pequena ideia dos números da Tuberculose (activa ou, como no meu caso, lactente e que pode acordar a qualquer momento e não faço ideia como ou onde apanhei o bacilo) também voltavam à máscara em menos de nada…

Portanto, sim! A máscara é um acessório obrigatório ali. E, para mim, vai voltar a ser rapidamente, assim que for reposto o stock lá de casa.

A consulta, que mais não foi do que verificar os valores das análises ao fígado e repôr stock de antibiótico para a terapêutica preventiva, correu bem. Médico diferente, mas simpático e muito acessível. Tanto que foi consultar o estado do meu processo em Neurologia e me disse que o neurologista já decidiu qual a medicação biológica a fazer.

A enfermeira que, posteriormente, me deu o reforço do antibiótico, conversou comigo, esclareceu-me, ouviu-me, respondeu-me, tranquilizou-me. Já sei, na realidade já sabia porque já tinha falado disso com o neurologista, que o processo para o início da toma da medicação é demorado e burocrático. Primeiro há que fechar o diagnóstico, claro, mas que pelo que percebi para o neurologista já está fechado, depois perceber qual a medicação mais adequada, depois reunir com especialistas e finalmente pedir autorização ao Conselho de Administração do Hospital para avançar com a dispensa da medicação para iniciar o tratamento. É uma medicação com um custo financeiro muito elevado onde tem sempre que ser avaliado o rácio custo/benefício para se optar pela medicação o mais correcta e menos dispendiosa possível.

É muita burocracia. É muito demorado. É stressante e quase desesperante estar à espera, não só do início do tratamento como de um mínimo de informação, um qualquer feedback, qualquer coisa. Enviei email na segunda feira à noite para o secretariado de neurologia conforme indicação da funcionária, que é uma querida e tem sido incansável e que não duvido que tenha entregue ao médico responsável. É quinta feira à noite e não tive, ainda, qualquer resposta ao meu email onde apenas peço um ponto de situação… A informação que tenho, como sempre, vem de outro médico de outra especialidade, como foi o caso de hoje: quem me informou sobre já haver uma escolha de medicação foi o Infecciologista…

É continuar a esperar. E a não desesperar. E, entretanto, já sei: fugir do calor. Pior inimigo que podia ter neste momento.

O que também é necessário e urgente, mas que depende só de mim, é reorganizar-me para ir dormir cedo. Para não acontecer, novamente (como ontem), adormecer com o telemóvel na mão. E hoje, sem perceber bem porquê, o cansaço manifestou-se em força. Acordar às 7h para tomar o antibiótico, voltar a adormecer às 8h para acordar já não sei a que horas, tomar banho, vestir-me, almoçar, ter boleia até à consulta, ter novamente boleia da consulta para casa, mudar de roupa e apagar no sofá até à hora de jantar. E, no meio disto tudo e desde manhã, sentir um cansaço sem explicação como há muito tempo não sentia… Não sei se é a isto que chamam de fadiga no meio disto que me apanhou na curva. É possível que seja. Mas eu ainda estou a aprender…

Amanhã é dia de fisioterapia de manhã. Quando chegar a casa, banho enquanto não estou sozinha. Depois, almoço. E, o mais certo, vai ser adormecer no sofá como sempre… Mas, às 19h30 tenho que estar pronta para sair. Amanhã será, finalmente, dia de pôr do Sol na baía. Que eu há tanto tempo queria. Por isso, sim!, fisioterapia de manhã, descansar depois de almoço e, quem sabe, até dormir um pouco, e ao fim da tarde rumo à baía. Finalmente.

O dia não foi mau. Foi tranquilo. Apenas muito cansativo. Sem motivo…mas foi o que foi. Amanhã? Será outro dia e será melhor. Porque eu quero que assim seja, só isso. O resto? Logo se vê. Agora é hora de ir dormir e descansar. E ainda não é hoje que consigo ir dormir cedo…

{#171.196.2024}

O dia até estava a começar bem, mas…

Meus amores e minhas amoras, quando andarem de transportes públicos não se esqueçam de que os lugares onde este aviso se encontra aplicam-se ao que está escrito.

Não se aplica a gente mal disposta que, mesmo tendo à sua frente o local destinado à bagagem, resolve pousar a mochila de campismo num lugar vago. E que, quando eu que me desloco com uma bengala pergunto se se importa que me sente, cara mal disposta e a bufar enquanto retira a mochila para o colo, também não se aplica a reserva deste lugar.

Não precisava de levar a enorme mochila ao colo, afinal o lugar da bagagem estava livre e mesmo à sua frente. Também não era preciso levantar-se a bufar contrariada, pegar na mochila e mudar para outro sítio só para ter a mochila novamente a ocupar um lugar vago.

Enfim. Não custa nada LER o que está escrito no aviso e a quem se destinam os lugares reservados. E também não custa nada pousar a mochila no lugar da bagagem.

E também não custa nada trazer de casa a boa educação. Já nem falo da boa disposição, basta a boa educação. O respeito. E, já agora, um bocadinho de empatia.

Isto antes das 9h da manhã e sem ter ainda bebido café é um bocadinho demais para aturar. E, garanto-vos, se me desloco de bengala e procuro os lugares reservados, não é porque simplesmente me apetece.

Felizmente, a má disposição dos outros não me contagia. Depois disto, foi chegar a Almada mais do que a tempo de beber um café antes da Fisioterapia. Já na clínica sou sempre bem recebida e bem tratada por gente simpática, bem disposta e empática além de bem educada, portanto foram duas horas que nem dei por passarem.

Voltar para casa foi uma viagem tranquila, sem nada a apontar, e já ando a apontar demasiadas coisas negativas nas viagens de autocarro. Como é o caso daquele motorista que já tenho apanhado várias vezes e que nunca espere até que me sente para poder arrancar em segurança. Segunda feira foi a gota de água porque não caí no arranque do autocarro não sei como. Mas a reclamação formal para a empresa foi feita. Há coisas que não podem acontecer. Seja comigo ou com qualquer outro passageiro com dificuldades…enfim.

Depois de almoço, cansada. Muito cansada. E, já sei, não posso continuar a deitar-me tão tarde, especialmente quando no dia seguinte tenho que acordar cedo. O resultado é sempre o mesmo: passar a manhã muito cansada e apagar no sofá depois do almoço. E hoje não foi excepção. Até porque tinha que recuperar minimamente para o Yoga ao fim do dia. Dormi cerca de hora e meia e foi o suficiente para me sentir melhor. Mas as dores de pernas continuam… Eu sei que tem a ver com o exercício da fisioterapia, já sei que tenho que tomar magnésio para ajudar a recuperar. Mas está difícil de começar a tomar… E a aula de Yoga de hoje foi puxada, portanto é normal que neste momento esteja com dores…

Mas agora, já para lá das 23h30, está mais do que na hora de ir aninhar e enroscar. Amanhã há consulta à tarde, portanto não há necessidade de acordar tão cedo e vou poder dormir mais um pouco. O dia pode ter começado de forma parva, mas desenvolveu para um dia tranquilo. E isso é que importa. Agora? É descansar o corpo cansado e ir dormir.

Amanhã? Será melhor.

{#170.197.2024}

E quando o teu corpo te manda parar, tu TENS que obedecer. E páras. Dormes até mais tarde, depois de mais uma noite interrompida. E voltas a dormir a tarde toda se for preciso. E, enquanto acordada, lidas como sabes com a visão dupla que veio em força…

Foi assim o meu dia. E quero acreditar que amanhã, dia de fisioterapia de manhã e Yoga ao fim da tarde, vai ser melhor. Com ou sem visão dupla.

{#169.198.2024}

Dia interminável e extenuante. Começou muito cedo, envolveu várias deslocações e terminou muito tarde, com muitas dores nas pernas e a adormecer com o telemóvel na mão enquanto tentava começar a escrever este texto como há algum tempo não acontecia…

Há algum tempo que digo a mim mesma que tenho que voltar aos horários normais de ir para a cama. Meia noite (ou mais tarde…) como tem acontecido não pode continuar. Vai sempre resultar em noites pouco e mal dormidas. E se, em condições ditas normais, já não me fazia bem, agora não pode mesmo continuar. Já basta a noite ser interrompida às 4h da manhã todas as noites outra vez, como hoje…como agora.

O dia foi pesado, não pela intensidade do que possa ter acontecido, mas pelo tempo que passei em deslocações e muitas das quais a pé, a caminhar numas pernas já de si cansadas e doridas depois de mais uma manhã de fisioterapia. Uma breve passagem pelo hospital para análises, uma passagem pelo sexto piso para tentar saber novidades e a resposta de sempre: envie email a questionar. Ao final da noite o email foi enviado. E sei que a funcionária, com quem falo desde o primeiro dia e que é uma querida, simpática, afável e empática, vai não só reenviar o email para o médico como também imprimi-lo e entregar em mãos. Não seria a primeira vez a fazê-lo, por isso não tenho que duvidar da eficiência da senhora em questão.

Depois disso, uma passagem pelo centro de saúde mais próximo de casa para uma pergunta com base em informações oficiais para ser mal atendida por gente arrogante e mal disposta. Aqui não me disseram para enviar email, mas um email será enviado. Não, ao contrário do que esta gente me disse, não vou à Amora…

Voltar para casa foi a custo. Devagar, com muitas dores e muito cansada. Mas hoje a caixa de correio deprimida não só bateu palminhas como também deu pulinhos de contente. Sabia, porque já mo tinham dito, que viria algo a caminho. Seria (e foi) um miminho de aniversário. Praticamente três meses depois, mas que importa o tempo quando o que conta mesmo é a intenção? E que delícia de mimos que me chegaram. Mini esculturas feitas por alguém cujas ilustrações lindas já conheço há muitos anos mas que ainda não tinha visto ao vivo. E, nessas mini esculturas recebidas, chega-me muito mais do que apenas um gato e uma corujinha. Chega-me amor pelo trabalho, dedicação pelo detalhe. E tudo isto em quantidades inversamente proporcionais ao tamanho das peças que são mini-mini. O gato talvez com 5 cm de altura, a corujinha com pouco mais de 3 cm. Para ser um mimo perfeito, só falta um polvinho para acompanhar a corujinha. E essa combinação, esse par improvável, só a mim tem que fazer sentido. E faz. Muito.

O dia foi muito longo, pesado e estranho. Começou logo com o motorista do autocarro que, mais uma vez, arrancou antes de eu estar sentada em segurança e que originou um caminho turbulento e, até, perigoso para mim até estar finalmente sentada… Claro que, também ao final da noite, outro email foi enviado, desta vez com uma reclamação sobre o motorista para a empresa responsável pelos autocarros. Porque estas situações não podem acontecer.

São agora 5h da manhã. Lá fora, os primeiros pássaros já se fazem ouvir e o Sol ainda tarda a nascer. Por aqui está mais do que na hora de voltar para a cama e descansar. Tenho fome. Mas, quando o despertador tocar daqui a duas horas para tomar a medicação, tenho que estar em jejum…acho que hoje a medicação será tomada mais tarde.

Começo a perder o Norte à conversa, por já não ter nada para dizer e pelo sono que ronda. O dia foi cansativo. Mas, amanhã que é já depois de voltar a acordar, vou poder descansar sem horário para acordar. E, só por isso, vai ser um bom dia.

Se este texto não fizer sentido ou aparente não ter um fio condutor, é o resultado da hora a que foi escrito e a quantidade de sono envolvida. Por isso, não me vou alongar para não me perder ainda mais. Amanhã logo se vê, agora é hora de voltar para a cama. E relembrar a minha corujinha-inha que voltei a colocar na caixa onde foi enviada para não a perder nem se estragar. Mas ainda acredito que é possível também a escultura de um polvinho. Quem sabe se não lanço esse desafio?

{#168.199.2024}

Domingo e aquela guerra interior comigo mesma: sair de casa para dar uma volta, ir até à vila, quem sabe o paredão, ou simplesmente ir beber café à esplanada junto ao parque e dar uso às pernas ou ficar a descansar, a poupar as pernas que ainda doem do passeio de ontem a seguir ao almoço pelo paredão para amanhã estar em condições?

O dia lá fora estava bonito, é verdade. Mas a Nortada veio com força e, pelos vistos, para ficar. Sair de casa com vento forte e frio não é o mais apetecível. Fiquei por casa, entre o sofá e o cadeirão e tentei esvaziar a cabeça daquelas coisas que não interessam mas que, ultimamente, me acompanham diariamente. Eu, overthinker assumida, consegui (não sei como!) desligar do que não me faz bem. Seria mais fácil se tivesse adormecido no sofá depois do almoço, como tem acontecido quase todos os dias. Mas desta vez não.

Mas, não sair de casa, faz-me sentir prisioneira. Estou cansada de estar em casa. É verdade que saio de casa para a fisioterapia, para o Yoga, para o café ao final do dia. Mas não me chega. Faz-me sentir muito condicionada, como se não tivesse autorização para ir a mais lado nenhum. Bem, na realidade não tenho autorização para grande liberdade por causa da baixa, mas ao mesmo tempo fazia-me bem sair um bocadinho daqui…

Se tudo correr bem, na sexta feira irei sair daqui um bocadinho. Com sorte, é desta vez que assisto ao pôr do Sol na baía. Vamos ver se não há alterações de última hora e, até, se o estado do tempo ajuda. Recordo-me que, quando tentei ir assistir ao pôr do Sol na baía, para além de chegarmos em cima da hora, havia poeiras do Norte de África presentes. Não quero nada disso desta vez. Quero, sim, sair daqui por um bocadinho. E só o sair daqui já vai ser tão bom.

Entretanto, amanhã começa a rotina mensal de análises ao sangue para controlar eventuais efeitos da terapêutica preventiva no fígado. Ou seja, é dia de regresso ao Hospital. E, claro, terminada a recolha de sangue, tenho que passar pelo piso da Neurologia para tentar perceber se há novidades. Porque os 30 dias desde a primeira toma da terapêutica preventiva estão a chegar ao fim. E, mesmo que a terapêutica preventiva seja para tomar durante 9 meses, depois dos primeiros 30 dias já é possível avançar com a medicação biológica que preciso para o que tenho. E isso implica que haja uma consulta que eu aguardo há meses.

Eu juro que consegui passar o dia todo hoje sem pensar em nada disto. Mas agora, de repente, do nada!, veio tudo…

Não quero continuar a falar e/ou pensar nisto. Amanhã há fisioterapia, seguida de análises e depois regresso a casa para almoçar e aterrar no sofá. E, por muito que o sofá seja confortável, e é!, por muito que goste dele, e gosto!, estou cansada de passar os dias no sofá sem fazer nada que não seja ver o tempo passar…

E já me estou a perder novamente no que não interessa!

Hoje, ao final do dia, acabei por sair de casa. Fui beber café com a minha mãe e uma dor de cabeça que ameaçou não me largar. Na esplanada, que não a do costume e também não a que eu queria, muito barulho, muita confusão, muitos grupos a falar muito alto, muitas crianças com as suas vozes muito agudas…tudo muito! Tudo demasiado para a minha dor de cabeça. Decidi ir dar uso às pernas, não me apetecia voltar para casa.

Fomos em busca das cores do final de dia no sítio onde, quando chegava de autocarro depois do trabalho, apanhava cores bonitas. Mas, ao chegar lá, fui lembrada à força que o Sol já não se põe no mesmo sítio nesta altura do ano. Agora já se põe atrás dos prédios e as cores bonitas do final do dia já se escondem à hora que lá cheguei…

Um bocadinho desiludida, claro. Mas, pelo caminho, os cães a quem disse “Olá” e me permitiram dar-lhes festas e ainda o escaravelho com que me cruzei fizeram valer a pena o uso dado às pernas.

Os meus dias, na verdade, são realmente aborrecidos. Ainda não descobri o que posso fazer para os tornar mais interessantes. Mas hei-de descobrir. Até lá, e ao passar no cemitério, lembrei-me das sábias palavras que me disseram sexta feira: “a vida não acaba”. E já sei que não, apenas nasce uma nova vida. E é essa que eu ainda não sei como e qual vai ser…

Tinha pensado em deitar-me cedo hoje. Claro que já não vai acontecer… Mas tenho que voltar a obrigar-me a ir para a cama cedo. Afinal, dormir pouco não me faz bem nenhum e amanhã, dia de fisioterapia, é dia de acordar muito cedo. Por isso, mesmo não sendo cedo, está mais do que na hora de ir tratar de mim. E acreditar que, amanhã, vai ser melhor. Porque eu quero que assim seja.

{#167.200.2024}

Eu sei que, no meio de tanta coisa que me apanhou na curva, sou uma miúda de sorte. Porque, ao reclamar que me sentia sozinha nesta espécie de travessia do Deserto, os amigos começaram a aparecer. Amigos daqueles que podemos não ver ao vivo desde 2019 mas que estão sempre por perto. E que agora fizeram questão de estarem Presentes.

O almoço soube muito bem, mas a Presença soube melhor ainda.

E, ao fim do dia, mesmo sendo Sábado, receber um postal que foi mal entregue pelo carteiro que não esteve para se chatear e depositou toda a correspondência na caixa exterior dedicada à publicidade. E, nesse postal, escrito com as palavras certas no momento certo, perceber que mais alguém diz “Presente!”.

Sim, apesar de tudo, sou uma miúda de sorte. E se este Sábado não foi bom, então não sei o que terá sido.

É bom ter amigos, claro que sim. Pessoas que gostam de nós, que se preocupam connosco, que nos querem bem. Mas, melhor do que isso, é sabê-los Presentes quando já não sabemos onde encontrar força e coragem para aguentar tudo sozinha. E perceber, mais uma vez, que não estou sozinha. E isso é tão importante e tão bom.

Sim, sou uma miúda de sorte. E não preciso de dizer mais nada.