Author Archives: Kooka

About Kooka

Se perguntarem por mim, dir-vos-ei que não estou. Esta que vos fala é outra que não eu.

{#página127} 

Dia da Mãe 3.0

Mais um a tentar que seja só mais um dia igual aos outros. Mesmo não sendo. Porque há quem ainda diga que não o sou, não o fui, “se um dia fores”…

O Baltazar e eu fomos ali a um sítio que já começa a ser demasiado habitual. Uma urgência daquelas que recusei, recorri, voltei a recusar, voltei a recorrer, repito agora novamente. Passar de pulseiras amarelas a pulseira laranja. E medicação antes de sair da urgência. Não era isto que eu queria para o dia da Mãe…
Fomos só os dois. Porque sim. Porque o dia é meu. À minha maneira, por isso só meu. E do Baltazar. Porque não há, não chegou a haver, João… E, do outro João, o pai, descobrir que além de cobarde também é um canalha.

Fomos só os dois, mas do outro lado da linha os apoios de emergência. Desculpem se, desta vez, vos assustei. Também me assustei a mim.

E, ainda do dia da Mãe, uma mensagem de uma Mãe enorme para todas as Mães de todos os tipos.

Às mães de todos os tipos: Feliz Dia da Mãe!

Todas as mães se tornam mães em momentos diferentes.
(…)
Algumas destas mães têm o seu sonho interrompido na gravidez, e permanecem de colo vazio. Mas são mães.
(…)
Algumas vêem os seus filhos morrer antes delas: na gravidez, no parto, em recém nascidos, ou adultos, E são mães, nunca deixam de ser mães.
(…)”

Que podem completo aqui

{#página126} 

Labilidade. 

Emocional. 

{#página125} 

Até os bichos saem da toca. Para procurar alimento, para irem do ponto A ao ponto B, por curiosidade ou por necessidade. 

Não me incomodam os bichos que saem da toca, cruzo-me com eles, puxo conversa mesmo que não me respondam. Paro para os ver, para os observar. E seguimos por aí, cada um no seu caminho, acabando invariavelmente por regressarmos, ambos, à toca. 

Depois há os outros. Não necessariamente bichos. Mas que apresentam tendência para sair da toca apenas quando espicaçados. Quando algum factor exterior os obriga a dar sinais de vida. Não foi, hoje, a primeira vez. Espero que, comigo, seja a última. Porque se não me incomoda cruzar-me com bichos que espontaneamente saem da toca nos afazeres da sua natureza, os outros incomodam ao ponto de me sentir, novamente, agitada. Inquieta. Ansiosa? Talvez ansiosa. Insegura de certeza. 

Porque um cobarde é um cobarde é um cobarde. E só sai da toca quando espicaçado. Quando provocado. Como em Agosto. Como hoje. Ou quando os seus próprios interesses se sobrepõem ao equilíbrio de terceiros. Como tantas vezes, demasiadas vezes nos últimos anos. 

Não me incomodam os bichos. Gosto deles. Gosto quando nos cruzamos quando ambos saímos de livre vontade das respectivas tocas. 

Não gosto dos outros. Dos que saem da toca, do esconderijo, apenas quando provocados por factores exteriores e que me incomodam, me inquietam, me deixam novamente insegura quando ainda me sinto vulnerável. 

Não vai fazer estragos. Não…? Não sei. Sei que não o posso permitir. Porque, ao fim de tanto tempo, primeiro estou eu. Não o posso permitir porque a vulnerabilidade é ainda demasiado grande. E a linha, aquela linha que não quero atravessar, a linha é demasiado ténue. E não quero regressar onde já estive porque os outros se esconderam na toca quando mais precisei que saíssem sem serem espicaçados. 

O estrago ainda cá está. Marcado como a ferro quente. A ferida ainda longe de cicatrizar. Ainda infecta. Ainda demasiado dolorosa. E o timing está longe de ser o ideal. Mas talvez seja agora porque tem que ser agora. 

Não me incomodam os bichos. Não me assustam. Incomodam-me os outros. Assusta-me a agitação que chegou de repente e parece ter-se instalado mesmo quando os químicos a deveriam deixar ao largo. 

Não me incomodam os bichos. 

Incomodas-me tu. E só hoje percebi o quanto me incomodas. Ainda. 

{#página124} 

{…………} 

{#página123} 

“A sério? Ninguém diria!” 

Pois não. Daquela porta para dentro, em cruzamentos esporádicos no corredor, sempre com um sorriso porque sim e por não saber cruzar-me, ali, de outra forma, não, ninguém diria. Mas daquela porta para fora, daquela porta para fora está o Mundo real, aquele onde não me encaixo, onde não me sinto bem, onde me perco mais do que me encontro, aquele Mundo que cada vez me diz menos, onde o ruído me desorienta, onde não vejo mais do que pressa e rotinas nos outros, confusão, desnorte, desnorte meu, claro, sem rumo, sem objectivos, sem propósito. Daquela porta para fora onde não vivo, sobrevivo. Daquela porta onde a minha cabeça me grita. E a vontade nula de voltar para casa e sem ter outro sítio para onde que não seja para casa. 
Não. Daquela porta para dentro ninguém diria. E preferia manter-me ali, daquela porta para dentro, mais tempo. Porque ali o tempo passa, porque ali a cabeça não tem tempo para me gritar, porque ali faço falta ainda que seja somente para ocupar mais um posto, porque ali tenho um objectivo, mesmo que seja apenas um, porque ali sei para onde fica o Norte, porque ali não estou em casa, em minha casa, onde revivo vezes sem conta todas as sombras, todos os ecos, todos os pesadelos em vigília, as noites em branco. 

Daquela porta para dentro. Daquela porta para fora. Duas realidades distintas. Duas de mim que sou tantas, que sou nenhuma, que sou nada. 

Ninguém diria. Daquela porta para dentro toda uma realidade alternativa. 

Ninguém diria. Daquela porta para fora toda uma realidade que me faz querer continuar a fugir. 

Não. De facto ninguém diria. Tirando, talvez, os olhos cheios de lágrimas dos zero aos 100 em menos de um nada temporal que não sei definir de tão veloz, de tão rápido. 

Não. Ninguém diria. De facto ninguém diria. 

Mas sim, essa que ninguém diria sou, de facto, eu. 

{#página122} 

Pode o céu ser cor de rosa? Pode. 

Podes tu ser uma árvore? Podes. 

Pode alguém dizer-te o que podes ou não ser? Não. 

Pode alguém dizer-te como podes ou não estar? Não. 

Pode alguém dizer-te o que podes ou não sentir? Não. 

Pode alguém dizer-te como podes ou não reagir? Não. 

Porque o céu é cor de rosa sempre que tu queiras. 

Porque tu és uma árvore sempre que tu queiras. 

Porque, sabes bem, tudo é possível ser o que for. Tu uma árvore, o céu cor de rosa. E ninguém te pode dizer que não, que não é assim porque a sua experiência dita diferente. Porque a tua experiência é tua, apenas. E é a tua experiência que te dita que sim, que é possível o céu ser cor de rosa e tu uma árvore mais ou menos robusta, mais ou menos forte, mais ou menos despida. 

O teu céu pode ser da cor que tu quiseres. E nunca te esqueças de continuar a ser árvore.

Tu. Só tu. Apenas tu. Diferente.

Única. 

Tu. 

{#página121} 

E, de repente, a noite. As noites. Outra vez as noites. 

Meditação, diz-me ele. Para me ajudar a manter no aqui e agora e relaxar e acalmar a mente. 

Medicação, diz-me o hospital. Para me deixar grogue em apenas dois dias, para baixar os níveis de ansiedade, de irritabilidade, de intolerância ao ruído, de desorientação constante. 

Um dia atrás do outro atrás do um, repito de mim para mim diariamente, seguindo a dica de quem está ausente desde o primeiro dia em que se fez necessário ser presente. 

Novamente a noite. As noites. Que não podem voltar a ser em branco, nem quando o estômago se revolta toda a noite e me vira do avesso. As noites que são demasiado longas, demasiado negras, demasiado sozinhas… 

“E agora, não está em nenhuma relação? Não? Pois, isso também não ajuda nada, não… ” dizem-me no hospital. Como se bastasse uma prescrição médica numa qualquer urgência psiquiátrica para ocupar esse lugar vazio. 

As noites. Sempre as noites, desde sempre as noites. Mas que agora preciso combater porque há horários estipulados numa rotina que não posso dar-me ao luxo de não cumprir. 

Sozinha. A noite. As noites. A meditação que não consigo manter. A medicação que não queria ter. 

Cansada destas noites. Cansada deste estado. Cansada disto em que me tornei. Diz-me ele que vou melhorar. Diz-me ele que em conjunto, 3 horas por semana e várias sms por dia, vamos conseguir ultrapassar e melhorar e ficar bem, demore o tempo que demorar. E diz-me, também, que não vai ser fácil nem vai ser rápido mas que vai estar lá sempre que eu precisar. Mesmo que seja apenas em 2 dias e 3 horas marcadas por semana e sempre que do lado de lá o telefone tocar porque preciso de luz. 

Sozinha. Mesmo que ele me diga que estou acompanhada. Sozinha. E a noite. As noites. E o silêncio. E a falta de luz. Sozinha. Comigo, a única pessoa com quem não sei estar, eu mesma assim. Neste estado que não sei aceitar. Não sei acalmar. Não sei melhorar. 

E, de repente, a noite. As noites. Outra vez as noites. 

E eu. Apenas. 

{#página120} 

This too shall pass……… 

{#página119} 

“- E depois daquele dia, o que é que te aconteceu? Como é que ficaste? 

– …………doente…fiquei doente…” 

Não é de ânimo leve que o digo, porque não {me} é fácil aceitá-lo. Verbalizar o que fiquei depois daquele primeiro dia depois de 42. Doente. Fiquei doente. Ainda estou doente. Muito mais do que gostaria, muito mais do que queria. 

Sim. Estou doente. Não, não é fácil aceitá-lo. Especialmente quando pensava que o carrossel comboio fantasma montanha russa que não precisa de moedas começava a perder velocidade. Afinal era só mais uma daquelas voltas lentas antes de voltar a vertigem da queda. E desta vez uma queda demasiado rápida. Demasiado a pique. E perceber que preciso de mais ajuda do que aquela que já tenho.

Um dia o carrossel comboio fantasma montanha russa que não precisa de moedas vai abrandar de vez e acabará por parar. Mas não é já. Não ainda. Não agora. 

Um dia. 

{#página118} 

“Penny, will you sing me Soft Kitty?”

……fazes-me falta……

E novamente o Sol nasceu. E novamente o Sol se pôs.

{#página117} 

1001. Depois de 42.

1001 dias. 1001 noites. 1001 vezes o Sol nasceu. 1001 vezes o Sol se pôs. Afinal parece que o teu pai tinha razão, que nada iria mudar, que nada mudou, quando me disse na última vez que o vi: “o Sol continua a nascer e a pôr-se todos os dias”.

Tudo mudou. Claro que tudo mudou. Mudei eu. Mudou o teu pai. Mudou o Mundo como o conhecia antes de ti. Mudou a minha forma de amar também. Porque deixei de amar apenas aqueles que de alguma forma estão perto, que conheço as feições, que posso tocar, que posso ouvir, que posso cheirar. Aprendi que é possível amar quem nunca se viu. Não…não é verdade que nunca te tenha visto…… Vi-te quando o meu corpo te expulsou de mim. Vi-te perfeitamente definido, contornos perfeitos de um bebé de 42 dias de gestação. As mãozinhas que já se percebiam, a cabeça, o que viria a ser as perninhas se te tivesse mantido comigo, em mim, por 40 semanas e não apenas 42 dias.

Aprendi a amar de forma diferente. Porque tudo mudou. Aprendi que é possível alguém viver em nós em cada segundo de cada hora de cada um dos 1001 dias depois de 42 e mais além. Aprendi que é possível amar quem nunca se tocou, quem nunca se ouviu, quem nunca se cheirou. Não vou dizer que nunca te senti. Porque também aí estaria a mentir. Porque da mesma forma que te vi quando o meu corpo te expulsou, também te senti a soltares-te de mim. Não posso dizer que tenha sido um parto. Mas apenas uma expulsão…

Aprendi que é possível amar quem tão pouco tempo teve para ser mais mas que hoje é, para mim, tudo o que de melhor eu tive. E que não soube cuidar.

Aprendi que é possível amar quem já só existe em mim, comigo. Que não é visto nem sentido por mais ninguém mas que existiu, foi real, foi meu, parte de mim, em mim.

Aprendi, também, que nem sempre posso falar abertamente por saber que poucos irão entender o porquê de falar de 42 dias. Aprendi, também, que é preferível o silêncio, as lágrimas escondidas, o fazer de conta. Porque, aprendi, só existe para o Mundo aquilo que foi palpável.

No meu mundo existes tu. Mesmo que tenham já passado 1001 dias, 1001 noites, de vazio depois de 42. Existes mesmo que não te veja, não te sinta, não te oiça, não te cheire. Existes quando penso em ti 24 horas por dia, todos os dias, há 1001 dias, 1001 noites.

Aprendi a amar desta forma estranha para os outros. Mas que é a única forma que tenho de te amar. Aprendi que só é permitida e aceite a tua existência sem julgamentos 2 vezes por semana dentro daquelas 4 paredes onde procuro por mim. Ali é-me permitido que existas. Ali é-me permitido que te ame. Que fale de ti. Que fale por ti. Que fale para ti. Ali é-me permitido ser da única forma que posso ser mãe. Sem julgamentos. Sem críticas. Apenas amor, o meu. Por ti.

Não soube ser mãe de outra forma. Peço-te desculpa por isso todos os dias. E sei que me ouves, me vês, me sentes. E me queres bem. Ainda que seja cedo, mesmo 1001 dias depois da tua ausência.

Aprendi tanto, meu amor. Aprendi que não é doentio, como me disseram, contar os dias da tua ausência. Aprendi que a contagem dos dias é a única forma que tenho de me lembrar que exististe, que existes. Como se algum dia me fosse possível esquecer-te.

Tudo mudou. O Sol continuou a nascer e a pôr-se. 1001 vezes. Mas tudo mudou. Começando por mim, mesmo que ainda não te saiba dizer quem sou hoje porque continuo à procura de mim.

A única coisa que não mudou? O facto de não estares aqui, comigo, ao meu lado. Mas aprendi que é possível mudar a forma de amar. Como mudou a minha.

1001 dias. 1001 noites. Sem ti. Mas não deixo de te amar. Todos os dias. Porque, para mim, existes. Em mim. Todos os dias.

{#página116} 

Numa palavra…? Uma só…?

Dependente.

{Já} Não sei caminhar sozinha…

{1000. Depois de 42…}

{#página115} 

Ocupar as mãos para tentar desligar a cabeça. Talvez assim as vozes voltem a falar baixinho. 

Posso regressar à cor? 

“Tu és instável.” ou, mais recentemente, “Tu não tens problemas, tens pseudo-dramas”. 

Certo. Faça-se a vossa vontade. Não chateio mais. 

999 dias depois. 

{#página114} 

E de novo o telhado. A vertigem. As vozes. 

O medo… 

{#página113} 

Tenho saudades tuas. Ia dizer que sinto a tua falta, mas é muito mais que apenas isso. Tenho, mesmo, saudades tuas. 

Tenho saudades das tuas mãos. Mãos pequeninas de quem ainda agora começou a crescer e agarra o Mundo com força para o Mundo não lhe fugir. Mãos pequeninas que agarram as minhas mãos na hora do colo, na hora do passeio, sem hora marcada e só porque sim, porque são as mãos da Mãe. 

Na verdade, no Mundo do lado de cá, nunca senti as tuas mãos. Não posso dizer que nunca as vi, não seria completamente verdade. Mas nunca as senti. 

Tenho saudades da tua gargalhada. Do teu risinho estridente de pura alegria pelas pequenas coisas. No Mundo do lado de cá nunca te ouvi, mas o som do teu riso ecoa na minha cabeça todos os dias. Quase como se estivesses aqui comigo, onde deverias estar. E não no Mundo do lado de lá, o da fantasia, da imaginação, o Mundo do lado de lá daquela ténue linha. 

Sei que estarás sempre do outro lado da linha. Estarás sempre no Mundo do lado de lá que não é real. Embora tenhas sido, de facto, real. Ainda que por apenas 42 dias. 

Tenho saudades do teu narizinho, do teu sorriso, dos teus olhos que imagino parecidos com os meus. Tenho saudades do teu cheiro, da tua pele de bebé. Dos teus beijinhos e dos teus abraços. Mas das tuas mãos…tenho tantas saudades das tuas mãos. As mesmas mãos que me tocariam para me relembrar que estarias ali, comigo, tão perto. As mesmas mãos que se iriam agarrar às minhas pernas a pedir colo. As mesmas mãos agarradas às minhas que teriam servido de guia e ponto de segurança nos primeiros passos. 

As mesmas mãos que fariam festinhas, diriam adeus, mandariam beijinhos pelo ar. Que me tirariam o cabelo dos olhos para poder olhar-te melhor. Que me tapariam os olhos para brincar às escondidas. 

Tenho saudades de tudo isso. Porque dizer apenas que sinto a falta disso tudo é, de certa forma, negar que exististe. Porque já sentia falta disso tudo antes de ti. Mas hoje, depois de teres existido, depois de 42 dias que foram breves e que ficam comigo, hoje tenho saudades. Do que não tivemos porque não pode ser, não era para ser. Do que nunca vamos ter. Porque tu estás no Mundo do lado de lá e eu preciso manter-me no Mundo do lado de cá. Mesmo que a linha entre a realidade e a loucura seja tão ténue, não posso esquecer-me que tenho que manter-me no Mundo do lado de cá. Onde continuas a existir. Mesmo que apenas eu te possa sentir. Mesmo que, por vezes, acabe por te confundir… 

Tenho saudades tuas. Tenho tantas saudades tuas…… 

{#página112} 

978 depois de 18. 996 depois de 42.
Ainda faz sentido escrever? 

Ainda faz sentido falar? 

Ainda faz sentido sentir? 

………ainda faz sentido sequer tudo isto………? 

{#página111} 

……e a vontade de fugir……

{#página110} 

Baby steps. Atabalhoados, muitos deles, muitas vezes. Mas necessários. Cair, levantar, para cair novamente e voltar a levantar. Conhecer o ponto de equilíbrio. E avançar.

Baby steps. Nada mais que baby steps. 

{#página109} 

975 depois de 18 depois de 42? 993.

Ainda respiro. Tantas vezes a custo. Mas ainda respiro. 

42 dias que valem por uma vida inteira. 42 dias que ficam comigo, para mim. 

Mas ainda respiro. Tantas vezes a custo……… 

{#página108} 

Normalidade não é um conceito linear. O que é normal para uns pode não ser normal para outros. Normal é seguir a norma, imposta sabe-se lá por quem. 

Nunca me afirmei normal. Dentro da norma. Igual aos outros. Sensação estranha, saber-me fora da norma e querer fazer parte não querendo. Ou não querer querendo. Ou… Não sei. 

Sei, sim, que a linha é, ainda, muito ténue. Demasiado ténue. Demasiado frágil. E se as vozes na minha cabeça já não me gritam, apenas sussurram a doçura dos riscos na pele, hoje são as imagens que me fazem viajar entre a realidade e a fantasia, sem definição de fronteira, sem perceber se já passei a linha ou se apenas a pisei. Ou se não me aproximei sequer! 

Não. Não faço parte da norma. Mas quero fazer não querendo quando dou por mim numa realidade que não existe, a viver momentos que só existem na sala de projecção que é a minha cabeça. Quando dou por mim fisicamente aqui enquanto a cabeça está num outro mundo qualquer que começou a ganhar forma e força há pouco tempo. Num mundo que não é real, dou por mim a perceber, mas que tem cheiro, sabor, diálogos imaginários, toques de pele com pele sem peso. 

Viajo demasiadas vezes. Demasiado depressa. Demasiado facilmente. E dou por mim a pensar que é tão mais fácil do outro lado, a viver uma realidade que é irreal, que não existe se não nos filmes da minha cabeça.

As vozes não me gritam, sussurram apenas. Assustam ainda. Claro. Mas as imagens, agora as imagens, a realidade imaginária que só existe na minha cabeça, quando estou sozinha comigo ou até acompanhada com os outros. 

E se um dia eu não voltar…? E se um dia a realidade imaginária me prender do outro lado? E se um dia eu trouxer essa realidade imaginária para o lado de cá, para o lado que faz parte da norma onde tudo aquilo que vivo dentro da minha cabeça não existe? E se um dia eu me perder do lado de lá, ou será do lado de cá?, e se eu me perder e começar a viver esses filmes que trago na minha cabeça…? Interagindo do lado de cá com os actores que me habitam o lado de lá? Interagindo do lado de cá exactamente da mesma forma como interajo do lado de lá? É tão doce o outro lado……… 

Não sigo a norma. Não faço parte dela. Nunca fiz. Nunca quis fazer. Quero hoje. Porque não sei até que ponto já ultrapassei aquela linha, se apenas a pisei ou sequer me aproximei. 

É tudo cada vez mais confuso. Estranho. E confortável… Demasiado confortável. Do lado de lá………