Author Archives: Kooka

About Kooka

Se perguntarem por mim, dir-vos-ei que não estou. Esta que vos fala é outra que não eu.

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……… 

991…

… 

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Esperar. Ainda é cedo para outra coisa que não esperar. 

990 dias. E a contar. 

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Ocupar as mãos para tentar desligar a cabeça. Os filmes que faço e que passam em sessão contínua sem intervalo há tanto tempo. Às vezes penso que os filmes já terminaram, mas percebo que continuam lá, com outras projecções sobrepostas. 

Projecções. No fundo não passa de projecções. Porque o que eu vejo como sinais de alguma coisa não passam afinal de meros sinais de vida onde projecto demasiadas coisas. 

Confusa. É assim que fico. Sempre. Desde sempre. Não sei ler. Nunca soube. Leio demais. Tantas vezes. Demasiadas vezes. E por ler demais os filmes passam em sessão contínua na minha cabeça e fazem-me querer gritar para a sala de projecção para que parem a bobine. Mas na sala de projecção não está ninguém. Porque a projeccionista sou eu. E a realizadora. E a argumentista. E a protagonista. E a única a assistir na primeira, e na última, fila. 

Ocupar as mãos para tentar desligar a cabeça. Um dia aprendo a parar a bobine na sala de projecção. Quando deixar de criar filmes que passam em sessão privada e contínua na minha cabeça. 

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Começar de novo? Não sendo possível tenho vontade de começar, ou recomeçar?, outros caminhos. Não sei quais, não sei para onde. Mas apetece-me começar qualquer coisa nova. 

Se estou preparada? Para alguns caminhos talvez. Para outros, que quero muito, talvez seja ainda muito cedo. Ou talvez venha a ser sempre demasiado cedo. E esses são os que me deixam com mais medo. Medo de nunca virem a começar. Medo de começarem e eu não saber o que e/ou como fazer diferente. Medo de começarem e, mais uma vez, não resultarem. 

No fundo, medo. Medo sempre. Por muito que me digam que tenho coragem, não deixo de ter medo. Não existe uma coisa sem a outra? Não sei. Sei que existe medo sem coragem, mas isso fica para quem se esconde e evita enfrentar o caminho diferente e inesperado. Sei, também, que a coragem existe por causa do medo, e enfrenta-o e lida com ele. Mesmo que nem sempre me leve pelo caminho certo, a coragem faz-me mexer. 

Neste momento não sei para onde encaminhar essa coragem. Não sei por onde começar algo novo. Não sei, sequer, o que de novo quero/posso/devo começar. Sei o que gostaria de começar. Mas acho que é, ainda, demasiado cedo… Mesmo correndo o risco de, um dia destes, vir a perceber que já é demasiado tarde….. 

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Voltar 987 dias depois. Porque às vezes é preciso voltar e enfrentar. Inevitavelmente reviver. Tudo. Como um filme em exibição na minha cabeça em sessão privada e contínua. 

Aceitar? Talvez. Talvez um dia. Sim, acabarei por aceitar. Esquecer? Não é possível. Mas é possível recordar com menos dores. 

Voltar. 987 dias depois. 

E continua a ser um lugar medonho. 

{#página102} 

Eu não tenho tempo para perder Tempo. E o que é que faço? Perco o Tempo que não tenho tempo para perder… 

Cada vez mais difícil aceitar que o Tempo vai passando e eu vou ficando lá atrás, sem concretizar seja o que for. Planos já sei que não adianta fazer, corre sempre tudo ao contrário. Mas dou por mim a traçar pequenos esboços de metas-que-não-quero-chamar-planos e a ver que o relógio não pára. Não espera. E não me dá o tempo todo que preciso. Quero fazer acontecer, mas ainda é cedo. Cedo para mim. E ao mesmo tempo o Tempo que não tenho tempo para perder Tempo vai passando. E um dia hei-de perceber que já é tarde. Como já é. Para mim. 

Não faz sentido ser tarde quando ainda é cedo. Mas faz todo o sentido ser cedo quando já é tarde. Então deixo-me ir, deixo-me ficar. Deixo-me assim, agarrada a nada que não ilusões-que-não-quero-chamar-sonhos. E traço filmes na minha cabeça que só existem aí mesmo porque ainda é cedo e porque já é tarde. De que adianta acompanhar uma história que só existe na minha cabeça? Só aí poderia ser real, nem aí é real. 

É muito ténue a linha entre o real e o irreal. Tanto que tantas vezes me esqueço que o irreal não é, de facto, real. Memórias falsas… Tão demasiadamente reais. 

Não. Não tenho tempo para perder Tempo. Não. O Tempo que é o meu não é suficiente para ser cedo e tarde. Não. Não posso deixar-me transpôr a linha do irreal. 

Por muito que tente manter o foco, por muito que tente ver tudo definido, é tão fácil deixar-me levar pela visão turva das falsas memórias. E sei que, por serem falsas, irão doer quando conseguir aceitar que nada dessas memórias é meu… 

Não é fácil. Ninguém disse que seria. Mas também ninguém disse que o caminho, o meu, seria passar pela falta de tempo que não tenho tempo para perder Tempo e pela irrealidade de memórias que não existem. 

Mais um dia. Um dia atrás do outro atrás do um. Mais tempo. Menos Tempo. 

E eu…? Onde é que fico…? 

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Tudo é temporário. Porque é que insistimos em perder tempo……? 

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Assertividade. A aprender. Para reter. 

E esta noite, da minha janela, o Mar. 

E não me apetece o Mar, nem a {minha} Lua que está Cheia. Não me apetece escrever. Nem falar. 

O toque. Sinto a falta do toque. 

As dores. Não sinto falta das dores. 

Eu. Um dia assertiva. Não hoje. Não agora. Não ainda. Não já. 

{#página99}

Hoje? Hoje quarto, almofadas, manta, cama. Também mereço. Também preciso. Também faz parte.

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………já sabes, olha para cima. 

Sempre. 

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“Depressão: vamos falar” 

Falarei sempre. Mesmo que ainda não me aceite doente. Que sou. Ou estou. Ou… 

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“Sabes que, por vezes, é preciso andar para trás, não sabes?” 

Sei… Se me assusta? Muito. Hoje confirmei que andar para trás, ir tão lá atrás, dói. Mas é lá atrás, tão distante, que é preciso regressar. Para resolver. Para aceitar. Para recomeçar. 

“Um destes dias experimentamos ir lá bem atrás, o que me dizes?” 

Não preciso dizer… 

“Não te preocupes. Sabes que é preciso. E se eu vir que vais só andar para trás vou lá estar a puxar-te para a frente. Sabes isso.”

Sei. E sei tudo o resto. Que não me vou perder pelo caminho porque, agora, tenho uma luz de presença para me guiar. Que, mesmo que tropece e volte a cair, há um par de mãos pronto a ajudar-me a levantar e a reeguer-me. 

Andar para trás para poder andar para a frente. Ir lá atrás para saber estar aqui. Tropeçar pelo caminho. Aprender. Reaprender. Corrigir? Aceitar. 

Ninguém disse que ia ser fácil…… Ninguém diz que é impossível. Mas custa. Muito. 

{#página95} 

Sempre que o ar te faltar, lembra-te: olha para cima. 

Sempre que a memória te pregar rasteiras, lembra-te: olha para cima. 

Sempre que o medo marcar presença, lembra-te: olha para cima. 

Sempre que o Norte te parecer perdido, lembra-te: olha para cima. 

Sempre que o toque do que já não existe regressar, lembra-te: olha para cima. 

Sempre que o cheiro da pele que não foi te visitar, lembra-te: olha para cima. 

Sempre que o nada te sufocar, lembra-te: olha para cima. 

Seja quando for, por que motivo for, lembra-te: olha para cima. É para cima que crescem as árvores. Mesmo que as raízes se estendam para baixo, é para cima que deves crescer. 

Não desistas. Não desistas de crescer. De acreditar. De olhar para cima. Não desistas. Não desistas de ti. Por ti. 

Lembra-te: olha para cima. Vai correr tudo bem. 

{#página94} 

Tenho saudades da minha gravidez… 

…mesmo que tenha durado apenas 42 dias. Mesmo que já tenham passado 978 dias depois de 42. 

{#página93} 

O medo. A vertigem do medo. É onde estou. 

Estou e sou. Sempre fui. Sempre fui medo e tudo o que o medo implica. Mas nunca me deixei parar por ele. Apesar do medo, sempre fui avançando. Fui andando. Fui alcançando. Fui conseguindo. 

Mas hoje… Hoje, novamente, como sempre, o medo. Não aquele medo de impedir que o ar entre. Não aquele medo de tremer as pernas. Não aquele medo que faz gelar o estômago. O outro…… 

O outro medo. O medo de não ser capaz de continuar, de não ser capaz de conseguir, de não ser capaz de aguentar tudo a conta-gotas. Sempre fui mais de enxurrada do que pingo a pingo. E de enxurrada vou suportando e aguentando os embates mesmo que, na altura, acredite que não aguento mais. Não sei não ter pressa. Digo-me tantas vezes que não tenho pressa, mas tenho. Não sei ir a passo. Não sei digerir gota a gota. E esse gota a gota, pingo a pingo, esse passo lento, ritmado, que me assusta.

Tenho medo. Não tenho medo de o dizer. Mas tenho medo de não ser mais do que medo. 

Se estou assustada? Muito. Deixem-me assim, sossegada no meu canto. Mesmo que não faça desaparecer esse medo. Mesmo que o medo faça parte do meu processo. Mesmo que o medo faça, já, parte de quem sou. 

Tenho medo. Estou assustada. Mas não me deixo ficar sossegada no meu canto. Todos os dias avanço. Todas as semanas recuo. E o medo. Sempre o medo. 

E se um dia eu não souber ou não conseguir regressar……? 

Sim. Tenho medo. Porque a linha é demasiado fina e tão fácil de ultrapassar… Sei que tenho quem esteja na outra ponta do fio, pronto para me atirar a bóia de salvação. Sei que tenho quem me acenda a luz de presença, pronto para me fazer regressar. Mas não tenho quem me segure na mão durante a vertigem do medo. 

E é na vertigem do medo que estou. 

{#página92} 

Respirar. Respirar devagar. Respirar novamente. 

Se até na calçada crescem flores……… 

Respirar. 

{#página91} 

Crescer dói……… 

957 dias depois de 18 depois de 42. Crescer dói. 

{#página90} 

– Gosto de saber que estás melhor! 

– Não estou melhor. Estou…diferente.

– Não! Consigo perceber que estás melhor. 

– Não. Estou diferente. 

– Tu estás melhor! 

– Não… Apenas diferente… 

Verbalizar assusta-me… Por isso mantenho: estou apenas diferente. 

{e as projecções, sempre as projecções! Para o bom e para o mau. Até quando? E como saber distinguir entre uma projecção e outra coisa qualquer…?} 

{#página89} 

Luz e sombra. 

Branco e preto. 

Positivo e negativo. 

Insisto em não ver. Em não querer ver. A luz, minha. O branco, meu. O positivo, que tenho. 

Mais facilmente aceito o meu lado escuro, a minha face negra, os meus pontos abaixo de zero. Os outros, os opostos do que vejo, não os reconheço. Não os sei reconhecer em mim. Não os sei aceitar. Não os quero assumir como opostos de sombra, de preto, de negativo. Prefiro mantê-los no cinza, ali no meio. Média. Mediana. 

Assumi-los seria exigir de mim mesma mais, muito mais, do que sei ser capaz de ser. Exigir de mim mesma o que nunca soube ser. O que nunca fui? Mediana, é só o que quero ser. Não menos que isso porque não sou apenas escuridão, não mais que isso porque não sou apenas luz. Cinza. Cinza sei ser. Cinza linear, médio, na proporção certa de preto e branco. 

Onde foi que me perdi no percurso de me ver e aceitar que, se calhar, também tenho luz, branco, positivo? Onde foi que deixei de acreditar que, se calhar, também posso pôr na balança aquilo que nunca lhe soube o peso por achar, apenas, que simplesmente faz parte e não tem que ser medido? Onde foi que passei a reconhecer qualidades apenas nos outros e nunca em mim mesma? Onde foi tudo isto que me tornei sem dar conta? 

Um dia, dizem-me, irei saber reconhecer aquilo que hoje insisto em não querer ver. Dizem-me que não querer ver faz parte. Que não querer ver é um processo interno de defesa. Dizem-me. Não querer ver, digo eu, é o resultado de todos os processos externos que me demonstraram ao longo do caminho que esse lado luz, branco, positivo, esse lado que insisto em não querer ver, esse lado que querem que me esforce por aceitar que existe, não querer ver, digo eu, é o resultado de todos esses processos externos que desde sempre me recordam que não sou mais que sombra, preto, negativo. 

Por isso cinza. Proporção certa de preto e branco, luz e sombra, positivo e negativo. Média. Mediana. Jogar pelo seguro. Não exigir de mim mesma o que não posso oferecer. A mim própria. 

Não. Não vejo. Não quero ver. Não sei sequer se saberei alguma vez ver. Sei, apenas, que me defendo ainda antes do ataque. Ergo muros, barreiras, visto a armadura, ponho a máscara, aguardo o embate. Sempre doerá menos quando voltar a falhar. A falhar comigo mesma. 

{#página88} 

Não será o último pensamento do dia. Outros, tantos!, virão ainda antes de adormecer. Mas é um pensamento recorrente de final de dia: hoje não foi assim tão mau. 

Medo? Claro. Como não? Medo de voltar àqueles outros dias que, afinal, nem foram há tanto tempo assim. Medo das surpresas do carrossel comboio fantasma montanha russa que não precisa de moedas. Medo, no fundo, do que desconheço porque ainda não chegou, porque amanhã ainda é longe e não é agora. Medo, sempre medo. O medo. De ser cedo, demasiado cedo ainda. De não estar preparada. De não estar pronta ainda. De não ser ainda tempo. Tempo de não sei bem o quê ao certo. Só sei que ainda é cedo. Muito cedo. 

Ou será apenas medo de aceitar que é possível ter dias bons? Que também tenho direito a eles? Que também os mereço? Que, apesar de tudo, também são meus para os sentir como são: bons. Bons só porque sim. 

Hoje não foi assim tão mau. É uma forma receosa de assumir que hoje foi um dia bom. Que não quero verbalizar com medo que o feitiço se quebre. Porque já o tinha dito antes e afinal voltei a entrar na feira popular sem comprar bilhete e que me levou rapidamente ao carrossel. Esse mesmo. O tal carrossel comboio fantasma montanha russa que não precisa de moedas. Não sei se a viagem já terminou. Desconfio que não. Acredito, ou faço por querer acreditar, que as moedas que não são precisas acabaram por se esgotar e o carrossel comboio fantasma montanha russa já só desliza pela inércia de tanto tempo em movimento. Mas e se não for nada disso? E se for só mais um daqueles troços ilusórios que antecedem mais uma queda vertiginosa seguida de mais umas quantas curvas apertadas para rodopiar no eixo roubando-me novamente o Norte, tirando-me novamente o chão…? 

Hoje não foi assim tão mau. Quero acreditar que sim, que vai continuar a ser assim, não tão mau. Mas não verbalizo, não quero, não consigo verbalizar!, que foi um dia bom. E que também tenho direito e também mereço dias desses. 

Último pensamento do dia: hoje não foi assim tão mau…