Author Archives: Kooka

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Se perguntarem por mim, dir-vos-ei que não estou. Esta que vos fala é outra que não eu.

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“Lembras-te do que falámos sobre a expressão ‘sozinha’? Gostava que reformulasses a frase.”

Não. Nem sempre é possível substituir “sozinha” por “sem o apoio de”. 

Porque é, de facto, sozinha que ao fim do dia tudo piora. E é sozinha que vou seguindo este caminho. Esta luta. Este luto. Porque, sei-o, é só meu.

Sozinha. 

{#página47} 

Cansada dos dias a preto e branco.

Mas não consigo reter a cor.

Não, o meu sorriso não está cá sempre. Pelo menos não aquele de há 20 anos. Nem de há 10. Ou apenas 3. O de agora, quando aparece, é tão diferente. É cinzento. Pesado. Dorido. Cansado.

Como eu. Cansada. Dorida. Pesada. Cinzenta.

Não consigo reter a cor. Perdi o cor de rosa. Não consigo plantar verde -> violeta -> rosa.

Estou cansada dos dias a preto e branco. Estou cansada disto. Um isto que não é possível de explicar. E é quase impossível de continuar a sentir. Porque não é dor. É algo para além disso cujo nome desconheço. É vazio e mais além. É negro, cinza escuro. É sombra. É frio de queimar por dentro. É estar e não estar. Aqui e ausente, distante. Porque não saio de lá, mais atrás. Sou eu e outra que nunca tinha sido. Não sou eu e outra que não quero ser. É não ter rumo e ter uma bússola. É ver o farol, luz de presença e desviar-me do caminho.

É tudo e não é nada. É sentir. Demasiado, como sempre foi. Tudo ao mesmo tempo. É a capacidade de armazenamento da memória. É a ausência do que nunca esteve realmente. É ser sozinha sem o estar. É estar sozinha sem o ser.

São os dias a preto e branco. Sou eu a não reter a cor.

Sou eu. E a outra que não eu.

Cansada.

Exausta.

Pesada.

Dorida.

Sozinha.

Vazia.

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Dizia-me ele ontem, depois do abraço que já faz parte do ritual semanal: “uma vantagem do abraço é que são sempre precisos dois para acontecer. Outra é que não é possível dares um abraço sem receber outro. E a mim também sabe e faz muito bem”.

Abracem mais. Pode ser o suficiente para fazer a diferença num qualquer dia menos bom. E melhora ainda mais um dia menos mau.

O que me falta…? Neste momento, um abraço. Pouco ou nada mais que isso… Ou, simplesmente, o toque……

{#página45} 

Trabalho para casa.

Plantar.

Verde. Violeta. Rosa.

Para colher o resultado do verde, do violeta, do rosa.

You’re going to reap just what you sow. 

Escolho plantar cor. Escolho colher cor.

Verde. Violeta. Rosa.

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Aos poucos, a cor. Mesmo que o dia teime em querer permanecer cinzento. 

Aos poucos, a cor. Mesmo que chova lá fora e cá dentro. 

Aos poucos, a cor. 

Um dia a chuva pára. E o cinzento desvanece. 

Aos poucos. 

A cor. 

{#página43} 

A cor há-de voltar. Um dia.

Não hoje. Não agora. Não ainda.

Um dia…

{#página42} 

{…………} 

{#página41} 

Crueldade é alguém que acabas de conhecer te dizer “Ainda bem que o seu bebé não nasceu. Isso era egoísmo. Como é que ia cuidar dele agora com essas dificuldades? Como é que ele ia estar agora? Ia estar a passar fome, como é que você fazia? Matava-o, era?! Era?! Isso era ser muito egoísta! Problemas tem a minha amiga que tem cancro!”

De todas as barbaridades que tenho ouvido ao longo dos últimos 2 anos e meio esta supera tudo. É cruel. É maldoso. É desumano. É surreal. É inominável. É impossível de ter sido dito. Mas foi. Por uma mulher. 

Fica aqui para memória futura. Fica aqui para me recordar porque é que hoje baixei os braços mais um pouco. Porque é que desisti mais um pouco. 

Porque se já não me sentia com força suficiente para continuar, depois de hoje a força que precisava está completamente esgotada. Não existe. 

Isto não se diz. A ninguém. 

Mas isto foi dito. Hoje. A mim. 

{#página40} 

Como se sobrevive no fundo do poço, onde falta o ar, falta a luz, falta a cor? 

Já lá estive antes. Não me recordo como saí… Ou recordo-me. Até bem demais. Três dias em silêncio até que um murro na mesa me trouxe de volta. 

Não vai haver murro na mesa desta vez. Não há murro na mesa há muito tempo, desde o dia “já não posso fazer nada por ti”. Porque um cobarde é um cobarde é um cobarde. 

Há, sim, várias luzes de presença. Que me chamam, que tentam puxar por mim. Mas eu não sei, já, como voltar para cima. Como corresponder ao chamamento dessas luzes de presença. Onde está a energia, a força, para me trazer de volta à superfície. 

Dizem que faz parte. Dizem que sou forte. Dizem que vou conseguir. Digo que até lá, um dia atrás do outro atrás do um, o esforço para sobreviver é demasiado grande, demasiado doloroso, demasiado violento. 

Onde vou para encontrar essa tal de força que me dizem que tenho? Onde vou para respirar quando o ar não entra e a voz não sai? Onde vou para regressar à superfície? 

Afogo-me todos os dias um pouco mais. Apago-me todos os dias um pouco mais. 

Como se sobrevive no fundo do poço, onde falta o ar, falta a luz, falta a cor? No fundo do poço onde estou eu, onde falto eu. 

{um cobarde é um cobarde é um cobarde} 

Um cobarde é um cobarde é um cobarde.

Um cobarde é o que diz a quem o quiser ouvir que não quer problemas, quer soluções. Esquecendo-se das consequências das soluções dos problemas.

Um cobarde é o que nega as consequências acreditando que são apenas danos colaterais quando, na realidade, são danos directos das soluções dos problemas.

Um cobarde é o que, depois de encontrada a solução, atira para debaixo do tapete as consequências e finge que não existem.

Um cobarde é um cobarde é um cobarde.

Alguém que lhe diga que não é por agora se dedicar ao voluntariado que a consciência lhe fica mais leve. Até porque um cobarde simplesmente não tem consciência para lhe pesar. E não serão as acções de voluntariado que agora apregoa que lhe vão trazer o que nunca teve: a dignidade de ser algo mais do que um cobarde.

Espalhe-se a palavra. Porque é sempre importante recordar a um cobarde que nunca passará disso mesmo, um cobarde. E a idade para se fazer homenzinho já vai longe.

Um cobarde é um cobarde é um cobarde. E nunca será mais que um cobarde.

{#página39} 

Novamente, olhos no chão.

E de repente é aquele mês de Agosto todo. Outra vez.

São 922 dias depois de 42.

{………não me deixes desistir………por favor…}

{#página38} 

De tentar ver, sempre, as coisas positivas: 18h23m, ainda não é de noite.

E o facto de ir começando a perceber que não estou tão sozinha como tantas vezes me sinto.

Obrigada a quem, de uma forma ou de outra, está. Quem não está, paciência.

A minha prioridade? Eu. Pela primeira vez aceitar e assumir que primeiro estou eu. Chega de fazer seja o que (o que for…) porque “os outros primeiro”. Primeiro eu. Agora, primeiro eu. Tratar de mim. Cuidar de mim. Aprender a gostar de mim. Aprender a aceitar que eu sou eu, não sou os outros. Aprender a aceitar as minhas qualidades, os meus defeitos e os meus erros. Especialmente os erros. E sobreviver-lhes. 
(o caminho ainda é longo. Promete, também, ser ainda muito dorido. Violento até, como nos últimos dias. Ninguém disse que ia ser fácil. Nem eu alguma vez pensei que fosse. Nunca imaginei, no entanto, que pudesse ser tão violento. Dorido já o sabia. Violento desconhecia…) 

{#página37} 

Umas vezes sei que irei sobreviver a isto. 

Outras vezes duvido. Como hoje. 

Não me deixem cair……… 

{#página36} 

Um dia.

Atrás do outro.

Atrás.

Do um.

{#página35} 

The thing about pain is it demands to be felt.

Ou, para alcançar a cura é preciso enfrentar a doença.

Como quando, na infância, esfolava os joelhos. Era preciso desinfectá-los, tratá-los e dar-lhes tempo e ar para cicatrizarem. Trocar os pensos era sempre penoso. A água oxigenada não ardia na pele esfolada mas não era confortável na ferida aberta. A crosta que acabaria por se formar lembrava que o processo ainda estava no início, que cada novo toque ainda era doloroso, que tudo era ainda demasiado frágil e que facilmente sangraria de novo.

Hoje, 919 dias depois de 42, foi dia de tirar o penso. Que, como todos os pensos nos joelhos de infância, nada mais é que uma solução provisória. Que protege de eventuais infecções, é certo, mas não deixa respirar.

Foi dia de mexer na ferida. Que está, ainda, demasiado aberta. Demasiado exposta. Demasiado grande. Demasiado dolorosa.

Tirei o penso a medo. Foi, como sempre era tirar os pensos dos joelhos, doloroso. Expôr a ferida por completo aos olhos de quem sabe como desinfectá-la, limpá-la, tratá-la e, quem sabe, curá-la. Ou, pelo menos, ajudar a cicatrizá-la.

João, nome de mãe e pai. Pela primeira vez assim, completo. Um esboço do primeiro retrato que o tempo fez desaparecer quase por completo do papel térmico. E que, por me ser tão importante esse primeiro retrato, esboço a grafite no papel. 20 de Julho de 2014, 18h43m, 4 semanas + 2 dias, 30 dias.

João, nome de mãe e pai. Pela primeira vez assim, completo. Nome próprio há tão pouco tempo, nunca me tinha ocorrido conhecer-lhe o nome completo.

É um nome que é meu. Porque é o nome do meu filho. Mesmo que o meu filho não esteja aqui, visível, palpável, audível, é o meu filho. Que merece ter nome, próprio e completo de mãe e pai. Porque, mesmo que o meu filho não esteja aqui, visível, palpável, audível, cresceu em mim durante 42 dias. Existiu. Foi real. E foi visível.

Não posso continuar a fazer de conta. Fazer de conta que não existiu, que não cresceu, que não foi visível. Estou cansada de fazer de conta. Ou, pelo menos, de tentar fazer de conta. Não me importa se sou a única a recordá-lo. Se sou a única a amá-lo. Se sou a única a sentir-lhe a falta. Não importa. Porque, na realidade, fui a única que o conheceu, que ele conheceu. Fui a única que o teve a crescer dentro do corpo. Fui a única a vê-lo, com 42 dias, quando o meu corpo o expulsou. Fui a única a querer tê-lo para sempre comigo. Fui a única a pedir-lhe perdão por não ter conseguido ser melhor.

Fui a única a assumir-lhe um nome. João, de nome próprio. João, nome completo de mãe e pai.

Mexer na ferida que precisa de ar para respirar e cicatrizar fez-me perder, de novo, a capacidade de respirar eu mesma. Fez-me perder, novamente, aquele falso equilíbrio que tentava manter, aquela falsa serenidade que, por ser falsa, me continua a consumir.

Não posso forçar a cicatrização, não posso forçar a cura. Mas posso tentar o meu melhor para, para já, limpá-la, desinfectá-la, tratá-la. Mesmo que ainda tenha que mudar o penso inúmeras vezes. Num processo que alguns chamam de luto que nunca fiz. Num processo que devia ser feito, desde o início, a dois. Num processo que tenho feito sozinha desde o primeiro dia depois de 42. E que hoje me recordam que “gostava que não dissesses ‘sozinha’ e sim ‘sem o apoio do pai’, porque não estás sozinha. Eu estou aqui. Contigo e para ti. E vou estar sempre.”

João, nome completo de mãe e pai. Não sozinha, mas sem o apoio de. Sozinha de qualquer forma, porque sem João, nome completo de mãe e pai. Mas que trago comigo todos os dias desde o primeiro dia. E que continuarei a trazer. Porque aconteceu. Porque foi real. Porque é o meu filho. Porque sou mãe.

João, nome completo de mãe e pai. Meu. Para sempre.

{#página34} 

Quem é que conta o tempo, ou o Tempo? Os dias? Os meses. Os anos… “Um dia atrás do outro atrás do um”, disseram-me. Disseste-me.

Um dia atrás do outro atrás do um são já tantos dias. E a minha memória, minha maior inimiga, que revive cada dia, atrás do outro atrás do um.

Às vezes gostava de não ser assim. Mas é assim que sou. É assim que estou.

Vazia.

{#página33} 

{…………} 

{#página32} 

O cinzento também é cor. Mas não posso esquecer-me de voltar a focar-me nas outras cores. Mesmo quando, ou especialmente porque, me foge o cor de rosa.

{#página31} 

Olhar para cima. Custe o que custar. Sempre.

Procurar, sempre, o lado positivo. De tudo. Em tudo.

E todas as semanas ele faz questão de me lembrar que há sempre um lado positivo. Em tudo. Eu é que teimo em não querer ver.

{#página30} 

………tantas vezes o esforço parece não ser o suficiente. Parece não compensar. 
Estou a tentar. Juro que estou a tentar. Melhor não consigo………