Author Archives: Kooka

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Se perguntarem por mim, dir-vos-ei que não estou. Esta que vos fala é outra que não eu.

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Leva o tempo que for preciso. É o teu tempo. Aquele tempo que não tens tempo para perder Tempo. 

Não perdes. Ganhas. Respiras. 

Respira agora. 

Um dia atrás do outro atrás do um. Ainda te lembras? 

Descansa agora. Por hoje já está. Amanhã? Deixa primeiro o amanhã chegar. 

Respira agora. E não te esqueças de ti. 

{#página67} 

A ansiedade não mata, dizem. Há 23 anos que o oiço, há 23 anos que o repito a mim mesma. Há 23 anos que faço por acreditar nisso. 

A ansiedade não mata, dizem. Mas mói. Muito. E dói. Demasiado. 

Pára e respira. Regressa ao aqui e agora. Deixa o que for que está lá à frente. Afinal, ainda não chegou. E já devias saber que pode nem chegar. Lembras-te quando, há 3 anos, repetias todos os dias que o importante era o aqui e agora porque amanhã sabias lá se sequer lá irias chegar? Repete novamente. Volta ao momento. Volta ao aqui e agora. Amanhã, se o amanhã sequer chegar, ainda está longe. E o que o amanhã trouxer resolve-se na altura. 

Pára e respira. Racionaliza. O que é que te assusta? Porquê agora todo esse desnorte de ansiedade? Porquê assim, com essa intensidade, com essa força que te derruba? Não. Não te derruba. Abana-te. Mas sabes tão bem, há tanto tempo, que não te derruba. 

E se falhares? Que mal tem? Podes dizer-me todos os males que falhar tem. E eu vou dizer-te o que tu já sabes mas teimas em esquecer-te: falhar faz parte. Mas tu não vais falhar. Sabes isso. Por muito que te sintas exausta, por muito que sintas que tens feito tudo, dado tudo, sabes que não vais falhar. Porque isso está lá à frente, num amanhã que sabes lá sequer se chega. E tu estás aqui. Agora. Não lá à frente. 

A ansiedade não mata. Sabes isso tão bem, há tanto tempo. Sabes também que a visão turva, a respiração descontrolada, as palpitações que fazem estremecer não passam de sensações físicas de um medo irracional. Sabes que a ansiedade não mata. Mói muito, eu sei. Dói demasiado, também sei. Mas, tu e eu, ambas sabemos que também és mais forte do que isso. Já aí estiveste antes. Lembras-te? Claro que te lembras. Por muitos anos que passem não há como esquecer. Mas estás a esquecer-te do mais importante: há 23 anos que sobrevives a todos os picos de ansiedade, a todas as crises, a todos os medos irracionais, a todas as palpitações que fazem estremecer. 23 anos. Mais de metade da tua vida. E sobreviveste à ansiedade. Sempre. 

Pára e respira. Sabes tão bem que tudo isso vai acalmar. Que tudo vai passar. Que tudo se vai resolver. Pára, respira e racionaliza. Nunca permitiste que a ansiedade te parasse antes. Não o vais permitir agora. 

Pára. Respira. Racionaliza. Vai correr tudo. Tu sabes que sim. Tu sabes. 

Pára. 

Respira. 

Racionaliza. 

Vai. Correr. Tudo. Bem. 

Tu sabes que sim. 

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Já devias saber que muitas vezes ouves comentários que te fazem doer. Aliás, sabes que sim. Ainda é difícil ouvi-los, mesmo que em por acaso em linhas de conversas cruzadas. Mesmo que não sejam dirigidos a ti.

Podes ter vontade de te levantar e dizer “vamos mudar de assunto” ou até “e que tal não falarmos disso” ou ainda “não fales do que não sabes”. Podes ter vontade de intervir e expôr o que sentes, o que pensas e o que, de facto, sabes. Porque sabes mais e melhor do que quem puxou o assunto que apenas sabe de ouvir falar. De ouvir dizer. De experiências de terceiros.

Podes ter vontade disso tudo. Tens esse direito. Porque não é o tempo que durou uma experiência que lhe vai atribuir maior ou menor importância. Que lhe vai dar maior ou menor valor. Que vai dar maior ou menor sofrimento na hora da perda.

Uma perda é uma perda. Uma perda inesperada será sempre uma perda inesperada. Seja um amigo, seja um familiar, seja um filho.

Seja um filho às 8 semanas que foram 42 dias, seja um filho às 19 semanas, seja um filho aos 6 meses, seja um filho aos 4 dias, seja um filho aos 28 anos.

Uma perda será sempre uma perda. Não importa quanto tempo durou. Um filho será sempre um filho. Não importa quanto tempo esteve por perto. Fará realmente diferença a questão do tempo?

Já devias saber que muitas vezes ouves comentários que fazem doer. Comentários que desvalorizam a tua perda porque, afinal, foram só 42 dias. E vais ter vontade de intervir. E de dizer que a dor da perda de um filho não se quantifica. Não é a quantidade de tempo que vai definir quem sofre mais. Se a mãe que não o chegou a ser porque não passou de 42 dias de gestação ou se a mãe que nunca deixará de o ser apesar da perda com 28 anos.

Uma perda é uma perda. A perda de um filho é a perda de um filho. Não é quantificável. Muito menos é comparável.

Já devias saber que muitas vezes ouves comentários que fazem doer. E que nessas alturas volta tudo à superfície. E apetece gritar, apetece fazer má cara, apetece sair dali.

Já devias saber. E, no fundo, sabes. Simplesmente ainda não te habituaste. Não sei se alguma vez te irás habituar. Mas não podes, nunca!, esquecer-te que sim!, tens direito à tua dor da tua perda. E que não!, ninguém tem o direito de a desvalorizar, quantificar, comparar. Porque uma perda é uma perda. Uma perda de um filho é uma perda de um filho. E a tua perda do teu filho é a tua perda do teu filho.

Uma perda é uma perda. Mesmo que tenham sido 42 dias.

A minha perda é a minha perda.

A minha perda do meu filho é a minha perda do meu filho. Mesmo que tenham sido 42 dias.

Há 950 dias.

{#página65} 

Pára e respira. Mesmo que doa fisicamente. Pára e respira. Mesmo que a vontade seja fugir dali. Pára e respira. Mesmo que a vontade seja ficar pequenina, imperceptível, refugiada no teu canto. Pára e respira. Mesmo que queiras gritar porque, mais uma vez, a visão turva e as palpitações e as guinadas no peito te visitem como há muito tempo não o faziam. Pára e respira. Mesmo que sintas que não sabes onde estás e o que estás a fazer. Pára e respira. Mesmo que seja difícil manter uma linha de raciocínio lógico quando tudo parece não fazer qualquer sentido. Pára e respira. Mesmo o túnel onde viajas nesse momento seja cada vez mais escuro, cada vez mais apertado, cada vez mais rápido na vertigem da descida. Pára e respira. 

Pára. 

Respira. 

Sabes que é só mais uma viagem na via rápida da ansiedade. O pânico já ali, a espreitar. À espera. À tua espera. 

Pára. 

Respira. 

Vai correr tudo bem. 

Regressa ao aqui e agora. Mesmo que tenhas que recorrer aos químicos. Regressa. Aqui. Agora. 

Pára e respira. 

Vai. Correr. Tudo. Bem. 

Pára. 

Respira. 

{#página64} 

Há dias em que respirar já não custa tanto. Porque, afinal, nada mudou mesmo que tudo tenha mudado. 

Florescer em mato selvagem. Um pouco como eu. No meu mato que sou e que não se deixa domar. Mas onde volto a crescer, a florescer, a respirar. E, eventualmente, a reencontrar-me. 

Há dias em que respirar já não custa tanto. Como hoje. E apesar de tudo. 

{#página63} 

Dia de voltar a mexer na ferida. Aquela que ainda não cicatrizou, que ainda sangra e ainda dói. Muito.

Dia de perceber, sentir, que afinal os dias podem ficar, podem ser, melhores. Porque, tal como quando ia à enfermaria mudar os pensos dos joelhos, aos poucos começa a ser mais fácil mexer na ferida, limpá-la, desinfectá-la.

Ainda custa, claro. Tirar o penso e expôr os danos ainda custa. Mas, percebo agora, aos poucos começo a ver melhorias. Longe da cicatrização, sim. Mas a infecção a ser, aos poucos, cada vez menor.

Sim, afinal os dias podem voltar a ser melhores. E vão voltar a ser melhores.

Um dia deixarei de ter pensos nos joelhos. Um dia a ferida irá fechar e cicatrizar. E esse dia, sei-o agora, está mais perto a cada dia. Porque “um dia atrás do outro atrás do um”. Sem pressa.

Sem pressão.

{#página62} 

“Tem calma, miúda. Respira. Pára um bocadinho e respira…” 

Mesmo quando o ar não entra. 

Especialmente quando o ar não entra. 

Pára. 

Respira. 

Vai correr tudo bem. 

{#página61} 

Continuar a olhar para cima.

Um ano depois, não mudava nada do que escrevi aqui. Porque continuo a não ser uma miúda igual às outras. Com tudo o que de bom e mau isso significa.

Continuar a olhar para cima.

Aprender que não ser uma miúda igual às outras é positivo. E aceitar que é assim que sou. Tal como sou.

Continuar a olhar para cima.

Mesmo que a ansiedade dispare sem pré-aviso. Mesmo que o ar volte a não entrar. Mesmo que o medo……

Continuar a olhar para cima. Mesmo não sendo uma miúda igual às outras. Continuar.

{#página60} 

Sempre gostei de mapas. Sempre gostei de indicações. Sempre gostei, muito, de jogos de pistas. A par do “Assalto ao Castelo”, por norma jogo nocturno, os jogos de pistas diurnos. 

Sempre gostei de seguir instruções, indicações, sempre tive curiosidade em saber onde me levavam, o que sairia dali. 

Não me desoriento com mapas, mesmo que por vezes perca o Norte. Não me incomoda perguntar o caminho. Sigo as setas, monto o puzzle e vou até onde as indicações me levarem. 

Por agora vou por ali. Ou aqui, não sei bem. Sei apenas que é este o caminho. As indicações, as instruções, são claras. Não ter pressa. E não desistir. Mesmo que, ou especialmente quando, pelo caminho volte a tropeçar. Volte a cair. Volte a esfolar os joelhos. Mesmo que, ou especialmente quando, volte a tirar os pensos para limpar e desinfectar as feridas. Também esse momento vem no manual de instruções, na lista de pistas, nas coordenadas do mapa. São indicações sem contra-indicações. 

E por tudo isso é por ali que vou. Ou por aqui, não sei. Sei, apenas, que é este o caminho. Mesmo que tenha que regressar várias vezes ao ponto de partida para chegar ao final do percurso. 

Dizem-me que, no final, vai valer a pena. Quero, muito, acreditar que sim. 

{#página59} 

Posso não saber, ainda, onde quero chegar. Sei, no entanto, que quero lá chegar. Seja lá onde for. Porque qualquer sítio é melhor que o sítio onde tenho estado nos últimos meses. Anos. 

E por isso continuo o caminho. Mesmo quando vejo progressos, mesmo quando reconheço alguma evolução e quase tenha vontade de dizer “a partir de agora já sigo sozinha”. Continuo o caminho mas reconheço que saber o básico não é o suficiente, ainda, para continuar o caminho sozinha. Sei que voltarei a tropeçar durante o processo, sei que voltarei a recuar, sei que voltarei a desfazer, as vezes que forem precisas, uma parte do que já foi feito. Porque também isso faz parte do processo. De aprendizagem. De crescimento. Mas, acima de tudo, de cura. 

Tenho medo. Muito. De reconhecer, de aceitar, de dizer, de verbalizar que estou melhor. Tenho medo, muito. Claro que tenho. Porque, sei, voltarei a tropeçar, voltarei a cair, voltarei a chorar… 

Mas por hoje, só por hoje, reconheço, aceito, digo, verbalizo: estou melhor. 

Mas ainda: um dia atrás do outro atrás do um. O caminho ainda agora começou. 

{#página58}  

Ir percebendo, aos poucos, que se é capaz. Aprender e dominar o básico, os primeiros passos para prosseguir o caminho com um bocadinho mais de confiança. Certezas nunca. Mas confiança. Em mim própria. 

Se, como com a agulha e a linha, tantas vezes pensei em desistir, também tantas outras acredito que vai resultar. Que vou conseguir. 

Um dia atrás do outro atrás do um. 

Um ponto de cada vez. E voltar atrás tantas vezes quantas forem necessárias para poder, no final, dizer: consegui. 

{#página57} 

Parabéns, Mãe. 

{#página56} 

{……………}

{#página55} 

Há quanto tempo foi ontem…? 

939 dias. Depois de 42.

{#página54} 

Obrigada, Mãe. 

Por todos os pedacinhos de cor. 

Por tudo. 

{#página53} 

Focar na cor………

{#página52} 

“- Disse-te que não queria que nada mudasse. Que tinha medo que tudo mudasse. E tudo mudou. 

– Mas nada mudou! 

– Não…? 

– Não! O Sol continua a nascer todos os dias, não continua? 

-……………” 
Sim. O Sol continua a nascer todos os dias. Mas não é isso que impede que, por vezes, simplesmente não brilhe. 

Tudo mudou. E eu disse-te que não queria. Pedi-te que não mudasse. Mas tudo mudou. 

Até o nascer do Sol perdeu o brilho. 

{#página51} 

Um dia.

Um dia vou perceber onde é que errei, onde é que virei na curva errada, onde é que segui mal as indicações.

Um dia vou perceber. Vou perceber porque é que não posso ser simplesmente eu, como sou, quem sou, o que sou.

Um dia vou perceber porque é que não encaixo, não pertenço, não sou de. Não sou daqui, não sou dali, não sou de lado nenhum.

Um dia vou perceber porque estranho a imagem reflectida no espelho, que não reconheço, nunca reconheci. Que não me pertence. Que não sou eu.

Um dia vou perceber porque é que pouco ou nada disto faz sentido, quando eu sou mais de sentir do que fazer sentido.

Um dia vou perceber esta sensação permanente (perpétua?) de abandono, de desprotecção, de falta de lugar, de falta de pertença.

Um dia vou perceber.

Até lá continuo a tentar encaixar-me, a tentar pertencer, a tentar acertar, a tentar seguir as indicações certas.

Até lá continuo a tentar não ser eu, porque continuamente me recordam que não o posso ser. Que não posso ser como, quem, o que sou.

Até lá vou convivendo da forma mais pacífica possível com a imagem reflectida no espelho, mesmo que continue a saber que não sou eu. Que não me pertence. Que não reconheço.

Até lá continuo a tentar que tudo faça sentido, que nada faça sentir.

Porque sentir dá trabalho. Porque sentir assusta. Porque sentir é demasiado natural e espontâneo num dia a dia altamente artificial, programado, agendado, com horas marcadas até para simplesmente ser. Ser o quê…? Não sei. Se simplesmente não me deixam ser…

Um dia vou perceber o que raio faço aqui afinal. Para que serve tudo isto. O bom e, especialmente, o mau. Um dia vou perceber todo o sentido de tudo isto.

Até lá vou simplesmente sentindo. Mesmo que me recordem que não posso ser assim: alguém, que não sei quem, que simplesmente sente. O bom e, especialmente, o mau.

Um dia.

{#página50} 

O toque. 

O cheiro. 

O som. 

O calor. 

Tudo isto marca a presença. 

A falta de tudo isto recorda a ausência. 

Desde sempre. E desde sempre que a maior presença é, precisamente, a ausência. 

{#página49} 

…e a memória? Alguém sabe como se desactiva…?