Author Archives: Kooka

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Se perguntarem por mim, dir-vos-ei que não estou. Esta que vos fala é outra que não eu.

#day108

Domingo com sabor a Domingo. Sem História nem histórias.

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#day107

– Olha a Lua ali em cima! Já viste, Filipe?
– É linda, tia!
– A tia gostava de ir lá para cima, para a Lua. Queres vir com a tia?
– Não…eu não gosto. E não quero que tu vás!
– Não gostas? Porquê?
– Oh! Porque é muito longe e eu quero a tia SEMPRE aqui! Ficas aqui ao pé de mim, tia?

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#day106 out of 365plus1

Chove lá fora, ameaça chover cá dentro.
O Inverno que não descola, lá fora e cá dentro.
São ciclos. Todos eles passam para mais tarde se repetirem.

Chove lá fora. Cresce a tempestade cá dentro.
Mas, sabendo dos ciclos, resta-me abrigar e esperar.

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#day105

Tanto para dizer.

Tanto que ficará por dizer.

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#day104 out of 365plus1

Manter o foco. Manter o rumo. Assumir uma espécie de invisibilidade.

O Mundo é um lugar cada vez mais feio. Muito feio. E que entendo cada vez menos. Também por isso me vou deixando ficar no meu canto. Por não entender este Mundo. Por não entender as pessoas.

Mantenho o foco. Mantenho o rumo. Assumo uma espécie de invisibilidade.

Acredito que há mais cor de rosa no meu caminho. Algures por aí.

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#day103 out of 365plus1

Mimos na caixa de correio. Lisboa em versão diorama para recortar, colar e montar. Cape Town e Table Mountain, África do Sul num selo de leão.

São mimos. São gestos que me sabem bem. Que me fazem sorrir ao abrir aquela caixa cinzenta ao final do dia. São pequeninas coisas que me são enormes.

Já tinha saudades de mimos na caixa de correio.

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#day102 out of 365plus1

Sempre que precisares, lembra-te do dia de hoje.

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#day101 out of 365plus1

Deixa o medo de lado.
Entrega e confia.
Confia, também, em ti própria. Acredita em ti.

Ansiedade é sofrer por antecipação. Não te esqueças do aqui e agora.

Recupera os rituais, as rotinas, os passos que te tranquilizam.

Recupera-te a ti própria e às tuas capacidades.  Todas elas.

Cabeça erguida. Costas direitas. Diafragma cheio. Respira.

E vai. Em frente.

Tudo vai correr bem. Hoje. Amanhã. Só por hoje, entrega e confia.

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#day100 out of 365plus1

Quieta e sossegada.

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#day99 out of 365plus1

Sexta feira e o telhado. Sem Lua. Não O telhado. Apenas o telhado. Sem Lua, um ou outro.
Com paragem em todas estações e apeadeiros excepto Chelas e Marvila. O comboio, dizem. Para quando paragem em Chelas e Marvila? Não de comboio, diz a voz dos altifalantes.

Comboio de perguntas que não faço e respostas que não chegam. Como poderiam chegar? Se há paragem em todas estações e apeadeiros excepto Chelas e Marvila…

Comboio de conflitos entre mim e a outra que não eu. Porque, mais uma vez, se perguntarem por mim dir-vos-ei que não estou. Esta que vos fala é outra que não eu.

Não comprei bilhete para esta viagem. Mas embarquei e deixei-me ir. Sair do comboio em andamento não é impossível, apenas não é recomendado. Mesmo quando reduz a velocidade. Nunca soube qual o destino, o maquinista não revela e a voz nos altifalantes apenas repete que este é um comboio com paragem em todas estações e apeadeiros excepto Chelas e Marvila.

Nem no telhado me sei fora do comboio. Não neste telhado. Nem tampouco n’O telhado. Chego a pensar se algum dia o comboio irá, de facto, parar. Não numa qualquer estação ou apeadeiro, excepto Chelas e Marvila porque aí não pára de todo. Mas numa gare de facto. Ponto final de linha. Já pensei em accionar o travão de emergência e forçar a paragem, com todas as consequências que implica accionar do travão de emergência. Mas penso em fazê-lo antes do descarrilamento que se adivinha, tal a velocidade e as condições da via.

E dou por mim no telhado, não n’O telhado, a ver passar os comboios e continuando a viajar no meu. Sem Lua por hoje. Sem abrandamento de velocidade. Sem coragem para accionar o travão de emergência, continuando este conflito interno entre mim e a outra que não eu, aquela que sabe que accionar o travão de emergência é a solução para evitar o descarrilamento.

Hei-de ganhar coragem para o travão. Até porque, repete a voz do altifalante, este comboio tem paragem em todas estações e apeadeiros.

Excepto Chelas e Marvila.

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#day98 out of 365plus1

Voltar, sempre, onde sou bem recebida. Sempre com um sorriso, colectivo, que se percebe genuíno. Onde não sabem o meu nome mas onde o nome não é importante. Onde entro e já sabem o que quero e como gosto. Onde, quando chove, me tocam nas costas e me dizem que chatice que hoje não pode estar na esplanada como gosta. Ou quando faz sol uma mão no ombro partilha que finalmente está bom para ir saborear o seu café como gosta.

Voltar, sempre, ali. Onde ninguém sabe o meu nome, onde não sei o nome de ninguém. Onde ninguém sabe quem sou, onde ninguém me trata como só mais uma operação na máquina registadora.

Retribuo sempre os sorrisos. Mesmo de manhã cedo quando ainda o dia não começou para mim mas já corre apressado lá fora. Ou especialmente de manhã, depois de 14 minutos de comboio de rostos pesados e cinzentos, depois de 1200 metros em 12 minutos de corpos em rebanho pela avenida. Sim, especialmente de manhã retribuo os sorrisos que me recebem bem dispostos onde mostro o primeiro sorriso do dia.

Ali sinto-me bem. E imagino tantas vezes como seria qualquer pessoa ser sempre recebida assim em qualquer lado. Substituir um “o que vai ser?”  por um sorriso aberto e um sonoro mas aconchegante bom dia.

Ali esqueço-me,  por momentos, da rispidez de respostas automáticas de quem me conhece e sabe o meu nome. Mas que não sabe que o café é cheio. De quem sabe quem sou mas não sabe que o café é lá fora mesmo que chova. Ali esqueço-me do frio de ser só mais um número na passagem dos dias de quem se cruza comigo há tantos anos.

Ali volto sempre. Duas vezes por dia. 5 dias por semana.
Ali não quero voltar. Uma vez talvez. Mas a última. Porque o meu Tempo diz-me que é Tempo de sorrisos sinceros e não de frio inalcançável de números e episódios.

Mereço mais. Mereço muito mais. E por isso mesmo volto ali todos os dias. E por isso mesmo começo a afastar-me, a custo porque dói, de um cenário onde não tenho papel que não o de simples figurante.

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#day97 out of 365plus1

Sol. Em tons quentes de café. Que queima a pele e aconchega.
Tenho vontade do nascer do Sol da janela. Na estrada não posso dispensar-lhe a atenção que merece. Tenho vontade do nascer do Sol da janela. Não do vidro do carro, não da estação do comboio, não do telhado. Da janela. Daquela janela por onde nunca o vi nascer. Daquela janela aberta ao horizonte de sonhos que não ouso ter, de planos que não ouso fazer, de desejos que não ouso ter.

Sol. Em tons quentes de café. Do dia que começa ainda de noite. Do vento gélido da manhã. Das horas que passam como os dias: uma hora atrás da outra atrás da uma.

O silêncio. Que me grita. O silêncio. A ausência de sinal, a luz de presença extinta, o ponto de uma fuga impossível, os pirilampos fora de época, as bolas de sabão que não formam. O silêncio. Novamente o silêncio que me grita e que eu teimo em fazer de conta que não oiço. Porque é silêncio, apenas. É a ausência numa presença constante que pesa e pisa e passa e volta para ser, de novo, ausência.

A distância que de tão curta é intransponível. Sem barreiras que a aumentem, com uma muralha que se quer fazer passar por fortaleza e que não passa de um fosso. Sem pontes, sejam móveis, levadiças, pênseis ou em arco. Sem pontos de acesso. Apenas um fosso. Em silêncio. Que me grita. Que me pesa na permanência da ausência. Que me afasta numa tão curta distância.

O Sol. Que chega de manhã cedo em tons de café. Cheio. Intenso. Sem açúcar. Que me queima o rosto envolto no vento gélido. Que me queima os lábios ao toque do plástico.

O Sol. Que quero voltar a ver nascer à janela que não me responde. A mesma do fosso. A mesma do silêncio.

O Sol. Que vou vendo nascer do vidro do carro. Na estação do comboio. Mas não da janela.

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#day96 out of 365plus1

Hoje: insegurança, ansiedade, desnorte, medo.

Acima de tudo o medo.

Não posso permitir que nada disto me vença. Mas acima de tudo o medo. Tudo o resto é uma espiral.

Parar. Respirar. Refocar. Acima de tudo respirar. Porque acima de tudo o medo.

E sorrir mesmo que a vontade seja nula.

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#day95 out of 365plus1

April showers bring May flowers.

Cinzento, novamente o cinzento. Daquele que não é preto no branco nem branco no preto.

Let it go.

Presa a “isto” com lastro que não consigo soltar. Como uma âncora. Como uma amarra. E não, não quero mais. Quero o cinzento definido, na proporção certa de preto no branco e de branco no preto. É isso o que quero.

Be the one.

Soltar o lastro, levantar âncora, desfazer amarras e seguir. Não é possível começar de novo? Não é possível começar de novo. Como não é possível apagar os erros. Nem as asneiras. Mas é possível seguir o caminho que é meu. Unicamente meu. E que é um caminho para seguir sozinha.

Para quê fazer de conta que não é sozinha? Para quê fazer de conta que há lugar para não estar sozinha? Não há. E é sozinha que me encontro, me aceito, me conheço. Para quê criar fantasias sem nexo quando já sei, de antemão, que o meu percurso é este, desta forma?

Não importa as vezes que me renda. Não importa a força de acreditar. Não importa a vontade de querer.

Nada disso importa e é por isso entrego os pontos, baixo os braços e simplesmente sigo. Umas vezes no preto, outras vezes no branco. Nunca no cinzento definido de proporções certas de preto no branco e de branco no preto. Porque o meu caminho é outro. Sozinha.

{e ainda assim, por muito que por vezes a vontade seja quase nula, ainda vou sorrindo por haver sítios onde me fazem sentir especial. Mesmo não o sendo e sabendo-o desde sempre.}

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#day94 out of 365plus1

“What Maisie Knew”.

Ou quando o cinzento também é cor.

Ou, ainda, quando me lembro que sim, afinal sorris. E ris também. Ou sorrias e rias e brincavas e fazias piadas comigo, sobre mim. E eu ria também, sentada no chão e confirmava as piadas que fazias e acrescentava-lhes pormenores.

O cinzento também é cor.

Não sei porque me fui lembrar agora. Mas lembro-me dessas conversas sem nexo de piadas fáceis porque óbvias. E de rir em conjunto por ser tão simples. Eram outros tempos. Outras vidas. Sim, eram outras vidas porque tanta coisa aconteceu. E tudo mudou quando no ar ficou a promessa que nada iria mudar.

O cinzento também é cor.

Mudei eu, certamente. Mudou tudo. Mudei ficando a mesma. Mas mudou tudo.

O cinzento também é cor.

E às vezes sinto falta de tudo isso que mudou.

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#day93 out of 365plus1

Faz-me falta. O pleno da Primavera. O nascer do Sol da janela. O pôr do Sol com sabor a mar. A chuva que me lava a alma mesmo que molhando o corpo. A troca de palavras sem nexo ou grande sentido à mesa porque não é obrigatório mais nada que não apenas viver o momento. Rir com aditivos, sentada no chão perdendo a conta. E lembro-me tão bem que não ria sozinha. Não sorria sozinha. Não sorri sozinha.

Faz-me falta. O pleno da Primavera. Quando me reencontro e renasço. E sorrio e riu. Sem aditivos mas sempre sentada no chão.

Faz-me falta. Essa mesa. Esse chão. Esse mar. Essa janela.

Faz-me falta. Não deixarás de fazer.

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#day92 out of 365plus1

2192 dias a Sul.

3 duodécimos.

Contagem sem contar. Sem pensar.

Parar de vez em quando.

E, novamente, aquela vontade de perguntas e respostas. Sem as perguntas. Sem as respostas.

2192 dias a Sul.

20 duodécimos.

Contar sem contagem. E a pensar.

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#day91 out of 365plus1

Contar passos. Porque “um dia atrás do outro atrás do um”, sempre. Mesmo quando o dia não tem história. Ou tem. Daquelas que guardo comigo.

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#day90 out of 365plus1

Uns dias as palavras. Noutros o silêncio.

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#day89 out of 365plus1

Da importância de me chamar Mafalda. Mesmo que não seja esse o meu nome. Mafalda de Quino, essa mesma.

Escrever, ou como tantas vezes lhe chamo “debitar para o éter”, é-me essencial. Faz parte de mim, de quem sou, do que sou, de como sou. Escrevo de mim para mim, não de mim para alguém. Mesmo que, quando o que escrevo, possa ser uma mensagem mais ou menos directa. Mesmo aí é para mim que escrevo, para não deixar nada por dizer ainda que sejam mensagens que, invariavelmente, não chegam ao destino. Ou precisamente por saber que não irão chegar ao destino como um postal que se extraviou.

Escrevo para mim. Releio algumas coisas que vou escrevendo, não agora no imediato. Mais tarde quando o tempo me diz que é Tempo de me reencontrar. E ao reler-me olho para trás, para o que já foi e percebo que o momento já não é o mesmo. E analiso o que o éter me guarda.

Escrevo sem outro propósito que não ser apenas eu. Assim, contestatária tantas vezes, adolescente outras tantas e ainda uma mão cheia de outras coisas e outra mão cheia de coisa nenhuma de fácil definição.

Escrevo. E quando escrevo digo tudo. Até quando pareço não dizer nada. Quantas vezes já te disse que gosto de ti sem o dizer realmente? Quantas vezes já me assumi completamente perdida e sem rumo mostrando uma segurança inabalável? Quantas vezes pedi ajuda dizendo que tudo corre bem?

Escrevo para mim, não mais. E também por isso protesto e reclamo de tanta coisa que tantas vezes não têm importância nenhuma. Faço-o nas vezes daquelas coisas que são realmente importantes e que guardo para mim por não terem lugar aqui, nas palavras debitadas no éter cujo primeiro destinatário sou eu sabendo que existe uma espécie de linhas cruzadas onde destinatários se cruzam com remetentes que se cruzam com outros destinatários.

O que escrevo sou eu. Não será nunca um livro, como já me têm pedido. O que escrevo sou eu. Sem interesse, literário ou o que for. O que escrevo sou eu. Com todos os protestos e celebrações. O que escrevo sou eu. Com tudo o que sinto, da forma como sinto. E sinto sempre intensamente. O que escrevo sou eu. E para não me perder de mim como já antes me perdi continuo a escrever. Para mim.

Não contabilizo leitores. Não os procuro sequer. Sei que existem. Desconheço números. Não procuro nada que não seja o que trago cá dentro no momento em que o éter e eu nos encontramos. Não procuro nada que não seja o poder ser eu.

Não procuro leitores. Não os contabilizo. Não tenho pretensões literárias. Não preciso de críticos de conteúdo. Não preciso que se preocupem com o que escrevo, ou como o escrevo ou sobre o que escrevo.

Preciso que se preocupem, sim, no dia em que deixar de escrever.

Porque é a escrever que me liberto, é a escrever que me encontro, é a escrever que me apaziguo.

E é a escrever que, tantas vezes, recupero o sorriso que momentaneamente se perdeu em palavras que ficaram por dizer. E por isso escrevo. Escrevo-as. Tantas vezes como um postal extraviado que nunca chegará ao destino mas que foi enviado no tempo que era Tempo de enviar.

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