E hoje os sinais óbvios de um estado de exaustão que há muito se fazia presente.
Preciso de férias. Mas para chegar lá, às férias de que preciso, não posso esquecer-me de que também preciso abrandar e parar de vez em quando.
Author Archives: Kooka
#day458
#day457
Esta noite, da minha janela, não oiço o mar. Nem o Gaiato, o burro do bairro que a esta hora já deve estar recolhido. Também não vejo a Lua.
Mas esta noite, e já tantas outras, da minha janela, respiro. Tranquila.
E abro a minha janela e deixo entrar pedacinhos de histórias, de Histórias, que depois de entrarem ali ficam guardados como numa caixinha de segredos, de tesouros, de memórias.
Esta noite, da minha janela, não oiço o mar. Nem o Gaiato, o burro do bairro que a esta hora já deve estar recolhido. Também não vejo a Lua. Mas respiro. E vivo já muito além de apenas sobreviver.
#day456
#day455
Demasiado cansada para seja o que for neste momento. A precisar, muito, de dormir. Dormir muito.
Não me lembro quando foi o último fim de semana digno desse nome.
Não me queixo, no entanto. O corpo sim. Já dá muitos sinais de muito cansaço acumulado há muito tempo. Hoje obedeço-lhe, faço-lhe a vontade e digo que já chega de trabalho por hoje.
Descansar, precisa-se. Para poder, novamente, rentabilizar o meu Tempo para concretizar tanta coisa que preciso de terminar.
Ainda falta muito tempo para dia 21 de Dezembro? Falta. Mas até lá tenho que conseguir gerir o Tempo de trabalho com o Tempo de descanso com o Tempo que é certo.
Até lá, mais uma vez e como sempre: um dia atrás do outro atrás do um. E com descanso pelo meio.
#day454
É engraçado como há peças que se encaixam de forma tão natural. Ia dizer estranha, mas no fundo não é mais do que apenas natural. Quase normal quando de normal nada tem.
Peças que se cruzam por acaso num caminho de acasos e que, por acaso, acabam por se encontrar.
Não tenho pressa. Já a tive, noutros tempos. Hoje não tenho. Aprendi que não adianta ter pressa de nada porque o que tiver que acontecer acontecerá quando for o seu Tempo. E da forma que tiver que acontecer. Também por isso essas peças só agora se cruzaram. Porque não fazia sentido ter sido mais cedo. Mas faz todo o sentido no Agora. Que é Aqui.
A Lua que se vê daqui é a mesma que se vê de lá, na terra das fadas e dos feiticeiros. Onde a magia dos pozinhos de perlimpimpim permite um vôo tão inesperadamente tranquilo. Sem vertigem porque o pó de fada tranquiliza qualquer receio e porque a magia dos acasos permite o encaixe perfeito de peças que andavam perdidas.
E a Lua. Sempre a Lua. Cúmplice de sonhos. Abrigo de cores que se encaixam como peças de um puzzle que, algures noutro tempo, se perderam uma da outra para se reencontrarem Agora. Que é Aqui.
#day453
{Paris}
Dói-me o dia de hoje. Sufoca-me. Molha-me os olhos.
Tento desligar mas não é fácil. Paris está em todo o lado.
Fujo. Não quero saber mais. Não quero detalhes, pormenores. Não quero saber números sabendo que são muitos e que apenas um já seria demasiado.
Não entendo. Como posso? É o ódio. E eu sou pelo Amor. E, só por isso, hoje não quero saber porque não quero chorar por me doer. Não quero nada disto.
São uns poucos a odiar muitos. Mas são tantos a Amar outros tantos. E é por aqui que escolho seguir.
#day452
Que segredos guarda o pôr do sol cor de rosa num céu azul?
Dia cinzento apenas sobre o rio, uma ponte que desaparece para lá das nuvens e uma margem que se esconde no nevoeiro.
Um navio carregado de histórias contadas, outras a acontecer, outras ainda a serem criadas.
A ondulação da ribeira que embala, como embalam as histórias. A História, que se vai criando.
Um céu azul que se fundiu com um pôr do sol cor de rosa num fim de uma sexta feira dia 13. Que culminou na fusão das duas cores: Violeta. E a Lua, como sempre, assistiu.
Uma fusão que, de tão natural, se mostrou perfeita.
“Oh minha senhora, então está de costas e a perder este cenário lindo?”
Não perdi. Nem um bocadinho desse cenário lindo. Pintei, a lápis de cor, um cenário ainda mais bonito, todo ele em tons de Violeta.
#day451
Dos dias em que o cansaço acumulado pesa. Muito.
Mas não ao ponto de não me deixar voar.
Perdi, perdeu-se, o medo do vôo. Seja num balão de ar quente, num foguetão até à Lua, seja simplesmente de braços abertos.
Perdi o medo e vôo.
E sorrio. E rio como se tivesse 3 anos. E continuo a sorrir com há muito, tanto, tempo não sorria. Sorriso que não se desmancha. Que faz doer os músculos da cara. E rio, sem jeito, completamente desarmada como há muito, tanto, tempo não ria. Não rio como quem ri de uma piada. Rio como quem acredita em fadas, magia e pozinhos de perlimpimpim e os descobre num acaso que, dizem, teria que acontecer porque as estrelas, fiéis companheiras da minha Lua, assim o teriam escrito há muito tempo.
Rio um riso de menina pequena que se encanta por contos de fadas. Rio um riso de menina pequena que não só acredita na magia como ainda a encontra.
Estou cansada. Muito. Tanto. Mas aconchegada. Tranquila. Serena. Não inquieta, mas irrequieta. E sonho mesmo antes de dormir. Porque aquela vozinha cá dentro continua a sussurrar-me “vai…!” e bate palminhas quando percebe que, desta vez, lhe dou ouvidos e vou! E vou porque não ir não faz sentido, não faz sentir. E neste momento já só faz sentido ir.
Pode uma cor ser música? Pode. O Azul.
{AV de FdN}
#day450
{I’ll sing it one last time for you
Then we really have to go
You’ve been the only thing that’s right
In all I’ve done}
Disto de enviar postais. Dizia-me há dias uma amiga, aquando da peça da SIC sobre cartas de amor, que ainda viria a ser trend setter e pôr meio mundo a enviar postais. Ri-me. Disse-lhe que não. Nada disso. Mas que, se uma única pessoa começasse a enviar postais, ficaria feliz. Já teria ganho o dia.
{And I can barely look at you
But every single time I do
I know we’ll make it anywhere
Away from here}
E ganhei, já. Tanto. Mais do que simplesmente uma pessoa a enviar postais. Mais do que simplesmente o facto de ainda haver quem envie postais. Ganhei tanto mais para além disso. Ganhei o efeito borboleta que se transformou em efeito Violeta e tudo o que daí veio, vem e, tenho a certeza, ainda virá.
{Light up, light up
As if you have a choice
Even if you cannot hear my voice
I’ll be right beside you dear}
Ganhei cor. Cores. Misturas de cores. Paletas. Pincéis. Lápis. Aguarelas. E, com essas cores, pintam-se sorrisos. Daqueles que já me tinha esquecido serem possíveis. Ou simplesmente reais. Olho em frente quando durante tanto tempo me mantive a olhar para trás. Quando na realidade o que está para trás já foi. E recordo-me novamente que o que importa mesmo é o agora. Aqui. E agora. O que ficou para trás é lá que tem que ficar. Mesmo que me faça vestir a armadura apertada. Visto-a, mantenho-a justa, mas permito-me aos poucos ir alargando as faixas que me apertam e mantêm esta couraça de durona que não sou.
{Louder louder
And we’ll run for our lives
I can hardly speak I understand
Why you can’t raise your voice to say}
Olho em frente. Sei, claro que sei, que o amanhã ainda está longe. E nunca sei, sequer, se lá chego e não é de agora. Mas mesmo por isso olho em frente. Porque é por ali, em frente, o caminho. Longo, eu sei. Lento. A seu Tempo. Não tenho Tempo para perder Tempo, mas tenho Tempo para olhar em frente e acreditar que sim, que irá chegar o Tempo certo. O Tempo de voar. Sem amarras. E quero muito esse vôo. A vertigem vai aos poucos desaparecendo e a vontade de voar aumenta. Sem pressas. Sem pressas porque com certezas. Com sorrisos. Com cores. Tantas. Mas basta uma feita de duas.
{To think I might not see those eyes
Makes it so hard not to cry
And as we say our long goodbye
I nearly do}
Não quero olhar para trás. Mas olho, ainda, tantas vezes. E olho e penso, lembro-me, que podia hoje não ter alcançado aquele amanhã de há uns meses. E que o hoje podia simplesmente não existir. Olho e penso, lembro-me, que é um olhar ainda dorido, moído. Mas sorrio porque, apesar de tudo, estou cá. Quando podia não estar. E ainda bem que estou. Porque por simplesmente estar cá permito-me conhecer um mundo de cores que há tanto tempo, demasiado tempo, não me lembrava. E olho para trás e lembro-me que o caminho tem sido longo, mas que acabou por valer a pena. Porque me trouxe até aqui, até ao ponto Azul, no momento certo por me permitir, eu mesma, ver as cores. Ser cor. Sentir cores.
{Light up, light up
As if you have a choice
Even if you cannot hear my voice
I’ll be right beside you dear}
Não olhes para trás, digo a mim mesma. Olha em frente. E olho. E vejo. E sinto. E permito-me dizer a mim mesma que sim, vai! Porque aquela voz que há pouco mais de um ano me dizia “não vás!” hoje sussurra-me num sorriso “vai, deixa-te ir e vai…” e é essa voz que me tranquiliza, que me diz que sim, que vou, porque pode não fazer sentido, mas faz sentir.
{Louder louder
And we’ll run for our lives
I can hardly speak I understand
Why you can’t raise your voice to say}
Um dia atrás do outro atrás do um. Sempre. Mantenho a táctica. Porque a sei segura. Mas quase tenho pressa que a noite corra depressa para chegar amanhã e voltar a olhar a cor do céu. E ser acompanhada por bolas de sabão. Quase tenho pressa de correr para o momento certo. Quase tenho pressa de tudo. Quase porque um dia atrás do outro atrás do um. Não vale a pena ter pressa. E assim vou caminhando tranquila, olhando em frente, fixa no Azul da cor do céu.
{Slower slower
We don’t have time for that
All I want’s to find an easy way
To get out of our little heads}
Irás voar com certeza. Não tenhas pressa. Digo a mim mesma. Mas não te prendas pelo risco da aterragem. Todas as aterragens são atribuladas. Mas não te preocupes agora. Não agora. Ainda o vôo não começou. Ainda agora estás na pista de descolagem em direcção ao Azul. Não penses na aterragem. Digo e repito tudo isto a mim mesma. Cada vez repito menos. Porque cada vez mais o Azul do céu faz sentido. E é para lá, para o Azul, que quero voar. Tanto.
{Have heart, my dear
We’re bound to be afraid
Even if it’s just for a few days
Making up for all this mess}
Espero. Pelo momento. Pelo Tempo que não tenho Tempo para perder Tempo mas que em Azul não perco Tempo. Ganho. Sempre. E canto. E sorrio. E sonho. E pinto. E escrevo. Para ler. Nas linhas e nas entrelinhas. Até mesmo as letras pequeninas que ninguém lê. E canto o dia todo, saltarico novamente em bicos dos pés por aí e por ali. E sorrio sempre. E rio também. E mesmo que o momento não seja imediato já o é. E faz tanto sentido mesmo que pareça não fazer sentido nenhum! Como o que escrevo hoje…que parece não fazer sentido. Mas sei que vai fazer. Sei que faz. Sei que sorrio e sinto sorrir e sei sorrirmos. Sei porque sinto. E só sentir importa.
{Light up, light up
As if you have a choice
Even if you cannot hear my voice
I’ll be right beside you dear}
Nunca pensei que enviar postais me fosse trazer tanto. Tanto mais do que postais na caixa do correio. Tanto mais, tanto mais, tanto mais! Mas trouxe. E, porque trouxe, estou aqui. E estou cá. Sempre. Ao lado de onde tenho porque quero estar. Na NLV. Porque AV. Tão simples. Tão bom. Tão isto.
{Snow Patrol . Run}

#day449
Quando o efeito borboleta passa a efeito Violeta. Não percebi, ainda, como tanta coisa pode mudar com o simples bater das asas de uma borboleta. Não percebi, mas não importa perceber. Importa que é mesmo assim.
Não sei se faz sentido. Mas faz sentir. E só por isso já faz sentido.
E sinto. Permito-me sentir. É novo este sentir. Não que nunca o tenha sentido antes. Apenas porque é novo no Violeta. E faz-me sentido sentir e permitir-me sentir assim: Violeta.
Descobri que há outras formas de deixar de respirar para além daquelas, cinzentas, que já conheci bem demais. Provavelmente também já conhecia esta, apenas não me lembrava de como pode o ar faltar pela antecipação. Mas é uma antecipação boa, um faltar o ar de quem quase precisa do outro para respirar porque só com o outro começa a fazer sentido. A fazer sentir.
Medo. Claro que sim. Como não? Mas com vontade de aprender e saber ler nas linhas e entrelinhas. Com vontade de aprender e saber ler sorrisos. Com vontade de aprender a desenhar novos desenhos com novas cores e daí ler o que os desenhos me contam. Com vontade de partir à descoberta. Sem mapas. Sem guias. Mas não às escuras porque a Lua, como sempre a minha Lua, está lá. Mas desta vez não fui eu quem a trouxe.
Marco os dias a cores porque os dias não os quero cinzentos. Espalho pó de fada por aqui e por ali. Recebo magia e com ela vou aprendendo a ser mais magia. E lembro-me das bolas de sabão. E sinto-me com 5 anos agora e com 15 daqui a uns minutos, nunca com 38 que não tenho porque não os sinto.
Sentir. É isso. É tão só isso. Mais nada. Sentir. Permitir-me sentir. E permitir-me que o ar me falte a cada novo plim! A cada novo tom de Azul. A cada nova presença por muito curta que tenha sido a ausência.
Não me dêem mapas. Não preciso deles. Dêem-me cores. Todas. E se me perder pelo caminho…? Se me perder pelo caminho a minha Lua está lá. Como sempre esteve. Por agora? Por agora QV e FN. Porque estas cores, todas mas acima de tudo o Violeta, são SN.
#day448
Uma espécie de efeito borboleta. Não um furacão no Pacífico provocado pelo bater das asas de uma borboleta em África. Mas quase.
Não um furacão porque os furacões são cinzentos e este momento é violeta.
A junção de duas cores primárias dá uma cor secundária. Magenta, também chamado cor de rosa, e azul resulta em violeta.
E os dias violeta, que resultam do encontro inesperado de duas cores, são tranquilos, de descoberta, de partilha.
Não sei o que é mais importante: se a descoberta, se a partilha. Mas não importa, porque ambos acontecem e é isso o mais importante.
Um sorriso cor de rosa encontra um sorriso azul. E o resultado violeta, inesperado porque não programado, resulta numa vontade de voltar a voar. Vôo baixinho, em segurança. Perto do chão. Dizia eu há não tanto tempo assim que não queria mais voltar a flutuar três palmos acima do chão. Que não queria mais a vertigem. Que não queria mais borboletas.
Aprendi, já devia ter aprendido, que tudo o que digo não querer acaba por acontecer exactamente ao contrário do que queria. Ou melhor, não queria. E a descoberta do violeta veio confirmar isso mesmo.
Parto à descoberta. Partilho magia. Recebo cor de volta. Azul. Azul que já de si vem carregado de pirilampos. E há tanto tempo que sentia falta dos pirilampos… E vem a Lua. As fadas. As cores. Todas. E vou descobrindo. E descobrindo-me. Não me descubro como quem se encontra. Descubro-me como quem vai deixando cair aos poucos a armadura.
A armadura está cá, no entanto. Provavelmente estará sempre. Como sempre. Mas permito-me ir deixando cair as peças como quem deixa que lhe dispam a alma: sem me dar conta.
#day447
#day446
#day445
Não faço perguntas. Mas dou respostas, se mas pedirem.
Mergulho no trabalho para compensar o Tempo perdido de ontem. Eu, que não tenho Tempo para perder Tempo!
Trabalho que, felizmente, não pára de chegar. E que a cada novo projecto me apresenta um desafio. Desafio aceite, sempre. Como sempre. E com resultados tão positivos em tantos pontos.
O meu caminho é por aqui. Também é por aqui. Mas não posso distrair-me e perder-me do outro caminho. Aquele que é percorrido um dia atrás do outro atrás do um. Como ontem. Em que me distraí e me perdi e recuei uns largos meses nas memórias.
Não apago memórias, nunca apaguei nem quero. Fazem parte de mim, do que sou mais do que quem sou. Arrumo-as, isso sim, em gavetas. Ou tento, pelo menos. Ponho as memórias nas respectivas gavetas e, em algumas, faço por deixar a chave longe dos alcance de terceiros. Porque são eles, os terceiros, os outros, que abrem as gavetas. E há gavetas que, apesar de cheias, não estão ainda arrumadas. Organizadas.
Hoje apetece-me gostar. Gostar muito. Nunca demasiado. Porque não se gosta demasiado. Ou se gosta ou não se gosta. E quando se gosta pode gostar-se pouco, pode gostar-se muito. Mas não pode, nunca, gostar-se “mais do que devia”. Gosta-se e pronto. E eu gosto. E não entendo o conceito de quantidade do gostar. Por isso opto por gostar muito. Como se gostar, muito ou pouco, fosse opção. Gosta-se na exacta medida em que se gosta e pronto. E hoje apetece-me gostar. Gostar muito. Também não é opção o quando se gosta. Gosta-se quando se gosta e pronto. E, confesso, gosto todos os dias. Desde há muitos dias, semanas, meses. Anos? Não sei. Não sei quando deixei de apenas gostar para começar a gostar muito. Aconteceu algures no Tempo e pronto. Só me apercebi recentemente de que, afinal, gosto muito. Que já é mais do que simplesmente gostar. Mas não é mais do que devia.
Gosto de gostar assim. Mesmo que seja só assim e que só assim continue a gostar.
Gosto de ti e de ti e de ti e de ti muito e de ti tanto e de ti também. Mas nunca demais.
Mas guardo esse gostar muito numa gaveta própria. Que não está arrumada, mas está organizada. E deixo ficar por lá esse gostar. Pode ser que um dia a gaveta seja aberta. E, aí, sem fazer perguntas, dou as respostas todas se mas pedirem.
Até lá faço a gestão das outras gavetas. E do meu Tempo.
Porque não tenho Tempo para perder Tempo. E até disso gosto.
#day444
Já o tinha dito antes, eu gosto mesmo é de meias às riscas.
Não importa se o equilíbrio entre os dias bons e os outros ainda {me} consegue ser frágil. Há meias às riscas.
Não importa se há quem ainda me vire do avesso mais depressa do que percorrer a distância até ao próprio umbigo. Há meias às riscas.
Não importa se ainda ecoa na minha cabeça num volume insuportável que “se não aconteceu não é para ser falado”. Há meias às riscas.
Não importa se me fazem sentir parva por ser simplesmente como sou, sempre disponível, sempre tão demasiado disponível sem pedir nada em troca e, quando preciso dessa mesma disponibilidade em sentido inverso, essa disponibilidade só conhece o sentido único. Há meias às riscas.
Não importa o desnorte dos outros para coisas tão simples como ir daqui ali sem passar por além quando bastava ter ido acoli. Há meias às riscas.
Não importa se as dores, as físicas, voltaram em força ao mesmo tempo que as outras, as de dentro, tenham acordado daquele sono leve em que têm estado. Há meias às riscas.
Não importa nada disso. Importa, sim, que há meias às riscas. E eu gosto mesmo é de meias às riscas.
Hoje choveu. Lá fora e cá dentro. E, antes de chover cá dentro, saboreei a chuva lá fora. Senti-a no rosto, no cabelo, a encharcar-me a roupa. Já tinha saudades de andar à chuva. Mas não tinha saudades da chuva de dentro.
O que eu gosto mesmo é de meias às riscas.
#day443
Gosto: de pegar no carro e ir. Simplesmente ir. Seja com rumo ou sem ele, seja em trabalho ou lazer. Ou simplesmente não pegar no carro e não ir porque não tenho que ir, mas sabendo que está ali à porta à minha espera.
Não gosto: de depender dos outros enquanto o carro não está arranjado. Porque preciso de ir aqui e ali em trabalho e não posso. E nem sempre os outros podem também.
Gosto: de fazer rabiscos em papel que acabam por ganhar formas concretas e exactamente como as imaginei. Desenhar na mesinha de centro da sala, que mesmo sendo baixa é onde gosto mais de pegar no papel e no lápis e, de joelhos ou sentada no chão, preencho a mesa com folhas e riscos e rabiscos que mais tarde se tornam em algo concreto.
Não gosto: de me sentar à mesa da sala para trabalhar, seja para desenhar, marcar, cortar ou coser. Não gosto de mesas de vidro, sempre com medo de riscar ou partir. Não gosto de não poder, ainda, ficar de joelhos para desenhar. Porque, apesar do joelho estar bastante melhor, dobrado e em esforço dói, ainda, bastante.
Gosto: de desafios. Sejam eles de desenhos que nunca pensei conseguir fazer, sejam eles de conversas, encontros, gestos, actos. Palavras ditas ou escritas.
Não gosto: de manter tanta coisa cá dentro por falta de coragem para deitar para fora. Seja em desenhos, seja em palavras. Ditas ou escritas.
Gosto: de sentir que o que sinto hoje é tão melhor do que o que sentia há um ano.
Não gosto: de não saber, não querer, lidar com isto como adulta, porque me sinto, novamente, adolescente.
Gosto: de gostar. Assim. Sem mais. Porque sim.
Não gosto: de gostar. Assim. Exactamente sem mais. Exactamente porque é mesmo assim.
Gosto: de sorrir. De me fazer sorrir (e esqueci-me desta parte, tão importante, durante tanto tempo). Que me façam sorrir. De fazer os outros sorrir. De te fazer sorrir.
Não gosto: quando não posso fazer{-te} sorrir.
Gosto vs Não gosto. Equilíbrio, dizem. E eu cá vou, um dia atrás do outro atrás do um, num equilíbrio que já não é tão frágil como há um ano {“ainda bem”}, equilibrando também o que sinto hoje como nunca pensei que pudesse sentir. Mas sinto. E gosto. Muito.
{do vinho, novamente o vinho}
Escrevia eu há uns meses, largos como se tivesse sido escrito ontem, que bebia para esquecer. Nunca esquecendo, claro, porque não se esquece. Mas esquece-se para beber. Ou esquecia-me, na altura, quando tanto precisava de parar um bocadinho o Mundo lá fora e esquecer-me dele.
Hoje apetece-me, muito, um copo de vinho. Tinto. Forte. Intenso. Não para esquecer. Nem para esquecer-me. Mas o contrário.
Hoje apetece-me, muito, um copo de vinho. Tinto. Forte. Intenso. Para me lembrar.
Para me lembrar de todos estes meses, longos que parecem ontem, e simplesmente comemorar. Celebrar. O simples facto de estar cá. E quantas vezes nos esquecemos de celebrar o facto, tão simples mas nunca garantido, de estarmos cá?
É aquela coisa do aqui e agora. Porque o ontem já foi e o amanhã…o amanhã quem sabe, sequer, se chega. E também por isso deixei de ter Tempo para perder Tempo. É o aqui e agora. Novamente. Sempre.
E hoje, hoje apetece-me, tanto, um copo de vinho pelo aqui e agora. E por estar cá. E por mim, simplesmente porque sim.
Mas não se bebe sozinho. Bebe-se a dois. Ou três. Ou tantos. Mas não sozinho. Porque o copo de vinho que me apetece faz-me soltar e conversar. Abertamente. Sobre tudo, sobre nada, sobre o que não tem importância, sobre o que é importante, ainda, conversar.
Hoje apetece-me, muito, tanto, um copo de vinho. Mas não se bebe sozinho para não continuar a guardar o que teimo em deixar por dizer.
Celebro, ainda assim, o facto de estar cá. O aqui e agora. O não ter Tempo para perder Tempo.
Porque o ontem já foi e o amanhã…não sei, não sabe ninguém, se sequer chego lá.



















