{#346.020.2025}

Dia que despertou demasiado cedo, especialmente depois de uma noite em branco entre as 2h e as 5h com o despertador a tocar às 6h. Noite em branco assombrada e agitada e muito dorida por causa de um qualquer curto-circuito que acontece nas ligações nervosas do meu braço esquerdo e que, por força e violência da dor que me queima e corrói o braço e que sobe para o ombro e daí se dispersa, dizia eu que é um curto-circuito cuja dor me faz gritar e contorcer cada músculo do meu corpo…e a cada novo pico de dor que me faz reagir gritando a dor que me assalta claro que tenho medo. Como não ter medo? Não sei até quando vou conseguir suportar o que só posso descrever como insuportável…! Violenta! Agressiva! Excruciante! Porque dizer apenas que é demasiado dolorosa não chega…

Dia que despertou muito cedo, que me pôs em trânsito cedo, tão cedo que pude ainda matar saudades do nascer do Sol, do nascer do dia. E as saudades que eu tinha desse momento, dessas luzes, dessas cores…!

Se puder, guardo as memórias deste dia naquela caixa que é para esquecer por aí cheia de memórias menos boas. Porque o meu dia hoje teve muito desses momentos, em que visitada pelos picos de dor só quis desaparecer, mudar de corpo, sei lá eu o que mais…!

Do dia de hoje guardo esse nascer do Sol e começo de dia que há tanto tempo não via, guardo os momentos a dois com ele em que, acolhida no melhor abraço que existe!, me abstraí de tudo o que me dói e também do que me faz doer…não interessa! Guardo, como todos os dias, os momentos que são só nossos e que nos fazem tão bem.

Amanhã não há despertador a tocar. Não há fisioterapia para fazer. Mas é preciso, é-me obrigatório!, mexer! As pernas reagem mal ao frio. Mas vamos ter que descobrir a melhor forma de conseguir reagir e mexer e não deixar de andar só porque o frio é uma treta!!

Para já, é hora de ir descansar. E tentar ter uma noite sem dor…

…porque eu não sei até quando é que consigo aguentar isto…

{#345.021.2025}

É o Tempo. Eu sei, eu sei que é o Tempo sob o comando de Chronos que não espera por nada nem ninguém. Não espera, mas faz-se sempre presente quando é para o vermos passar. Passa em desfile à minha frente e sussurra baixinho que não vai esperar. Por nada nem ninguém. Nem por mim.

É o Tempo, eu sei. É aquilo que há tanto tempo digo que é a única coisa que garantidamente tenho, mesmo sem saber por quanto tempo… E tantas vezes que me fazem perder o que é meu, só meu!, o MEU tempo. Aquele que eu dividia durante o dia conforme o que tinha para fazer. E é mais do que sabido que a grande fatia do MEU tempo era passado a trabalhar e nas deslocações.

Lembro-me que tinha sempre vontade de fazer acontecer tanta coisa nova e diferente e estimulante e interessante e que acabava sempre por se fazer porque não tinha…Tempo.

Agora, mesmo como qualquer um não sabendo o quanto, tenho tempo. Ou vou tendo, não sei até quando. E tenho ideias que não quero chamar de planos porque esses me falham sempre. São ideias que quero muito concretizar. E, por enquanto, tenho tempo. Só tenho que me organizar.

Chronos não quer saber se queremos o Tempo a andar mais depressa quando estamos a trabalhar ou se o queremos a andar mais devagar quando estamos com quem nos é especial. Não quer saber e por isso corre à mesma velocidade para todos.

Mas era tão bom se, mesmo que só às vezes!, nos permitisse aceder ao botão de “Pausa” de modo a registar na memória mais um pouco de quem queremos guardar connosco para sempre…

…o MEU Tempo…e eu simplesmente a vê-lo passar…a senti-lo escapar-me…

{#344.022.2025}

Sábado, aquele dia que, durante tanto tempo, eu chamei de “dia mais aborrecido da semana“. Nunca achei que, todos estes anos depois, a coisa fosse melhorar muito, é verdade. Mas também nunca pensei ser possível que todos os dias passassem a ser tão aborrecidos.

O dia de hoje, sábado, aborrecido como sempre, foi um dia de fazer uma espécie de reset..? Foi. Lá fora acho que o céu estava azul e o Sol brilhava com força, um dia bonito de Outono quase Inverno. Mas, confesso, desta vez nem ao cadeirão no Jardim das Leguminosas eu fui. Preferi assumir a minha relação com o sofá e as mantas e manter-me por aí, mesmo durante os picos de dor que me visitaram sem convite.

Sábado, aquele dia aborrecido da semana. Que hoje foi para parar, descansar e tentar relaxar e recuperar…

{#343.023.2025}

Cansada…

Muito cansada.

…demasiado cansada!

{#342.024.2025}

Quantas vezes já te fizeram sentir que não és uma pessoa normal…? Seja lá isso o que for, não sei o que é isso de se ser uma pessoa normal. Nunca me identifiquei como tal, porque sempre tive a percepção de que a definição de “normal” é algo ou alguém que corresponde à norma………e nunca ninguém me ensinou a tal da norma. Sempre vi essa coisa da norma e de ser normal como ser o que os outros defendem que tenho que ser, que tenho que fazer, o que tenho que dizer, o que tenho que pensar, o que tenho que sentir…

…e eu cresci rebelde e com a certeza de que não “tenho que” nada! Não quando é algo definido pelos outros. Se há algum que eu realmente “tenho que” é ser fiel a mim própria! Ser eu própria! Pensar por mim própria! Tudo o que sair de mim TEM QUE vir cá de dentro. E assim tem sido. E assim vai continuar a ser!

Porque eu nunca soube encaixar nesse rótulo de ser normal. Eu sou eu. Igual a mais ninguém que não eu mesma! E até hoje sobrevivi a 100% dos meus dias maus ou muito maus. E muito por ser sempre que eu sou.

Do dito normal não tenho muita coisa. Talvez por isso sinta as coisas como sinto. Sempre de forma intensa. E talvez por isso também dê tanta importância e tanto valor ao simples acto de beber um café numa esplanada no centro da vila, mesmo sozinha à mesa, sozinha na esplanada.

…e é em momentos assim que eu brinco ao Faz de Conta que está tudo bem, mesmo não estando. Que sou tal como qualquer pessoa, mesmo não sendo. Que sou uma pessoa normal, seja lá isso o que for, mesmo não sendo porque não consigo caber na norma que não reconheço nem entendo nem aceito nem quero saber nem coisa nenhuma nem nada…!

…e percebo-me zangada por não me sentir aceite no todo que segue a tal norma e que ao me perceber diferente me recusa um lugar…

Mas um café cheio, intenso e sem açúcar numa esplanada vazia ao final do dia no centro da vila………é o melhor que me podem permitir fazer, seja lá quem for que permite ou não estas coisas. Eu vou e faço. Especialmente se me disserem que não posso…

[…eu posso TUDO o que EU quiser…!]

{#341.025.2025}

Chuva, sinónimo de ficar em casa.

Ao final da tarde, apresentar as primeiras páginas da carta que me pediram em jeito de trabalho de casa terapêutico. E aqui ainda é preciso continuar a escrever, sabendo que acabará por ser um primeiro passo para uma carta de despedida…que eu não quero escrever……

{#340.026.2025}

115… Que, para mim!, será sempre um número de emergência. E hoje, 3 meses, 3 semanas e 2 dias depois, ninguém faz ideia do esforço que tenho estado a fazer para……

……não fumar um cigarro! Que, já sei!, nunca seria só um. Um de cada vez, certamente. Mas nunca só um!

Mas o 115 já não existe e o actual número de emergência, o 112, não me pode ajudar. Talvez se eu seleccionasse a opção 4

As lágrimas estão à beira dos meus olhos e não me parece que peçam licença para começar a cair quando…

…quando voltar aos cadernos para continuar a escavacar-me completamente: joelhos e mãos esfolados, pés descalços a pisar pedrinhas no alcatrão quente

Não me posso esquecer: são palavras vs números. E um factor irrevogável: o Tempo.

Escrever a carta que me pediram. Não a de amor, ridícula como todas as cartas de amor, ou assim o afirma o Poeta. Escrever a carta que em Outubro disse não querer escrever…e que, neste momento, não vejo motivo para não escrever

Um cigarro na esplanada das mesas infinitas…alguém me traz, por favor…?

Obrigada.

…………

Duas horas se passaram na mesa do canto na esplanada das mesas infinitas. Dois cadernos onde a ideia era escrever, gravar num suporte físico tudo o que já deitei no éter. Powerbank para manter o telemóvel, não à tona de água, mas metaforicamente a salvo de um eventual mergulho em apneia a dois, o telemóvel e eu. Em apneia e sem saber nadar


O afogamento que não aconteceu porque, ao contrário do planeado, não me permiti ser vulnerável e escavacar-me por inteiro, joelhos e mãos esfolados e pés descalços a pisar pedrinhas no alcatrão quente. Porque ser vulnerável requer o que já não tenho: força. Para aguentar. Para sobreviver à vulnerabilidade.

…não escrevi. Não me escavaquei. Mas não me esqueci

Os números vão de 0 a 9 na sua raiz unitária, mas quando compostos são infinitos
vs
As letras são apenas 26, mas com a capacidade infinita de criação de palavras entre o nada e o tudo.

10.959 é sem dúvida um valor sobejamente mais elevado do que 915. E, por muito que se queira dizer o contrário, não é possível elevar 915 a algo que não é, nunca foi. E nem a organização semântica das letras com capacidade infinita de criação de novas palavras consegue fazer possível o que é irreal. Na balança que mede o peso, a força e o poder dos números infinitos e das letras e consequentes palavras, nem sempre vence o que queremos dizer, o que dizemos ou até o que já dissemos. Muitas vezes, vence a quantidade de vezes do que já foi ao longo do tanto tempo que também os números contabilizam.

Palavras vs números. Tanto uns como outros perdem qualquer significado quando confrontados com um factor irrevogável…: o Tempo.

E hoje foram 2 horas na esplanada enquanto o silêncio e a ausência já contam 7 horas…e continuam a somar…

…e, se calhar, joelhos e mãos esfolados, pés descalços a pisar pedrinhas no alcatrão quente e com isto acabei por me escavacar no permanente silêncio de quem não se pode queixar…de nada…e as lágrimas que hoje teimam em não cair são engolidas a seco e à força

…………

…e depois há aquele momento em que o tampo riscado da mesa da esplanada me leva de volta a 2017. Quando riscar a pele era tão fácil. E estupidamente apaziguador da dor que sentia, vivia?, naquela altura ainda…

os riscos na pele que traduzem dores numa linguagem que poucos entendem… É preciso chorar, as lágrimas teimam em não cair na ausência de quem me permite chorar. Permite…? Como se fosse preciso eu pedir permissão seja a quem for para verter as minhas dores em forma de lágrimas. Como se fosse preciso eu pedir permissão seja a quem for para simplesmente existir exactamente como sou! Nem mais nem menos do que e quem sou!

Vulnerável.

Escavacada.

Mas reconstruída. À força do “tem que ser“. Quando tudo o que eu queria era simplesmente poder ser. Naturalmente. À força de nada…!

As lágrimas acabarão por cair. Os riscos na pele? Tatuagens de vulnerabilidade

…e eu, aqui…

……sozinha……Sempre……

…………

São as noites. São sempre as noites. Vazias de pessoas. No silêncio para lá da música que me acompanha sempre. São sempre as noites que me confirmam: sozinha. Sempre. Desde sempre. Só eu e a música que está sempre presente.

Overwhelmed. Não gosto da tradução para português, não define exactamente o que sinto, o que estou para além de sozinha: overwhelmed. Como se tivesse nos meus ombros o peso todo do Mundo inteiro.

Mas à noite, no silêncio para lá da música que me acompanha sempre, não há ninguém. Que se sente comigo, me dê a mão enquanto procura resposta para as minhas perguntas, me acolha num abraço protector quando as respostas me agredirem com aquele choque de realidade do qual faço por fugir.

Não quero encarar o que já sei. O que vou conhecendo todos os dias mais um bocadinho depois de me ter apanhado na curva sem pedir licença.

Continua a não haver ninguém comigo que me recorde que eu não carrego o peso do Mundo inteiro nos meus ombros. Mas, quando aceitar o choque de realidade por completo, o peso de estar overwhelmed passa a ser suportável. Os ombros aliviam do peso que estupidamente carrego quando me recordar da luta dos números vs palavras. Aquela luta dos 10.959 vs a infinitude da mistura de letras cujo resultado se resume a Tempo. E é o Tempo que define a derrota. Que, como sempre, me pertence.

São as noites. São sempre as noites. Vazias de pessoas. Assim como os dias, também eles cada vez mais preenchidos de ausência e silêncio. Mas são definitivamente as noites, às 3h da manhã, em que não há ninguém para me aconchegar e me sussurre que está tudo bem…mesmo que não esteja. E são as noites que recebem aquele meu sussurro de quem, já sem voz, grita por socorro.

Socorro
que
não
vem…

{#339.027.2025}

Não me posso esquecer que números são só isso mesmo, números! Mas alguns dizem tanto mais do que gostaríamos…e não me posso esquecer que 10.959 é “infinitamente” maior do que apenas 917…mesmo que 917possa parecer tanto! Mas não é…

…e se eu chorar? Eu própria secarei as minhas lágrimas. Exactamente da mesma forma que tomarei as MINHAS decisõessozinha deixarei cair as minhas lágrimas, sozinha decidirei. Porque, lamento, eu também mereço mais…e em primeiro lugar estou eu…!

{#338.028.2025}

Savasana. A última postura, e a mais difícil de todas as posturas, a ser realizada numa prática de Yoga. Em português tem o nome de “Postura do Cadáver” e é a postura dedicada ao relaxamento no final da prática, aquele momento em que o corpo e a mente integram todas as posturas e seus benefícios executados na prática.

Habitualmente, temos feito o asana com música a acompanhar. E ajuda muito a relaxar e a deixar o corpo e a mente irem onde tiverem que ir fazer o que tiverem que fazer. Já aconteceu a música terminar a meio do relaxamento e, não nego, foi-me estranho: de um momento para o outro deixei de ter onde me agarrar enquanto relaxava. Era à música que me estava a agarrar… Mesmo sem música, costumamos ouvir os pássaros nas árvores ou nas gaiolas do r/ch, os carros que passam por ali, as ambulâncias que todos os dias a todas as horas atravessam esta terra. Muitas vezes ouvimos também a respiração de quem está mais perto…

…mas hoje…hoje o Savasana foi todo ele em silêncio. Ainda antes de começar, já não tínhamos música. Os sons da rua não nos chegavam. Não houve ambulâncias. Nada. Silêncio, apenas…

…um silêncio incomodativo de tão ensurdecedor! Faltou-me ouvir o Professor Pedro dizer que ali estamos em segurança, numa sala que conhecemos, para a prática de Yoga. Porque eu nunca tinha tido medo numa simples prática de relaxamento como tive hoje. Unicamente por estarmos em absoluto silêncio

…e a minha cabeça tem demasiado barulho, que só eu oiço, que incomoda demasiado e eu não encontro o botão para desligar o barulho…

{#337.029.2025}

Perguntou-me hoje um dos 500 Pedros dos meus dias quando conversávamos sobre as noites que eu chamo de terror por causa das dores no meu braço: “Então tu acabas por adormecer de cansaço, é isso?” e a minha resposta só pode ser “é isso exactamente!”. Porque acabo sempre por adormecer estoirada depois daqueles 30 minutos de ondas e picos de dor violenta, excruciante, a pior dor que conheço! São minutos longamente intermináveis que me esgotam por completo.

Felizmente a noite passada foi relativamente tranquila. Crise na noite anterior, crise de manhã, crise ao início da noite…
Consegui ficar acordada até um pouco mais tarde. A publicação do dia no blog foi feita à 1h08m da manhã. De seguida, o dia foi dado como terminado e fui para a cama muito perto da 1h30m. Mas já percebi que não posso estar cansada e ter o telemóvel na mão. Porque escrever no blog ou até no Instagram e carregar em publicar mas já estando a dormir não seria a primeira vez… Agora…que quereria eu dizer com a mensagem escrita e enviada à 1h56m? Não faço a mais pequena ideia. Mas não deixa de ser verdade: já era tarde, tal como agora!, e eu não me fui embora…

Vi a mensagem de manhã. Felizmente quem recebeu sabe o quanto preciso de descansar e deu a resposta que se impunha! Hoje ainda estou a tentar evitar o disparar da dor para conseguir dormir. E até ver…estou maizomenos a conseguir, por isso vou publicar isto perfeitamente acordada e consciente do que escrevi e, por dentro, a rir sozinha dos disparates de quem precisa tanto de descansar e que até sou eu…

{#336.030.2025}

Dezembro, dia 4. O dia em que, todos os anos, se marca o Dia Nacional da Pessoa Com Esclerose Múltipla. Que, por acaso, também sou Eu.

Sou Pessoa Com Esclerose Múltipla. Sim. Já aceitei o diagnóstico? Não! Nem sei se algum dia isso irá (poderá?) acontecer. Não sei se tenho espaço em mim para, no meio do tanto que já sou, ainda ser esta Pessoa também…

É verdade que sou muito certinha com consultas, exames, tratamentos, fisioterapia, análises pré e pós infusão, o que for! Mas, não duvidem!, é sempre a medo, com medo!, que sigo para cada um deles. Porque nunca sei ao certo o que esperar, ou se devo, até!, esperar alguma coisa. Se sequer posso esperar…? Para uma doença incurável nunca sei muito bem o que…pensar? Esperar? Fazer? Dizer? Não sei…

Não sei mesmo. Sei a teoria toda! Mas depois é na prática que eu tenho que lidar com isto, todos os dias, 24 horas por dia. E é nessa prática que tenho que fazer o meu luto de mim mesma, do que já fui e não volto a ser. Fazer o luto do que fui, acolher o que agora sou. E já sou tanto…! Tanto que continuo a não me ver num diagnóstico que é o meu em que eu não me reconheço…

…preciso de chorar esse diagnóstico, chorar esse luto, processar, digerir, secar as lágrimas e seguir em frente.

Não sei se sei ser Pessoa Com Esclerose Múltipla a quem o dia 4 de Dezembro é dedicado a nível nacional. Sei apenas ser Eu. Igual a mim própria. E sei que, sendo apenas Eu, sou tanto e tanta coisa ao mesmo tempo! E pergunto: não era Eu já suficiente o tanto que já era…?

{#335.031.2025}

Em véspera de Lua Cheia. Em véspera de Super Lua. A última do ano que não tarda em terminar. E dou por mim a pensar que, tudo o que um dia termina, vira memória. Recordação.
…uma espécie de nuvem de um qualquer fumo que, com o tempo, se vai dissipando. As memórias que se cruzam e baralham nessa nuvem de um qualquer fumo que o vento desfaz e dispersa.

Este ano que termina em breve vai passar a ser uma nuvem de um qualquer fumo de memórias, recordações de importância relativa consoante quem revisita a nuvem de fumo. E acredito que o mesmo acontece com quem deixa de ser. Ou deixa de estar. Ou…

…não sei. Sei apenas que, em véspera de Lua Cheia, véspera de Super Lua, a última deste ano, dei por mim a pensar que eu própria, um dia, serei apenas uma recordação. Uma nuvem de um fumo qualquer que se vai dissipando…

Sei que, para tantos, já só sou uma leve recordação sem importância. Mas, com quem se mantém no tempo presente, quero muito criar memórias com importância. Daquelas nuvens densas de recordações, de todos os tamanhos e feitios. Do gesto mais pequeno até ao outro sem tamanho que fica tatuado na memória.

Sim, um dia serei como a Lua Cheia. Super Lua, última do ano, muito rapidamente mera recordação…

…não sei se estou preparada. Preparada para quê? Não faço ideia! Para criar memórias boas de recordar. Que começo a achar que estou a falhar em grande escala…e não quero! Mas esta…esta com quem estão a criar memórias, esta sou eu! E não sei ser de outra forma…para tantos já só uma leve recordação sem importância. Que não é, de todo, o que eu vos quero ser…

…e agora já me é fácil deixar correr as lágrimas…mesmo que chore sozinha, em silêncio. Mas, finalmente!, consigo chorar

{#334.032.2025}

Um bocadinho como os dois elevadores do meu prédio: em manutenção. Se é que ainda é possível fazer manutenção às 2 relíquias…

E se, num prédio de 8 andares, é possível estarem “ambos os dois em simultâneo ao mesmo tempo” parados para manutenção o dia inteiro (que na realidade até já vai no terceiro dia…), eu também posso encostar às boxes para manutenção durante uns dias, certo? É que, diz quem sabe, é “” uma constipação, mas que sem sistema imunitário a funcionar pode tornar-se um filme (de terror?) em menos de nada. E, muito sinceramente, não me apetece…

{#333.033.2025}

De manhã: o Sol firme num céu azul forte, o frio do Inverno que se aproxima rapidamente, o Mar de ondas marcadas pela cadência da maré.
À tarde? Lá fora não sei. Cá em casa o tempo simplesmente passou. Fiz alguma coisa digna nota? Não que me recorde.


O termómetro bateu nos 37• que é coisa demasiado rara de acontecer comigo. E que, no meu novo normal, aprendi a querer muito evitar, especialmente menos de 2 meses depois de deitar o meu sistema imunitário abaixo.

A dor pavorosa no braço esquerdo tem estado controlada graças à nova medicação da classe do que eu sempre recusei mas que, desta vez, não tenho alternativa. Mas, por algum motivo, esta noite a dor voltou… Demasiado sensível às mudanças de temperatura. Se o braço aquece, não se aguentam as dores. Destapa-se o braço para arrefecer. Está demasiado frio. O braço gela e já não se aguenta a dor novamente. Tapa o ombro ou braço ou lá o que lhe quiserem chamar. Repete todo o processo. Até quando? Não faço ideia. Só sei que, por enquanto, vou dançando a dança do “Tapa, destapa!”. Que não vai poder manter-se para sempre.

…eu só sei que não aguento, nem a dança nem a dor…

{#332.034.2025}

O Jardim das Leguminosas…o meu jardim que continua a não ter Leguminosas e sim Suculentas e um dia até poderá eventualmente vir a ter uma Buganvília. Cor de rosa forte para condizer com os Brincos de Princesa que despontam ali num vaso e pedem terreno, que não tenho, para continuar a crescer. Talvez nessa altura o tal Jardim que teimo em chamar de meu mas que deve toda a sua extensão, existência e manutenção num canto de uma ponta de uma varanda, talvez nessa altura o meu Jardim mude de nome e passe a chamar-se Jardim das Buganvílias. No plural porque a minha vontade é ter uma cor de rosa forte para acompanhar os Brincos de Princesa e uma branca porque flores brancas permitem-me usar todas as cores para as aconchegar.

Entretanto, a distância… Que eu não procurei, mas que talvez seja necessária e, até!, no meu caso merecida.
Sei que, mais ou menos, me fui perdendo por aí, baralhando toda a gente à minha volta e até a mim mesma. Mas as questões que levantei, eu e mais ninguém para além de mim!, tinham que ser levantadas. Faladas. Conversadas. Respondidas. E agir conforme as respostas recebidas…

…e as respostas dizem-me que eu não quero a distância, não quero o silêncio. Não quero fechar o livro onde se tem escrito uma bonita história, com milhentos capítulos e outros parágrafos…não quero fechar este que não acredito que seja o último capítulo.

Por outro lado, ou será que é para dizer “Ao mesmo tempo”?, todos os dias em que tenho procurado por mim também tenho sido muito atacada por aquela que é a pior dor que já senti. E, finalmente, parece que a equipa médica encontrou algo que me tirou a dor, que me deu a possibilidade de descansar, que me permite dizer que há 4 noites que não tenho dores de fazer gritar…

Tudo isto ainda me está a deixar confusa. A medicação nova? Tenho medo dela, mas para já está a funcionar.

Só não quero a distância. Não quero o silêncio. Não quero andar pé ante pé, com pezinhos de lã…não é nada disso que eu quero.

Mas………eu sei……

{#331.035.2025}

Eu ainda sou do tempo em que para chamar o 112 se marcava o 115…

…e dos Bombeiros de Almada guardo boas referências do Sr. Rui que me deixou à vontade para ir ao quartel beber um café que, como o próprio diz, “é muito mau, mas pelo menos é barato!”
Guardo também com carinho o trabalho do Rúben, que acompanhava o sr. Rui no transporte de doentes não urgentes e que até é sobrinho do Zé Tó que me acompanha na fisioterapia e em cafés avulso pela Costa.

Isto para dizer, ainda um bocadinho em pânico, que ao ligar para o 112 foram accionados os Bombeiros de Almada, o Alexandre e a Tatiana, uns queridos que vieram em socorro da minha mãe…

Pulseira amarela no pulso da minha mãe. Electrocardiograma já está feito, continuamos à espera da consulta. São 15h05m. Tudo bem, é o tempo que for! O que eu quero é que a minha mãe volte a estar bem. Porque o que vi a acontecer………

Ainda não almocei, claro. E a fome é mais do que muita. E a cafetaria não abre ao fim de semana. E isso acho muito mal…

Almoçar foi à hora do chá das 5 quando já não conseguia esperar mais. E com o passar do tempo as análises foram feitas e passado o tempo que tinha que passar saíram os resultados. Tanto o ECG como as análises com valores normais, o que é bom.

No final, chegou-se à conclusão de que se tratou de uma grande quebra de tensão e um mega susto. E ter acontecido à minha frente foi uma espécie de choque de realidade, um lembrete de que nenhum de nós é eterno e que, a qualquer momento,………

Chegadas a casa, o merecido descanso da minha mãe. Eu…? Já mais calma, mais tranquila, pus a conversa em dia com quem já não falava há tanto tempo numa daquelas conversas de raparigas que fazem lembrar as conversas telefónicas da adolescência, em que se falava de tudo e não se dava pelo passar do tempo. Foram pertinho de 2 horas a pôr a conversa em dia, a falar de ideias interessantes para concretizar em breve, risota pelo meio. Já tinha saudades disto.

Agora…hora de ir dormir. E, depois de mais um dia inteiro sem dores no braço, já percebi que o pijama de manga curta, ou até mesmo sem mangas!, tem que continuar a uso. Usar uma camisola de pijama de mangas compridas não foi possível por mais de 5 minutos, mas foi o suficiente para acordar a dor que eu achava já dominada pela nova medicação…

O dia de hoje foi demasiado longo. Saí de casa às 8h30m da manhã, entrei às 19h. Paniquei. Vi o caso mal parado. Senti-me perdida e profundamente sozinha. De manhã, logo a seguir à aula de Yoga, o meu braço doeu. Felizmente, foi dor de curta duração. Ainda antes que eu percebesse que a dor se instalava para ficar durante algum tempo já a dor tinha desaparecido. Tirando o ter tomado a medicação duas horas antes, não me lembro do que possa ter mudado o cenário. Mas a verdade é que a medicação nova parece estar a fazer efeito, mas mesmo assim tenho medo daqueles episódios…

Ia escrever mais alguma coisa sobre a visita da dor mas não me lembro do que era.

…e, na verdade, acabei por adormecer enquanto escrevia… A dor ainda me visitou à noite, felizmente não ficou. Mas percebi que foi o calor que a despertou. O calor da camisola do pijama…

Felizmente o cenário da minha mãe desapareceu. Assim que chegou a casa dormiu. Agora é tempo de conversarmos. Para que ela se cuide. Com mais cuidado e atenção. Eu sei, este pedido é muito egoísta, mas eu preciso muito dela. Eu preciso muito da minha mãe. Sem ela não sou nada, não sou ninguém…

{#330.036.2025}

Há muito que não vou até ela. A minha árvore. Aquela que eu visitava todos os dias no regresso do trabalho. Ou era ela que esperava por mim junto à paragem do autocarro no meu caminho de regresso a casa…? Na realidade, não sei. Mas também nunca achei importante saber. O importante é que durante anos nos cruzavamos todos os dias depois do trabalho. Mas agora…há meses, muitos meses!, que não a visito. E nem está assim tão longe que eu não consiga lá ir. E, já decidi, acabei de decidir!, um dia destes vou até lá…sozinha.

É estranho sentir que preciso de me encontrar com uma velha árvore morta mas toda ela cheia de provas de vida? Pode até ser. Mas eu também nunca disse que eu própria não era estranha. Mas preciso, muito!, de a visitar! Recolher dela a sabedoria da transformação, de quem passou de fonte de vida a suporte de prova de vida.

Há ali, naquela velha árvore morta, qualquer coisa que me chama. E por isso tenho que ir até lá. Sempre à distância, claro, porque o caminho até ela não é estável nem seguro. Não o é para os outros, muito menos será para mim

Tenho tantas perguntas sem resposta que ela me poderá responder. As outras, que não lhe cabe a ela responder, podem sempre ser largadas ao vento para aguardar resposta que irá surgir na volta do vento no momento em que tiver que haver resposta.

Mas o que mais admiro nesta velha árvore morta é exactamente a força que a mantém de pé depois de uma vida inteira à força de Sol e vento, a beleza que a idade lhe confere, a imponência de quem se afirma até aos carros que circulam do outro lado da via rápida…

É a minha árvore. A minha velha árvore morta. Que hoje vi de passagem mais uma vez pela janela do autocarro. Não. Não é a mesma coisa que ir visitá-la mais de perto, sem horário ou pressa para sair. Mas é sempre tão bom saber que, apesar de tudo, continua lá. E continua a albergar provas de vida. Tantas provas de vida. E a árvore, velha e morta…mantém-se firmemente de pé! E isso enche-me de orgulho! E também de esperança, vá…não nego!

A minha árvore. Velha, morta, mas de pé!

{#329.037.2025}

Hey there, Delilah…ainda, mesmo tanto tempo depois, Delilah me arrepia e me faz sorrir. Porque Delilah cumpriu: “The world will never ever be the same, and you’re to blame“.

O dia lá fora pareceu-me um dia bonito. Muito Sol, céu de azul profundo e intenso, frio de Outono a chamar pelo Inverno.

Manhã que começou tarde depois de uma noite inteira sem dores pela primeira vez em muitos dias.

Ainda falámos de manhã. Sobre o tempo, sobre o dia bonito lá fora. E não lhe disse que tenho saudades… Ou pelo menos eu achava que tínhamos conversado, até ir agora ver o histórico e, afinal…o mais certo é eu simplesmente ter apagado pelo meio. E não era nada disso que eu queria…

Tenho trabalhos de casa para fazer. Tenho cartas para escrever. À mão. Exercitar a mobilidade fina porque o trabalho não é só na fisioterapia. Queria ter passado a tarde numa esplanada, de preferência com Sol à mão. Já tinha escolhido a esplanada das mesas infinitas, mas…

…ainda não percebi bem o que aconteceu, mas depois do almoço eu e o sofá embarcámos numa qualquer viagem por aí.

Serviu para descansar e recuperar. Do quê? Muito sinceramente? Não faço ideia…

Amanhã é dia de regressar à fisioterapia. É dia de eléctrodos no braço/ombro. É dia também de iniciar uma medicação que me assusta um pouco e que vai exigir alguma atenção redobrada. Mas que espero muito honestamente que me ajude com aquela dor excruciante e violenta no meu braço/ombro esquerdo e que já posso garantir que é DE LONGE a pior dor que alguma vez senti…

À tarde vou querer ir à esplanada. Se o vou conseguir…? Logo se vê…

{#328.038.2025}

No actual ciclo de fisioterapia também sou posta a escrever. Todos os dias, um tema. Todos os dias, uma página A5. Já escrevi sobre o mau tempo da “Depressão Cláudia“, já escrevi sobre “Deixar de Fumar“, já escrevi sobre “O Mar“. O tema para hoje seria “Viajar“…se eu não tivesse de imediato mudado o tema para “Viagens…na maionese!

E claro que, depois de começar o dia a ouvir o Nuno Markl tão bem disposto em directo ao telefone com a Rádio Comercial tinha que me lembrar dele. Porque “Viagens na maionese” é tão HQMC…!

25/Novembro/2025
Viagens…na maionese!
Não me chamo Nuno Markl, nem tive um AVC nem tampouco tenho tanta piada. Na única vez que os bombeiros me foram buscar a casa de ambulância para uma viagem ao Hospital de Setúbal para uma consulta de urgência nenhum disse aos vizinhos que era só uma dor de dentes!!!
Não, não sou o Nuno Markl, não tenho tanta piada como ele mas O Homem Que Mordeu o Cão diz-me que eu posso viajar! Na maionese! As vezes que eu quiser! E está tudo bem!

Fui apanhada na curva por um estúpido diagnóstico que veio para ficar! Espero sinceramente que o AVC do Nuno não deixe marcas significativas no verdadeiro Homem Que Mordeu o Cão! E foi tão bom ouvi-lo esta manhã em directo do Egas Moniz!

E Nuno, é mesmo caso para dizeres o que aprendi há mais de 20 anos com a minha Fernanda: “tirando o que está mal, está tudo bem!

E fico a torcer-me toda para que a recuperação seja total. Mas absolutamente SEM PRESSA, Nuno!

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Nunca, seja em que situação for, eu sou de fugir. Não.
Posso eventualmente esconder-me durante um momento, deitada em posição fetal em cima da cama, em silêncio como naquele Agosto há 11 anos em que não disse uma palavra durante 3 dias. Em silêncio mas não calada. Seja no papel com caneta, seja nas redes que tantas vezes me salvaram sem sequer imaginar que estender a mão é tantas vezes um gesto de salvação, seja no blog onde há mais de 11 anos todos os dias escrevo e tantas vezes vomito o que trago cá dentro e me sufoca…

Não fujo. A nada. Brinco muitas vezes ao Faz de Conta precisamente enquanto me escondo momentaneamente em busca das peças da minha armadura que, à primeira vista, passa a mensagem de que está tudo bem. Quando, como agora, não está

Durante 2 anos e meio não conseguia chorar. Com tanta coisa a acontecer comigo e as lágrimas a insistir em não cair…até que descobri a única coisa que me faz chorar MUITO em menos de nada. Ontem chorei. Muito. Hoje, na Teleconsulta com a Psicóloga, é praticamente garantido que irei chorar novamente. Seja! A única ferida que eu nunca quis está aberta, ainda tão recente e a precisar de espaço e tempo para sarar. E escrever esta última frase foi o suficiente para me devolver as lágrimas que tinha posto de lado por um momento…

…dificilmente voltarei a despir a minha armadura. Mas, mesmo que volte a optar pelo meu silêncio, mesmo com a Teleconsulta a ter lugar daqui a 30 minutos, mesmo que o som da minha voz se volte a recusar a fazer-se ouvir, não abrirei mão do uso da palavra escrita, seja aqui ou no Instagram, para conseguir digerir e vomitar todas as palavras que se acumulam cá dentro porque a perda DÓI!

…e eu estou cansada de perder…sempre

E sim, a Teleconsulta é com a Psicóloga. Mas não, ela não é responsável por eu querer fazer acontecer. Até porque quis fazer acontecer exactamente o mesmo a 26 de Janeiro de 2024. E a resposta…?

Foi
exactamente
a
mesma
:
NÃO!