#day491

A última vez que cortei o cabelo foi há 488 dias. Se alguma vez tinha contado o número de dias sem cortar o cabelo? Não. Mas também nunca antes tinha contado os dias fosse do que fosse.
O número de dias sem cortar o cabelo seria irrelevante, para mim ou para qualquer outra pessoa, se não fosse também parte da contagem dos meus dias. Destes dias todos que são já 491 e que em breve deixarei de contar.
Ter cortado o cabelo há 488 dias foi, também, um novo começo. E esse percurso de 488 dias, o tamanho do cabelo após 488 dias sem o cortar, o comprimento, os danos, os sinais do tempo, relembram-me, ou relembraram até hoje, o meu percurso. Cresci ao mesmo tempo que ele. Fui acumulando danos, sinais do tempo. E fui deixando crescer o cabelo enquanto me permitia crescer também.
Não, não foi nenhuma promessa como me chegaram a perguntar. Foi só isso mesmo: crescer e deixar crescer. E nunca o tinha deixado crescer tanto. E nunca me tinha permitido crescer tanto também.

Hoje cortei o cabelo. E quero com esse corte cortar o que ficou para trás ao longo destes 488 dias sem cortar o cabelo e todos os outros que vieram antes desse dia. Quero cortar com o que já não é, ou até mesmo nunca foi. Quero cortar com o que me fez doer, tanto como nunca pensei ser possível algum dia. Quero cortar com tanta coisa que aconteceu pelo meio e que também, de uma forma ou de outra, me deixou marcas, sinais do tempo, danos. Quero cortar com tudo isso sabendo que, mesmo cortando, o cabelo e o que me fez doer, cresço um pouco mais todos os dias. Porque fui aprendendo que não posso ser de outro modo se não em crescendo.

Há tanta coisa nova à minha espera. Um ano inteiro todo ele novo, com 366 páginas em branco à espera de ser preenchido com cor. Cores. Todas. As minhas e as dos outros. Sejam primárias, secundárias, sejam o que for. Desde que não cinzentas. Ou, mesmo que sejam cinzentas, sei hoje que a cor, as cores, estão sempre lá. Basta saber olhar. E com tanta coisa nova à minha espera corto com o que fui e assumo-me como o que sou: Eu, Plena. Não importa, na verdade, o comprimento do cabelo. Não sou Sansão, não é daí que vem a minha força. Sou apenas Eu, assim como sou. Cor de Rosa, com dias de sombra, com dias de luz, cada vez mais dias de luz e com dias de sombra que já não permito que permaneça.

Olho para trás. Tantas vezes. E o que está para trás é lá que tem que ficar. E vou deixando que fique. Aos poucos. Ou cortando de vez o que é para cortar. O que me doeu. O que me doeu fica para lá atrás mesmo que possa visitar-me de tempos a tempos. Quando o cansaço, como o de hoje, me deixa mais vulnerável. Me deixe, mais uma vez, a precisar de um colo. Não para me erguer, apenas para me aconchegar, apenas para poder, para conseguir, descansar.

Tão cansada…um cansaço acumulado natural desta recta final de todos os anos onde o trabalho aperta e o tempo escasseia e me deixo de parte para descansar depois, quando tiver tempo. Tão cansada…um cansaço que me deixa vulnerável a memórias, a ausências que se queriam presentes, a saudades do que foi não sendo, do que não foi sendo e, até, do que chegou a ser e foi quando e enquanto pode ser.

Um cansaço que me prende os movimentos mas que me solta as palavras. Mas que, ainda assim, não saem por não poderem sair, por não poderem chegar lá. Por não poder, mais uma vez, dizer o que não deve ficar por dizer.

Um cansaço que me pesa no corpo, que me pesa nas lágrimas que me vencem e me visitam hoje mais uma vez.

Cansaço. Tão simplesmente cansaço. Porque sei que sou mais do que isto. Melhor do que isto. Mais forte do que isto. Tão menos vulnerável, já, do que isto. Mas falta-me o aconchego, aquele que faz respirar, que me diz que vai ficar tudo bem, seja de que cor for, mas acima de tudo vai ficar tudo bem na minha cor. Que é minha e será sempre. Primária.

E o cansaço que me lembra que o tempo continua a correr, sem esperar por ninguém. E eu que digo sempre que não tenho Tempo para perder Tempo e não consigo, não consigo, não consigo simplesmente alcançar tudo o que o meu Tempo me dita. Porque o meu Tempo é composto de tantos tempos. E não consigo chegar a todos, nem todos conseguem chegar ao meu, ou simplesmente acabou o tempo ainda mesmo antes de acabar, quase antes até de começar.

Tão cansada………tão cansada de correr, de tentar preencher todo esse Tempo que é o meu de todas as formas que tinha idealizado preencher. E não consigo………

Let it go. Deixa ir. Deixo. Solto. Deixo voar. Vejo partir. Vejo partir o que atracou pelo Tempo que tinha que atracar. E, mais uma vez, olho para trás. E decido, já tinha decidido, decido deixar ir. As marcas, os sinais do tempo, ficam cá. Sem danos. Sim, sem danos. Mas com tantas certezas.

Let it go. Deixa ir. Deixo. Solto. Deixo voar. Vai. Sê. Sou também. Vou também. Vôo também. Sem danos, desta vez. Apenas com as marcas, os sinais do tempo. Tempo que foi o tempo que tinha quer ser no tempo em que tinha que ser Tempo.

……e sinto o tempo, o meu Tempo, a fugir. A fugir-me. E estou cansada. Tão cansada. E falta-me o colo, o aconchego, aquele que me permite respirar, que me permite descansar.

E neste momento já só consigo pensar que falta tão pouco tempo para o último fim de semana do ano. O último fim de semana que posso mais ou menos garantir que será apenas meu. Aquele fim de semana em que durante algum tempo pensei ser possível ter esse tempo. Ser esse Tempo. Que vai ser absolutamente diferente do que me atrevi a pensar, a imaginar, a desejar.

O cansaço. Está cá. Deixa-me, novamente, vulnerável. A ausências, a faltas. Faltam-me sons, faltam-me palavras, faltam-me letras que completam puzzles, que se completam. Faltam-me cheiros, sabores, texturas. O cansaço. E as ausências. E a vulnerabilidade.

E lembro-me de repente que hoje cortei o cabelo. O cabelo que deixei crescer durante 488 dias enquanto eu crescia também. O cabelo marcado pelos danos, pelos sinais do tempo. Como eu. Hoje cortei o cabelo mas sei que continuará a crescer. Hoje, o cansaço derrubou-me e deixou-me, novamente, vulnerável. Mas sei que também eu continuarei a crescer.

E deixo ir o que é de deixar ir. Deixo voar o que é de deixar voar. Deixo partir o que atracou pelo tempo que teve que atracar, tendo-me permitido subir a bordo e não me arrependendo de nada. Deixo ir, sabendo que a vulnerabilidade de hoje, trazida pelo cansaço, amanhã já cá não estará. E não será preciso nenhuma bóia de salvação como tantas vezes precisei.

Agora…? Agora termino o dia mais curto do ano entregando-me à noite mais longa. Amanhã volta a cor, a minha cor. Volta a luz. Volto Eu. Plena.

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