Author Archives: Kooka

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Se perguntarem por mim, dir-vos-ei que não estou. Esta que vos fala é outra que não eu.

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“Aceita a relatividade e a fugacidade de todas as coisas.”

Aceitar. Aceitar-me. 

Um dia. 

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As palavras no papel não me saem. “Deixa fluir, escreve sem objectivo. Acaba por sair alguma coisa.” 

Deixo fluir. E o pouco que sai resume-se a nada. Apenas me confirma que não vale a pena. Não vale a pena o esforço de avançar. De estar/ficar (ser?) melhor. 

É tão mais fácil simplesmente desistir. Porque continuar não me vai levar a lado nenhum e tudo continuará igual. E eu continuarei como sempre: sozinha e sem importância. 

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Julho, 4. 16 de 42.

1069 dias depois de 42 e revivo tudo novamente. 

Podia pedir para adormecer agora e acordar só quando Julho terminasse. Mas Agosto ainda me é difícil também. E Setembro é frágil. Posso regressar só em Outubro…? 

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Água em Pó. Estávamos em 1992, já vínhamos desde 1987. Não me recordo se a Água em Pó ia ao micro-ondas ou se bastava juntar água. Mas nunca mais me esqueci da Água em Pó.

Cruzámo-nos pela última vez lá para 1997. Ou terá sido ainda em 1996? Recordo-me desse encontro. Completamente ao acaso. Recordo-me, também, do que falámos. Ele a fazer melhoria de nota. Eu a ir à secretaria da escola. Lembro-me de o ter visto sorrir quando me viu. Sorri-lhe de volta e com gosto. Nunca mais nos cruzámos por aí.

Fui sabendo dele, por trás de ecrãs que não de computador. Fui, de certa forma, acompanhando-lhe o percurso. E sempre que sabia dele sorria com um misto de admiração e orgulho. Admiração não por me surpreender, muito pelo contrário, por sempre o ter sabido diferente e capaz. Orgulho exactamente pelo mesmo motivo.

Lembro-me várias vezes de aulas de matemática ou de biologia no 5° ano, quando dividiamos carteira. Ou melhor, mesas de grupo. Eram grupos de 4. Apenas me recordo dele. Lembro-me que conversavamos de outras coisas que não das aulas. Recordo algumas brincadeiras típicas de quem tinha 10 anos e começava agora a crescer devagar.

Ainda lhe oiço a voz ao longe na memória. Há muito tempo, tanto tempo, 20 anos?, 21?, que não o oiço de viva voz, mas ainda o oiço na memória dos 10 anos a dizer-me, na aula de biologia, ou ainda se chamava Ciências da Natureza?, a dizer-me depois de me olhar nos olhos “tens olhos de cobra…tens olhos de serpente!”. Nunca lhe perguntei o que significa ter olhos de cobra, mas nunca o esqueci.

Água em Pó em 1992, filmes de película rodados no terraço de um prédio vizinho, jogos de futebol e uma bola, dele, que ficou no telhado do pavilhão A depois de um chuto mal medido dado por mim. Jogos de basket. Visitas de estudo. Festas de aniversário. Segredos guardados aos 12 anos. Experiências prometidas aos 15 numa aula de Físico-química em que, mais uma vez, partilhavamos carteira mas não concretizadas.

Ele sempre muito mais seguro e decidido do que eu. Mais crescido, ainda que apenas 29 dias nos separassem no calendário dos aniversários.

Recordo-lhe a voz. E a cicatriz no queixo. E o ar trocista de quem tenta convencer da chegada do anti-cristo alguém que o parou na rua para lhe testemunhar um qualquer deus.

1997. Ou seria ainda 1996? Não interessa. São 20 anos bem medidos num total de 30. Já não há Água em Pó. Já não há espectáculo multimédia de uma exposição universal que não visitámos mas recriámos.

20 anos depois, “olá, Catarina”. E voltou a Água em Pó. Voltaram as memórias todas que nunca se apagaram e algumas, muitas, que nem sequer adormeceram. Deste lado do ecrã sorri. Quero acreditar que do lado de lá ele sorriu também. Deste lado do ecrã tanta coisa mudou, do lado de lá também. Deste lado do ecrã tanta coisa se mantém igual, ali no eixo 10-15 anos onde éramos mais presentes, também no eixo 15-20 onde a distância natural de quem percorre caminhos distantes acaba por ditar as regras. Do lado de lá do ecrã acredito que ainda será possível encontrar aquele miúdo da cicatriz.

Sabia que lhe sentia a falta. De saber dele na primeira pessoa. Ainda lhe sinto a falta da voz que sei manter-se igual à voz que ecoa na minha memória. Não sabia, não tinha noção, que ele foi, muito provavelmente, o meu melhor amigo do final da infância e início da adolescência. Nunca lho disse. Como poderia tê-lo feito se só hoje o percebi?

“Olá, Catarina. Estás Boa?” e eu ali, sem poder dispensar muitos minutos do meu primeiro dia de trabalho depois das férias e a viajar 30 anos para trás.

Fazia-me falta. E percebo hoje que ele sempre foi um dos ramos da minha árvore. E se há um ano cortei um ramo que não me deixava crescer, hoje recupero, mesmo que atrás de um ecrã, um ramo que me acompanhou quando ambos começámos a crescer. Devagar.

A ti, André, brindo com água. Com Água em Pó. E tu saberás porquê. Obrigada por voltares a sorrir-me com o teu ar trocista. Obrigada por me voltares. Tinha saudades tuas.

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Dia 2 de Julho, o dia do meio. Aquele que não já não pertence à primeira metade do ano nem chega a tempo da segunda metade. Um dia que não pertence a lado nenhum ou um dia especial porque único e diferente? 

Ou simplesmente só mais um dia atrás do outro atrás do um. 

Último dia de férias, segundo dia do mês que me assusta. Felizmente amanhã retoma-se a rotina dos dias ocupados, de cabeça sem tempo para pensar. Ainda que as memórias, essas, as sinta por inteiro na pele. 

Dia 2 de Julho. O dia do meio. O dia que não pertence a lado nenhum. Como eu. 

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Julho. E tudo, novamente, à flor da pele……… 

Tenho medo de Julho… 

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E os dias vão passando, um atrás do outro atrás do um. Dias mais serenos, mais tranquilos, ainda que tenha plena noção que essa serenidade, essa tranquilizar, são artificiais fruto de medicação de estabilização. 

Vão passando os dias, a correr e simultaneamente sem pressa. Ou sem pressa e simultaneamente a correr? O que for… Porque vão passando, os dias, de um modo linear, numa estabilidade artificial e rígida quimicamente induzida, criando uma falsa sensação de segurança. Onde as vozes vão perdendo força e são substituídas por sussurros novos que me repetem ao ouvido que vai correr tudo bem e que este ano o Verão vai ser melhor. 

O Verão ainda agora começou. E Julho ainda não começou sequer. E os dias vão passando, ao seu ritmo. Até que, de um momento para o outro, o meu ritmo passa a ser outro, volto a acelerar, volto a perder as cores, volto a recordar onde estava nesta data há 3 anos, volto a repetir para mim mesma que tenho saudades tuas, que sinto a tua falta, que nesta data há 3 anos estava grávida, que nunca aconteceu aquele diálogo que cheguei a fantasiar durante tantos anos em que iria chegar a parte em que, com um sorriso, diria “estou grávida”. 

E percebo, nessa minha mudança de ritmo, que afinal ainda sinto coisas. Ainda sinto as coisas. Ainda tenho vontade de andar para trás no tempo e reviver-te. Não apenas sobreviver-te. 

Percebo que aquela falta de vontade de ver o Mundo, aquela ausência de brilho nas cores à minha volta, aquela angústia de nó na garganta, aqueles olhos carregados de lágrimas ao simplesmente agradecer por permitirem que existas, percebo que tudo isso me diz que o Verão ainda agora começou, Julho ainda não começou sequer, e tenho medo do mês que aí vem… Medo de não conseguir não me afundar novamente. Medo de não conseguir não me agarrar àquelas memórias sem chorar. 

E hoje novamente o nó na garganta, hoje novamente a vontade de me fechar, hoje novamente a falta de cor, hoje novamente tudo o que me doeu há 3 anos, o que me faz doer ainda hoje. Mais do que gostaria… 

Hoje, mais uma vez, a ausência de cor. 

Hoje, mais uma vez, um dia atrás do outro atrás do um.

Hoje. Amanhã logo se vê. 

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{………} 

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Das coisas que me tenho esquecido: perceber as pequenas coisas positivas. Muitas coisas pequenas fazem uma grande. 

Como, por exemplo, sair de casa de manhã cedo com muita chuva para, pouco tempo depois, voltar a ver a cor do céu. Azul. E branco. 

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Entre a bandeira vermelha de há um ano e a bandeira verde que se pretende, eu assim, em bandeira amarela. Com cautela, cuidado, atenção. 

Eu, bandeira amarela de praia vigiada por nadador salvador. 

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30 de Janeiro, segunda feira. A última vez que passei para o papel coisas que não passo para o éter. 

“Devias juntar tudo o que escreves. Compilar tudo. Qualquer dia podias escrever um livro.”

As palavras escritas sempre me foram fáceis. Durante anos andei sempre acompanhada de um bloco e uma caneta. Ia escrevendo sem rumo, sem objectivo. Pensamentos? Ideias, talvez. Poesia por uns meses. Depois fechei-me do Mundo, deixei de escrever. Até chegar a Internet lá a casa. 

Comunicar no éter, escrever porque sim. Uma página pessoal, pensei eu tantas vezes. Até que alguém me falou de uma coisa nova, que era mais simples do que uma página pessoal. Chamavam-lhe web logs. Blogs. Estávamos no início do Verão de 2003. Agora que penso nisso, faz por estes dias 14 anos que criei o meu primeiro blog. Com exactamente o mesmo nome que tem este. Sem temática definida. Ia escrevendo sobre tudo, mas acima de tudo sobre nada. Durou 5 anos de escrita constante, diária. Não me lembro porque deixei de escrever…porque a vontade continuava cá. Mas alguma coisa me levou a parar. 

2 anos depois percebi que era uma necessidade que precisava de ser atendida. Recuperei o arquivo do alojamento anterior. Queria recuperar todos aqueles anos de escrita. Instalei o blog em alojamento próprio. Estava tudo pronto para voltar a soltar no éter o que quer que fosse que me apetecesse. Até que, quando tudo estava pronto e por pura azelhice, apaguei tudo sem querer. Não fui a tempo de recuperar backups do alojamento por não ter dado pela asneira mais cedo. Voltei a ter uma página em branco… Ou melhor, todo um novo “caderno” cheio de páginas em branco. E assim ficou por mais de três anos. 

Até ao dia em que a ansiedade que me sufocava me fez voltar a debitar no éter. Há 3 anos. Escrever porque sim, porque não, porque também. Porque a ansiedade era quase mais forte que eu e o meu rumo era nenhum. Voltei a escrever como há muito tempo não escrevia. Escrever sem filtros, escrever sem reler antes de publicar, escrever sem auto-censura. Escrever sem compromisso, sem obrigatoriedade ou obrigação. Sem prazos. Sem datas. E assim fui escrevendo. Sem pressa. E completamente sem rumo. 

Até que Agosto de 2014 se fez presente. Até que escrever, debitar no éter, se transformou numa espécie de terapia, uma questão de sobrevivência. 1043 dias depois de 18 depois de 42, e escrever diariamente é o que me tem permitido respirar, digerir e avançar. Mesmo que tantas vezes ainda o ar não entre, tantas vezes ainda não consiga digerir, tantas vezes ainda regrida no processo de avançar. 

É a escrever que exorcizo fantasmas, mesmo que por vezes dê lugar às vozes que ainda me visitam. É a escrever que reflicto sobre o que ainda me dói, mesmo que não perceba no imediato. É a escrever que lanço no éter o que, por algum motivo, não consigo fazer chegar de outra forma. Mesmo que tanta coisa não chegue a lado nenhum. É a escrever que vou dizendo o que nem sempre tenho oportunidade de verbalizar. Ou coragem para o dizer…… 

Perdi o rumo da escrita por aqui. Ou se calhar não o perdi e o rumo do que vou escrevendo é exactamente este. Com altos e baixos. Baixos muito baixos tantas vezes. E a tentar, todos os dias, voltar aos altos. 

E no meio de tanta coisa escrita alguma coisa há-de fazer algum sentido. Mesmo que raramente leia o que ficou para trás. 

Voltei aos cadernos, entretanto. Inicialmente apenas como uma ferramenta complementar ao acompanhamento psicoterapêutico. Seria apenas para breves apontamentos no início de uma relação terapêutica que ainda não sabia o rumo certo a tomar. Mas sempre tive dificuldade em fazer breves apontamentos. Ou resumos. Escrever pouco nunca me foi fácil. Como é que se consegue reduzir a meia dúzia de pontos um Mundo imenso que trago comigo? 

Fui escrevendo todos os dias, pondo no papel tudo aquilo que não cabe no éter. Fui escrevendo tudo aquilo que não sei dizer em voz alta a menos que esteja a ler. Fui escrevendo todos os dias, fui lendo algumas vezes, chorei a ler em voz alta outras tantas. Nunca tinha percebido até ler em voz alta o quanto pode doer o que vou escrevendo…… Seja no éter ou no papel. 

Hoje apetece-me voltar ao papel. Acabo, no entanto, por me dedicar ao éter. E desta vez não posso, de maneira nenhuma, perder tudo o que escrevi nestes últimos 3 anos, tudo o que debitei no éter. 

Tenho que compilar tudo. Juntar tudo de uma forma física. Porque o lugar das palavras escritas é no papel. Irei fazê-lo. Juntar tudo, guardar em capa própria. Encadernar, porque não? Mas não será mais do que um arquivo pessoal. Que me é importante manter por perto. Porque tudo o que tenho escrito nos últimos 3 anos não tem que ser um livro como já várias pessoas me sugeriram. Porque o que tenho escrito nos últimos 3 anos não interessa a ninguém. Não ensina nada a ninguém. Não é útil para ninguém. Afinal, quem iria dar-se ao trabalho de ler aquilo a que nos últimos dias dei por mim a chamar de “Diário de uma Depressão”…? 

Continuarei a escrever. Enquanto me fizer sentido. Enquanto me for necessário. Diariamente como nos últimos 1043 dias. Com mais ou menos coisas para debitar no éter, com mais ou menos altos e baixos. Continuarei a escrever. Porque não sei ser de outra forma que não em palavras escritas. 

Livro? Não. Um dia não escrevo um livro. Simplesmente porque não tenho nada para escrever que faça sentido chamar-lhe livro. 

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Sair da zona de conforto. Preciso. Mas não saio. Quero. Quero? Quero, mas até que ponto? É mais fácil não sair. Simplesmente deixar-me ficar por aqui. Um aqui melhor hoje do que há um ano, ou há 6 meses. Até mesmo 3 meses. A medicação ajuda, de facto. Ajuda a estar melhor. Não ajuda a sair da zona de conforto, no entanto.

Hei-de sair. Pode ser aos poucos? Procurar novas rotinas, reencontrar pessoas. Até mesmo encontrar pessoas novas, quem sabe? Não sei… Assusta-me. A ideia de sair da sombra, mostrar-me. Aos velhos amigos e conhecidos. Mas sobretudo a potenciais novos.

No fundo, o que me assusta sou eu mesma. E a minha interminável capacidade de fazer asneira e repetir os mesmos erros de sempre.

Um dia. Um dia respiro fundo e saio da zona de conforto. Mesmo sem saber como se dá o primeiro passo. E o segundo. E todos os seguintes. E se voltar a repetir os mesmos erros de sempre? Paciência… Talvez seja a única forma de ser o que sou.

{#página175} 

“- Vou-te fazer uma pergunta: como é que sabes que Luiz de Camões existiu?” 

Perceber que, apesar de repetir inúmeras vezes no início da conversa que o meu filho não existe, é na memória que provo a sua existência. 

Não existe, já, no plano físico. Para alguns pode até nem ter existido. Pode não ter tido importância, relevância, o que for. Mas existiu. Para mim. Comigo. Mas, especialmente, em mim. 

E, apesar de não o ter ao meu lado, mantenho-o comigo, em mim. 

Dizem-me que a memória não se apaga. “Mesmo ao fim de 30 anos”. E será essa memória que ficará comigo. Que irei preservar. E, acima de tudo, honrar. 

Não tenho o meu filho. E é estranho, muito, ouvir alguém a referir-se a ele como se ele estivesse ao meu lado. Ouvir alguém a tratá-lo pelo nome. “O João”, e eu ainda não me habituei a que haja quem o trate pelo nome. Mesmo que seja apenas naquelas duas horas programadas aos sábados de manhã. 

Ele, o João, ali existe. Nunca foi posta em causa a sua existência a não ser por mim. Até perceber que é a memória, são as memórias, o que me prova que o que não esqueço realmente existiu. E existe para mim. Mesmo que tudo o que tenho de palpável que me confirma a sua existência caiba numa pequena bolsa. 

O João existiu. Durante 42 dias, do nada transformou-se em tudo. Cresceu dentro de mim. E é dentro de mim, em mim, que continuará a existir. 

“Mesmo ao fim de 30 anos”. 

{#página174} 

Vantagens de ter a praia ao fundo da rua: chegar quando todos começam a ir embora. Terminar o dia com uma praia inteira só para mim. 

Mar chão. Maré vazia. Água limpa e pouco fria. 

Pé na areia. Corpo no mar. Sol. 

Tenho que aproveitar mais esta proximidade. E, decididamente, melhor.  

{#página173} 

“- Não te deixes procrastinar. Sabes que é fácil…”

Sei. E prometi a mim mesma que não o faria. Mas nem sempre consigo manter as minhas promessas. Mesmo com planificação prévia. 

Amanhã começo a cumprir a planificação. Antes que fique demasiado tarde. Embora também me saiba bem dedicar um dia a fazer nada. Ou, pelo menos, nada do que estava programado. Porque as mãos, essas, mantiveram-se activas para ocupar a cabeça. 

{#página172} 

Indicações {psico}terapêuticas: “não te esqueças, apanhar Sol por causa da vitamina D e muita água. Nem que seja para molhar os pés.”

Não, não é “maluqueira” nem “doideira” como lhe chamaram hoje. É um pouco mais sério que isso. Talvez por isso, pelos nomes que lhe dão, que me dão, eu prefira manter-me aqui. À distância. 

{#página171} 

“- Tia, estás diferente… 

– Diferente? Porquê? 

– Não sei… Estás mais velhota. 

– Hum… E estou diferente para melhor ou para pior? 

– Hum… Acho que é um bocadinho dos dois!” 

Há quem me diga que estou melhor. Que nos últimos meses fiz, fizemos, progressos. Digo-lhe sempre que estou diferente. Não gosto, não quero?, dizer que estou melhor. Por medo, talvez. Medo de voltar ao ponto que me levou até ele. É normal que possa acontecer, voltar a cair, diz-me ele enquanto vai repetindo que preciso de verbalizar que sim, que estou melhor. Respondo-lhe sempre que estou diferente. Que não consigo verbalizar o que ele me pede. Que tenho medo. E ele lá vai dizendo que, se voltar a cair, saberei melhor como voltar a levantar-me. Que será mais fácil. 

E se não for…? 

É, também, por isso que prefiro agarrar-me à opinião dos 7 anos do Miguel: estou diferente. Mesmo que seja para melhor e para pior em simultâneo. 

{#página170} 

“- Tenta abstrair-te das vozes.”

Um dia consigo. Mas não hoje. Não agora.

Não ainda.

Não já. 

{#página169} 

O problema é a minha cabeça quando tem demasiado tempo sozinha com ela mesma. Faz filmes, leituras, confunde-se ainda mais do que já está. Enrola-se, embrulha-se, perde-se por aí. Não foca. 

Não sossega. Ainda não aprendeu a manter-se quieta. Focada num só ponto de cada vez. Ainda não encaixou que andar em constante turbilhão não deixa avançar para lado nenhum. 

O problema é a minha cabeça quando tem demasiado tempo sozinha com ela mesma. Analisa tudo. Desde a postura corporal dos outros às palavras ditas de forma espontânea passando por pequenos gestos que têm a pouca importância que têm. 

Porquê analisar tudo? Porquê querer decifrar tudo? Tudo tem um porquê, é certo. E eu ainda não saí da idade dos porquês. Mas porquê querer forçar uma interpretação quando não há razão para tal…? 

O problema é, de facto, a minha cabeça. Que vagueia por aí, baralha-se, enrola-se, confunde-se e Inevitavelmente acaba por se perder. Simplesmente porque tem demasiado tempo para estar sozinha com ela mesma. 

Vão ser umas longas férias a tentar obrigar a minha cabeça a focar-se… Por muito que planifique antecipadamente cada um dos 15 dias que tenho pela frente, conquistar e manter o foco adivinha-se tarefa pouco fácil. E ainda hoje é o primeiro domingo de férias…

{#página168} 

Planificar, que não é o mesmo que planear. Plano A, plano B, plano C. 14 dias estruturados. Horas marcadas para não ficar demasiado tempo sozinha comigo mesma. Talvez assim as vozes não incomodem tanto. 

Planificar, que não é o mesmo que planear. Há 8 anos que não sei o que é isto de ter 2 semanas inteiras por minha conta. Daí o medo do vazio dos dias que me dizem que são meus. Daí que tenha necessidade de planificar dias com horas marcadas para tudo, menos para imprevistos. 

Planificar, que não é o mesmo que planear. Vai correr bem. 

Vai ter que correr bem. 

Já vos disse que estou de férias…?