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Se perguntarem por mim, dir-vos-ei que não estou. Esta que vos fala é outra que não eu.

{#356.011.2024}

Natal já ali quase ao virar da esquina. Não estando a família toda reunida nas noite da Consoada como há 30 anos acontecia, encontram-se data’s alternativas. Como hoje.

Dia de receber so meus tios para almoço de Natal e respectivas troca de prendas que apenas serão abertas na noite certa.

O meu tio, como sempre, a series o meu super tio. Fez questão de trazer todos os ingredientes para fazer, para o almoço, aquilo que ele sabe que euro adoro, que é tão bom, que me sabem sempre tão bem e que é tão simples quanto umas posta de bacalhau acompanhada com grão! Nada mais simples do que isso. E que, já sei, seja em que altura do ano for, seja eu a ir lá ou electric a vir cantar, há sempre bacalhau com grão para a sobrinha! Sou ou não sou uma miúda cheia de sorte?

O almoço, numa versão mais reduzida em número comparando com há 30 anos, não deixou de ser um almoço de Natal em família. E, às vezes, sinto-lhe a falta.

Sei bem das discussões que houve com a minha mãe em alguns Narais porque nem eu nem o meu irmão queríamos ir para casa dos meus tios. Tínhamos os nossos motivos para não querermos ir. Para não gostarmos de ir. Que, soubemos mais tarde, a minha mãe entendia perfeitamente. Mas não nos ia deixar sozinhos casa, dois irmãos que se odiavam de forma visceral, perigosa. E, sem nós, ela também não iria a lado nenhum. Mas passarmos o Natal em nossa casa, apenas os 3 quando podíamos estar a criar memórias em família, nunca seria opção.

Não me lembro em que ano a tradição de irmos, e nesta altura já só eu e a minha mãe porque, por qualquer motivo que desconheço, o meu irmão deixou de estar presente, deixou de acontecer. Sei que a distância mudou, para mais longe. Talvez tenha sido nessa altura que a tradição caiu…

A vida, claro, sempre a acontecer no seus carrossel de curvas e contra-curvas e cambalhotas também contribui para o fim da tradição adolescente agora já em idade adulta. Mas, também a vida tal como ela é e tal como ela acontece, a fazer prova de que, haja o que houver, aconteça o que acontecer, de bom ou mau!, estamos sempre presentes uns para os outros. E isso é o mais importante de tudo.

Este ano, o Natália será muito provavelmente a duas: a minha mãe e eu. Os meus sobrinhos este ano passam a noite de Natal com a mãe, o ano passado foi com o pai mas não me lembro de terem estado cá em casa na noite certa… Não interessa. Será uma noite normal a duas. Mas, admito, tenho saudades de sentir a noite certa com o espírito certo.

Durante muitos anos, teimei em dizer que não ligava ao Natal. Agora, ao escrever sobre o almoço de Natal em família e ao recordar outros tempos, percebo que, afinal, ligo mais do que pensava…

{#355.012.2024}

E o resumo do dia de hoje é muito fácil de fazer:

  • o mega trambolhão matinal na aula de Yoga ao tentar alcançar uma postura de equilíbrio (catrapum!, no meio do chão! Não foi a primeira vez, não será a última! Mas esta doeu! Cair de rabo no chão é tranquilo, mas cair literalmente para o lado e bater com a coxa no chão dói! E o que é que eu fiz a seguir? Repeti a postura, claro! E sem cair!)
  • o alto desprezo da afilhada felina de seu nome Mia, pois claro (sempre que a chamo, vai a correr para a janela, dou-lhe festas em troca de sessões de acupunctura com aqueles dentes no lugar das agulhas, agarra-me a mãos com as patas, morde-me os dedos, eu sei lá! Hoje? Veio quando a chamei mas ficou do lado de dentro da janela a espreitar-me de vez em quando num total desprezo pela presença da madrinha! Não faz mal, enquanto ali estive o Sol aqueceu-me o suficiente para descongelar depois do gelo da esplanada!)
  • chegar a casa, mudar de roupa, comer qualquer coisa ligeira e rápida, beber um café e fumar um cigarro, aninhar no sofá com a manta e as almofadas térmicas quentinhas e…dormir até às 19h…!

Sábado, o dia mais aborrecido da semana, também pode ser isto! E não é nada mau!

{#354.013.2024}

Ainda desta coisa dos lugares reservados: hoje foi dia de exame ao joelho em Lisboa. Saímos de casa relativamente cedo em direcção ao Centro-Sul para apanhar o autocarro 753 que nos deixaria muito perto da clínica. Chegámos à paragem e, como sempre, uma fila imensa de gente para entrar. Esperei pela minha vez até que um jovem me fez sinal para passar à frente dele. Agradeci e subi para o autocarro.

Depois de validar o passe, virei-me para o corredor e vi que todos os lugares já estavam ocupados. E, os lugares reservados, ocupados por quem não precisava de estar naqueles lugares. Parei e disse, alto o suficiente para o motorista me ouvir e os passageiros dos lugares reservados também: “então agora eu sento-me onde? Em pé é que eu não posso ir!”

De imediato, uma senhora dos lugares reservados se levantou e me fez sinal para me sentar. Agradeci e, a custo, sentei-me no lugar ao qual tenho direito. E, à minha frente, sentado num lugar reservado sem necessidade, um senhor pouco simpático que, a única coisa que disse, foi: “antes, estes lugares eram dos velhos. Agora é o que se vê!”

Respirei fundo. Olhei para o autocolante informativo e fiquei com vontade de lhe perguntar se sabia ler. Não deveria saber, de certeza. E, ao pararmos na paragem das Amoreiras, levantou-se e saiu sem qualquer dificuldade. Portanto, não!, não tinha que estar a ocupar um lugar reservado. E um lugar reservado não é “o lugar dos velhos”. E nem ele era de idade assim tão avançada que se pudesse auto-intitular de velho…

Cada vez tenho menos paciência para estas coisas do meu novo normal…mas depois também encontro, como ontem, pessoas como o Rúben. Quem é o Rúben e o que fez? Já vos conto…

De ontem, e o dar às coisas, aparentemente pequenas, o devido valor. E quem diz coisas, diz pessoas. E quando digo pessoas, digo o Rúben.

Ontem, dia de Yoga, dei por mim já sem tempo de apanhar o autocarro que me leva até ao Grupo Amigos da Costa, local onde são as aulas e normalmente conhecidas como GAC.

Desci até à porta do prédio e chamei um Uber. A app trouxe-me o Rúben. 30 e poucos anos, talvez, simpático, fizemos os 11 minutos de viagem a conversar. Sobre o que eu tenho, como estou a reagir a tudo, a importância do Yoga para trabalhar o equilíbrio.

Chegámos à morada e eu digo que fico já ali em frente ao edifício branco que está do outro lado da estrada. “Ah! Vai para o GAC? Eu dou a volta ali à frente para ficar à porta e não ter que atravessar, não venha aí um maluco qualquer!” Agradeci e, enquanto fazia a manobra, perguntou-me “quer que eu a leve lá acima?”. E, na confusão da minha cabeça respondi que o carro não sobe escadas… Riu-se e disse “não, que eu vá consigo! Ok, eu vou ajudá-la a subir as escadas e levo-a lá acima!”. Ainda tentei recusar, mas o Rúben estava decidido! Ele conhece aquelas escadas sem corrimão e sabe que custam a subir.

Parou o carro à porta, saiu, deu a volta, abriu-me a porta, ajudou-me a sair do carro, carregou a minha mochila e o tapete e estendeu-me o braço esquerdo dobrado para que eu me apoiasse. “Diga-me se estou a fazer bem. Tenho um grande amigo que é cego e já estou habituado a dar o braço”. Disse-lhe que estava perfeito e, mais uma vez, agradeci e sorri por baixo da máscara.

Iniciámos o caminho até à escada, devagar, devagarinho. Subimos os dois com calma e cuidado. E o Rúben sempre simpático, sempre prestável e preocupado. Chegámos ao cimo da escada onde está a entrada estreita para o corredor de acesso às salas. Agradeci novamente e disse que tinha chegado ao destino, embora a sala ainda estivesse um bocadinho mais à frente. “Não! Diga-me qual é a sala e eu deixo-a lá!” Apontei para o banco corrido ao lado da porta fechada onde ainda decorria uma aula de dança de crianças. O Rúben, sempre de braço dado comigo, só me largou quando me sentei no banco.

Fizemos a subida das escadas sempre a conversar, como tínhamos feito na viagem de carro. E pude perceber que Rúben é daqueles que há poucos. Educado. Bem formado. Preocupado. Prestável. Sensível às necessidades do outro. E bem disposto.

Pela milionésima vez agradeci. Por tudo! Desejei-lhe tudo de bom. O Rúben merece. E ainda lhe disse “pode ser que nos encontremos novamente num próximo pedido de Uber meu”. Ele sorriu e disse “espero que sim”.

A minha vontade, quando finalmente nos despedimos, foi dar-lhe um abraço sincero. Porque o que o Rúben fez ontem foi muito mais além do que ser motorista TVDE. Foi um ser humano completamente altruísta. E cada vez há menos desses.

Por isso, sim!, ontem um Uber levou-me ao Yoga até literalmente à porta da sala num primeiro andar! E eu senti-me, novamente, uma miúda cheia de sorte!

{#353.014.2024}

Quinta feira, já se sabe, é dia de Yoga. Hoje não foi excepção.

As posturas habituais, os desafios habituais para o corpo e para a mente. E que, a mim, seja num caso ou no outro só me fazem bem.

A nível mental é o desafio de aquietar as ideias, muitas delas parvas, calar as vozes que tantas vezes ecoam cá dentro. O corpo responde a todos os desafios propostos e se não consegue à primeira repete as vezes que forem precisas até conseguir. É também uma boa forma de me mexer e fazer exercício. Há quem já me tenha dito que “Yoga não é desporto porque não se transpira“…obviamente que quem me disse isto nunca na vida fez uma só aula experimental…

Hoje, depois da aula e a complementar o relaxamento, fizemos o que não fazíamos há muito tempo: Yoga Nidra, que é o mesmo que dizer relaxamento profundo acompanhado de meditação guiada. E já tinha saudades.
E o Yoga Nidra, para além do relaxamento profundo, quando bem guiado por quem sabe, proporciona viagens maravilhosas até onde a nossa mente nos levar. E hoje o professor Pedro guiou-nos até ao Azul. O azul do céu. Quando sentes que sais do teu corpo porque estás de tal forma relaxado que o teu corpo deixa de ter peso e simplesmente vai. E fomos às nuvens. Flutuámos entre elas. Vimos a Lua. O cintilar das estrelas ali tão perto.


Não sei se todas fomos. Eu sei que fui. E ir ao Azul é provavelmente a minha viagem preferida. O Pedro não viu por causa da minha máscara, mas nesta minha segunda viagem ao Azul o meu sorriso era enorme. E tive que fazer um esforço grande para não começar a rir de felicidade por aquela maravilha de viagem que gosto tanto e que faz tão bem.

A pior parte do Nidra é quando temos que regressar. Voltar a encaixar, o que se soltou por aí, naquele corpo estendido no chão. Voltar a sentir peso no corpo. Voltar a movimentar os dedos das mãos, os dedos dos pés, as mãos, as pernas…enfim, voltar a encaixar a leveza num pacote pesado. Esta é a parte mais difícil. Pelo menos para mim que tantas vezes não tenho vontade de voltar. E o reencaixar no meu corpo chega a ser doloroso…mas a viagem é fabulosa.

E já depois da aula terminada, já em casa, ainda aquele sorriso e leveza de quem foi ao Azul

{#352.015.2024}

Dia estranho. Ou montanha russa de emoções e estados de alma. Ou, ainda, perceber que há dias que, por algum motivo que desconheço, roçam o meu limite. Não o físico, porque aí já percebi até onde posso ir. Mas a nível mental e, até emocional, não percebi bem o que se passou comigo hoje…

De manhã, acordar tarde mas ainda cedo o suficiente para, à distância de um clique, partilhar com ele um acordar daqueles que ficam tatuados na memória.

Depois do almoço, sair de casa já depois da hora prevista. Dia de renovar a baixa médica, mais 30 dias e já deixei há muito tempo de contar os dias sem trabalhar por indicação médica.

Café e uma espécie de lanche e um momento de descanso numa esplanada abrigada antes de apanhar o autocarro de volta para casa. E aqui o barulho começou a incomodar-me. As vozes na outra mesa, num volume demasiado alto, fizeram disparar um qualquer gatilho na minha cabeça…Se já me sentia algo confusa e baralhada, a partir daí foi sempre a piorar…

Apanhar o autocarro de volta para casa. Não dei pela viagem. Vinha fixada no telemóvel. Não me lembro se a escrever mensagens para ele com o resultado da consulta com a médica e a necessidade das vacinas fora do Plano Nacional de Vacinação mas altamente recomendadas para imunodeprimidos…como eu. Sei que tudo me incomodava, mas especialmente o uso da máscara. Que me impedia de respirar correctamente, que me incomodava bastante, mas que não me atrevia a retirar com tanta gente dentro do autocarro. Não retirei a máscara mas passei de uma máscara FFP2 de alta segurança para uma simples máscara cirúrgica onde respirar era mais fácil, mas ainda assim sentia falta de respirar livremente…

Assim que cheguei à minha paragem e saí do autocarro, imediatamente retirei a máscara e respirei profundamente. Fiz várias inspirações profundas, livres e senti, finalmente, o ar fresco a entrar e a chegar aos meus pulmões!

Voltar para casa era a última coisa que eu queria. Não estava frio. Decidi ficar na esplanada do costume por um bocadinho. Precisava muito do meu momento, aquele momento comigo mesma. Para acalmar a cabeça e tentar organizar o que estava confuso e baralhado. A esplanada não tinha ninguém, estava perfeita para estar ali. Por outro lado, e já desde Almada que o tínhamos percebido, o chão estava perigoso por causa da humidade. Chão escorregadio como manteiga. Um risco acrescido para mim…

Combinei com a minha mãe que lhe telefonava quando quisesse ir para casa para minimizar o risco de queda. E logo aí começou a pressão da minha mãe. Porque queria jantar cedo. Porque já era tarde. Porque eu não podia demorar. Porque…porque…porque! Quando o que eu queria e precisava era ter o meu tempo. Sem pressa. Sem pressão. Sem horários!

Deixei-me ficar na esplanada. Eu, a música e mensagem para ele. E pesquisa na Internet sobre os valores das duas vacinas que tenho que apanhar. E que me preocupa como as vou conseguir pagar…

A cabeça cada vez mais confusa, mais baralhada, cada vez mais sensível ao mínimo ruído. E ali não havia ruído em demasia. Mas mesmo assim… E sentir que o ruído não só me incomodava como me deixava profundamente enjoada. Não foi a primeira vez. Já há uns dias que sinto que, quando o ruído me incomoda, fico muito enjoada, muito mal disposta…

A minha mãe resolveu que estava na hora de eu voltar para casa e foi ter comigo. E aqui já eu estava demasiado inquieta, irritada sei lá com o quê, alterado o meu tom de voz já demasiado impulsivo. E uma breve discussão entre as duas. Sem necessidade. Apenas porque já eu estava alterada sei lá porquê…

Respirei fundo. Tentei acalmar a confusão na minha cabeça, a baralhação, e voltámos para casa. E eu prestes a rebentar. Porque voltar para casa com pressa, pressionada a cumprir horários e metas que não são o que quero, era a última coisa que eu queria…

De imediato percebi porque não queria vir para casa… Na esplanada havia aquilo que eu precisava: sossego. Em casa, um primeiro andar por cima de um pátio onde se juntam os bêbados do bairro a conversar demasiado alto, a discutir, a usar um palavreado que me incomoda…não era isto que eu precisava!

Cada vez mais intolerante com tudo, mas especialmente com o ruído. De um lado, o som da televisão na telenovela brasileira cujas vozes me incomodam de uma forma que não tem explicação. Do outro lado, o ruído no pátio: os gritos, as ofensas, o palavreado abusivo dos bêbados do costume. E eu cada vez mais confusa. Mais baralhada. A escrever mil mensagens para ele. Porque já não me lembrava se o que ele me disse há dias era para esta semana ou já tinha acontecido na semana passada. Simplesmente não me lembrava se já tinha acontecido ou não! E lá fora os bêbados e o barulho pareciam achas para a fogueira dentro da minha cabeça e eu prestes a rebentar. E, das duas uma: ou ia à janela mandá-los calar ou ligava para a GNR que já os conhece tão bem e já os proibiu de estarem ali a beber e a fazer barulho

Respirei fundo. Tentei abstrair-me do ruído lá de fora. Fui para a sala. Pedi à minha mãe para tirar a telenovela que ela pode sempre ver amanhã novamente. E ao mesmo tempo que cada vez me sentia mais incomodada com o ruído, dei por mim não a sentir-me enjoada mas sim com uma vontade enorme de vomitar… E dei por mim também a não me reconhecer por momentos. Muito confusa. Muito baralhada. Muito intolerante. Muito tão não eu

Acedi a tomar medicação para fazer baixar todos estes níveis de coisas impossíveis de suportar. Jantei com calma, levei o tempo que precisei para comer. Fui começando a relaxar. Mas a cabeça sempre confusa e baralhada

Depois do jantar é sempre o meu momento para beber o meu descafeinado novamente no cadeirão. E percebi que já não havia barulho na rua…

Perdi-me algures no tempo que já estou aqui. Só sei que queria ir dormir cedo. Precisava de ir dormir cedo. Amanhã é dia de vacinação gripe+COVID e tenho que estar cedo no Centro de Saúde. Tenho que acordar cedo para tomar banho com calma. Tomar o pequeno almoço com calma. Sair de casa a horas do autocarro. Mas tem que ser tudo com calma. Já não consigo fazer as coisas de outra forma. Já sei que quando é tudo a correr, acaba por correr mal…

Entretanto, já a noite passou a madrugada. O efeito do comprimido começa a apertar. E eu ainda estou no cadeirão…mas não posso! Por isso, acho que o dia termina aqui. Mais calma, mais ou menos tolerante, não sei se ainda confusa e baralhada, mas sem pressa de nadaE nada disto é bom.

{#351.016.2024}

Cinco horas na rua. Atravessar o parque. Ir ver o Mar mesmo depois do Sol se pôr. Respirar aquele ar perfumados pela maresia.

6.958 passos que se traduzem em 4,66km.

Mas uma manhã plena. À distância de um clique, ele. E eu. Nós.

E adormecer com um sorriso no rosto só porque sim.

{#350.017.2024}

Perderam-se por aí, nos últimos 19 dias, 1450 gramas. Pede-se a quem os encontrar o favor de NÃO mos devolver. Não me fazem falta e muito menos me dão jeito. Não sei onde é que os larguei, deixei-os algures por aí, mas não me apetece nada reencontrá-los. E a nutricionista, assim como eu!, bateu palminhas de contente!

Eu sei que um dos efeitos secundários da infusão que fiz no final de Setembro e repeti no início de Outubro, Ocrevus, é ganhar peso. E a verdade é que sim!, ganhei um bocadinho. Mais do que gostaria mesmo sendo menos do que esperava. Agora é voltar à trajectória certa, que até há uns meses estava no caminho certo e depois inverteu mesmo antes da medicação sabe-se lá pela alma de quem!

Mas ir à balança hoje valeu a pena. A desgraçada da balança que até costuma dar-me mais 1 cm de altura, hoje roubou-me esse centímetro extra e ainda levou mais um de bónus. Mas aí é caso para dizer “está bom, não mexe mais!” Já o peso…ela costuma rir-se de mim, faz piadas do género “toma lá mais 1 cm oferta da casa e, como extra, ainda levas uns kilos a mais!” E ri-se, a desgraçada! Mas hoje fui eu quem ficou a rir! Menos 1450 gramas é o mesmo que dizer menos 1 quilo e 450 gramas. Ou seja, quase 1 kilo e meio! Em 19 dias. Sem dietas parvas. Sem esforço em demasia. Sem nada. É só o meu corpo a adaptar-se à medicação e saber o que e quando comer.

Claro que ficámos contentes, a nutricionista e eu. E ainda a informei que sou adepta do jejum intermitente. Pratico-o todos os dias! E, tem dias, chego a fazer jejum de 12 horas (ou mais…). O meu jejum intermitente vai desde o momento em que vou para a cama até quando acordo e tomo o pequeno almoço! Pumba! Vai buscar!

Percebi pelo ar dela quando lhe falei do jejum intermitente que não é lá grande fã, mas quando lhe expliquei o meu, riu-se e disse que assim podia ser! Portanto, vou continuar a fazer o MEU jejum intermitente. E se continuar a perder gramas por aí, por favor não mos devolvam!

Desde já agradeço a não devolução dos 1450 gramas perdidos algures por aí. Agora vou só ali comer um quadradinho de chocolate preto. A nutricionista deixa! Eu é que nestes 19 dias perdi 1450 gramas mas não deixei o chocolate!

{#349.018.2024}

A esplanada como eu gosto dela: vazia e sossegada. Coisa que só é possível, claro, no Inverno. São 18h41m. No Verão, a esta hora, seria o caos e um barulho infernal. Mas no Inverno, e a pouco tempo de fechar por hoje, é dos meus sítios preferidos para simplesmente estar.

Trago sempre um caderno e uma esferográfica comigo. E já aqui passei algum tempo a escrever. Mas isso ainda foi no tempo em que conseguia vir sozinha. E hoje a vontade era ter passado aqui a tarde a escrever, mas não vim sozinha, claro. E não vir sozinha significa distracções, interrupções e quebras na escrita.

Tenho uma carta (muito) especial para escrever. Pediram-me para escrever uma carta de amor. E, tenho a certeza, será uma carta ridícula. Porque diz Fernando Pessoa, no heterónimo Álvaro de Campos e com razão, “Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas.

De pedido passou a projecto. Mas, se não me engano, esse desafio de projecto já fez, ou está a fazer!, um ano. E a carta ainda não foi escrita. Pelo menos não em papel, porque na minha cabeça não pára de crescer. Mas ainda não inventaram nada para passar as ideias directamente da cabeça para o papel!


Mas não, o desafio não foi esquecido. É, até, impossível de esquecer quando todos os dias escrevemos a dois novas páginas nesta carta de amor ainda não materializada.

Um dia destes encho-me de coragem para vir até aqui sozinha. Só eu e a minha bengala para percorrer o caminho de casa até aqui. E, como sempre, trarei o caderno e a esferográfica. E começo a materializar o que vai na minha cabeça para preencher este desafio que me foi proposto por ele para lhe escrever uma carta de amor. Que, já sabemos, será ridícula. Ou não fosse uma carta de amor.

{#348.019.2024}

Sábado de manhã, jantar se sabe, é dia de Yoga. E hoje, por termos almoço de Natal do grupo, a aula começou mais tarde 30 minutos e entretanto perdi a conta ao tempo de duração, só sei que foi mais longa do que o habitual para terminar mais perto da hora do nosso almoço.

A aula foi daquelas intensas. E, para mim, desafiante. Porque houve muitas asanas onde o equilíbrio era o ponto principal. Bem, o equilíbrio está sempre presente, é verdade, mas há posturas que eu simplesmente não tenho conseguido alcançar. Mas hoje…hoje saí da aula muito contente e muito orgulhosa de mim própria por ter conseguido alcançar todas as posturas que se têm revelado mais exigentes para mim. E sempre que o professor Pedro demonstrava uma nova variação de algum asana já conhecido mas que, desta vez, exigia mais equilíbrio, eu torcia o nariz primeiro, para depois tentar e terminar com um sorriso por conseguir!

É verdade que o ter conseguido hoje não significa necessariamente que o vá conseguir novamente já na próxima aula. Mas significa que, se eu não insistir em tentar, a probabilidade de falhar sempre é muito maior. Por isso é que em cada aula, quando não consigo à primeira, tento novamente as vezes que forem precisas.

Desde o primeiro dia, da primeira aula!, que digo “hoje posso não conseguir, mas vou continuar a tentar até chegar lá”. E os resultados são visíveis nas aulas. E sei que, de alguma forma, também me ajudam no Mundo cá fora.

E o que me também me ajuda, de uma forma tão diferente, é aquele grupo. Não somos demasiadas alunas, é verdade. Hoje, ao almoço, a contar com o professor Pedro éramos 7 pessoas. Para mim, o número certo, o número mágico. Mas é neste grupo, que tem o tamanho certo, que me sinto acolhida independentemente das minhas limitações e dificuldades que ainda não eram tão reais, tão físicas, tão perceptíveis até para mim!, quando lá cheguei em Maio de 2023.

Ali sinto-me bem. Sinto que pertenço a alguma coisa. Ou que, simplesmente, pertenço! Faço parte! Ali estou bem. E não!, desistir do Yoga e deste grupo não está nas minhas opções!

Sei que o professor Pedro está à procura de outro local, com melhores condições apesar da sala onde estamos ser uma sala muito boa, por ser grande e ter muita luz natural por toda ela estar rodeada de janelas. E sei que já tem visto alguns espaços, mas ainda não encontrou o sítio certo dentro da vila. Tem em vista outro espaço mais longe, já fora da vila, que ainda não visitou para conhecer ao vivo as condições. Mas já me disse que para mim é capaz de ficar longe… Não quero saber! Havendo autocarro até lá, é lá que vou continuar! Sei que existem outros espaços por aqui dedicados ao Yoga. Mas não é a mesma coisa…não é o mesmo professor e não é o mesmo grupo! E é com eles todos que faço questão de continuar. Ganharam, todos eles, um lugar especial cá dentro. Por causa do papel que têm tido nos meus dias desde que começou esta minha nova realidade. E agora não estou a falar de Yoga.

O almoço foi o que já se esperava: muito divertido. Só tive pena de não ir até ao paredão ver o Mar, que estava já ali, era só atravessar a estrada. Mas a minha boleia estava com alguma pressa, por isso nem fiz questão de dizer nada, claro. Mas o dia estava bonito, não estava vento, não estava tanto frio como ontem. Ao mesmo tempo, eu estava, como sempre, muito cansada. Adormecer tarde e acordar cedo não me faz bem nenhum nem me ajuda em nada. Por isso, claro que vim para casa. E, depois de mudar de roupa e fumar um cigarro, só tive tempo de aquecer as almofadas térmicas, agarrar na manta e enroscar no sofá.

Passava pouco das 16h quando me enrosquei. Ainda tentei trocar algumas palavras com ele, mas apaguei de imediato. Para acordar às 9h da noite, convencida que eram 9h da manhã e que, de alguma forma, tinha passado por cima do Domingo sem dar por ele e as 9h eram já da manhã de segunda feira.

Foi estranho acordar assim tão confusa…e sem me lembrar que, até à meia noite, ele estava de serviço e à distância de um clique! E só eu sei o quanto me soube bem poder estar com ele até àquela hora. Ter um bocadinho de nós.

Agora, a esta hora tardia em que a noite já passou a madrugada, é hora de ir enroscar e aninhar na nossa conchinha de bichinho de conta que só nós entendemos. Mas que, à nossa maneira, é tão real. Tão física ao ponto de o sentir ao meu lado todas as noites.

Mas descansar é preciso! Posso ter dormido um número absurdo de horas esta tarde, mas tenho muito sono. E amanhã não tenho horário para acordar. Por isso, vou ali enroscar e aninhar naquele abraço quentinho e protector dele e, amanhã, quando acordar…acordei!

{#347.020.2024}

Não, hoje não me apetece escrever. Não sobre nada em concreto. Mas, ao mesmo tempo tenho tantos assuntos, tantas questões, tantas dúvidas a darem-me vários e complexos nós no cérebro que nem saberia por onde começar. Além de que, já sei, iria precisar de muito tempo para falar sobre cada um dos pontos que me estão a dar complexos nós no cérebro, tempo que esta noite, que mais uma vez roça a madrugada, não tenho disponível. Amanhã há Yoga cedo. E eu preciso de descansar e dormir.

Quem sabe se amanhã não páro para tentar desatar cada um dos nós…

Mas, antes disso, vou aproveitar bem a aula de Yoga e o almoço do grupo logo a seguir. É um grupo onde me sinto bem, onde sinto que faço parte e é tão raro sentir isso que o melhor mesmo é saborear. Com um bocadinho de sorte, e se não chover!, ainda vamos ver o Mar logo ali do outro lado da estrada.

Não interessa. Vou estar com boa gente, num bom ambiente. E isso está a fazer-me tanta falta!

{#346.021.2024}

Dia de acordar cedo à espera de uma Teleconsulta que, quando aconteceu, nem foi comigo que falaram, foi com a minha mãe. Mas como era só mesmo para dizer que as análises só acusavam uma muito ligeira alteração da função hepática e que já há data para as análises de Janeiro, está tudo bem. Lembro-me que na última consulta já existia uma coisa muito ligeira, que por sua vez já estava melhor do que nas análises anteriores, por isso quero acreditar que estas ultimas estejam melhores que as anteriores. E, quando chegar Fevereiro e terminar o tratamento, vou querer saber o que fazer se a alteração se mantiver, por muito ligeira que seja.

De resto, o ponto alto do dia chegou depois da consulta. Novas tatuagens na memória. Cada vez mais ousadas. Cada vez mais tresloucadas. Cadastro vez mais…mais!

Foi escusado, à tarde, aninhar e enroscar no sofá…quando finalmente consegui aconchegar um bocadinho, o despertador tocou. Estava na hora de me preparar para o Yoga. E hoje não foi fácil participar na aula. O joelho esquerdo, do qual ando há meses a queixar-me e a sentir a evolução negativa das queixas, hoje está particularmente mal. Muitas dores, seja a dobrar ou a esticar a perna. E muitas posturas, por muito básicas que sejam, não foram alcançadas… É urgente marcar uma ecografia aos ligamentos, perceber o que se passa, iniciar tratamento e recuperação. Porque como está e a piorar rapidamente não pode ser…

E dou por mim a escrever coisas sem interesse. Nem para mim. Mas, acredito, hoje deve-se não sono. Nos outros dias? Não sei. Ou até sei, só não quero falar sobre isso…

Dar o dia por terminado enquanto ainda não é muito tarde. Enroscar e aninhar. Sozinha? Acompanhada à nossa maneira? Não sei. Também não quero pensar nisso agora. Já sei que, com muito sono como tenho agora, não vou pensar em nada de muito bom. Por isso, o melhor é mesmo ir descansar. O corpo e a mente. Amanhã? Logo se vê. Ainda cima sendo sexta feira 13…

{#345.022.2024}

Mais uma ida ao Hospital para picar o ponto. Ou, neste caso, picar o braço para mais uma colheita de sangue para análises. Controlar os níveis da função hepática por causa da medicação preventiva da tuberculose latente. Aquele antibiótico de toma diária em jejum que iniciei a 23 de Maio e que só vou deixar em Fevereiro… E a minha esperança é de que realmente elimine o bacilo que carrego comigo em estado latente sabe-se lá desde quando e que, agora oficialmente imunodeprimida por causa da medicação semestral para isto que me apanhou na curva, é bom que não acorde. Passar de tuberculose latente para activa com o sistema imunitário seriamente comprometido seria um grande e grave problema. Por isso, torço muito para que o antibiótico esteja a fazer o seu trabalho certinho. E, de preferência, sem (grandes) danos na função hepática… Mas amanhã é dia de Teleconsulta com a Infecciologista e vamos ver o que ela tem para me dizer. E espero não me esquecer das coisas que tenho para perguntar… Logo se vê.

A coisa mais positiva nesta ida ao Hospital foi perceber que, se não se lembrarem de mais nada e não havendo motivo para uma ida às urgências, já só lá volto em Janeiro! E perceber isso fez-me sentir que há uma espécie de normalidade a voltar. Mas não me esqueço daquela altura em que todas as semanas tinha que ir ao Hospital para consultas, análises, exames. E, pelo meio, a fisioterapia diária também no Hospital.

Na verdade nunca pensei vir a ser uma utente tão frequente do Hospital Garcia de Orta. Ou de outro qualquer, já agora…

E, mais uma vez, a noite começa a roçar a madrugada e amanhã é preciso acordar cedo. A consulta é feita por telefone, é verdade, mas não há uma hora marcada para que aconteça. Entre as 9h e as 17h, pode ser a qualquer momento. Por isso, está mais do que na hora de enroscar e aninhar para aquecer e descansar de um dia longo que, para além de Hospital, ainda meteu mais uma ida ao Almada Fórum. Mais uma prova de fogo para a resistência do meu equilíbrio, da minha marcha e, especialmente, das minhas pernas.

Chega por hoje. Vou enroscar. Nele, claro. À nossa maneira que só nós entendemos. E que só nós temos que entender. E as saudades que eu tenho dele…acho que nem ele tem a real noção. Mas, também aqui, logo se vê. O importante agora é ir descansar e dormir já. Amanhã também é dia. E o resto? É só mesmo isso: o resto.

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Era uma vez uma miúda que era cheia de sorte e não sabia. Um dia recebeu uma mensagem a dizer para ficar atenta ao correio porque o Pai Natal ia chegar mais cedo. Passados uns dias, o Pai Natal que vinha do outro lado do Mundo, chegou. E trouxe-lhe um presente que era exactamente a cara dela e ela ficou muito feliz.

Os dias foram passando e começou a azáfama das compras de Natal. A miúda cheia de sorte foi até ao Centro Comercial acompanhada da sua melhor amiga: a Mãe. Viu uma ou outra coisa que gostou e a Mãe disse-lhe: “Gostas? Então levamos.”.

Os dias, sempre iguais, continuaram a passar e, de vez em quando, o carteiro lá trazia mais um postal ou mais uma surpresa e até uma encomenda feita por ela mesma de algo que estava prometido desde o Verão. E ela, a miúda cheia de sorte, sorria.

As compras ainda não tinham terminado, era preciso comprar mais uns quantos presentes. Ela e a Mãe viraram-se para a Internet e encomendaram várias coisas, especialmente para os sobrinhos. Até que ela ganhou coragem e mostrou à Mãe a loja online que tinha debaixo de olho há vários dias com aquelas botas que não só lhe tinham enchido as medidas mas que, ao mesmo tempo, estava a precisar. E a Mãe disse-lhe, simplesmente: “Manda vir.”. E ela tratou de fazer a encomenda e o pagamento e começou a contar os dias para a entrega.

No fim de semana, em que nada de extraordinário se passou, a miúda de sorte falou com a Mãe e disse “esta Editora daqueles dois livros que eu quero há tanto tempo está com promoções”. E, mais uma vez, a Mãe anuiu e disse-lhe “Podes aproveitar a promoção de paga 2 e leva 3” e ela assim fez.

Segunda feira, dia marcado para a entrega das botas que estavam debaixo de olho, ao acordar leu a mensagem que tinha no telemóvel: “esta semana fica atenta a entregas”. E ela, que não estava nada à espera de nada, ficou sem saber muito bem o que dizer. Agradeceu, claro. E repetiu tantas vezes para si mesma: “eu já fico feliz com um simples postal na caixa de correio”.

Recebeu, a seguir ao almoço, a caixa enorme onde, já sabia, vinham as botas novas da miúda de sorte. Mas não quis abrir logo. Sentiu aquela ansiedade boa da antecipação de quem está a receber um presente e quis saborear essa ansiedade boa por mais um tempo.

Também logo a seguir ao almoço, a confirmação da Editora: os livros serão entregues terça feira. De facto, para uma compra feita a um Domingo às 23h55m, ter a confirmação na segunda feira à hora de almoço de que os livros iriam chegar na terça feira de manhã foi como receber uma dose grande de ânimo.

A caixa das notas continuava por abrir à meia noite. Não podia ser. Era preciso abrir, experimentar e ter a certeza de que o tamanho estava correto. A miúda cheia de sorte levantou-se do cadeirão, foi até à sala, pegou na caixa enorme e linda, ainda por cima cor de rosa!, sentou-se no sofá com a Mãe, respirou fundo e disse: “está na hora! Vamos a isso!”.

Abriu a caixa com todo o cuidado e respeito que um presente merece. Ergeu a tampa e foi surpreendida pela mensagem impressa na caixa em letras grandes: “Enjoy every moment.”. “Aproveita todos os momentos”, numa tradução livre e espontânea. A miúda cheia de sorte soltou um sorriso ainda maior e, depois de ler em voz alta o que a caixa lhe dizia, disse para si mesma: “é o que estou a fazer!”.

Dentro da caixa enorme estava outra caixa com a marca que acompanha os passos da miúda cheia de sorte desde 2016 e da qual ela não abre mão. Palladium é sinónimo de conforto, confiança e qualidade. Por baixo dessa caixa um saco transparente com o outro artigo que tinha escolhido: uma mochila para o material do Yoga. Seria de pensar que a primeira coisa a ser aberta fosse a caixa, mas as botas teriam que esperar só mais um bocadinho.

Tirou a mochila de debaixo da caixa e de dentro do saco e o sorriso continuava a brilhar. A mochila, de uma marca que a miúda de sorte conhece há muitos anos mas que nunca teve nada seu, era exactamente o que ela estava a precisar. O tamanho certo, o material certo, a qualidade reconhecida há muito tempo. Agora sim, tem uma mochila em condições para levar os blocos de Yoga para as aulas, faça chuva ou faça Sol.

Chegou a altura de abrir a caixa restante. A caixa das botas. Botas cuja referência já a tinha feito rir quando as viu no site e que voltou a fazer quando leu a etiqueta colada na caixa: Re-Vegan Leather. A miúda cheia de sorte nem sequer é vegetariana, mas agora ia ter umas botas de “pele vegana reciclada”. E só a referência era suficiente para a fazer rir. Mas a explicação é mais simples e acaba por perder um bocadinho a piada: pele sintética reciclada. Com palmilhas em cortiça e plástico reciclado. 100% livre de utilização de qualquer coisa de origem animal. Mas dizer que se tem umas botas veganas é muito mais engraçado por remeter de imediato para algumas pessoas que a miúda cheia de sorte conhece.

Abriu a caixa com todo o cuidado enquanto respirava fundo e de forma consciente como aprendeu no Yoga e que transporta para o dia a dia sempre que sente necessidade. E naquele momento, quase solene, a miúda cheia de sorte e cheia de ansiedade da boa pela antecipação sentiu a necessidade de parar para respirar como deve ser. E, ao abrir a caixa e tirar o papel que cobria as botas, o sorriso tornou-se gigante e os olhos brilharam como há muito tempo não brilhavam. As botas. Lindas. Perfeitas. Cor de rosa muito clarinho! E que agora eram dela!

Calçou as botas para experimentar se estava tudo bem com o tamanho, se o fecho lateral era sentido e magoava. Tudo perfeito como só a Palladium sabe fazer. Como só a Palladium sabe ser! E, como sempre faz quando compra um novo par de Palladium desde 2016, repetiu para si mesma: “and Cinderella found her shoes…”

Já era tarde, muito tarde. Demasiado tarde, como agora, quando a miúda cheia de sorte arrumou as botas lindas e perfeitas ao lado da cama quando a vontade era mesmo de dormir com elas nos pés, tal não é o conforto!

Adormeceu rápido com um sorriso no rosto, sentiu-se completamente aconchegada pelo dia que teve e dormiu a correr para hoje acordar cedo. Mas, ainda na segunda feira à noite, quem lhe disse para estar atenta a entregas esta semana confirmou que a entrega seria feita hoje por transportadora. E que era um mimo, com sentimento e cuja única intenção era fazê-la sorrir. E só essa frase fez a miúda cheia de sorte sorrir ainda mais. Até ler que não está sozinha, mesmo que a presença física seja difícil. “Não estás sozinha”…e aí, especialmente aí!, a miúda cheia de sorte confirmou que, de facto, é mesmo uma miúda cheia de muita sorte e não está sozinha. Agradeceu mil milhões de vezes. E só não chorou verdadeiramente emocionada porque, a miúda cheia de sorte, continua a não conseguir chorar.

E chegou a terça feira. Que na teoria ainda é hoje mas que, pelo avançado da hora em que a noite já passou a madrugada, na prática já foi ontem. Que foi aquele dia de contrariar o horário de despertar tardio dos últimos dias e esperar uma entrega em casa e um levantamento na papelaria.

A mensagem a confirmar a chegada da encomenda à papelaria chegou ainda a meio da manhã. E a entrega do mimo cuja intenção é fazer-me sorrir e já fez muito mais do que isso foi feita à hora de almoço.

E a miúda cheia de sorte que já fica contente quando recebe um postal e que tem um blog que é uma (autêntica) Caixa de Chocolates, abriu a caixa da entrega e não só sorriu como riu! Porque, lá dentro, um chocolate artesanal agarrado a um postal! Um verdadeiro dois em um que foi um autêntico Jackpot. A miúda cheia de sorte sentiu-se tão bem, tão acompanhada, tão cheia de sorte…especialmente por ter a confirmação de que, de facto, não está sozinha!

O chocolate está reservado para um momento especial, que já sei, disse-me ele, todos os momentos são sempre especiais. Seja como for, fica guardado. Quando for a hora certa será degustado lentamente e saboreado como se saboreia uma verdadeira amizade.

Final da tarde. E, lá fora, todo o dia pela minha janela aquela luz fabulosa que tem estado todos os dias e que me tem feito tanta falta. Vejo-a lá fora pela minha janela e sei que, por causa do frio que está, dificilmente essa luz trará qualquer calor. Mas não é o calor que eu procuro. É, unicamente, a luz. A sua intensidade. A sua força. No fundo, a beleza dessa luz que, todos os dias vejo da minha janela. E que, por algum motivo, quando finalmente chego à rua o Sol já começou a esconder-se para lá do Mar e em poucos minutos vem o breu da noite. E hoje não foi excepção, claro. Mas ainda assim ainda tive motivos extra para continuar a sorrir.

Demorei o tempo que precisei de demorar até chegar à papelaria onde a minha encomenda de livros esperava por mim. Entrei, disse que vinha levantar uma encomenda. Dei o meu nome e preparei-me o para receber o vulgar e expectável envelope almofadado com os livros e um saco de pano lá dentro. Mas não. Porque a miúda cheia de sorte é isso mesmo: uma miúda cheia de sorte. Em vez de um vulgar e expectável envelope almofadado, os meus livros, que são 3, e o saco de pano oferta da editora vinham cuidadosamente embrulhados, à antiga, numa folha de papel craft rematado por um fio de lã também à antiga.

Custou-me a acreditar que, apesar da encomenda tão tardia e expedida em tão pouco tempo, houve tempo, cuidado e carinho para os meus livros serem tratados como merecem: com alma.

Ainda não abri o pacote que esconde os meus livros. Acho que, de alguma forma, tenho receio de chegar à noite de Natal e não ter embrulhos para abrir. Mas, se há alguma coisa que os últimos dias me têm ensinado, é que de facto não estou sozinha e mereço todo este carinho. Tudo porque sou uma miúda cheia de sorte. E estou feliz por sabê-lo sentindo-o.

O sorriso dificilmente me irá sair do rosto nos próximos tempos. E aquele conforto de saber que não estou sozinha não tem explicação de tão bom que é.

Mas a noite já se fez madrugada. Amanhã é dia de análises mensais no Hospital à hora de almoço. Por isso, é preciso agora descansar e dormir para amanhã poder abraçar aquela luz fantástica que tenho visto todos os dias. E, se alguém duvidar, o meu sorriso estará sempre presente para confirmar que eu sou uma miúda cheia de sorte!

{#343.024.2024}

Segunda feira e, novamente, acordar tarde. Muito tarde. Demasiado tarde. Tudo porque ontem nem eu nem a minha mãe tínhamos sono. E estivemos as duas entretidas e bem dispostas a ser o que somos sempre: mãe e filha, as melhores amigas uma da outra. Na conversa. A mexer em papéis. A comprar livros online. A dizer disparates de vez em quando porque também fazem parte dos nossos momentos a duas.

Acordar com uma mensagem no Messenger: “vai uma entrega a caminho“. Oi? Como assim? Fiquei sem saber o que responder. Mas, admito, fez-me muito bem receber essa mensagem inesperada. Não por saber que vem (mais) alguma coisa a caminho, mas pelo tamanho do gesto. De carinho. Disponibilidade. Atenção. Tudo isso tem um tamanho que não se consegue medir. E menos se consegue medir quando, à noite, ela me diz que é um mimo, com sentimento e cuja única intenção é fazer-me sorrir. E a verdade é que, só pela mensagem inesperada, já me fez sorrir o dia todo. Senti-me aconchegada. Acolhida. Aceite. Especialmente quando ela me disse que não estou sozinha. Que a ausência física custa, mas não estou sozinha. E eu, claro, grata por todo este carinho e sem saber mesmo o que dizer, o que responder. Quando a minha vontade era agradecer com um simples mas sincero abraço

Depois do almoço, chegou a encomenda que eu esperava. Aquela que ficou aceite como sendo a prenda de Natal da minha mãe para mim. Uma caixa grande e bonita. Cor de rosa, obviamente! A encomenda que foi entregue às 15h35m e que, durante horas a fio, ali ficou na sala, em cima do banco, à espera que eu a abrisse. Eu sabia exactamente o que estava dentro da caixa. Fui eu que escolhi. Que efectuei a encomenda. Que tratei do pagamento. Não seria nenhuma surpresa dentro da caixa. Mas, ainda assim, fui adiando a abertura. Porque, mais uma vez, aquele friozinho na barriga da antecipação instalou-se em mim. E quis saborear esse friozinho. Essa ligeira ansiedade boa. Porque é tão raro receber presentes, quis sentir essa coisa tão boa que é receber um presente.

A caixa manteve-se fechada até depois da meia noite. E, lá dentro, tudo aquilo que eu esperava. E, ao abrir, a minha mãe dizer-me que, afinal aquela prenda é de mim para mim e não dela para mim. Fiquei algo confusa, claro. Mas feliz na mesma. Independentemente de quem é a prenda, são dois artigos que eu efectivamente preciso. E são tudo o que esperava, mas ainda melhores.

Conforto e qualidade. E lindos. E, com isto tudo, esta noite vou dormir muito aconchegada por estas pequenas coisas que preencheram o meu dia.

A presença dele também me aconchegou depois do silêncio de ontem. E sabê-lo à distância de um clique sabe-me sempre tão bem. Faz-me sempre tão bem. Mesmo que, por vezes, a minha insegurança e o meu medo tentem tomar conta de mim. Mas, sabendo-o à distância de um clique disponível para conversar sobre o que se passa comigo, ou até mesmo com ele, tenho a certeza de que a minha insegurança e o meu medo não ficam presentes por muito tempo. Porque ele, só de estar à distância de um clique, só de ter disponibilidade e vontade para conversar, me tranquiliza e me fortalece. E é também por isso que gosto tanto dele.

Claro que, entretanto, a noite já entrou na madrugada. Mais uma vez. E não pode continuar assim. Mas, amanhã, vou obrigar-me a acordar cedo de qualquer forma. Para, à noite, conseguir obrigar-me a deitar-me cedo.

Por hoje já chega. Ainda estou numa espécie de estado de graça por todas as coisas que parecem pequenas e que, na realidade, são enormes. E que me sabem tão bem. E que me fazem tão bem. Mas está mais do que na hora de dar o dia por terminado. Amanhã? Pedi-lhe uma espécie de “serviço de despertar” para as 9h. Mas duvido que vá acontecer, sei que não gosta de falar ao telefone, embora já tenhamos falado algumas vezes. E, para quem não gosta muito de falar ao telefone, já aconteceu mais do que uma vez falarmos mais de uma hora! E agora, ao lembrar-me disso, dou por mim a rir sozinha. Porque ele diz sempre que não diz nada de jeito, mas depois a conversa simplesmente fui.

Mas por agora chega. A corujinha tem que ir descansar, dormir até o despertador tocar às 9h. E, se o telefone também tocar às 9h, pode ser que um certo polvinho tenha aceite o desafio. Logo se vê. O mais importante neste momento é sair do frio, aquecer as almofadas, vestir o pijama e enfiar-me na cama. Onde, todas as noites, enrosco nele na nossa conchinha de bichinho de conta que só nós entendemos.

Hoje foi um dia bom. Amanhã também será.

{#342.025.2024}

[pouco depois das 17h…]:

Está uma luz linda lá fora. Tenho acompanhado esta luz, hoje tão bonita, o dia todo pela minha janela. A vontade de ir à rua sentir esta luz, sentir o calor desta luz num dia que, ainda sendo Outono, está frio como um Domingo de Inverno, é uma vontade enorme de quem pouco sai de casa. Mas o efeito sonoro da força do vento nas minhas janelas traduz-se facilmente num sinal de aviso: o risco de queda com o forte vento que está lá fora é grande. E real.

Facilmente poderia preparar-me para enfrentar o frio. Roupa quente, o poderoso casacão de Inverno, seria o suficiente para enfrentar o frio. E apetecia-me muito ir até à esplanada de Domingo para beber um café e apanhar um bocadinho de ar e espairecer um pouco para organizar as ideias confusas que se atropelam na minha cabeça. Aproveitar esta luz bonita que está quase a dar lugar à noite. Tudo isto seria fácil de alcançar.

Mas o vento, que se traduz em aviso de risco grande e real de queda, diz-me que estou mais segura em casa. Porque, para uma queda por falta de equilíbrio acentuado pela força do vento, não tenho como me preparar. Porque o risco é, de facto, grande e real. E os resultados de uma queda podem trazer consequências grandes para as quais não estou preparada nem sequer mentalizada. E, sinceramente, uma queda no meio da rua, ou seja lá onde for, já agora!, é coisa que não me apetece nem um bocadinho.

A esta hora a luz lá fora já mudou. O Sol já se despediu por hoje. E eu já recolhi ao sofá, aqueci as almofadas térmicas e já tenho, em cima de mim, a manta quentinha. Só me falta a gata para me sentir completamente aconchegada, mas não faço ideia onde é que ela anda e, mesmo que a chame, ela não me liga nenhuma.

Amanhã logo se vê como estará a luz lá fora. E, se o vento continuar como está, não arrisco sequer um café na esplanada do costume que fica já ali.

Enfim…nunca pensei que, um dia, até o vento me iria condicionar as saídas de casa por risco grande e real de queda

[às 2h25m da manhã…]

Imediatamente após ter escrito o texto acima, já quente pela manta e pelas almofadas térmicas, enroscada no sofá, adormeci… Das coisas que mais me chateiam neste meu novo normal é esta facilidade, ou será necessidade?, que tenho para adormecer à tarde, mesmo quando dormi até muito tarde e acordei a horas que não registo em lado nenhum.

Acordar muito tarde também está directamente ligado ao facto de, todas as noites, ir dormir tarde. Muito tarde. Demasiado tarde! Ontem, por exemplo, já passava das 3h da manhã. Mas ontem…ontem foi noite de expôr fragilidades, principalmente a insegurança de sempre. Foi noite de me questionar. E, ao mesmo tempo, não conseguir sequer imaginar o outro cenário possível. Sim, o meu papel não é o mais desejável, para ninguém e decididamente não para mim. Que sempre disse que nunca iria querer desempenhar. Mas do qual, neste momento, não consigo sequer pensar em abrir mão. Nem quero. Porque há muito mais do que esse papel no meio disto. Que eu não me atrevo a chamar de “coisa” porque é muito mais do que simplesmente isso. Chamo de contexto. Apelidado por ele de peculiar. Porque é, de facto, um contexto peculiar.

Sei exactamente o que fez despertar em mim esse questionamento, essa insegurança, no fundo a fragilidade originada por nada mais do que medo. O medo da perda. O medo da perda do melhor que me aconteceu, que me acontece todos os dias. Que, em 18 meses, fez de mim alguém mais forte para lidar com as adversidades, especialmente aquelas, e têm sido tantas!, provocadas por aquilo que me apanhou na curva. Porque se há alguém, para além da minha mãe, que me tem acompanhado todos os dias, incluindo os dias menos bons ou até mesmo maus, tem sido ele. E todo este medo, toda esta insegurança, tudo aquilo que me vergou ontem à noite foi precisamente por causa dele, por causa de nós.

Mas, até naquele meu momento de maior fragilidade, insegurança e medo de ontem à noite, ele esteve presente. À distância de um clique, mas presente. E não sei se ele percebeu mas, enquanto conversámos sobre o que me estava a fragilizar, enquanto conversámos sobre nós, eu senti-me aconchegada no seu abraço, tal e qual como se ele estivesse aqui comigo fisicamente…

Há mais de 2 anos que digo que preciso de chorar e simplesmente não o consigo fazer. Mas ontem chorei. Foi um chorar estranho, mas chorei. Sem lágrimas quase nenhumas a caírem pelo meu rosto, mas chorei. Ainda me lembro de como ficava quando conseguia chorar: a respiração difícil, as expressões do meu rosto, o aperto no peito, o querer falar e ser difícil fazê-lo sem denunciar o choro. E tudo isso aconteceu ontem à noite. Mas sem lágrimas a caírem pelo meu rosto…

Foi estranho. Foi difícil. Foi doloroso. Quase aflitivo. Mas apesar da ausência de lágrimas, chorei. E, do outro lado, à distância de um clique, não tive ninguém a fugir do assunto, a fazer de conta que não se passava nada. Não. Do outro lado, à distância de um clique, estava ele. Que me acolheu tal como estava, que questionou, que ouviu, que, no fundo, conversou sobre o que se estava a passar. E, mais uma vez, ele confirmou aquilo que eu já sabia: com ele já sei que não só posso como devo conversar. E foi a conversar que ele me confirmou: isto que existe entre nós já não se trata só de eu e ele, mas sim de NÓS.

Talvez ele não saiba, ou não tenha noção, da importância que tem para mim ser ele a dizer que se trata de NÓS. Reforça ainda mais a certeza que eu tenho de que somos duas metades de uma peça única. Que pertencemos um ao outro, somos a metade que falta a cada um e que não sabíamos que faltava.

Não é um assunto de eu e ele. Esse universo já não existe. É um assunto de nós. Nosso. Em que dois fazem um só. É o NÓS!

…mas não posso negar que o silêncio dele hoje o dia todo me assusta…mas não quero, às 3h30m da manhã, sozinha, ter medo e muito menos deixar que esse medo tome conta de mim. Amanhã. Amanhã ele vai voltar a estar à distância de um clique. Como está todos os dias. Não pode não estar…

Amanhã. Agora tenho que tratar de mim. Não só por mim, não por causa dele. Mas por nós. Para nós. É hora de dar o dia por terminado. Que, apesar de tudo, foi longo. E, já à noite, foi estranho. Não me perguntem porquê, não tenho uma resposta para dar. Estou cansada. De nada, como sempre, mas estou cansada. E a precisar de voltar ao horário normal de ir dormir. Já não digo ir dormir cedo, mas pelo menos ir dormir antes da chegada da madrugada. Insisto em ir pela noite dentro e esqueço-me que as horas de sono são essenciais ao meu novo normal. E isso começa pela hora de ir dormir. Por isso, por hoje já chega. Não quero que as ideias confusas na minha cabeça despertem e me mantenham acordada por muito mais tempo. Amanhã? Logo se vê como será…

{#341.026.2024}

…e quando dar um passo atrás é ter a coragem e a certeza de ser o mais importante passo em frente…?

as tatuagens na memória permanecem marcadas em nós, por um tempo indeterminado, enquanto a nossa função cognitiva o permitir…

as tatuagens na pele ficam para sempre e, além disso, são tangíveis. E, cada vez mais, eu sou de tocar. De sentir a presença física. Logo ali, na pele.

Cada uma das minhas tatuagens na pele têm um significado, uma história. Que é, também, a minha história. Só minha, independentemente do número de personagens com voz activa nessa história.

As tatuagens na memória são momentos. Únicos. Especiais. Irrepetíveis, tantos deles. Todos eles. Com significado, claro que sim, ou não seriam tatuagens na memória. Mas são só isso: recordações que, um dia, a memória pode simplesmente perder. Não são tangíveis. Não há toque. Não há presença física. Não há cheiro. Não há sabor. Não há o calor de um abraço. Nada disso existe nas tatuagens na memória. E eu, cada vez mais, sou de tocar. De sentir a presença física, logo ali, tal como uma tatuagem na pele. De sentir o cheiro. De provar o sabor. De retribuir o abraço, com o mesmo calor, com a mesma força, vontade e intensidade. E as tatuagens na memória não me trazem nada disso…não são tangíveis…são, apenas, momentos. Impossíveis.

….e, tantas vezes, demasiadas vezes!, dar um passo atrás é ter a coragem e a certeza de ser o mais importante passo em frente

[Cresci a dizer a mim mesma que não, isto não era para mim, nunca o iria fazer, nunca o iria aceitar. Hoje repito para mim mesma que, desde o primeiro dia, sabia onde me estava a meter, qual seria o meu papel, o meu lugar. A minha importância enquanto personagem de uma história que não procurei, mas que simplesmente aconteceu. E agora…? Agora já não sei…nada.]

{#340.027.2024}

Sexta feira. E a noite já vai tão avançada que já toda ela é madrugada.

E eu, talvez pelo sono, talvez por outro motivo qualquer, desta sexta feira só me lembro da noite. E mesmo assim…

O que é certo é que, ao começar a escrever e talvez devido às horas que são, para mim hoje foi Sábado. Ou já é Sábado. Não sei. Sei lá.

De tanta coisa que tinha para fazer hoje, não fiz quase nada. Mas o texto que me pediram e que eu avisei logo que nunca seria pequeno foi escrito e enviado. Sem reler. E terminado depois das 3h da manhã quando foi iniciado à meia noite. Não estará grande coisa. Vai ter que levar uma grande revisão. E mais do que provável redução…

Amanhã é dia de acordar cedo. Há aula de Yoga. E a esta não posso nem quero faltar! Portanto, é dormir a correr. E é já!

{#339.028.2024}

Sim, gosto muito de abraços. Aprendi o poder de um abraço com o terapeuta fofinho logo na primeira consulta com ele, nos idos de 2016, quando, no final da consulta, ele me perguntou: “posso dar-te um abraço?” Eu não estava, de todo, habituada a uma pergunta destas. Ou seria um pedido? Nunca soube, nunca saberei. O que sei é que, logo desde essa primeira consulta, o abraço tornou-se obrigatório para finalizar as consultas. Obrigatório porque eu comecei a habituar-me a esse aconchego depois de uma sessão de exposição de fragilidade, depois de deixar sair tudo o que tanto me doía. Esse abraço no fim da consulta, apertado e sinceramente sentido, ensinou-me a força do aconchego que um abraço pode e sabe ser. E ensinou-me também que os abraços ajudam a voltar a respirar. Acalmam. Tranquilizam. Fortalecem.

Foi com o terapeuta fofinho que aprendi o poder de um abraço. E foi a partir daí que dei por mim a facilmente abraçar outras pessoas nas mais diversas situações, das melhores às piores.

Já não estou fisicamente com o terapeuta fofinho há mais de 2 anos. Já há muito tempo, ainda pré-pandemia, ele não estava em Lisboa e as nossas consultas aconteciam todas as semanas via Skype, onde é impossível abraçar quem está do outro lado. Mas, sempre que ele desce à capital e consegue encaixar-me na agenda social das visitas a família e amigos, já sei que pomos os abraços em dia. À chegada e à partida, como passou também a acontecer nas consultas ainda presenciais: um abraço à chegada antes de iniciar a sessão para relaxar e mudar o chip, um abraço no final para aquele aconchego antes da partida.

E foi assim que aprendi a gostar tanto de abraços.

Mas hoje aconteceu ficar a conhecer outro abraço sobre o qual já tinha lido várias vezes e que, apesar de me despertar alguma curiosidade um bocadinho mórbida, sempre soube, pelos relatos e descrições que fui lendo, que seria um abraço demasiado desagradável, muita vezes doloroso e sempre aflitivo…o chamado Abraço da Esclerose Múltipla, essa coisa que me apanhou na curva e para a qual continuo a não estar preparada.

Estava tão tranquila. Relaxada. A fazer contas ao tempo para sair de casa para ir ao Yoga. Estava quase na hora de lanchar e eu tinha acabado de almoçar há relativamente pouco tempo, depois de ter acordado tão tarde… Estava no sofá, a conversar com a minha mãe. E, de repente, sem pré-aviso, tinha o peso do Mundo inteiro nos meus ombros. Que, devagar, se começou a espalhar, cobrindo por completo os ombros e as omoplatas. O pescoço não tinha qualquer peso. Nem força. Parecia até que estava completamente solto do resto do corpo, talvez apenas preso por uma frágil linha que ameaçava romper a qualquer momento. A verdade é que, enquanto sentia o peso do Mundo inteiro nos meus ombros, o pescoço não tinha sequer qualquer força para segurar a cabeça…

Respirar. Era preciso respirar fundo. Com calma e de forma consciente. Até que percebi que, aquele peso todo que sentia nos ombros e se espalhou às omoplatas, de repente deixou de ser apenas o peso do Mundo inteiro para se transformar também num bloco de cimento. Duro. Muito duro. Ao ponto de me dificultar a respiração profunda e calma que eu tentava que me ajudasse a relaxar…

A respiração passou a ser muito superficial e sem ritmo definido. Ao mesmo tempo que tentava voltar a respirar fundo e com ritmo definido, percebi que o tal bloco de cimento que cobria e prendia os meus ombros e as minhas omoplatas se tinha espalhado até aos braços. Dos cotovelos até aos ombros. O peso. A rigidez do bloco de cimento que, de repente, ganhou proporções de granito. Mover os braços era extremamente difícil…quase impossível…

A cabeça solta, presa ao pescoço por uma frágil linha, a respiração superficial mas um pouco acelerada ainda que sem ritmo definido, aquele bloco em que o meu torso se tornou e que, afinal, não era de cimento mas sim de granito. Os braços imóveis entre os ombros e os cotovelos. Tudo isto durou longos minutos. Até que comecei a perceber-me presa por correntes que cada vez me apertavam mais e mais à volta dos braços. Como num abraço. Onde, em vez de ser aconchegada por dois braços quentes e tranquilizantes, era simplesmente apertada, cada vez mais apertada!, por correntes, ou por um qualquer cinto, que me prendiam desde os ombros até aos cotovelos

Não houve dores. Apenas a pressão do peso do Mundo inteiro em cima de mim, a pressão da rigidez do granito, a força extrema das correntes que me apertavam dos ombros aos cotovelos. Tudo isto como num abraço. Mas o abraço mais desconfortável, mais aflitivo, quase agoniante que senti até hoje.

Não sei quanto tempo durou. Só sei a intensidade que teve. E a certeza de que este não era, nem é!, o abraço de que preciso. Mas, sei agora, este é, de facto, o famoso Abraço da Esclerose Múltipla. A minha curiosidade mórbida ficou, finalmente, a saber como é. Pavoroso. Horrível. Aflitivo. Desconfortável. Agoniante. Gostava de poder dizer que não quero repetir. Mas já sei que estou sujeita a que se repita a qualquer momento, sem sequer haver pré-aviso.

E o que eu queria mesmo era um abraço do terapeuta fofinho…não este que tive hoje e que vem acompanhado de um grande sofrimento.

Não!, o que eu queria mesmo era aquele abraço quentinho e protector, aconchegante e tranquilizador. Não só o abraço do terapeuta fofinho. Mas, acima de tudo, o abraço dele. Não este…

{#338.029.2024}

Dormir até ao meio dia. Há tanto tempo que não fazia uma destas que já não me lembro quando foi a última vez. Ou, se calhar, até aconteceu há pouco tempo, mas esse registo na minha tabela de Excel dos momentos e memórias está numa daquelas células em branco às quais não consigo aceder. Não interessa. Interessa sim que este acordar tão tardio foi um recado do meu corpo a recordar-me da necessidade de descanso. E, nos últimos dias, a verdade é que abusei um bocadinho da pouca energia que ainda vou tendo…

Do que eu não me esqueço, o que eu guardo em células especiais da minha tabela de Excel dos momentos e memórias, células protegidas que não são apagadas, são todos os momentos com ele. Mesmo que à distância de um clique, não importa. Todos os momentos com ele são momentos nossos. Irrepetiveis. Únicos. Tremendamente especiais. Nos últimos dias houve algum desencontro, é verdade. É aquela coisa da vida a acontecer. Que acaba sempre por interferir com encontros à distância de um clique. Que acabaria sempre por interferir mesmo que a distância fosse inexistente. Mas esses dias de desencontros trouxeram, claro, as saudades. As minhas saudades dele. As saudades dele de mim. E reforçaram a vontade, a necessidade que temos um do outro.

Tudo começou com um simples “Olá” numa qualquer rede social. Um simples e inocenteOlá“. Inocente de ambas as partes. E o resto simplesmente aconteceu. Ou nasceu. Ou surgiu. Ou o que lhe quiserem chamar. Mas foi uma coisa tão natural… Uma espécie de encaixe perfeito de duas peças que se completam, que pertencem uma à outra. Desde sempre.

Não me canso de dizer que não foi um simples encontro. Foi, sim, um reencontro. Como se já nos conhecessemos de outros tempos, outras vidas. Outros sítios, até. Quando não existia distância entre nós. Quando também não havia redes sociais para nos manter juntos…

Por algum motivo que desconheço, que não tenho como saber, algures no Tempo acabámos por nos afastar. Por nos perdermos um do outro. Duas metades da mesma peça que se partiu por algum motivo e nos afastou um do outro. E todo este tempo em que estivemos longe um do outro nunca encaixámos correctamente com todas as outras peças com que nos cruzámos. Porque não eram as peças certas. Não eram eu. Não eram ele.

Até que um simples e inocenteOlá” como que nos acendeu uma luz para que nos reconhecessemos. Para que nos reencontrássemos. Para que o tal encaixe perfeito destas duas metades se desse. Ele é, sem dúvida, a metade que me faltava. Agora sim, em cada momento com ele, mesmo que à distância de um clique, estou completa. Estou inteira. Eu e ele somos as duas metades de uma peça única e especial, perfeitamente funcional depois de termos percebido o encaixe perfeito.

Sim, os meus momentos com ele ficam registados na minha tabela de Excel dos momentos e memórias em células protegidas, impossíveis de apagar. Porque cada momento com ele é uma tatuagem na memória. E as tatuagens ficam para sempre.

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Quando programas o teu dia para ser produtivo, com uma manhã mais activa do que tem sido e já sabes que à tarde tens que sair porque tens uma consulta, o que é que acontece? De facto acordas cedo, mentalizas-te para a manhã que programaste e, quando dás por ti, mais uma vez és derrotada pelo teu corpo que, apesar de ainda não ter feito nada de extraordinário, grita por descanso e acabas por adormecer no sofá e ali ficas duas horas até seres acordada para tomares banho, almoçar e sair de casa, tudo a tempo de chegares ao Centro de Saúde à hora marcada para a consulta…

E, dentro da minha cabeça, desde ontem à noite, aquela sensação que não podes chamar de som de uma espécie de ressonância grave como se, por perto, houvesse um qualquer concerto ou alguém no prédio estivesse a ouvir música alta e só se conseguisse ouvir os graves. Ou sentir os graves. No interior da minha cabeça e não exactamente nos meus ouvidos. Porque não era um som que pudesse ser ouvido. Mas era uma vibração. Uma ressonância. Qualquer coisa que não sei explicar o quê. Mas que começou ontem à noite, dificultando, e muito!, o adormecer. E que esta manhã continuava presente. E à tarde também… E essa vibração, essa ressonância, essa coisa que não sei descrever nem sequer explicar criou uma confusão tão grande na minha cabeça todo o dia.

Confusa. Algo baralhada. Nem eu sei muito bem o quê. Apenas sei que não, não estava bem

A vibração, a ressonância nos meus ouvidos, ou se calhar era na minha cabeça?, nem eu sei bem!, acabou por passar. A confusão acalmou um pouco. Mas voltaram as vozes que gritam por ajuda, que ecoam na minha cabeça antes de iniciarem o processo intrusivo de ideias parvas e, eventualmente, perigosas. E eu não quero voltar à urgência de Psiquiatria. Especialmente depois de ter sido acusada de usar os meus sintomas Borderline como “arma de manipulação“. Quando o que eu preciso é de ajuda. E quem, supostamente, tem o papel de me ajudar, é exactamente a mesma pessoa, o mesmo profissional!, que me acusou de manipulação

A minha Perturbação de Personalidade Borderline tem estado muito controlada a nível de sintomatologia. O terapeuta fofinho, que me testou o suficiente para ter o resultado deste diagnóstico confirmado, também ele, pela primeira psiquiatra que me acompanhou, deu-me muitas ferramentas práticas para eu própria conseguir controlar a Perturbação. Mas ela não deixou, obviamente, de existir. A verdade é que, enquanto tive o acompanhamento dele, tinha sempre quem me ouvisse e puxasse por mim para eu própria fazer por ficar bem em situações menos boas. E isso, parecendo que não, foram as ferramentas que ele me ensinou a usar para controlar a Perturbação e não acordar a sintomatologia.

Mas o acompanhamento do terapeuta fofinho terminou no final de Março, por falta de disponibilidade dele. E eu fiquei um pouco desorientada, sem chão, sem apoio, sem ajuda para me defender de mim própria ao fazer face ao diagnóstico e à chegada do meu novo normal que de normal tem tão pouco…

Acompanhamento psiquiátrico existe. De tempos a tempos, como é normal. E veio daí o encaminhamento para o apoio psicológico. Entretanto, a Depressão começou a mostrar-se presente novamente. Essa que já estava tão melhor. E, com a Depressão, começaram a querer acordar os sintomas da Perturbação de Personalidade Borderline. Reconheci rapidamente os sinais de alerta. E há meses que digo que preciso de ajuda. Que, mesmo tendo um profissional que supostamente me acompanha a cada mês e meio, não tenho a ajuda que preciso. Porque não me ouve. Não se lembra do que já lhe contei. Não reconhece os sinais e sintomas descritos verbalmente em cada uma das muito poucas consultas que tivemos enquanto que, ao mesmo tempo, até o neurologista reconheceu no meu olhar, apenas no meu olhar porque a máscara não permite ver as expressões por inteiro, que a minha Depressão estava pior

A sintomatologia é um desafio diário. E, sem a ajuda que eu preciso, só eu sei o tamanho da luta interna que travo todos os dias.

E depois há um diagnóstico para aceitar, um novo normal para me habituar, uma solidão à qual sobreviver, uma vontade de me magoar, de me punir até!, como se tudo isto fosse responsabilidade minha. Como se essa punição fosse merecida por algum motivo. Que desconheço. Que não entendo. Mas que sinto ser real.

Não!, não quero voltar à urgência de Psiquiatria. Não me parece que vá lá fazer nada. Mas preciso muito de ajuda. E não sei ao que recorrer. Consulta com o psicólogo que não me ouve e acusa de manipulação? Janeiro. Consulta com o psiquiatra que vem substituir o anterior que se ausentou do Hospital? Final de Fevereiro. Até lá? Não sei. Não sei mesmo. O que fazer. A quem recorrer. Não sei nada. Só sei que me conheço o suficiente para saber que não estou bem, para reconhecer o despertar da sintomatologia da Perturbação Borderline, para admitir que tudo isto me mete medo

E, como se não bastasse, para hoje estava marcada Junta Médica da Segurança Social por causa da minha baixa médica à mesma hora da minha consulta com a médica de família. Claro que não pude ir à Junta Médica. Tenho a justificação do Centro de Saúde. A Junta Médica deverá ser remarcada para breve. E eu tenho medo do resultado. Porque eu não estou em condições de voltar ao trabalho. Não com a Depressão neste nível. Não com os desafios, até os cognitivos, do meu novo normal.

Não. Eu não estou bem. Eu preciso de ajuda que não estou a receber. Estou muito confusa. Baralhada, até. E não sei o que esperar da Junta Médica…

Por agora, cansada e moída, quando a noite já se inicia na fase da madrugada, é hora de baixar os braços por hoje. Reconhecer que também preciso de descansar. E mereço descansar! De nada que me possam apontar que tenha feito hoje eventualmente desgastante fisicamente. Mas da luta interna que travo todos os dias com tudo isto que trago cá dentro e que tenta, à força, travar-me. E também da luta constante com o meu corpo cansado sem se ter esforçado que me deixa esgotada, tanto física como psicológicamente. E aqui, neste campo, a única coisa a fazer é realmente ouvir o meu corpo e obedecer-lhe, seja ao adormecer no sofá a meio da manhã ou a seguir ao almoço, seja ao ir para a cama cedo. E esta parte é outra luta que travo comigo mesma todas as noites: sei que tenho que voltar a ter um horário decente para ir dormir. Mas deixo-me ficar acordada até tarde para provar a mim mesma que ainda consigo ficar acordada até tarde! E só eu sei o quanto me custa manter-me acordada até tarde. Mas é só mais uma luta entre o meu Eu mental e o meu Eu físico. E eu sei que tenho que respeitar mais o meu corpo, o meu Eu físico. Mas, lá está, é aquela punição de que falava há pouco. Que não faz sentido nenhum, mas que o meu Eu mental me impõe. E a luta recomeça todas as noites…

Mas, por hoje, o meu Eu físico ganhou. É tarde. Muito tarde. Mas está na hora de dar descanso ao corpo. Como se vai comportar a cabeça durante a noite? Não faço ideia. Mas espero sinceramente que colabore…