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Se perguntarem por mim, dir-vos-ei que não estou. Esta que vos fala é outra que não eu.

{#011.355.2025}

Sábado e o Yoga logo de manhã. Gosto muito. Do horário. Da prática. Do pós prática. De ter o resto do dia em aberto. E gosto, muito, da evolução que as aulas estão a ter. E do ser capaz de, com trabalho, insistência e persistência, conseguir alcançar posturas que tantas vezes exigem aquilo que me falta: equilíbrio. Posso falhar uma, duas, três, quatro vezes ou as que forem! Posso, tantas vezes, ir de rabo ao chão ao tentar o que me é pedido em termos de equilíbrio. Mas não importa. Porque volto atrás, respiro fundo novamente e repito do início todos os movimentos, todos os passos necessários para garantir o equilíbrio e alcançar e manter a postura. E tem sido assim sempre, desde a primeira aula com o Professor Pedro. Na minha experiência inicial com o Yoga, em 2016, não havia tanta exigência, não havia o objectivo que existe agora que é a progressão, a evolução, e também não havia ainda, da minha parte, a presença constante do desequilíbrio.

O Yoga é um excelente aliado para tudo, seja corpo, seja mente. E é, também, um excelente aliado no trabalho de equilíbrio. E, aqui, também do corpo ou da mente.

As manhãs de Sábado são, muito provavelmente, as minhas manhãs preferidas. Que me tranquilizam e relaxam para o resto do dia. E hoje, claro, não foi excepção.

Mas as noites que passam a madrugadas têm sido cada vez mais frequentes, como foi ontem, como está a ser hoje. E, por muita vontade que eu tivesse, e tinha!, quando cheguei a casa de sair à tarde para dar uso às pernas até à esplanada e ficar por lá um tempo a escrever, o sono derrubou-me. Roubou-me o final da tarde e, até, uma parte da noite…

Esta noite que já é madrugada irá também influenciar o meu dia amanhã. E não me posso esquecer que tenho 3 emails muito importantes para enviar amanhã sem falta. Não posso continuar a adiar. Mas dou por mim em contradição quando digo que as 24 horas do dia não me chegam e, ao mesmo tempo, faço o dia esticar pela madrugada e não fiz nada…

Algo vai ter que mudar rapidamente. E esse algo sou eu. Todos os dias digo que tenho que me organizar. Que preciso de me organizar. Mas também digo que preciso de ajuda para o fazer. E essa ajuda simplesmente não existe…

Digo sempre que “amanhã começo a pôr tudo por escrito”. Mas esse amanhã tarda em chegar…

É tarde, tão tarde…a noite já passou a madrugada alta. Não adianta tentar fazer esticar ainda mais o dia. Estou cansada. Com (muito) sono. Tenho que obedecer ao meu corpo. E o descanso chama por mim…e eu vou. Amanhã? Logo se vê como será…

{#010.356.2025}

A noite já passou a madrugada. E eu sei que já devia estar a dormir há muito tempo. O despertador amanhã toca cedo e vou ter que conseguir estar na paragem do autocarro à hora certa para chegar à aula de Yoga a horas. Mas ainda aqui ando. Em luta comigo mesma, numa discussão interior entre o que sei e o que sinto. Entre o que eu acho que sei e o que pressinto saber. E, quando estou assim, nunca é bom…

À minha volta tudo vai perdendo a cor. Cruzei-me hoje com as (minhas) papoilas de Janeiro de um vermelho vibrante, vivo, cheio de força. Percebi que é um vermelho mais vivo do que eu quando, logo ao virar da esquina, encontro uma árvore despida de folhas, com uma única folha resistente num ramo.

Se antes me tinha identificado com as (minhas) papoilas de Janeiro pela resistência ao frio, à chuva e ao vento, não pude deixar de me identificar com aquela folha única numa árvore despidaSozinha, mantém-se no lugar sem desistir. Até ao dia em que, finalmente, o vento e a chuva a arranquem à força.

E eu quero ser árvore. Não quero ser apenas uma folha solitária e resistente…até ao dia em que for arrancada pelos elementos.

E, de novo, a cor que tinha reencontrado poucos momentos antes, logo ali ao virar da esquina, se perdeu…

{#009.357.2025}

Sair de casa às 8h30m da manhã, voltar para casa às 14h30. 6 horas na rua e a dar um uso moderado às pernas. Diz o contador de passos do telemóvel que, até agora, dei 1.749 passos, o que corresponde mais ou menos a 1,160 km. Ou seja, quase nada. Mas, na verdade, o tempo que passei em pé, mesmo que me tenha sentado para descansar aqui e ali ao longo das 6 horas na rua, fez reaparecer o raio das dores nas pernas. A tal da dor neuropática que é horrível e quase incapacitante. O caminho da paragem do autocarro até casa, os 600 metros mais lentos que conheço, foram feitos sabe-se lá como e a que custo.


Cheguei a casa desejosa de me deitar no sofá para poder esticar as pernas, aliviar as dores, descansar e recuperar para, às 18h15m voltar a sair para apanhar o autocarro a caminho do Yoga. Passa das 16h30, cheguei ao sofá agora… Às 17h começo a preparar as coisas para o Yoga, às 17h30m lancho. Algures pelo meio troco de roupa para ficar tudo pronto a horas de voltar a sair…

Hoje as minhas pernas parecem não me pertencer e, no lugar delas, ter duas coisas cheias de dores que pouco ou nada me obedecem…e o tempo que eu julgava (ainda) ter para descansar e recuperar é cada vez mais curto…

Eu bem digo que as 24 horas do dia não me chegam. É que, pelo meio, vou tendo que parar, descansar e recuperar…

Já tive dias melhores. E não lhes dei o devido valor. Agora? Gostava muito de regressar ao “antes disto”, onde tudo era mais fácil e com muito menos dores. Já sei que não vai acontecer… Começou a fase da “ginástica do relógio” em que, com muito jogo de cintura, dores e desequilíbrios tento fazer, nas 24 horas de um dia só, tudo o que tenho pensado para esse dia.

Não. Não é fácil…e eu estou (muito) farta disto que veio para ficar…

(E, olhar para cima, para tirar esta simples fotografia sem cair…só eu sei o que me custou. Mas adoro-a!)

{#008.358.2025}

Subir e descer escadas. Faz parte do trabalho na fisioterapia. Que, na realidade, é REaprender a subir e descer escadas em segurança. Porque a subir dou demasiados pontapés na parede do degrau. Porque a descer fico muitas vezes com o calcanhar demasiado encostado à parede do degrau. E, a descer, já muitas vezes quase caí porque o movimento da perna e do pé fica ali preso sem grandes hipóteses de movimentação. Por isso, há que REaprender o tamanho certo da passada para subir e descer. Sim, porque a descer muitas vezes dou um passo maior do que devia ficando só com o calcanhar apoiado no degrau e uma estabilidade muito perto de zero. E, claro, seja a subir ou seja a descer, nada disto pode acontecer.

Mas, na realidade, e nesta escada em particular!, o meu grande problema para dar início à descida é aquela diferença visual do chão…que eu não consigo perceber se quando o padrão do chão muda ainda faz parte do pátio ou já é o degrau de baixo. Todos os dias subo e desço esta escada na fisioterapia. Várias vezes. Todos os dias e todas as vezes que vou descer páro, hesito e tenho que me aproximar devagar da beira para perceber que, apesar das diferenças, continua a ser pátio. E é uma sensação horrível…

Já tinha dado por esta dificuldade anteriormente, em vários locais que não necessariamente escadas. Entrar num café que à porta tem, no chão, uma tira de pedra branca logo seguida de chão preto, tudo ao mesmo nível, já me fez alçar a perna sobre a pedra branca porque o meu cérebro me dizia que ali havia uma alteração de nível. Que, na realidade, não existia.

O fisioterapeuta já me explicou que tem que ver com a questão de análise de profundidade. E hoje recomendou: fale com o neurologista rapidamente sobre esta questão. E amanhã lá vou eu enviar email para o neurologista, desta vez com a lista crescente de sinais e sintomas novos. Que eu não sei como lidar com eles. Como, na verdade, não sei lidar com nada disto

Bem…aqui já sei que é um degrau de cada vez. Mas aquele primeiro da descida…não há vez nenhuma que não me confunda e não me faça sentir insegura.

E também é isto o meu novo normal. Que, já o tenho dito, de normal tem muito pouco, a roçar o nada.

{#007.359.2025}

Um dia demasiado cansado logo desde que o despertador tocou bem cedo é sinónimo de cansaço acumulado. E dou por mim a pensar o que é que fiz ontem para me deixar a mim e à minha mãe tão cansadas e simplesmente não me lembro…

Parei por breves instantes, respirei fundo e de forma consciente várias vezes para tentar realinhar a minha cabeça e a minha memória que, de vez em quando, faz umas pausas cada vez mais frequentes e cada vez mais longas. E nem eu gosto disso nem isso é bom sinal…

Mas respirar fundo e de forma consciente parece ter resultado e já me recordo que, sim!, o dia de ontem foi muito longo e esgotante. Física e emocionalmente. E o resultado apareceu já hoje: acordar tarde, chegar atrasada à fisioterapia, adormecer na marquesa enquanto esperava pelo fisioterapeuta para novos exercícios.

Depois da fisioterapia, uma corrida até ao Hospital para as análises mensais de controlo da função hepática por causa da toma, diária e em jejum!, desde Maio de antibiótico em forma de terapia preventiva da tuberculose latente que habita em mim. As alterações nos resultados das análises existem, felizmente de forma muito ligeira. E a toma do antibiótico termina no final de Fevereiro. Espero que as análises deste mês não tenham grande alteração de valores e que no final de Fevereiro já esteja limpa do bacilo que se alojou sabe-se lá quando e por alma de quem! Mas nunca é demais recordar: os números da tuberculose em Portugal não são falados, mas são assustadores. Façam o teste, não custa nada.

Entretanto a hora de almoço passou, depois da hora de ponta na sala de espera para a recolha de análises e eu não almocei. E a caminho de casa, entre um autocarro e outro, nada como entrar num supermercado, que não o Minipreço!, que é algo tão banal mas que há muitos meses que não fazia. E ver atentamente TODAS as prateleiras de todos os corredores!

Voltar para casa muito mais tarde do que o previsto, mas a tempo da Teleconsulta marcada onde me souberam ouvir, entender e aconselhar. E me relembraram da importância das gavetas arrumadas dos assuntos que nos doem e da necessidade de fazer o luto e abarcar o (re)nascimento. E eu ainda não arrumei os meus assuntos porque ainda nem assinei gavetas tenho. E é nesta altura que, pela primeira vez, finalmente!, alguém percebeu que existe em mim uma grande negação e o enorme desejo de acordar e voltar a estar tudo bem comigo. Negação que, claro, tem que ser combatida, trabalhada. Porque eu ainda preciso de processar, digerir e assumir perante mim mesma que este meu novo normal é real e agora é tempo de me adaptar à minha nova realidade. E, de uma vez, assumir a mudança e mudar o discurso de “porquê eu?” para “e porque não eu?”…

Há muito trabalho a fazer ainda. E, se calhar, este é o momento para começar a construir as minhas gavetas para ir arrumando os meus assuntos e permitir-me fazer o meu luto de mim própria.

E o facto de não conseguir chorar…finalmente!, alguém percebeu que o mais provável é um qualquer bloqueio que me impede de verter uma lágrima que seja! E é preciso desbloquear esse bloqueio, perceber de onde surgiu, enfrentá-lo, trabalhá-lo e resolvê-lo. Só nessa altura serei capaz de chorar novamente. Mas, lá está, tenho que começar por construir as minhas gavetas.

Mas sei que não o conseguirei sozinha. Que irei precisar de tempo e de pessoas. Daquelas que gostam de mim. Que encontram sempre forma de comunicar comigo.

E quando se está de castigo? Há sempre sinais de fumo… Mas a ausência é sentida.

{#006.360.2025}

Tenho alguma dificuldade em deixar de pensar naquilo que, de uma forma ou outra, me incomodou ao ponto de me magoar. Muitas vezes de forma quase violenta. As palavras têm um peso grande nisto. As palavras ditas, a forma como são ditas, a força com que são atiradas e não apenas ditas. E essa dificuldade, que de forma quase inocente chamo de apenas “alguma”, é bem mais intensa e forte do que consigo expressar. Não, eu não esqueço facilmente. Seja o bom, seja o mau. Sejam quais forem as palavras. E que, mais vezes do que gostaria, consigo repetir como se de uma gravação se tratasse.
Penso demasiado no que me é dito. Ou nas palavras que me são atiradas quase com desprezo. Em termos psicológicos, fico a ruminar essas palavras que acabam por me trazer pensamentos e sentimentos muito desconfortáveis, até mesmo desagradáveis.
Eu sei que, neste ponto, o problema está unicamente em mim. O não conseguir desligar. O não passar adiante. O não me deixar afectar de forma tão negativa. O problema, neste ponto concreto, está unicamente em mim. E TODOS OS DIAS tento trabalhar no sentido de conseguir libertar-me do peso negativo com que algumas palavras, muitas palavras, TANTAS PALAVRAS me agridem. Mas eu sou do sentir. E sou das letras que formam palavras que formam frases que tantas vezes, demasiadas vezes!, me agridem e cuja agressão é sempre demasiado sentida…
E hoje, mais uma vez, senti-me agredida. Por palavras talvez não pensadas antes de ditas, mas que eu não consigo largar e pôr para trás…

…nunca disse a ninguém a importância e o peso que dou às palavras que me são ditas, seja em que contexto for. O que me fazem sentir, como me fazem sentir. Especialmente quando são palavras que me agridem.

…e, mais uma vez, as palavras que me foram hoje dirigidas, em consulta que deveria servir para me ajudar, foram uma forma de agressão. E que me fizeram sentir mal. Que me magoaram. Que me entristeceram. Que me deixaram com vontade de fazer aquilo que há dois anos não consigo fazer: chorar. De raiva. De revolta. De frustração. E as lágrimas insistem em simplesmente não existir…em não cair…

{#005.361.2025}

Domingo, aquele dia que, não sendo o mais aborrecido da semana (mas que, nesse ponto, compete directamente com o Sábado), vai passar a ser chamado de Dia Semanal da Diplopia Ao Rubro! E o que é a Diplopia? É aquele nome catita que a ciência deu à Visão Dupla! Que, por algum motivo que eu simplesmente desconheço e que ainda não pedi explicações, é ao Domingo que se faz sentir mais presente…Posso até ter episódios de Diplopia durante a semana, às vezes a semana toda, mas ao Domingo está mesmo ao rubro! E é horrível. Quase desesperante. Porque se, nos outros dias, quando vejo a dobrar já é difícil ler e/ou escrever, ao Domingo ler é impossível e escrever (no telemóvel) requer um enorme esforço. A menos, claro, que o faça só com um olho aberto. Aí vejo normalmente, sem dificuldade nenhuma. Mas andar na rua ou até mesmo em casa com um olho fechado não é muito confortável. Além de que pareço um bocadinho totó.

Na verdade, no Natal até sugeri que me oferecessem uma pala para colocar no olho, que nem o Luiz Vaz, mas ninguém me ligou nenhuma. Por isso, estou seriamente a considerar procurar um molde e/ou tutorial online para coser a(s) minha(s) própria(s) pala(s). Sim, isto ao Domingo É assim tão mau…

Mas, claro, tinha que vir à rua, beber um café (que até foram dois…), apanhar ar e ainda um bocadinho de luz do dia. Que apanhei! Já estou é na esplanada há praticamente duas horas. E a fazer o quê? O habitual: nada!

Vou agora voltar para casa e tentar não me perder pelo caminho, porque isto de ver o caminho a dobrar pode levar a erros. E se, à visão dupla, adicionarmos o meu estonteante andar desequilibrado, não se espantem se, um dia, eu vos disser que a GNR me mandou parar para fazer o teste do balão…

Mas, agora, chamemos as coisas pelo nome, tal como elas são (porque não há como fugir da realidade): Esclerose Múltipla Primária Progressiva. É muito, mas mesmo MUITO raro escrever assim, de forma tão directa (e quase crua) sobre aquilo a que, habitualmente, me refiro como “isto que me apanhou na curva“. Vamos repetir? Vamos lá! Esclerose Múltipla Primária Progressiva.
Tem um nome todo pomposo, que eu dei por mim a recusar escrever e com grande dificuldade em pronunciar, não por ser de dicção difícil mas porque é uma realidade que, há que assumi-lo mesmo que me custe horrores!, é a minha realidade. É o que chamo de “o meu novo normal” que, a bem da verdade, de normal tem muito pouco.

E, para além de já ter falado da Diplopia (ou Visão Dupla) e do desequilíbrio que me compromete (e muito!) a marcha obrigando-me a caminhar com uma bengala, agora vou falar de uma coisa tão simples como tomar banho! Bem…simples para vocês, não para mim!

Ainda não me dedico à dança do varão mas, de há uns meses para cá, tenho-me dedicado à barra! A barra de apoio para a aventura que é entrar e sair do banho em segurança e sem precisar da ajuda de terceiros. Que é a minha mãe, claro, e já passámos pela fase em que para entrar e/ou sair da banheira se ouvia sempre “oh mããããããeee!“.

Estou a ficar uma crescida com tudo isto. Até já me dedico à dança da barra! Qualquer dia dedico-me à dança do varão que, dizem, é capaz de ser mais lucrativo.

E agora vamos lá repetir mais uma vez, agora todos juntos: Esclerose Múltipla Primária Progressiva. Não é por vocês que faço questão de repetir, mas sim por mim! A ver se me convenço, de uma vez por todas!, a chamar esta coisa pelo nome e a aceitar que, agora que se apegou a mim, veio para ficar. Deve ser amor, só que não é correspondido, lamento!

E, no dia em que eu deixar de brincar com isto, que É um assunto sério, podem ter a certeza de que EU estou mental e psicologicamente pior do que já estou. E já não tenho o suporte do terapeuta fofinho que, comigo e com o meu aval, também brincava com coisas sérias. No lugar dele tenho um psicólogo que não me ouve e ainda me chama de manipuladora, mas isso são outros 500 que ficam para mais tarde.

{#004.362.2025}

Sábado é dia de acordar cedo. O Yoga espera por mim às 10h do outro lado da vila. Ontem, e sabendo que hoje tinha que acordar cedo e tendo já programado apanhar o autocarro das 9h e pouco, que leva 7 minutos a chegar ao destino, consegui pela primeira vez em muito tempo ir para a cama antes da meia noite. Isso, obviamente, não significa que tenha conseguido acordar tão cedo como gostaria. Aquele autocarro das 9h e pouco ter-me-ia permitido, com tempo e calma, beber o meu café de frente para o Mar, respirar aquele ar logo de manhã cedo, e chegar a horas à aula. Não aconteceu, claro…

Despachei-me à pressa, e não gosto nada de começar o dia nesse ritmo stressado e stressante, saí de casa já depois do horário do autocarro seguinte e que me seria sempre muito difícil de conseguir apanhar a horas mesmo que me tivesse despachado nem que fosse 10 minutos antes. Chamei um Uber ao mesmo tempo que via o tempo passar e sem veículos disponíveis… Mensagem para o Professor Pedro a avisar que estava à espera de um Uber, que na altura já estava confirmado, e que iria chegar em cima da hora. Mas que, não contrário de quinta feira, ia efectivamente estar presente na aula!

Este sábado a aula programada era Yoda Pradipika, “mais focada na respiração e com mais permanência nas posturas seguindo um conceito mais clássico“. Esta descrição do Professor Pedro deixou-me muito curiosa e interessada na aula, não poderia de modo algum faltar à aula.

O Uber confirmado entretanto cancelou a viagem e o tempo, claro, não pára nem espera por ninguém. A app sugeriu outro que estava por perto, mas de outro escalão. Mais caro, mas mais perto? Claro que sim! Em 2 minutos estava à minha porta e em 5 minutos chegámos ao destino. Faltava precisamente 1 minuto para as 10h. E acho que nunca subi aquelas escadas até ao primeiro piso, até à nossa sala, tão depressa como hoje! Não interessa, o importante é que estava ! Onde queria estar! Onde precisava de estar!

E a aula foi, mais uma vez, algo de muito especial e muito bom. Mais uma vez percebi que, apesar das minhas dificuldades e limitações, ali há espaço para crescer. E a parte física não é, de todo, a mais importante. E sempre que vou a uma aula sinto que consegui crescer mais um bocadinho. Que me encontrei mais um bocadinho. Porque ali paramos, respiramos e crescemos. Não encontro maneira de explicar o que se passa naquele período dedicado à aula, que é um período dedicado a mim. Mas, no final da aula, mais concretamente no regressar a casa percebo sempre que alguma coisa aconteceu comigo, alguma coisa aconteceu em mim.

Não me peçam para explicar o que é que aconteceu, o que é que acontece em cada aula, não o saberia explicar. Sei, sim, que me sinto, e acredito que estou!, muito diferente de quem era há um ano e meio quando me inscrevi nas aulas. Na altura estava perdida, mas ainda longe de pensar que estava doente. Sabia, sim, que o Yoga me iria ajudar a acalmar a cabeça, que me iria ajudar a acalmar, a desacelerar. Não fazia ideia era que a diferença que eu já sabia que iria acontecer fosse tão grande.

O processo de suspeita das doença começou logo a seguir. E todo o processo levou muito tempo. Mas o Yoga estava lá. Nos dias mais ansiosos, nos mais assustadores, na aceleração da progressão…o Yoga sempre lá. O parar para respirar. Inspiração profunda e consciente. E aprender que nesse momento os pensamentos sobre o que se passa lá fora até podem passar pela nossa cabeça, mas não são para ficar. Esse é o momento em que só existo eu e a minha respiração. Mais nada. E, a cada postura, é a respiração que me permite chegar um bocadinho mais longe. E, como tenho dito ao Professor Pedro desde a primeira aula “hoje não chego lá, mas continuando a prática todos os dias vou conseguir mais um bocadinho e um dia chego lá“.

E assim tem sido. E fico sempre tão contente quando consigo alcançar as posturas que de início conseguia fazer e que a progressão disto que me apanhou na curva me tentou roubar ao diminuir o meu equilíbrio. Sim, porque o equilíbrio continua muito mau, mas o meu trabalho na aula também é tentar melhorar o equilíbrio. E tenho conseguido! Voltei a alcançar as posturas que tantas vezes me deitaram ao chão. Voltei a desafiar a minha falta de equilíbrio e ganhei o desafio.

Há, nas aulas de Yoga, um grande trabalho físico, claro que sim. Só assim conseguimos alcançar e manter as posturas que trabalham o nosso corpo, o nosso fluxo energético. Mas também há um grande e intenso trabalho mental. E eu noto a influência desse trabalho em mim. Especialmente naqueles dias em que me sinto profundamente deprimida e/ou completamente perdida. É aqui que o trabalho mental do Yoga mostra resultados muito positivos. Porque me tem ajudado a pensar com mais calma, mais clareza, a priorizar o que é mais importante: eu.

Tu tens alcançado coisas que nem tu imaginas“, disse-me o Professor Pedro há umas semanas. E hoje disse-me “estás melhor, a vários níveis! A nível físico, claro. Com mais força anímica. Estás muito melhor!“. E isto acontece porque há muito trabalho a ser feito. Físico em todas as aulas às quais detesto faltar!, e mental todos os dias cá fora.

Cada vez mais sinto um interesse maior sobre o Yoga. Não para me dedicar a 100% à parte física, mas para entender mais e melhor a parte teórica. Ou, se lhe quiserem chamar, a parte filosófica do Yoga. Entender melhor o pensamento. Para além disso, entender melhor como funciona a nível físico, o que é que influencia, o de é que actua, o que é que altera, no fundo como é que faz fluir o nosso fluxo energético.

Não posso deixar de pensar que sim!, sou uma miúda cheia de sorte por, por puro acaso e porque na altura era o sítio mais perto, ter encontrado esta turma e, sem dúvida, este Professor que são, desde o primeiro dia, um suporte imprescindível no meu processo de crescimento interior.

Voltar da aula de Yoga Pradipika foi duro, como é sempre voltar de uma aula de Yoga. Porque, por minha vontade, as aulas teriam uma duração muito maior. E aconteceriam todos os dias! Ou quase todos, vá. Também é preciso dar descanso ao corpo. Mas, sim!, sendo possível a prática ser mais do que apenas dois dias por semana, eu estaria lá. Não sendo possível, trabalho a teoria em casa, encontro um tempo para o trabalho mental e continuo a respirar fundo e de forma consciente sempre que precisar ou só porque sim.

{#003.363.2025}

Sexta feira, aquele dia que se resume facilmente em 3 pontos:

  • Fisioterapia – muito mais focada no trabalho de equilíbrio e, claro, também no reforço muscular das pernas e respectivos alongamentos. Estou a gostar mais agora do que dos ciclos anteriores;
  • Frio – muito menos do que ontem, felizmente muito mais suportável e sem gelar as pernas;
  • Sono – sempre o sono…ontem foi mais uma noite em que adormeci muito mais tarde do que gostaria, hoje foi novamente dia de acordar e sair de casa muito cedo, antes da hora do Sol nascer. Claro que a tarde foi enroscada nas mantas e apagada no sofá.

Os meus dias podem não ser muito interessantes, não se passa grande coisa, é verdade. Mas é agora que tenho que organizar o meu tempo. E ainda não consegui fazê-lo…

…mas, um dia!, eu chego lá!

Mas, pelo menos, não falta café. Vários ao longo do dia…porque não pode faltar nunca!

{002.364.2025}

Dia de, finalmente!, regressar à fisioterapia em Almada, mas desta vez a começar às 9h da manhã, o que implica sair de casa antes das 8h para não perder o autocarro. Ou seja, volto a sair de casa antes do Sol nascer. Já não é de noite, é verdade, mas ainda me cruzo na via rápida com um Sol acabado de acordar, embora hoje um bocadinho envergonhado e sem aquelas cores maravilhosas que já encontrei noutras manhãs. Até perto do final do mês pode ser que as volte a encontrar.

Novo fisioterapeuta neste que é o quarto ciclo de tratamento nesta clínica. E que, já percebi, será para manter em ciclos até sabe-se lá quando. Se é que alguma vez haverá um fim. Mas hoje, pela primeira vez, senti que o tratamento não se foca somente no fortalecimento muscular mas também, e muito, no equilíbrio. Que é onde eu encontro a minha maior dificuldade.

Ter as sessões de fisioterapia logo às 9h da manhã deixa-me o resto do dia completamente livre. Às 10h30 estou despachada e com um dia inteiro pela frente. E o que eu queria para hoje, dia de Yoga ao fim da tarde, não correu exactamente como eu tinha pensado…especialmente porque dormir apenas 2 horas numa noite não ajuda. Em nada. Apesar de só ter dormido as 2 horas a fisioterapia correu bem. Mas o frio…

Saí de casa com 2 pares de calças, por fora as calças de ganga normalíssimas e, por baixo destas, as calças que uso para o Yoga e tenho usado também para a fisioterapia. A ideia era, ao chegar à clínica, tirar as calças de ganga e fazer os exercícios só com as outras. Mas o frio…

Saí de casa com 5 graus marcados na app de meteorologia, com sensação de 3. As pernas ressentiram-se de imediato, claro. E já cheguei à fisioterapia com dores na barriga das pernas, onde me dói sempre tanto. Quando regressei a casa, não sei quanto marcava o termómetro, sei apenas que as pernas estavam geladas. E com muitas dores. Mudei de roupa para algo mais quente: calças de pijama e calças de fato de treino. Mas nem assim as pernas aqueceram.

Para o almoço estava confirmada a presença dos meus sobrinhos. Os meus homenzinhos que estão cada vez mais bonitos e cada vez maiores! Como assim o Miguel já está mais alto do que a avó a meros 9 cm da minha altura? Eu sei que são quase 15 anos, mas… E o Filipe, à beira dos 12 anos, apesar de não ser um gigantão para a idade, já conta com 1,46 m. É muito bom acompanhá-los, ver a evolução de cada um, o saudável e correcto desenvolvimento de cada um, mas…onde é que estão os meus sobrinhos pequeninos? Estão a deixar de ser homenzinhos, para serem homens crescidos, é o que é! E eu não estou preparada para isso! A voz do Miguel está a mudar, já não é aquela vozinha de menino pequeno! Já está muito perto de ser uma voz de homem crescido! O Filipe ainda mantém a voz que sempre lhe conhecemos, mas não vai durar muito mais do que uns 2 anos…e eu não estou preparada para isso!

O Miguel já é oficialmente um adolescente. Mas, pelo menos cá em casa, não passa pela idade do armário. Está sempre junto de nós e conversa, como sempre o fez, como gente grande. O Filipe, que aparenta sempre ser muito bruto e despegado, mantém a doçura que lhe conhecemos. Quando chegaram eu estava deitada no sofá embrulhada em duas mantas com as almofadas térmicas quentinhas de trigo a tentar aquecer as pernas sem sucesso, continuaram geladas ainda muito tempo. O Filipe veio aninhar-se ao pé de mim, encostado às minhas pernas e perguntou com aquela voz doce e olhar preocupado: “estás melhor do pé, tia? Ou da perna?” Sorri-lhe e relembrei-o de uma conversa que já tínhamos tido: “o problema da tia não é na perna, Filipe, tu já sabes…”. Sorri-lhe e não falámos mais sobre isso. Não tenho qualquer problema em falar com eles sobre isto que me apanhou na curva, mas só falamos se algum deles tomar a iniciativa.

Soube mais tarde pela minha mãe que o Filipe a foi ajudar a preparar as coisas para o almoço e que, a certa altura, lhe perguntou “a tia está melhor da perna, avó? Eu já sei que o problema não é na perna. É no cérebro! Mas a tia está melhor?” Não sei o que a minha mãe lhe respondeu, mas ele fazer estas perguntas e saber exactamente que o problema da tia não é na perna mas sim no cérebro deixa-me deliciada com este menino que eu sempre descrevi como sendo um furacão. Porque sempre o foi e continua a ser.

Foram-se embora depois do almoço. Do Miguel eu não esperava menos do que o costume, aquilo que acontece sempre quando nos despedimos: um abraço. Mas o abraço dele hoje foi diferente, porque já lá vai o tempo, e não tão longe assim, em que no nosso abraço a cabeça dele mal me chegava ao ombro. Mas hoje…hoje estávamos quase ao mesmo nível! Está enorme!

Chegou a vez de me despedir do Filipe, que foge sempre de beijos e abraços. Mas hoje, por algum motivo, fui apanhada de surpresa quando dei pelos braços dele à minha volta, por iniciativa dele, para um abraço apertadinho. Que me soube tão bem.

Não estiveram cá em casa por muito tempo, é verdade, mas, e como acontece sempre, foi tão bom tê-los tão perto, poder olhá-los e tocar-lhes porque estava mesmo ali!

Olhei para o relógio e percebi que ainda podia descansar por, pelo menos, uma hora antes de começar a preparar-me para sair para o Yoga. Mas a urgência mantinha-se a mesma desde que tinha chegado a casa: aquecer as pernas e aliviar as dores! Novamente o sofá, novamente as duas mantas, novamente as almofadas térmicas quentinhas de trigo. E aqui as duas horas dormidas na noite anterior cobraram-me o sono em falta…e adormeci em menos de nada!

Chegada a hora de começar a preparar a saída de casa para o Yoga, o alarme do telemóvel tocou. Eu ouvi-o. Mas desliguei-o. Assim como fiz nos vários horários que tenho agendados para as quintas feiras no telemóvel… Até que acordo com a minha mãe a dizer-me “Catarina, já são quase 7 horas!”. Eu, estremunhada, pensei que já era de manhã e ainda respondi que ainda tínhamos tempo para o autocarro. “Não! Não tinhas o Yoga às 7h da tarde?!”

Foi então que me caiu a ficha…eram quase 7 horas da tarde e não 7 horas da manhã, como eu pensei ao acordar…e bolas! Não vou ao Yoga!

Fiquei chateada de não ir, admito. Mas estava tão a precisar de recuperar e descansar! E foi o que fiz. Ainda enviei mensagem ao Professor Pedro, mas fiquei chateada comigo e com a minha noite anterior. E amanhã o horário de madrugar repete-se, o que não se pode repetir é a noite de ontem.

O dia hoje foi bom, foi intenso, houve mimos, houve amor! E os meus sobrinhos podem já não ser pequeninos e rapidamente deixarão de ser homenzinhos, mas serão sempre os homens da minha vida!

{#001.365.2025}

Dia 1 de Janeiro de 2025.

…aquele dia em que percebi que as 24 horas do dia não me são suficientes para fazer tudo o que quero fazer num só dia. Especialmente naqueles dias em que não faço absolutamente nada

Muito confusa. Muito baralhada. O Natal já passou. A passagem de ano foi ontem. Mas, na minha cabeça, ainda falta tanto tempo para o Natal

Não gosto desta confusão, desta baralhação que vai na minha cabeça. E do facto de perceber que as 24 horas do dia não me chegam para fazer o que faço todos os dias: absolutamente nada

Sim, preciso de ajuda. Urgente

{#365.002.2024}

Já sabíamos, à partida, que 2024 seria um ano com um dia extra por ser bissexto. Mas, e a julgar pelo título deste post que é efectivamente o último de 2024, acho que lhe consegui acrescentar ainda mais um dia. Não sei o que se passou por aqui. Escrevo todos os dias, sem excepção, há mais de 10 anos. Mas, e pela primeira vez, alguma coisa aconteceu. Se vou tentar perceber o quê? Não. Fica tal e qual como está a contagem, porque o título de cada post é, de facto, a contagem do número de dias que já passaram seguida do número de dias que faltam no ano assinalado. O que quer dizer que, de acordo com o título do post de hoje, o ano só iria terminar amanhã… Fico com um dia no limbo.

Se todo o ano de 2024 foi estranho na vida lá fora, porque é que não há-de o ser também no blog? Não, não vou mesmo tentar perceber o que se passou. Nos rascunhos não ficou nada por publicar, por isso…não sei. Mas também não me vou preocupar com isso

Faltam muito poucos minutos para encerrar 2024. Poder fechar esta porta e deitar a chave fora. Ainda não escrevi sobre o ano que se mostrou ser uma montanha-russa comboio fantasma que não precisa de moedas. Mas irei fazê-lo. Não sei se no Instagram ou se apenas no blog, será onde me forem saindo as palavras certas.

Mas, com a meia noite mesmo ao virar da esquina, quero muito desejar a TODOS os que estão aí desse lado, que me vão acompanhando mais de perto ou à distância, em silêncio ou reagindo de alguma forma, um 2025 MUITO BOM, MUITO FELIZ. Com os dois ingredientes mais importantes para um dia a dia tranquilo: SAÚDE e AMOR! Havendo esses dois, tudo o resto é possível.

Feliz Ano Novo para todos ❤️ gosto de vos saber desse lado ❤️

{#364.003.2024}

Falar da Margarida leva-me obrigatoriamente a falar dos fabulosos diospiros da ruína que a Margarida me enviou pelo correio e, claro, da sugestão de os comer depois de bem maduros com canela.

A Margarida, atrevo-me a dizer, é uma das coisas boas que 2024 me trouxe. Talvez para contrabalançar o tanto de mau que me trouxe e o muito que eu achava bom que me levou. 2024 trouxe-me um diagnóstico e com ele levou-me pessoas. Várias. Muitas que eu achava que estariam “ali” sempre. Mas não estiveram. E algumas simplesmente deixaram de estar. Mas, ao deixarem de estar, abriram espaço para que novas pessoas chegassem. Como a Margarida.

Não me lembro há quanto tempo chegou, mas lembro-me que, logo no dia da chegada, comentou uma publicação minha em que eu dizia sentir falta de conversar de viva voz. E escreveu “eu estou disponível para conversar”.

Percebi que a Margarida chegou através de contas que ambas seguimos. E da mesma forma que eu me delicio com as fotos do terreno da ruína, a Margarida dispensa do seu tempo para me acompanhar lendo-me.

Nunca vi a Margarida, não lhe conheço o olhar ou o sorriso. Mas isso nunca impediu ninguém de gostar muito de outro alguém. E foi isso que aconteceu com a Margarida.

Hoje, ao fim de vários meses, finalmente falámos ao telefone. Coisa pouca…”só” 50 minutos de conversa. E depois há quem me diga “o que raio conversaram em 50 minutos?”. Ri-me mas percebi que, com a Margarida, mesmo 50 minutos foi uma conversa rápida. E pareceu tanto um hábito recorrente de ligarmos uma à outra e simplesmente Ser. Ser quem e como somos. E todo o assunto que vier à conversa já faz parte do menu, mesmo tendo sido a primeira vez que falámos de viva voz.

A 2024 tenho a agradecer a chegada da Margarida, que para além de ter nome da minha flor favorita, tem um coração do tamanho do Mundo. E, já sei!, estraga-me com mimos ❤️

E quem quiser conhecer o terreno da ruína da Margarida onde as flores são lindas, a terra é fértil e tem um pôr do Sol fabuloso, pode ficar a conhecer na conta dela no Instagram: @margaridaemarnoia

Já agradeci a 2024 ter-me trazido a Margarida. Agora peço a 2025 para a manter por perto ❤️

E à Margarida deixo um abraço gigante daqui até ela.

{#363.004.2024}

Perdida por aí. Os dias a preto e branco, não importa quantas cores me rodeiam. O som longínquo de uma batida de música que só eu oiço porque, na realidade, essa batida de música não existe, mas na minha cabeça, aos meus ouvidos, é real. E incomoda. Muito. Ao ponto de querer partir para longe onde não oiça essa batida de música que, para os outros, é imaginária mas que para mim é demasiado real ao ponto de quase me enlouquecer.

Sinto-me uma sombra do que já fui. Não sou mais do que uma mera silhueta nos dias a preto e branco. Estão-me a faltar e a falhar os mil tons intermédios: os cinzentos! Que também são cor, que ligam dois extremos tão opostos como o preto e o branco. Que também têm, cada um dos mil tons de cinzento, histórias para contar e coisas para dizer.

Perdida por aí. À procura da cor que já preencheu os meus dias. Deixar de ser uma sombra e voltar a ser o que era, deixar de ser uma mera silhueta nos dias a preto e branco e voltar a ser aquele ponto de luz e cor. Cor de rosa, sempre. Deixar de ouvir aquela batida de música que começo a acreditar ser imaginária porque só eu a ouço…

Há forma de reencontrar o Norte para voltar a ser quem sempre fui…? Não sei…só sei que ando perdida por aí…

{#362.005.2024}

Acordar cedo depois de adormecer tarde não é política, especialmente quando ainda há um caminho a percorrer sujeito à rigidez do horário do autocarro para chegar a horas ao destino: a aula de Yoga.

Mas cheguei a horas graças ao serviço da Uber depois de mais um raspanete da minha mãe que tem toda a razão! E eu tenho que me convencer a mim própria, a mais ninguém!, de que não posso continuar a prolongar os dias pela noite fora, tenha ou não tenha horários a cumprir na manhã seguinte. E, já agora, se insisto teimosa e estupidamente a prolongar os dias pela noite fora, então que seja a fazer alguma coisa que me faça realmente bem! Passar horas e horas sentada no cadeirão na varanda, sozinha, sem ao menos estar a conversar com alguém do outro lado do ecrã, só a fazer scroll e a ver o tempo passar, não me traz nada de bom. Tenho ali tantos livros novos para ler! Tenho tanta coisa que quero estudar e aprender para me reencontrar, para me reconectar…mas nem a isso me tenho dedicado.

E, claro, dormir tarde e acordar cedo também não me traz nada de bom. Felizmente, apesar do sono de manhã, a aula de Yoga correu-me bem e, como sempre, foi muito boa. Mas, aquele bocadinho na esplanada à sombra e ao frio depois da aula, trouxe-me um desconforto desnecessário e demasiado grande. Que só passou já depois do almoço, depois do terceiro café do dia, quando enrosquei no sofá, na companhia das mantas e das almofadas térmicas quentinhas.

E aí ficou provado que, quando o corpo precisa de dormir para descansar e recuperar, não são 3 cafés que o vão impedir de fazer o que precisa!

Tinha muita vontade de ir apanhar Sol à tarde, caminhar até ao paredão e ver o pôr do Sol na praia. Claro que quem me iria acompanhar, a minha mãe, fez o favor de me informar de imediato que hoje não. Ainda ponderei a esplanada grande, onde o Sol espreita por entre as árvores. Mas rapidamente desisti por ser vencida pelo cansaço e pelo sono…

Lá fora o dia estava lindo. Novamente aquele azul intenso do céu totalmente limpo, a fantástica luz do Sol de Inverno que aconchega. Não tive oportunidade de o aproveitar. Mas fiz o que era o mais acertado: ouvi o meu corpo e obedeci-lhe.

Esta noite está a ir pelo mesmo caminho da anterior. Mas, felizmente, de forma muito mais serena. E amanhã não há horários para cumprir. A noite já se fez madrugada. Está mais do que na hora certa para ir descansar. E voltar a repetir a mim mesma que tenho que voltar à disciplina de horários de ir dormir mais cedo do que tem acontecido nos últimos tempos…

Não me esquecer: ir dormir mais cedo TAMBÉM É cuidar de mim! E eu tenho que voltar a estar em primeiro lugar para voltar a estar bem e conseguir alcançar o meu objectivo principal: atingir a melhor versão de mim mesma!

E é isso que vou fazer agora: cuidar de mim!

{#361.006.2024}

É possível sentir a cabeça muito cansada sem ter havido esforço mental, cognitivo ou até emocional? Sentir a cabeça extremamente confusa, baralhada e perdida no calendário? Sentir que já não sabes o que fizeste ontem à tarde mesmo que te digam que não fizeste nada? E no dia anterior, sabes o que fizeste? E no início da semana? Onde é que foste? Quem é que viste? Com quem é que falaste? Sabes, de alguma forma, que foste a algum sítio fazer alguma coisa com, talvez, alguma importância. Mas fazer o quê? Onde? Em que dia e em que horário?

Por muito que sinta que hoje é sábado à noite, já sei que não é, já me lembrei que ainda é sexta feira. Sei, porque me lembro, que ontem de manhã houve Yoga, houve conversa e café ao Sol na esplanada, praia logo a seguir enquanto fazia tempo para o autocarro, mas não sei o que aconteceu à tarde até sair para comprar tabaco e beber um café. Sei que, na véspera de Natal, à tarde, fui sozinha de autocarro até à praia ver o pôr do Sol, mas não sei o que fiz de manhã, sabendo que fiz alguma coisa que não me recordo. E a véspera de Natal, percebi agora ao rebobinar as ideias, aconteceu na terça feira. Mas não sei o que fiz durante o dia de Natal até sair para dar um bocadinho de uso às pernas e beber café ao fim do dia. E mesmo depois disso não sei o que se passou.

E só esta tarde percebi, porque mo recordaram, que este ano termina já na próxima semana. E eu ia jurar que seria lá para quinta feira até abrir o calendário e ver que, afinal, termina na terça…

Confusa. Baralhada. Perdida, até. E continuo zangada. Comigo. Apenas e só comigo. Porque na minha cabeça tenho uma tabela de Excel cheia de células apagadas, em branco. E não, sentir isto não é bom. Porque não são apenas as células de memória. São também as células de palavras, de nomes de coisas, que desaparecem ou se confundem enquanto tento uma conversa, enquanto tento tão simplesmente falar normalmente, sendo que é cada vez menos normal o meu discurso e mais normal o desaparecimento ou troca de células com informação que acaba aplicada erradamente. E, até a escrever, as células de informação parecem perder a luz e tornam-se simplesmente ilegíveis.

Estou a perder-me aos poucos. Não vou dizer que tudo isto é normal pelo isolamento desde Setembro de 2023. Pode até ser. A falta de convívio, interacção, rotina. Tudo isso junto pode levar a este estado de confusão, baralhação, esquecimento. Mas, para mim!, nada disto é normal. Não depois do esforço que tenho feito para que a informação na minha tabela de Excel da minha cabeça não se perca, não se baralhe, não se troque, não se apague…

…mas, também sei mas não aceito, pode ser mais um sinal de estrago feito pelo que me apanhou na curva…

Tenho que começar a puxar mais por mim. Organizar-me. Criar horários e rotinas. Para fazer o quê? Não faço ideia! Mas alguma coisa vai ter que acontecer! Alguma coisa eu vou ter que fazer acontecer! Não faço ideia do quê…mas alguma coisa! Porque como está, ou como estou!, não pode continuar!

E todos os dias me perco de mim mesma mais um bocadinho…e não posso. Nem quero! Perder-me de mim é o mesmo que deixar de existir a pessoa que sempre fui, com todas as qualidades e defeitos, e até capacidades! E eu não quero deixar de existir como sempre fui! Nem posso! Dizem que, com isto que me apanhou na curva, nasce uma nova Eu. Mas, percebo agora, essa nova Eu que está a nascer corre o risco de, negativamente, não corresponder em nada à Eu de sempre, que faço questão de manter, mas que sinto a fugir-me das mãos…e eu não sei como impedir essa fuga e essa transformação tão negativa em alguém que eu não reconheço, com a qual não me identifico e que, no fundo, NÃO SOU EU!

………

…um dia de cada vez…e, mais uma vez, a enorme vontade de chorar e não conseguir…

{#360.007.2024}

Manhã de Yoga a uma quinta feira. O suficiente para me baralhar o calendário. Porque o Yoga de manhã acontece ao Sábado. Quinta feira é dia de Yoga ao final da tarde. Mas, calendário baralhado ou não, a manhã foi aquilo a que se pode chamar de tudo de bom.

Aula maravilhosa, com uma energia rara de encontrar. Cada nova postura um desafio. Cada desafio superado é sinónimo de uma pequena grande vitória pessoal.

Percebi só hoje que, mesmo sendo o Yoga já de si uma actividade lenta, ultrapasso mais facilmente as faltas de equilíbrio se me mover de forma ainda mais lenta. E, dessa forma, consegui mais uma vez executar e manter as posturas que já tantas vezes me fizeram cair por falta de equilíbrio.

A energia da aula hoje foi incrível. Tudo fluiu de uma forma plena, consciente, ao mesmo tempo intensa na energia que quase se podia tocar.

No final, no lugar do relaxamento simples, mais uma vez Yoga Nidra. Aquele relaxamento profundo acompanhado de uma meditação guiada e uma nova viagem para nem sei onde. Hoje não foi o Azul. Não me consigo recordar da viagem de hoje. Apenas me recordo de me ter sentido muito bem, de uma forma que só quem pratica entende. Foi bom? Não. Foi melhor do que isso. Como é sempre.

Depois da aula, café na esplanada ao Sol com o Professor Pedro. Ainda um bocadinho fora, voltar destas viagens às vezes demora. Mas cá o suficiente para continuar a sentir a energia a fluir. Sol, café e uma conversa interessante. Era disto que eu andava a precisar: alguém com tempo, disponibilidade e vontade de conversar comigo sobre coisas normais. Soube bem. Muito bem.

Depois do café na esplanada e da conversa que soube bem, fazer tempo para o autocarro, agora sozinha. E a praia logo ali, do outro lado da estrada. Claro que não tinha como não ir até lá. Respirar o ar do Mar, ver o azul do céu riscado pelo branco das nuvens, ouvir o som das ondas daquela maré baixa numa praia sem ninguém. O sossego. A paz. A tranquilidade. O respirar fundo de forma consciente e simplesmente sentir. Desta vez sem música para me distrair e estar realmente ali naquele momento. E, na minha cabeça, a ecoarem as palavras do Professor Pedro: “estamos no Yoga para nos reconectarmos connosco”. E foi aí que confirmei que é exactamente disso que eu preciso: reconectar-me comigo mesma.

Cada vez sinto mais necessidade de me reencontrar com a natureza. Com o mato. A vegetação. As árvores. Enraízar-me. Reencontrar-me.

O último ano tem sido um grande desafio. E tem sido muito difícil manter a certeza de que eu continuo a ser EU. Assumir, aceitar o que me apanhou na curva tem sido outro grande desafio. Daqueles que eu chego a fazer de conta que não existem, que eu não preciso de ultrapassar porque nada vai mudar, eu vou continuar a ser EU, está tudo igual. Quando não é verdade. E eu sei que não é verdade.

Tudo mudou. E até eu estou a mudar de alguma forma. E o Mar, que eu gosto tanto de ter tão perto e de, de vez em quando, ir ver e respirar fundo aquele ar salgado, é perfeito para desconectar. Desligar o chip. Esquecer o que se passa à minha volta. Esquecer o que se passa comigo. Quando, na verdade, o que eu preciso é de me reencontrar. De me redescobrir. De me reconectar comigo mesma.

E é aí que entra essa necessidade de mato. De vegetação. De árvores. Porque, se o Mar desconecta, se desliga o chip, cada vez mais estou desconectada de mim mesma. E não posso. Preciso de, literalmente, voltar à terra, aos ramos partidos das árvores, às folhas da vegetação que nos fazem sentir que temos raízes profundas para nos tornarem mais fortes. Mais resistentes, resilientes como as árvores. Aquelas que, quando apanhadas no meio da tempestade, vergam mas não quebram…

Sempre disse que, quando fosse grande, queria ser uma árvore. Pela força. Pela resistência. Pela resiliência. Mas também pelos frutos que nascem das flores que brotam das árvores. Resultados de um trabalho interior que não se vê de fora, só os resultados são visíveis. Mas esse trabalho interior existe. É exigente. Mas é possível. E real.

Faz-me falta o verde do mato e das árvores para me reconectar depois de tanto tempo no azul do céu e do Mar que, com o tempo, acabou por me desconectar. De mim mesma.

E é com o Yoga que eu consigo o equilíbrio que me falta para me reconectar comigo mesma, mesmo sem o verde do mato até, pelo menos, à Primavera.

Todos os dias são um desafio. E os últimos dias têm sido uma espécie de momento de reflexão e percepção do quanto me desconectei. De mim mesma, mas também de tudo à minha volta. Da rotina. Do trabalho. Das pessoas. Porque me perdi algures pelo caminho do último ano. E preciso, muito!, de me reencontrar, de me reconectar comigo mesma. E, alcançando essa reconexão que não é imediata, que é um trabalho diário constante, reencontrando-me, reconectando-me comigo mesma, redescobrindo-me neste meu novo normal, aceitar o que me apanhou na curva acaba por acontecer naturalmente. E tudo o resto volta a mudar. Mas para melhor.

Do Yoga: parar para respirar fundo e de forma consciente. Concentrar-me apenas na respiração. Fazer apenas isto por um tempo, breves minutos para começar. Permite-me no final a tranquilidade e serenidade necessárias para voltar a ser EU, o EU que sempre fui mas que se perdeu algures no caminho do último ano. Mas que, curiosamente, com o compromisso que assumi perante mim mesma relativamente ao Yoga, tenho vindo a descobrir em mim, ou se calhar a redescobrir em mim, aquilo que sempre soube que tinha mas que por um tempo esqueci-me: a resiliência. Porque, afinal, há muitos anos que digo que quero ser uma árvore quando crescer. E é aí que me vou reencontrar, redescobrir, reconectar comigo mesma: no Yoga e em tudo o que o Yoga me traz e me ensina.

Parar para respirar fundo e de forma consciente. Concentrar-me apenas na respiração. E, por hoje e porque a noite já passou a madrugada, vai ser assim que vou terminar o dia. Não tenho a certeza de onde saiu tudo o que aqui registei. Mas não duvido que veio de dentro. Mas por hoje já chega. E o Yoga Nidra deixou-me num estado absolutamente relaxado até esta hora. Como deixa sempre, aliás. E, já sei, este estado ainda profundamente relaxado vai proporcionar-me um sono reparador. Como estou a precisar…

{#359.008.2024}

Eu sei…ainda é dia de Natal. Pelo menos por mais meia hora, ainda é aquele dia em que devíamos (…?) estar alegres, felizes, orgulhosos até, em paz, sei lá eu mais o quê.

…mas, ter saído de casa hoje ao final do dia, apesar de mentalmente muito necessário e fisicamente imprescindível para dar um bocadinho de uso às pernas, não me fez tão bem como eu achava que iria fazer…

É verdade que a cabeça arejou um bocadinho, o espírito espaireceu por aí, encontrei um café aberto com esplanada e tive a oportunidade de ficar por lá uma boa meia hora e beber um café enquanto fumava um cigarro. A tentar, na realidade, arrumar a confusão dentro da minha cabeça. Mas o ruído…novamente o ruído!, a deixar-me ainda mais confusa e baralhada, e a cada mota que passava a vontade urgente de simplesmente tapar os ouvidos, tal era o incómodo que o ruído das motas me fez sentir. E não foi nem uma, nem duas, nem três, nem…

Acabei por desistir da esplanada e voltar para casa, atrelada ao braço da minha mãe. Porque, se ontem CONSEGUI ir até à praia sozinha e voltar, hoje nem em casa consigo andar sem me apoiar nas paredes, nas ombreiras das portas, no móvel da sala, na mesa…em qualquer sítio firme o suficiente para eu me apoiar!

Ainda na rua o caminho não foi fácil. Para lá achava que era por ainda não ter andado praticamente nada o dia todo. Mas no regresso……no regresso tive a certeza: alguém me levou, durante a noite, mais um bocadinho (grande) do pouco equilíbrio que ainda me resta e que faço por trabalhar todos os dias! E, quando dei por mim, no regresso a casa já estava no mesmo estado em que estou agora, às 23h30: zangada! MUITO zangada! COMIGO MESMA! Apenas e só comigo!

Porque eu não sou isto. Ou melhor, não era! Mas AINDA não aceitei que sim, isto agora faz parte da minha realidade. Do meu dito novo normal. Que AINDA não consegui aceitar que NÃO TEM retorno!

Zangada! TÃO zangada! Comigo! E sem saber lidar com esta zanga que, todos os dias, cresce mais um bocadinho…

…já é tão tarde e eu ainda tenho tanto para fazer hoje! Sendo que amanhã é dia de acordar cedo. Mas…zangada só me apetece chorar. E CONTINUO a NÃO CONSEGUIR CHORAR!

{#358.009.2024}

Véspera de Natal. Um dia lindo lá fora. Um céu de um azul intenso, o Sol a assumir o domínio de um dia frio de um Inverno recente. E eu sozinha em casa depois de almoço, com uma tarde inteira pela frente para não fazer absolutamente nada. Não me apeteceu ficar presa em casa com o dia lindo que estava lá fora. E desde o final da manhã a minha cabeça fixou a ideia de reclamar a minha autonomia, a minha independência de volta! Ou parte dela, pelo menos. Apesar do risco consciente. Mas é importante recuperar o poder ir sozinha a algum lado, não estar sempre dependente da minha mãe para me deslocar apoiada para além da bengala.

Tenho plena consciência de que o risco de queda existe. A um nível relativamente alto. Tenho noção das eventuais consequências de uma possível queda. Mas não posso, por simplesmente ter medo, desistir de fazer o que (ainda) consigo fazer. Neste caso, simplesmente deslocar-me do ponto A ao ponto B sozinha. E hoje decidi que era o dia certo para o fazer. Sozinha em casa a tarde toda, nada para fazer, um dia maravilhoso lá fora. E a minha cabeça em loop a dizer-me “vai!” E eu fui.

Ir até à praia que fica mais perto de casa implica chegar ao parque, atravessar a imensidão que é esse espaço que adoro, que me transmite uma paz (quase) inexplicável, chegar ao outro lado e atravessar o parque de estacionamento para chegar à rampa de acesso ao paredão e aí então parar, descansar e apreciar a praia. Mas é um caminho lento, demorado e, até, doloroso. E, só pela longa distância e tempo de caminhada achei por bem não insistir em ir pelo parque. Mas ir à praia tinha que acontecer.

O autocarro que me leva até ao Yoga. É o mesmo autocarro que ando há meses a prometer apanhar para ir caminhar na praia. E hoje não havia desculpa. Consultei o horário, planeei o meu tempo, quase não conseguia cumprir o objectivo de chegar à paragem antes da hora prevista para a passagem do autocarro porque, diz-me a experiência, tantas vezes passa mais cedo… Respirei fundo, vesti o casaco, phones nos ouvidos porque sem música não dá, peguei na bengala, inspirei fundo novamente como quem está a ganhar coragem, e estava!, e saí de casa. Sozinha. Só eu e a bengala…

Não me recordo de quando foi a última vez que saí de casa sozinha para ir a algum sítio sem ser o café do costume. Não faço ideia, mesmo. Mas posso arriscar que já foi há uns meses

Desci as escadas do pátio e dei por mim a olhar para o chão à procura do caminho menos acidentado, com menos buracos, menos pedras da calçada soltas. Endireitei-me. Voltei a respirar fundo. Sabia que já passava da hora que tinha programado para sair de casa com tempo para poder ir até à paragem com calma, devagar, ao meu ritmo lento e cuidadoso. Dei o primeiro passo sozinha a medo como dou sempre que saio sozinha para as traseiras do prédio onde o piso de alcatrão é mais certo, mais regular, onde os buracos são mais pequenos e mais fáceis de contornar e onde não há pedras da calçada.

Percebi, mais uma vez, que corria o risco de não chegar a tempo à paragem. Mas avancei, ainda assim. A medo, à procura do meu ponto de equilíbrio que nunca sei onde encontro e fiz-me ao caminho. Não sei como o fiz, mas fui a um ritmo mais acelerado do que aquele ritmo cuidadoso e cauteloso habitual. Acho que, por momentos, consegui esquecer, ou pelo menos ignorar, aquilo que me apanhou na curva e me trouxe tantas dificuldades para caminhar sozinha.

Perdi a conta aos pontapés no chão, sempre com o pé esquerdo, as vezes que a bengala bateu nos altos da calçada provocados pelas raízes das árvores ou simplesmente porque o braço esquerdo não estava a colaborar com a minha pressa e não levantava a bengala o suficiente para não bater em nada no chão.

Há muito tempo que deixei de ter pressa e aceitei e assumi um ritmo mais lento. Mesmo antes de sequer existir uma suspeita de que alguma coisa errada se passava comigo. Dizia sempre que não tinha pressa para nada, a não ser cumprir horários, especialmente se fosse o horário do autocarro. E, até nesse caso, mesmo assim…

Cheguei à paragem 5 minutos antes do horário previsto para a passagem do autocarro. Mas eu não confio aquelas previsões…quantas vezes ele não passou já 10 minutos antes da hora…? Sentei-me. E comecei a esperar. E a esperar…e a questionar-me se já teria passado ou não. Até que, finalmente e atrasado, o autocarro chegou.

O autocarro pode ter mil motivos para se atrasar, seja o trânsito, sejam as pessoas a entrar e/ou a sair. É compreensível e, de certa forma, até aceitável. Mas eu tinha uma hora certa marcada. 17h21m. Aquelas horas marcadas que não temos como alterar. Se chegar antes da hora, não tem qualquer problema. Espera-se um bocadinho e pronto. E eu queria mesmo chegar antes da hora. Mas se chegar 1 minuto que seja depois da hora marcada, já não há nada a fazer.

Da minha paragem até à praia que eu queria são apenas 3 paragens, o mesmo que dizer que são 7 minutos de viagem. O autocarro chegou atrasado uns minutos, é verdade. Mas as 3 paragens da viagem, os 7 minutos, fizeram-me chegar mais do que a tempo.

Saí do autocarro e percorri sem pressa os 200 metros até à praia. E lá estava ele naquele imenso e intenso céu azul a preparar-se para mergulhar na linha do horizonte: o Sol a preparar-se para se pôr. E o que eu queria, o que eu quis o dia todo, ia acontecer! Ia, finalmente!, voltar a ver o pôr do Sol na praia!

Aquela que foi a minha praia da adolescência é agora a praia que eu quero para ver o pôr do Sol. E também para ir caminhar na areia, como recomendou o neurologista: na areia seca para trabalhar o equilíbrio, na areia molhada para estimular os pés. Ainda não foi ontem que descalcei as botas e fui até à areia. Mas sei que, em dias menos frios, é a praia ideal para o que preciso de fazer. E, tendo o autocarro tão à mão, não pode haver desculpas!

O Mar estava como há algum tempo não o via: praticamente sem ondas, a lembrar a estabilidade de um lago ou albufeira. Calmo. Muito tranquilo. Como se soubesse que eu estava a chegar. O céu a começar a mudar de cor, mas o azul sempre presente, sempre intenso. E o Sol a descer também ele sem pressa apesar da hora certa marcada para o mergulho na linha do horizonte.

Deixei-me ficar ali sentada no banco a ver, a olhar, a observar. Mas, acima de tudo, a sentir. A paz. A tranquilidade. O sossego daquele lugar que me conta histórias de há mais de 30 anos. Mas, apesar de ter ido sozinha, não estava só. Como nunca estou!

À distância de um clique, ele. Aquele presente de Natal que eu mais queria ali comigo naquela hora marcada para o mergulho na linha do horizonte. Fui partilhando aquele Mar sem ondas que ele conhece. Fui partilhando também o Tsunami que, para ele, sou eu. E aquele mergulho na linha do horizonte a dar ao céu cores que eu há muito tempo não via e que partilhei com ele como se ambos estivéssemos ali, de mão dada comigo ou envoltos num abraço só nosso.

Há muito tempo que não assistia a um pôr do Sol na praia tão bonito como este. E aquele momento em que o Sol desaparece por completo, aquele último pedacinho que, ao mergulhar na linha do horizonte, solta um rápido brilho diferente e especial… Acho que foi a primeira vez que verdadeiramente me emocionei com o pôr do Sol. Na praia ou onde seja, nunca me aconteceu ficar sem palavras com aquele momento. É só um momento. Acontece depressa. Mas mais do que apenas um momento, é um espectáculo emocionante. E, desta vez, não sei se por estar sozinha mas não só, teve um brilho diferente, especial.

Sol posto. E o azul do céu mais intenso. Mais bonito. Mais……mais tudo! E tê-lo partilhado com ele, mesmo à distância de um clique, foi tão bom.

Mas a hora de voltar para casa estava a chegar. Fiz o caminho de regresso à paragem do autocarro, agora do outro lado da estrada. Devagar naquele caminho de chão de madeiras incertas até alcançar o passeio. Atravessar a estrada calmamente e ainda a tentar interiorizar aquele espectáculo que tinha acabado de presenciar. E que espectáculo maravilhoso!

Autocarro mais uma vez atrasado. 2 minutos apenas, nada de extraordinário. Mas a vontade de voltar para casa era zero. É noite de Natal, aquela noite em que a família se reúne. E a minha vontade era passar a noite de Natal na praia. Com ele, claro.

Novamente 3 paragens de autocarro, novamente 7 minutos de viagem. E, ainda na minha cabeça, aquele espectáculo maravilhoso. Aquele espectáculo que, enquanto a minha memória não me trair, não vou esquecer tão cedo. E, a vontade de voltar para casa, nula…

Sair do autocarro e perceber que o café dali ainda está aberto e com a esplanada disponível. Beber um café e fumar um cigarro. Afinal, ninguém em minha casa precisava de mim. Estava tudo tratado e arranjado para o jantar, o meu irmão dormia no sofá, a minha mãe sempre de um lado para o outro e a certeza de que, mesmo que eu estivesse em casa, não seria de grande utilidade…

Enfrentar o caminho de regresso. Agora de noite, sem perceber muito bem o estado da calçada, confiando na experiência de já ter feito aquele caminho tantas vezes. Mas agora a uma velocidade mais lenta e mais segura. E, no caminho de regresso a casa, perceber que, para mim, o Natal já estava feito…

Perceber que, apesar dos meus sobrinhos ausentes, apesar da distância dele que eu queria tanto que estivesse e fosse (sempre) presente, a maior e melhor de todas as prendas de Natal que eu poderia receber fui eu mesma que me ofereci: o desafiar-me a mim mesma a ir sozinha ver o pôr do Sol na praia e ter aceite o desafio que foi superado sem quedas nem sustos nem acidentes! Simplesmente a minha cabeça insistiu em dizer “vai!“. E eu fui. E não só fiquei emocionada com o espectáculo do pôr do Sol na praia como também fiquei feliz e orgulhosa da pequena grande conquista de ter ido sozinha e voltado em segurança. Aquilo que, para mim, foi a prova de que eu consigo! Posso ter algumas dificuldades e/ou limitações, mas, querendo muito, eu consigo!

{#357.010.2024}

Dias como o de hoje às vezes também são precisos: dias de não fazer rigorosamente nada. E adormecer no sofá demasiado perto da hora de jantar. O que só foi possível por estar sozinha em casa. Não sei quanto tempo depois a minha mãe chegou. Sei, apenas, que acordei muito perto das 11h da noite. Duas torradas e um iogurte no lugar do jantar. O descafeinado do costume está bebido. É hora de ir para a cama.

Do que fica do dia de hoje: as tatuagens na memória. As loucuras e devaneios partilhados. O que é que isso significa? Isso guardo para mim.

Amanhã é outro dia. Que calha também ser a véspera de Natal. Vão ser mais os ausentes do que os presentes. Uns que, não estando amanhã, estarão depois. Outros, como ele, que estão longe fisicamente mas, ao mesmo tempo, sempre comigo, ao meu lado, de mão dada comigo em todos os momentos.

E assim foi aquele dia em que não se fez rigorosamente nada, excepto novas tatuagens na memória. E essas ficam. Para sempre.