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Se perguntarem por mim, dir-vos-ei que não estou. Esta que vos fala é outra que não eu.

{#345.022.2024}

Mais uma ida ao Hospital para picar o ponto. Ou, neste caso, picar o braço para mais uma colheita de sangue para análises. Controlar os níveis da função hepática por causa da medicação preventiva da tuberculose latente. Aquele antibiótico de toma diária em jejum que iniciei a 23 de Maio e que só vou deixar em Fevereiro… E a minha esperança é de que realmente elimine o bacilo que carrego comigo em estado latente sabe-se lá desde quando e que, agora oficialmente imunodeprimida por causa da medicação semestral para isto que me apanhou na curva, é bom que não acorde. Passar de tuberculose latente para activa com o sistema imunitário seriamente comprometido seria um grande e grave problema. Por isso, torço muito para que o antibiótico esteja a fazer o seu trabalho certinho. E, de preferência, sem (grandes) danos na função hepática… Mas amanhã é dia de Teleconsulta com a Infecciologista e vamos ver o que ela tem para me dizer. E espero não me esquecer das coisas que tenho para perguntar… Logo se vê.

A coisa mais positiva nesta ida ao Hospital foi perceber que, se não se lembrarem de mais nada e não havendo motivo para uma ida às urgências, já só lá volto em Janeiro! E perceber isso fez-me sentir que há uma espécie de normalidade a voltar. Mas não me esqueço daquela altura em que todas as semanas tinha que ir ao Hospital para consultas, análises, exames. E, pelo meio, a fisioterapia diária também no Hospital.

Na verdade nunca pensei vir a ser uma utente tão frequente do Hospital Garcia de Orta. Ou de outro qualquer, já agora…

E, mais uma vez, a noite começa a roçar a madrugada e amanhã é preciso acordar cedo. A consulta é feita por telefone, é verdade, mas não há uma hora marcada para que aconteça. Entre as 9h e as 17h, pode ser a qualquer momento. Por isso, está mais do que na hora de enroscar e aninhar para aquecer e descansar de um dia longo que, para além de Hospital, ainda meteu mais uma ida ao Almada Fórum. Mais uma prova de fogo para a resistência do meu equilíbrio, da minha marcha e, especialmente, das minhas pernas.

Chega por hoje. Vou enroscar. Nele, claro. À nossa maneira que só nós entendemos. E que só nós temos que entender. E as saudades que eu tenho dele…acho que nem ele tem a real noção. Mas, também aqui, logo se vê. O importante agora é ir descansar e dormir já. Amanhã também é dia. E o resto? É só mesmo isso: o resto.

{#344.023.2024}

Era uma vez uma miúda que era cheia de sorte e não sabia. Um dia recebeu uma mensagem a dizer para ficar atenta ao correio porque o Pai Natal ia chegar mais cedo. Passados uns dias, o Pai Natal que vinha do outro lado do Mundo, chegou. E trouxe-lhe um presente que era exactamente a cara dela e ela ficou muito feliz.

Os dias foram passando e começou a azáfama das compras de Natal. A miúda cheia de sorte foi até ao Centro Comercial acompanhada da sua melhor amiga: a Mãe. Viu uma ou outra coisa que gostou e a Mãe disse-lhe: “Gostas? Então levamos.”.

Os dias, sempre iguais, continuaram a passar e, de vez em quando, o carteiro lá trazia mais um postal ou mais uma surpresa e até uma encomenda feita por ela mesma de algo que estava prometido desde o Verão. E ela, a miúda cheia de sorte, sorria.

As compras ainda não tinham terminado, era preciso comprar mais uns quantos presentes. Ela e a Mãe viraram-se para a Internet e encomendaram várias coisas, especialmente para os sobrinhos. Até que ela ganhou coragem e mostrou à Mãe a loja online que tinha debaixo de olho há vários dias com aquelas botas que não só lhe tinham enchido as medidas mas que, ao mesmo tempo, estava a precisar. E a Mãe disse-lhe, simplesmente: “Manda vir.”. E ela tratou de fazer a encomenda e o pagamento e começou a contar os dias para a entrega.

No fim de semana, em que nada de extraordinário se passou, a miúda de sorte falou com a Mãe e disse “esta Editora daqueles dois livros que eu quero há tanto tempo está com promoções”. E, mais uma vez, a Mãe anuiu e disse-lhe “Podes aproveitar a promoção de paga 2 e leva 3” e ela assim fez.

Segunda feira, dia marcado para a entrega das botas que estavam debaixo de olho, ao acordar leu a mensagem que tinha no telemóvel: “esta semana fica atenta a entregas”. E ela, que não estava nada à espera de nada, ficou sem saber muito bem o que dizer. Agradeceu, claro. E repetiu tantas vezes para si mesma: “eu já fico feliz com um simples postal na caixa de correio”.

Recebeu, a seguir ao almoço, a caixa enorme onde, já sabia, vinham as botas novas da miúda de sorte. Mas não quis abrir logo. Sentiu aquela ansiedade boa da antecipação de quem está a receber um presente e quis saborear essa ansiedade boa por mais um tempo.

Também logo a seguir ao almoço, a confirmação da Editora: os livros serão entregues terça feira. De facto, para uma compra feita a um Domingo às 23h55m, ter a confirmação na segunda feira à hora de almoço de que os livros iriam chegar na terça feira de manhã foi como receber uma dose grande de ânimo.

A caixa das notas continuava por abrir à meia noite. Não podia ser. Era preciso abrir, experimentar e ter a certeza de que o tamanho estava correto. A miúda cheia de sorte levantou-se do cadeirão, foi até à sala, pegou na caixa enorme e linda, ainda por cima cor de rosa!, sentou-se no sofá com a Mãe, respirou fundo e disse: “está na hora! Vamos a isso!”.

Abriu a caixa com todo o cuidado e respeito que um presente merece. Ergeu a tampa e foi surpreendida pela mensagem impressa na caixa em letras grandes: “Enjoy every moment.”. “Aproveita todos os momentos”, numa tradução livre e espontânea. A miúda cheia de sorte soltou um sorriso ainda maior e, depois de ler em voz alta o que a caixa lhe dizia, disse para si mesma: “é o que estou a fazer!”.

Dentro da caixa enorme estava outra caixa com a marca que acompanha os passos da miúda cheia de sorte desde 2016 e da qual ela não abre mão. Palladium é sinónimo de conforto, confiança e qualidade. Por baixo dessa caixa um saco transparente com o outro artigo que tinha escolhido: uma mochila para o material do Yoga. Seria de pensar que a primeira coisa a ser aberta fosse a caixa, mas as botas teriam que esperar só mais um bocadinho.

Tirou a mochila de debaixo da caixa e de dentro do saco e o sorriso continuava a brilhar. A mochila, de uma marca que a miúda de sorte conhece há muitos anos mas que nunca teve nada seu, era exactamente o que ela estava a precisar. O tamanho certo, o material certo, a qualidade reconhecida há muito tempo. Agora sim, tem uma mochila em condições para levar os blocos de Yoga para as aulas, faça chuva ou faça Sol.

Chegou a altura de abrir a caixa restante. A caixa das botas. Botas cuja referência já a tinha feito rir quando as viu no site e que voltou a fazer quando leu a etiqueta colada na caixa: Re-Vegan Leather. A miúda cheia de sorte nem sequer é vegetariana, mas agora ia ter umas botas de “pele vegana reciclada”. E só a referência era suficiente para a fazer rir. Mas a explicação é mais simples e acaba por perder um bocadinho a piada: pele sintética reciclada. Com palmilhas em cortiça e plástico reciclado. 100% livre de utilização de qualquer coisa de origem animal. Mas dizer que se tem umas botas veganas é muito mais engraçado por remeter de imediato para algumas pessoas que a miúda cheia de sorte conhece.

Abriu a caixa com todo o cuidado enquanto respirava fundo e de forma consciente como aprendeu no Yoga e que transporta para o dia a dia sempre que sente necessidade. E naquele momento, quase solene, a miúda cheia de sorte e cheia de ansiedade da boa pela antecipação sentiu a necessidade de parar para respirar como deve ser. E, ao abrir a caixa e tirar o papel que cobria as botas, o sorriso tornou-se gigante e os olhos brilharam como há muito tempo não brilhavam. As botas. Lindas. Perfeitas. Cor de rosa muito clarinho! E que agora eram dela!

Calçou as botas para experimentar se estava tudo bem com o tamanho, se o fecho lateral era sentido e magoava. Tudo perfeito como só a Palladium sabe fazer. Como só a Palladium sabe ser! E, como sempre faz quando compra um novo par de Palladium desde 2016, repetiu para si mesma: “and Cinderella found her shoes…”

Já era tarde, muito tarde. Demasiado tarde, como agora, quando a miúda cheia de sorte arrumou as botas lindas e perfeitas ao lado da cama quando a vontade era mesmo de dormir com elas nos pés, tal não é o conforto!

Adormeceu rápido com um sorriso no rosto, sentiu-se completamente aconchegada pelo dia que teve e dormiu a correr para hoje acordar cedo. Mas, ainda na segunda feira à noite, quem lhe disse para estar atenta a entregas esta semana confirmou que a entrega seria feita hoje por transportadora. E que era um mimo, com sentimento e cuja única intenção era fazê-la sorrir. E só essa frase fez a miúda cheia de sorte sorrir ainda mais. Até ler que não está sozinha, mesmo que a presença física seja difícil. “Não estás sozinha”…e aí, especialmente aí!, a miúda cheia de sorte confirmou que, de facto, é mesmo uma miúda cheia de muita sorte e não está sozinha. Agradeceu mil milhões de vezes. E só não chorou verdadeiramente emocionada porque, a miúda cheia de sorte, continua a não conseguir chorar.

E chegou a terça feira. Que na teoria ainda é hoje mas que, pelo avançado da hora em que a noite já passou a madrugada, na prática já foi ontem. Que foi aquele dia de contrariar o horário de despertar tardio dos últimos dias e esperar uma entrega em casa e um levantamento na papelaria.

A mensagem a confirmar a chegada da encomenda à papelaria chegou ainda a meio da manhã. E a entrega do mimo cuja intenção é fazer-me sorrir e já fez muito mais do que isso foi feita à hora de almoço.

E a miúda cheia de sorte que já fica contente quando recebe um postal e que tem um blog que é uma (autêntica) Caixa de Chocolates, abriu a caixa da entrega e não só sorriu como riu! Porque, lá dentro, um chocolate artesanal agarrado a um postal! Um verdadeiro dois em um que foi um autêntico Jackpot. A miúda cheia de sorte sentiu-se tão bem, tão acompanhada, tão cheia de sorte…especialmente por ter a confirmação de que, de facto, não está sozinha!

O chocolate está reservado para um momento especial, que já sei, disse-me ele, todos os momentos são sempre especiais. Seja como for, fica guardado. Quando for a hora certa será degustado lentamente e saboreado como se saboreia uma verdadeira amizade.

Final da tarde. E, lá fora, todo o dia pela minha janela aquela luz fabulosa que tem estado todos os dias e que me tem feito tanta falta. Vejo-a lá fora pela minha janela e sei que, por causa do frio que está, dificilmente essa luz trará qualquer calor. Mas não é o calor que eu procuro. É, unicamente, a luz. A sua intensidade. A sua força. No fundo, a beleza dessa luz que, todos os dias vejo da minha janela. E que, por algum motivo, quando finalmente chego à rua o Sol já começou a esconder-se para lá do Mar e em poucos minutos vem o breu da noite. E hoje não foi excepção, claro. Mas ainda assim ainda tive motivos extra para continuar a sorrir.

Demorei o tempo que precisei de demorar até chegar à papelaria onde a minha encomenda de livros esperava por mim. Entrei, disse que vinha levantar uma encomenda. Dei o meu nome e preparei-me o para receber o vulgar e expectável envelope almofadado com os livros e um saco de pano lá dentro. Mas não. Porque a miúda cheia de sorte é isso mesmo: uma miúda cheia de sorte. Em vez de um vulgar e expectável envelope almofadado, os meus livros, que são 3, e o saco de pano oferta da editora vinham cuidadosamente embrulhados, à antiga, numa folha de papel craft rematado por um fio de lã também à antiga.

Custou-me a acreditar que, apesar da encomenda tão tardia e expedida em tão pouco tempo, houve tempo, cuidado e carinho para os meus livros serem tratados como merecem: com alma.

Ainda não abri o pacote que esconde os meus livros. Acho que, de alguma forma, tenho receio de chegar à noite de Natal e não ter embrulhos para abrir. Mas, se há alguma coisa que os últimos dias me têm ensinado, é que de facto não estou sozinha e mereço todo este carinho. Tudo porque sou uma miúda cheia de sorte. E estou feliz por sabê-lo sentindo-o.

O sorriso dificilmente me irá sair do rosto nos próximos tempos. E aquele conforto de saber que não estou sozinha não tem explicação de tão bom que é.

Mas a noite já se fez madrugada. Amanhã é dia de análises mensais no Hospital à hora de almoço. Por isso, é preciso agora descansar e dormir para amanhã poder abraçar aquela luz fantástica que tenho visto todos os dias. E, se alguém duvidar, o meu sorriso estará sempre presente para confirmar que eu sou uma miúda cheia de sorte!

{#343.024.2024}

Segunda feira e, novamente, acordar tarde. Muito tarde. Demasiado tarde. Tudo porque ontem nem eu nem a minha mãe tínhamos sono. E estivemos as duas entretidas e bem dispostas a ser o que somos sempre: mãe e filha, as melhores amigas uma da outra. Na conversa. A mexer em papéis. A comprar livros online. A dizer disparates de vez em quando porque também fazem parte dos nossos momentos a duas.

Acordar com uma mensagem no Messenger: “vai uma entrega a caminho“. Oi? Como assim? Fiquei sem saber o que responder. Mas, admito, fez-me muito bem receber essa mensagem inesperada. Não por saber que vem (mais) alguma coisa a caminho, mas pelo tamanho do gesto. De carinho. Disponibilidade. Atenção. Tudo isso tem um tamanho que não se consegue medir. E menos se consegue medir quando, à noite, ela me diz que é um mimo, com sentimento e cuja única intenção é fazer-me sorrir. E a verdade é que, só pela mensagem inesperada, já me fez sorrir o dia todo. Senti-me aconchegada. Acolhida. Aceite. Especialmente quando ela me disse que não estou sozinha. Que a ausência física custa, mas não estou sozinha. E eu, claro, grata por todo este carinho e sem saber mesmo o que dizer, o que responder. Quando a minha vontade era agradecer com um simples mas sincero abraço

Depois do almoço, chegou a encomenda que eu esperava. Aquela que ficou aceite como sendo a prenda de Natal da minha mãe para mim. Uma caixa grande e bonita. Cor de rosa, obviamente! A encomenda que foi entregue às 15h35m e que, durante horas a fio, ali ficou na sala, em cima do banco, à espera que eu a abrisse. Eu sabia exactamente o que estava dentro da caixa. Fui eu que escolhi. Que efectuei a encomenda. Que tratei do pagamento. Não seria nenhuma surpresa dentro da caixa. Mas, ainda assim, fui adiando a abertura. Porque, mais uma vez, aquele friozinho na barriga da antecipação instalou-se em mim. E quis saborear esse friozinho. Essa ligeira ansiedade boa. Porque é tão raro receber presentes, quis sentir essa coisa tão boa que é receber um presente.

A caixa manteve-se fechada até depois da meia noite. E, lá dentro, tudo aquilo que eu esperava. E, ao abrir, a minha mãe dizer-me que, afinal aquela prenda é de mim para mim e não dela para mim. Fiquei algo confusa, claro. Mas feliz na mesma. Independentemente de quem é a prenda, são dois artigos que eu efectivamente preciso. E são tudo o que esperava, mas ainda melhores.

Conforto e qualidade. E lindos. E, com isto tudo, esta noite vou dormir muito aconchegada por estas pequenas coisas que preencheram o meu dia.

A presença dele também me aconchegou depois do silêncio de ontem. E sabê-lo à distância de um clique sabe-me sempre tão bem. Faz-me sempre tão bem. Mesmo que, por vezes, a minha insegurança e o meu medo tentem tomar conta de mim. Mas, sabendo-o à distância de um clique disponível para conversar sobre o que se passa comigo, ou até mesmo com ele, tenho a certeza de que a minha insegurança e o meu medo não ficam presentes por muito tempo. Porque ele, só de estar à distância de um clique, só de ter disponibilidade e vontade para conversar, me tranquiliza e me fortalece. E é também por isso que gosto tanto dele.

Claro que, entretanto, a noite já entrou na madrugada. Mais uma vez. E não pode continuar assim. Mas, amanhã, vou obrigar-me a acordar cedo de qualquer forma. Para, à noite, conseguir obrigar-me a deitar-me cedo.

Por hoje já chega. Ainda estou numa espécie de estado de graça por todas as coisas que parecem pequenas e que, na realidade, são enormes. E que me sabem tão bem. E que me fazem tão bem. Mas está mais do que na hora de dar o dia por terminado. Amanhã? Pedi-lhe uma espécie de “serviço de despertar” para as 9h. Mas duvido que vá acontecer, sei que não gosta de falar ao telefone, embora já tenhamos falado algumas vezes. E, para quem não gosta muito de falar ao telefone, já aconteceu mais do que uma vez falarmos mais de uma hora! E agora, ao lembrar-me disso, dou por mim a rir sozinha. Porque ele diz sempre que não diz nada de jeito, mas depois a conversa simplesmente fui.

Mas por agora chega. A corujinha tem que ir descansar, dormir até o despertador tocar às 9h. E, se o telefone também tocar às 9h, pode ser que um certo polvinho tenha aceite o desafio. Logo se vê. O mais importante neste momento é sair do frio, aquecer as almofadas, vestir o pijama e enfiar-me na cama. Onde, todas as noites, enrosco nele na nossa conchinha de bichinho de conta que só nós entendemos.

Hoje foi um dia bom. Amanhã também será.

{#342.025.2024}

[pouco depois das 17h…]:

Está uma luz linda lá fora. Tenho acompanhado esta luz, hoje tão bonita, o dia todo pela minha janela. A vontade de ir à rua sentir esta luz, sentir o calor desta luz num dia que, ainda sendo Outono, está frio como um Domingo de Inverno, é uma vontade enorme de quem pouco sai de casa. Mas o efeito sonoro da força do vento nas minhas janelas traduz-se facilmente num sinal de aviso: o risco de queda com o forte vento que está lá fora é grande. E real.

Facilmente poderia preparar-me para enfrentar o frio. Roupa quente, o poderoso casacão de Inverno, seria o suficiente para enfrentar o frio. E apetecia-me muito ir até à esplanada de Domingo para beber um café e apanhar um bocadinho de ar e espairecer um pouco para organizar as ideias confusas que se atropelam na minha cabeça. Aproveitar esta luz bonita que está quase a dar lugar à noite. Tudo isto seria fácil de alcançar.

Mas o vento, que se traduz em aviso de risco grande e real de queda, diz-me que estou mais segura em casa. Porque, para uma queda por falta de equilíbrio acentuado pela força do vento, não tenho como me preparar. Porque o risco é, de facto, grande e real. E os resultados de uma queda podem trazer consequências grandes para as quais não estou preparada nem sequer mentalizada. E, sinceramente, uma queda no meio da rua, ou seja lá onde for, já agora!, é coisa que não me apetece nem um bocadinho.

A esta hora a luz lá fora já mudou. O Sol já se despediu por hoje. E eu já recolhi ao sofá, aqueci as almofadas térmicas e já tenho, em cima de mim, a manta quentinha. Só me falta a gata para me sentir completamente aconchegada, mas não faço ideia onde é que ela anda e, mesmo que a chame, ela não me liga nenhuma.

Amanhã logo se vê como estará a luz lá fora. E, se o vento continuar como está, não arrisco sequer um café na esplanada do costume que fica já ali.

Enfim…nunca pensei que, um dia, até o vento me iria condicionar as saídas de casa por risco grande e real de queda

[às 2h25m da manhã…]

Imediatamente após ter escrito o texto acima, já quente pela manta e pelas almofadas térmicas, enroscada no sofá, adormeci… Das coisas que mais me chateiam neste meu novo normal é esta facilidade, ou será necessidade?, que tenho para adormecer à tarde, mesmo quando dormi até muito tarde e acordei a horas que não registo em lado nenhum.

Acordar muito tarde também está directamente ligado ao facto de, todas as noites, ir dormir tarde. Muito tarde. Demasiado tarde! Ontem, por exemplo, já passava das 3h da manhã. Mas ontem…ontem foi noite de expôr fragilidades, principalmente a insegurança de sempre. Foi noite de me questionar. E, ao mesmo tempo, não conseguir sequer imaginar o outro cenário possível. Sim, o meu papel não é o mais desejável, para ninguém e decididamente não para mim. Que sempre disse que nunca iria querer desempenhar. Mas do qual, neste momento, não consigo sequer pensar em abrir mão. Nem quero. Porque há muito mais do que esse papel no meio disto. Que eu não me atrevo a chamar de “coisa” porque é muito mais do que simplesmente isso. Chamo de contexto. Apelidado por ele de peculiar. Porque é, de facto, um contexto peculiar.

Sei exactamente o que fez despertar em mim esse questionamento, essa insegurança, no fundo a fragilidade originada por nada mais do que medo. O medo da perda. O medo da perda do melhor que me aconteceu, que me acontece todos os dias. Que, em 18 meses, fez de mim alguém mais forte para lidar com as adversidades, especialmente aquelas, e têm sido tantas!, provocadas por aquilo que me apanhou na curva. Porque se há alguém, para além da minha mãe, que me tem acompanhado todos os dias, incluindo os dias menos bons ou até mesmo maus, tem sido ele. E todo este medo, toda esta insegurança, tudo aquilo que me vergou ontem à noite foi precisamente por causa dele, por causa de nós.

Mas, até naquele meu momento de maior fragilidade, insegurança e medo de ontem à noite, ele esteve presente. À distância de um clique, mas presente. E não sei se ele percebeu mas, enquanto conversámos sobre o que me estava a fragilizar, enquanto conversámos sobre nós, eu senti-me aconchegada no seu abraço, tal e qual como se ele estivesse aqui comigo fisicamente…

Há mais de 2 anos que digo que preciso de chorar e simplesmente não o consigo fazer. Mas ontem chorei. Foi um chorar estranho, mas chorei. Sem lágrimas quase nenhumas a caírem pelo meu rosto, mas chorei. Ainda me lembro de como ficava quando conseguia chorar: a respiração difícil, as expressões do meu rosto, o aperto no peito, o querer falar e ser difícil fazê-lo sem denunciar o choro. E tudo isso aconteceu ontem à noite. Mas sem lágrimas a caírem pelo meu rosto…

Foi estranho. Foi difícil. Foi doloroso. Quase aflitivo. Mas apesar da ausência de lágrimas, chorei. E, do outro lado, à distância de um clique, não tive ninguém a fugir do assunto, a fazer de conta que não se passava nada. Não. Do outro lado, à distância de um clique, estava ele. Que me acolheu tal como estava, que questionou, que ouviu, que, no fundo, conversou sobre o que se estava a passar. E, mais uma vez, ele confirmou aquilo que eu já sabia: com ele já sei que não só posso como devo conversar. E foi a conversar que ele me confirmou: isto que existe entre nós já não se trata só de eu e ele, mas sim de NÓS.

Talvez ele não saiba, ou não tenha noção, da importância que tem para mim ser ele a dizer que se trata de NÓS. Reforça ainda mais a certeza que eu tenho de que somos duas metades de uma peça única. Que pertencemos um ao outro, somos a metade que falta a cada um e que não sabíamos que faltava.

Não é um assunto de eu e ele. Esse universo já não existe. É um assunto de nós. Nosso. Em que dois fazem um só. É o NÓS!

…mas não posso negar que o silêncio dele hoje o dia todo me assusta…mas não quero, às 3h30m da manhã, sozinha, ter medo e muito menos deixar que esse medo tome conta de mim. Amanhã. Amanhã ele vai voltar a estar à distância de um clique. Como está todos os dias. Não pode não estar…

Amanhã. Agora tenho que tratar de mim. Não só por mim, não por causa dele. Mas por nós. Para nós. É hora de dar o dia por terminado. Que, apesar de tudo, foi longo. E, já à noite, foi estranho. Não me perguntem porquê, não tenho uma resposta para dar. Estou cansada. De nada, como sempre, mas estou cansada. E a precisar de voltar ao horário normal de ir dormir. Já não digo ir dormir cedo, mas pelo menos ir dormir antes da chegada da madrugada. Insisto em ir pela noite dentro e esqueço-me que as horas de sono são essenciais ao meu novo normal. E isso começa pela hora de ir dormir. Por isso, por hoje já chega. Não quero que as ideias confusas na minha cabeça despertem e me mantenham acordada por muito mais tempo. Amanhã? Logo se vê como será…

{#341.026.2024}

…e quando dar um passo atrás é ter a coragem e a certeza de ser o mais importante passo em frente…?

as tatuagens na memória permanecem marcadas em nós, por um tempo indeterminado, enquanto a nossa função cognitiva o permitir…

as tatuagens na pele ficam para sempre e, além disso, são tangíveis. E, cada vez mais, eu sou de tocar. De sentir a presença física. Logo ali, na pele.

Cada uma das minhas tatuagens na pele têm um significado, uma história. Que é, também, a minha história. Só minha, independentemente do número de personagens com voz activa nessa história.

As tatuagens na memória são momentos. Únicos. Especiais. Irrepetíveis, tantos deles. Todos eles. Com significado, claro que sim, ou não seriam tatuagens na memória. Mas são só isso: recordações que, um dia, a memória pode simplesmente perder. Não são tangíveis. Não há toque. Não há presença física. Não há cheiro. Não há sabor. Não há o calor de um abraço. Nada disso existe nas tatuagens na memória. E eu, cada vez mais, sou de tocar. De sentir a presença física, logo ali, tal como uma tatuagem na pele. De sentir o cheiro. De provar o sabor. De retribuir o abraço, com o mesmo calor, com a mesma força, vontade e intensidade. E as tatuagens na memória não me trazem nada disso…não são tangíveis…são, apenas, momentos. Impossíveis.

….e, tantas vezes, demasiadas vezes!, dar um passo atrás é ter a coragem e a certeza de ser o mais importante passo em frente

[Cresci a dizer a mim mesma que não, isto não era para mim, nunca o iria fazer, nunca o iria aceitar. Hoje repito para mim mesma que, desde o primeiro dia, sabia onde me estava a meter, qual seria o meu papel, o meu lugar. A minha importância enquanto personagem de uma história que não procurei, mas que simplesmente aconteceu. E agora…? Agora já não sei…nada.]

{#340.027.2024}

Sexta feira. E a noite já vai tão avançada que já toda ela é madrugada.

E eu, talvez pelo sono, talvez por outro motivo qualquer, desta sexta feira só me lembro da noite. E mesmo assim…

O que é certo é que, ao começar a escrever e talvez devido às horas que são, para mim hoje foi Sábado. Ou já é Sábado. Não sei. Sei lá.

De tanta coisa que tinha para fazer hoje, não fiz quase nada. Mas o texto que me pediram e que eu avisei logo que nunca seria pequeno foi escrito e enviado. Sem reler. E terminado depois das 3h da manhã quando foi iniciado à meia noite. Não estará grande coisa. Vai ter que levar uma grande revisão. E mais do que provável redução…

Amanhã é dia de acordar cedo. Há aula de Yoga. E a esta não posso nem quero faltar! Portanto, é dormir a correr. E é já!

{#339.028.2024}

Sim, gosto muito de abraços. Aprendi o poder de um abraço com o terapeuta fofinho logo na primeira consulta com ele, nos idos de 2016, quando, no final da consulta, ele me perguntou: “posso dar-te um abraço?” Eu não estava, de todo, habituada a uma pergunta destas. Ou seria um pedido? Nunca soube, nunca saberei. O que sei é que, logo desde essa primeira consulta, o abraço tornou-se obrigatório para finalizar as consultas. Obrigatório porque eu comecei a habituar-me a esse aconchego depois de uma sessão de exposição de fragilidade, depois de deixar sair tudo o que tanto me doía. Esse abraço no fim da consulta, apertado e sinceramente sentido, ensinou-me a força do aconchego que um abraço pode e sabe ser. E ensinou-me também que os abraços ajudam a voltar a respirar. Acalmam. Tranquilizam. Fortalecem.

Foi com o terapeuta fofinho que aprendi o poder de um abraço. E foi a partir daí que dei por mim a facilmente abraçar outras pessoas nas mais diversas situações, das melhores às piores.

Já não estou fisicamente com o terapeuta fofinho há mais de 2 anos. Já há muito tempo, ainda pré-pandemia, ele não estava em Lisboa e as nossas consultas aconteciam todas as semanas via Skype, onde é impossível abraçar quem está do outro lado. Mas, sempre que ele desce à capital e consegue encaixar-me na agenda social das visitas a família e amigos, já sei que pomos os abraços em dia. À chegada e à partida, como passou também a acontecer nas consultas ainda presenciais: um abraço à chegada antes de iniciar a sessão para relaxar e mudar o chip, um abraço no final para aquele aconchego antes da partida.

E foi assim que aprendi a gostar tanto de abraços.

Mas hoje aconteceu ficar a conhecer outro abraço sobre o qual já tinha lido várias vezes e que, apesar de me despertar alguma curiosidade um bocadinho mórbida, sempre soube, pelos relatos e descrições que fui lendo, que seria um abraço demasiado desagradável, muita vezes doloroso e sempre aflitivo…o chamado Abraço da Esclerose Múltipla, essa coisa que me apanhou na curva e para a qual continuo a não estar preparada.

Estava tão tranquila. Relaxada. A fazer contas ao tempo para sair de casa para ir ao Yoga. Estava quase na hora de lanchar e eu tinha acabado de almoçar há relativamente pouco tempo, depois de ter acordado tão tarde… Estava no sofá, a conversar com a minha mãe. E, de repente, sem pré-aviso, tinha o peso do Mundo inteiro nos meus ombros. Que, devagar, se começou a espalhar, cobrindo por completo os ombros e as omoplatas. O pescoço não tinha qualquer peso. Nem força. Parecia até que estava completamente solto do resto do corpo, talvez apenas preso por uma frágil linha que ameaçava romper a qualquer momento. A verdade é que, enquanto sentia o peso do Mundo inteiro nos meus ombros, o pescoço não tinha sequer qualquer força para segurar a cabeça…

Respirar. Era preciso respirar fundo. Com calma e de forma consciente. Até que percebi que, aquele peso todo que sentia nos ombros e se espalhou às omoplatas, de repente deixou de ser apenas o peso do Mundo inteiro para se transformar também num bloco de cimento. Duro. Muito duro. Ao ponto de me dificultar a respiração profunda e calma que eu tentava que me ajudasse a relaxar…

A respiração passou a ser muito superficial e sem ritmo definido. Ao mesmo tempo que tentava voltar a respirar fundo e com ritmo definido, percebi que o tal bloco de cimento que cobria e prendia os meus ombros e as minhas omoplatas se tinha espalhado até aos braços. Dos cotovelos até aos ombros. O peso. A rigidez do bloco de cimento que, de repente, ganhou proporções de granito. Mover os braços era extremamente difícil…quase impossível…

A cabeça solta, presa ao pescoço por uma frágil linha, a respiração superficial mas um pouco acelerada ainda que sem ritmo definido, aquele bloco em que o meu torso se tornou e que, afinal, não era de cimento mas sim de granito. Os braços imóveis entre os ombros e os cotovelos. Tudo isto durou longos minutos. Até que comecei a perceber-me presa por correntes que cada vez me apertavam mais e mais à volta dos braços. Como num abraço. Onde, em vez de ser aconchegada por dois braços quentes e tranquilizantes, era simplesmente apertada, cada vez mais apertada!, por correntes, ou por um qualquer cinto, que me prendiam desde os ombros até aos cotovelos

Não houve dores. Apenas a pressão do peso do Mundo inteiro em cima de mim, a pressão da rigidez do granito, a força extrema das correntes que me apertavam dos ombros aos cotovelos. Tudo isto como num abraço. Mas o abraço mais desconfortável, mais aflitivo, quase agoniante que senti até hoje.

Não sei quanto tempo durou. Só sei a intensidade que teve. E a certeza de que este não era, nem é!, o abraço de que preciso. Mas, sei agora, este é, de facto, o famoso Abraço da Esclerose Múltipla. A minha curiosidade mórbida ficou, finalmente, a saber como é. Pavoroso. Horrível. Aflitivo. Desconfortável. Agoniante. Gostava de poder dizer que não quero repetir. Mas já sei que estou sujeita a que se repita a qualquer momento, sem sequer haver pré-aviso.

E o que eu queria mesmo era um abraço do terapeuta fofinho…não este que tive hoje e que vem acompanhado de um grande sofrimento.

Não!, o que eu queria mesmo era aquele abraço quentinho e protector, aconchegante e tranquilizador. Não só o abraço do terapeuta fofinho. Mas, acima de tudo, o abraço dele. Não este…

{#338.029.2024}

Dormir até ao meio dia. Há tanto tempo que não fazia uma destas que já não me lembro quando foi a última vez. Ou, se calhar, até aconteceu há pouco tempo, mas esse registo na minha tabela de Excel dos momentos e memórias está numa daquelas células em branco às quais não consigo aceder. Não interessa. Interessa sim que este acordar tão tardio foi um recado do meu corpo a recordar-me da necessidade de descanso. E, nos últimos dias, a verdade é que abusei um bocadinho da pouca energia que ainda vou tendo…

Do que eu não me esqueço, o que eu guardo em células especiais da minha tabela de Excel dos momentos e memórias, células protegidas que não são apagadas, são todos os momentos com ele. Mesmo que à distância de um clique, não importa. Todos os momentos com ele são momentos nossos. Irrepetiveis. Únicos. Tremendamente especiais. Nos últimos dias houve algum desencontro, é verdade. É aquela coisa da vida a acontecer. Que acaba sempre por interferir com encontros à distância de um clique. Que acabaria sempre por interferir mesmo que a distância fosse inexistente. Mas esses dias de desencontros trouxeram, claro, as saudades. As minhas saudades dele. As saudades dele de mim. E reforçaram a vontade, a necessidade que temos um do outro.

Tudo começou com um simples “Olá” numa qualquer rede social. Um simples e inocenteOlá“. Inocente de ambas as partes. E o resto simplesmente aconteceu. Ou nasceu. Ou surgiu. Ou o que lhe quiserem chamar. Mas foi uma coisa tão natural… Uma espécie de encaixe perfeito de duas peças que se completam, que pertencem uma à outra. Desde sempre.

Não me canso de dizer que não foi um simples encontro. Foi, sim, um reencontro. Como se já nos conhecessemos de outros tempos, outras vidas. Outros sítios, até. Quando não existia distância entre nós. Quando também não havia redes sociais para nos manter juntos…

Por algum motivo que desconheço, que não tenho como saber, algures no Tempo acabámos por nos afastar. Por nos perdermos um do outro. Duas metades da mesma peça que se partiu por algum motivo e nos afastou um do outro. E todo este tempo em que estivemos longe um do outro nunca encaixámos correctamente com todas as outras peças com que nos cruzámos. Porque não eram as peças certas. Não eram eu. Não eram ele.

Até que um simples e inocenteOlá” como que nos acendeu uma luz para que nos reconhecessemos. Para que nos reencontrássemos. Para que o tal encaixe perfeito destas duas metades se desse. Ele é, sem dúvida, a metade que me faltava. Agora sim, em cada momento com ele, mesmo que à distância de um clique, estou completa. Estou inteira. Eu e ele somos as duas metades de uma peça única e especial, perfeitamente funcional depois de termos percebido o encaixe perfeito.

Sim, os meus momentos com ele ficam registados na minha tabela de Excel dos momentos e memórias em células protegidas, impossíveis de apagar. Porque cada momento com ele é uma tatuagem na memória. E as tatuagens ficam para sempre.

{#337.030.2024}

Quando programas o teu dia para ser produtivo, com uma manhã mais activa do que tem sido e já sabes que à tarde tens que sair porque tens uma consulta, o que é que acontece? De facto acordas cedo, mentalizas-te para a manhã que programaste e, quando dás por ti, mais uma vez és derrotada pelo teu corpo que, apesar de ainda não ter feito nada de extraordinário, grita por descanso e acabas por adormecer no sofá e ali ficas duas horas até seres acordada para tomares banho, almoçar e sair de casa, tudo a tempo de chegares ao Centro de Saúde à hora marcada para a consulta…

E, dentro da minha cabeça, desde ontem à noite, aquela sensação que não podes chamar de som de uma espécie de ressonância grave como se, por perto, houvesse um qualquer concerto ou alguém no prédio estivesse a ouvir música alta e só se conseguisse ouvir os graves. Ou sentir os graves. No interior da minha cabeça e não exactamente nos meus ouvidos. Porque não era um som que pudesse ser ouvido. Mas era uma vibração. Uma ressonância. Qualquer coisa que não sei explicar o quê. Mas que começou ontem à noite, dificultando, e muito!, o adormecer. E que esta manhã continuava presente. E à tarde também… E essa vibração, essa ressonância, essa coisa que não sei descrever nem sequer explicar criou uma confusão tão grande na minha cabeça todo o dia.

Confusa. Algo baralhada. Nem eu sei muito bem o quê. Apenas sei que não, não estava bem

A vibração, a ressonância nos meus ouvidos, ou se calhar era na minha cabeça?, nem eu sei bem!, acabou por passar. A confusão acalmou um pouco. Mas voltaram as vozes que gritam por ajuda, que ecoam na minha cabeça antes de iniciarem o processo intrusivo de ideias parvas e, eventualmente, perigosas. E eu não quero voltar à urgência de Psiquiatria. Especialmente depois de ter sido acusada de usar os meus sintomas Borderline como “arma de manipulação“. Quando o que eu preciso é de ajuda. E quem, supostamente, tem o papel de me ajudar, é exactamente a mesma pessoa, o mesmo profissional!, que me acusou de manipulação

A minha Perturbação de Personalidade Borderline tem estado muito controlada a nível de sintomatologia. O terapeuta fofinho, que me testou o suficiente para ter o resultado deste diagnóstico confirmado, também ele, pela primeira psiquiatra que me acompanhou, deu-me muitas ferramentas práticas para eu própria conseguir controlar a Perturbação. Mas ela não deixou, obviamente, de existir. A verdade é que, enquanto tive o acompanhamento dele, tinha sempre quem me ouvisse e puxasse por mim para eu própria fazer por ficar bem em situações menos boas. E isso, parecendo que não, foram as ferramentas que ele me ensinou a usar para controlar a Perturbação e não acordar a sintomatologia.

Mas o acompanhamento do terapeuta fofinho terminou no final de Março, por falta de disponibilidade dele. E eu fiquei um pouco desorientada, sem chão, sem apoio, sem ajuda para me defender de mim própria ao fazer face ao diagnóstico e à chegada do meu novo normal que de normal tem tão pouco…

Acompanhamento psiquiátrico existe. De tempos a tempos, como é normal. E veio daí o encaminhamento para o apoio psicológico. Entretanto, a Depressão começou a mostrar-se presente novamente. Essa que já estava tão melhor. E, com a Depressão, começaram a querer acordar os sintomas da Perturbação de Personalidade Borderline. Reconheci rapidamente os sinais de alerta. E há meses que digo que preciso de ajuda. Que, mesmo tendo um profissional que supostamente me acompanha a cada mês e meio, não tenho a ajuda que preciso. Porque não me ouve. Não se lembra do que já lhe contei. Não reconhece os sinais e sintomas descritos verbalmente em cada uma das muito poucas consultas que tivemos enquanto que, ao mesmo tempo, até o neurologista reconheceu no meu olhar, apenas no meu olhar porque a máscara não permite ver as expressões por inteiro, que a minha Depressão estava pior

A sintomatologia é um desafio diário. E, sem a ajuda que eu preciso, só eu sei o tamanho da luta interna que travo todos os dias.

E depois há um diagnóstico para aceitar, um novo normal para me habituar, uma solidão à qual sobreviver, uma vontade de me magoar, de me punir até!, como se tudo isto fosse responsabilidade minha. Como se essa punição fosse merecida por algum motivo. Que desconheço. Que não entendo. Mas que sinto ser real.

Não!, não quero voltar à urgência de Psiquiatria. Não me parece que vá lá fazer nada. Mas preciso muito de ajuda. E não sei ao que recorrer. Consulta com o psicólogo que não me ouve e acusa de manipulação? Janeiro. Consulta com o psiquiatra que vem substituir o anterior que se ausentou do Hospital? Final de Fevereiro. Até lá? Não sei. Não sei mesmo. O que fazer. A quem recorrer. Não sei nada. Só sei que me conheço o suficiente para saber que não estou bem, para reconhecer o despertar da sintomatologia da Perturbação Borderline, para admitir que tudo isto me mete medo

E, como se não bastasse, para hoje estava marcada Junta Médica da Segurança Social por causa da minha baixa médica à mesma hora da minha consulta com a médica de família. Claro que não pude ir à Junta Médica. Tenho a justificação do Centro de Saúde. A Junta Médica deverá ser remarcada para breve. E eu tenho medo do resultado. Porque eu não estou em condições de voltar ao trabalho. Não com a Depressão neste nível. Não com os desafios, até os cognitivos, do meu novo normal.

Não. Eu não estou bem. Eu preciso de ajuda que não estou a receber. Estou muito confusa. Baralhada, até. E não sei o que esperar da Junta Médica…

Por agora, cansada e moída, quando a noite já se inicia na fase da madrugada, é hora de baixar os braços por hoje. Reconhecer que também preciso de descansar. E mereço descansar! De nada que me possam apontar que tenha feito hoje eventualmente desgastante fisicamente. Mas da luta interna que travo todos os dias com tudo isto que trago cá dentro e que tenta, à força, travar-me. E também da luta constante com o meu corpo cansado sem se ter esforçado que me deixa esgotada, tanto física como psicológicamente. E aqui, neste campo, a única coisa a fazer é realmente ouvir o meu corpo e obedecer-lhe, seja ao adormecer no sofá a meio da manhã ou a seguir ao almoço, seja ao ir para a cama cedo. E esta parte é outra luta que travo comigo mesma todas as noites: sei que tenho que voltar a ter um horário decente para ir dormir. Mas deixo-me ficar acordada até tarde para provar a mim mesma que ainda consigo ficar acordada até tarde! E só eu sei o quanto me custa manter-me acordada até tarde. Mas é só mais uma luta entre o meu Eu mental e o meu Eu físico. E eu sei que tenho que respeitar mais o meu corpo, o meu Eu físico. Mas, lá está, é aquela punição de que falava há pouco. Que não faz sentido nenhum, mas que o meu Eu mental me impõe. E a luta recomeça todas as noites…

Mas, por hoje, o meu Eu físico ganhou. É tarde. Muito tarde. Mas está na hora de dar descanso ao corpo. Como se vai comportar a cabeça durante a noite? Não faço ideia. Mas espero sinceramente que colabore…

{#336.031.2024}

Das coisas que tenho vindo a aprender: depois de um dia em que esgotei a energia do meu corpo, como ontem, é dia de recuperar. Descansar. Dormir. Não sair de casa. Não fazer rigorosamente nada. Na verdade, nem sair do pijama.

E hoje foi assim, tal e qual. Esta parte tenho vindo a aprender. O que parece que nunca mais aprendo é ir dormir a horas decentes! Ontem a madrugada já corria solta quando me deitei. Adormecer foi instantâneo, como tem sido sempre que aninho e enrosco na minha cama. Mas já eram 4h da manhã…

Esta noite…bem, a madrugada já corre por aí. Ainda não saí do cadeirão, mas vou fazê-lo de seguida. Hoje tenho o sono que ontem não tinha. Mas antes da uma e meia da manhã não devo estar a dormir…

Para quê estes horários? O para quê, não sei. Mas o porquê sei-o bem demais…

{#335.032.2024}

Passar 7 horas e meia num centro comercial, em fim de semana de Black Friday e início do mês de Natal não estava nos meus planos nem nos meus piores sonhos. Mas hoje aconteceu…

Chegar a meio da tarde e sair já com as lojas todas encerradas. E não posso dizer que fomos a muitas lojas porque estaria a mentir. Mas, de facto, não sei como é que se passaram tantas horas num centro comercial.

Seja como for, grande parte (a grande maioria!) do Natal cá de casa está tratado. E os objectivos principais, que eram comprar café e um novo pé para a minha bengala, também foram alcançados.

Claro que me cansei mais do que gostaria, mas algum dia teria que ir ao Fórum tratar do Natal. O café podia ter sido encomendado pelo telefone mas antes de terça ou quarta feira não teria café em casa. E, sem mais nada para fazer, já mais ou menos recuperada do dia de sexta feira, lá fui com a minha mãe. Sozinha não iria, claro. Fomos as duas e o que mais me custou não foram as horas em pé, de um lado para o outro, os quase 2km que fizemos no Fórum. O que mais me custou mesmo foi ver a minha mãe a carregar com os sacos todos, um deles até pesado porque era o saco onde depositámos os nossos casacos assim que percebemos a temperatura que estava lá dentro.

Insisti várias vezes para que me deixasse trazer pelo menos um saco. Não me iria ser assim tão difícil. Acho eu. Mas ela não quis. Penso, porque ela não o disse, que tinha medo que eu desequilibrasse e eventualmente caísse. Admito que também pensei que seria um risco trazer um saco com algum volume e peso do lado direito, o lado contrário à bengala, a única mão que tenho livre para me apoiar aqui e ali sempre que é necessário ou, até, para agarrar o braço da minha mãe.

Custou-me, de facto, não poder aliviar a minha mãe. E é sempre o que mais me custa, vê-la sobrecarregada por eu não conseguir, já, ajudar…

Consegui, já quase no fim das compras, convencê-la a deixar-me trazer pelo menos o saco do café! Pouco peso, volume aceitável, fácil de transportar e que, de certa forma, me ajudava a manter o equilíbrio. Pode parecer pouco para quem está de fora, mas, para mim foi voltar a sentir-me minimamente útil! Que é coisa que, nos últimos tempos, não me tenho sentido…

Enfim…foi um dia diferente. Já não me lembro quando foi que disse à minha mãe que não queria passar 8 horas no Fórum quando ela sugeriu irmos noutro dia e, pelo que me lembro, seria de manhã. Lá está a minha tabela de Excel com algumas células em branco e outras baralhadas! Acho que foi ontem que disse à minha mãe que não queria passar 8 horas no Fórum se fossemos hoje de manhã, mesmo que pouco antes do almoço. E a verdade é que não passámos 8 horas no Fórum. Foram “só” 7 horas e meia…

Enfim, agora que a noite já passou a madrugada e eu estou acordadíssima, o que me resta fazer é ir descansar o corpo que está moído. Curiosamente, e ao contrário do que eu esperava, as pernas não estão demasiado doridas. E isso é bom. Já o joelho esquerdo é que está miserável…

De resto, o fim de semana lá se passou a correr. E as saudades dele sempre presentes. Mas, amanhã, pode ser que consiga matar essas saudades logo de manhã. O resto do dia? Logo se vê. A agenda para amanhã está em branco. O mais certo vai ser recuperar do dia de hoje. O resto é só mesmo isso: o resto.

{#334.033.2024}

If you can dream it, you can do it!
Era tão bom se fosse assim tão simples…

Eu tenho sonhos, muitos, tantos! E alguns deles até são tão simples de realizar. Mas depois tenho um corpo, um corpo doente, que se ri de mim e diz-me assim “pensa lá bem…achas que sim?”…

Já tenho lido muito sobre os efeitos e sintomas que isto que me apanhou na curva pode trazer a cada um de nós. Já tenho lido testemunhos de pessoas iguais a mim. Especialmente sobre o efeito Fadiga. Que não é igual a cansaço, agora entendo…

Não me lembro do que fiz na quinta feira, mas acho que foi nesse dia que tive consulta no Hospital. Exacto! Já confirmei, quinta feira foi dia de consulta no Hospital. Acordei cedo, saí de casa relativamente cedo, fui a Almada ter com a minha mãe, seguimos para o Hospital. E planeei depois de almoço descansar um pouco antes de me preparar para mais uma aula de Yoga. Não me lembro a que horas cheguei a casa nem se passei pelo sofá para descansar ou não. Isto de não me lembrar das coisas também faz parte…é como ter uma tabela de Excel carregada de informação com uma mão cheia de células em branco às quais não consigo aceder… Assim anda a minha memória.

Fui ao Yoga, vim directa para casa, jantei e cama. Tarde, como sempre…

Ontem acordei cedo novamente. Cansada, com sono, com o corpo moído. De tal maneira com sono que adormeci na cadeira do cabeleireiro enquanto me lavavam o cabelo. Eu, que não consigo dormir em lado nenhum que não seja a minha cama ou o meu sofá, adormeci na cadeira do cabeleireiro

Com uma Teleconsulta marcada para as 18h (até às 19h) e um jantar às 20h, ainda com tanta coisa para fazer achei que ia conseguir descansar e recuperar energias para a noite. Claro que não aconteceu o que tinha programado, com tanta coisa a acontecer ao mesmo tempo.

Tive a consulta e, não sei como, consegui atrasar-me para o jantar…! Mas fui ao jantar, socializei, conheci pessoas novas, conversei, soube tão bem.

Cheguei a casa já passava da 1h da manhã. E, ainda sem perceber muito bem como, adormeci pelas 3h.

Esta manhã era dia de Yoga. Consegui acordar a horas de ir, mas o meu corpo riu-se de mim e perguntou-me “achas mesmo?”.

Ainda antes de conseguir sair da cama percebi a mensagem do meu corpo e claro que não conseguia ir a lado nenhum. O meu corpo é que manda e sabe melhor do que eu do que é capaz de fazer em determinado momento…

Mensagem para o Professor Pedro a quem ontem tinha confirmado que lá estaria e assumir que não, não consigo. Eu que, estupidamente, ainda continuo a achar que consigo tudo! Ainda não consegui foi aceitar que a minha cabeça pode até conseguir muita coisa (menos aceder às tais células da tabela de Excel que estão em branco e me fazem esquecer coisas que já aconteceram…e há pouco tempo!), mas o meu corpo esgota a reserva de energia muito rapidamente…

Pequeno almoço tomado às 9h30 e a necessidade e vontade de ir beber um café. À rua. Para acordar para a vida! O primeiro café da manhã aconteceu muito perto das 13h. Porquê? Porque antes disso estive no cadeirão a tentar reunir um bocadinho extra de energia para conseguir ir à rua beber café. Mas fui. E fiquei pela esplanada. Mais tempo do que na realidade pensava que tinha passado.

O sono continuava presente. Tinha programado com a minha mãe uma ida ao Almada Fórum à tarde. Mas o meu corpo continuava a rir-se de mim. “Ok, não vamos a seguir ao almoço, vou esticar-me um bocadinho no sofá, vamos ao fim da tarde”, sugeri. A minha mãe concordou. Acho que ela e o meu corpo têm um qualquer sistema de comunicação entre eles e ela percebeu que eu não estavam só cansada e ensonada…estava esgotada!

Sei que passava muito pouco das 17h quando, finalmente, me estiquei no sofá. Sei também que a minha mãe estava praticamente pronta para sair nessa altura. Sei que procurei um qualquer canal na televisão e ainda tive tempo para pôr os óculos. Como se fosse conseguir manter-me acordada para ver fosse o que fosse!

Sei, sem sombra de dúvida, que assim que me instalei confortável no sofá, com a manta e as almofadas térmicas quentinhas, adormeci de imediato. Não dei pela minha mãe sair de casa, não sei o que se passou à minha volta, sei que fui acordada à força para comer qualquer coisa quase às 21h.

Depois de ter comido, tenho estado numa luta comigo mesma. O meu corpo diz-me “vai dormir!” e a minha cabeça, a mil, responde-lhe “é só mais um bocadinho…”

A verdade é que agora compreendo os relatos de outras pessoas como eu quando dizem que têm que planear muito bem o que vão fazer, especialmente quando aparece um qualquer programa que acaba mais tarde, como um jantar ou uma saída com amigos. Dizem também que, depois dessa saída da rotina se sentem completamente esgotadas. Drained, é o termo que mais tenho encontrado na comunidade internacional com a mesma condição (por algum motivo que desconheço e ainda menos entendo, os portugueses não falam disto, como se fosse um enorme tabunão é tabu! E muito menos é motivo para terem vergonha!). Mas sim, é completamente drained que me sinto! Esgotada é a única palavra que encontro em português para isto, mas que não acho suficiente para descrever esta absoluta falta de energia

Tenho lido várias vezes nessa tal comunidade internacional que, se um dia abusas um bocadinho mais do teu corpo, ele no dia seguinte vai cobrar com juros e a ti só te resta pagar! E eu já percebi que entre quinta feira e ontem devia ter conseguido um bocadinho de tempo para parar, descansar e recuperar. Hoje estou a pagar a conta do excesso de uso da escassa energia, mesmo que esse excesso de uso pareça ser tão pouco para quem está de fora… Mas, só o facto de ontem ter adormecido enquanto me lavavam o cabelo no cabeleireiro, já me devia ter servido de sinal de alarme

Enfim… É muito fácil e muito bonito dizer que “if you can dream it, you can do it!”. Mas não é assim tão simples quanto parece. E agora começo a ver e a conhecer melhor os efeitos que isto que me apanhou na curva tem sobre o meu corpo. E cada vez gosto menos. E assim fica cada vez mais difícil de aceitar este meu novo normal…

{#333.034.2024}

Quando faltam uns, há sempre outros. E, às vezes, os outros somos nós. E estamos lá, sempre.

Felizmente, hoje por uma boa causa. A Mariana faz anos e o jantar é por aqui. Tão na Margem Cool e eu não conhecia, ao contrário de toda a gente.

{#332.035.2024}

As minhas pernas. Parte daquele hardware que o neurologista me confirmou estar um pouco danificado mas que o real problema está no software que está em muito mau estado.

Foram as minhas pernas as primeiras a darem-me sinais de que algo estava errado e que eu durante tanto tempo desvalorizei. “Foi muito tempo em teletrabalho, quase não andava durante o dia, elas parecem não obedecer mas voltando a andar mais em trabalho presencial e caminhadas ou até ginásio elas recompõem-se”, repeti eu para mim mesma tantas vezes durante tanto tempo.

Desvalorizei, não dei importância, para mim existia uma razão óbvia. Não podia estar mais enganada. Afinal havia mesmo bug grande no software que se reflectiu rapidamente no hardware

As minhas pernas. Que eu teimo em querer dar uso. Mas em que há dias em que as dores são tantas que dar um passo que seja é uma espécie de sacrifício.

Dor neuropática, confirmou hoje a Fisiatra do Hospital. Já sabia que era “” mais um sintoma a juntar aos outros todos, só não lhe sabia ainda o nome.

A acompanhar as minhas pernas que me levam do ponto A ao ponto B está a bengala. E, tantas vezes, em simultâneo a minha mãe. Porque o equilíbrio está aquela estupidez e caminhar sozinha é, de facto, um risco.

A Fisiatra, e eu entendo o papel dela!, sugeriu-me hoje: “e que tal trocar a bengala por um andarilho? Dá-lhe mais estabilidade e segurança.” NÃO! “Mas não porquê?” PORQUE EU RECUSO! NÃO QUERO! Enquanto conseguir continuar a caminhar com a bengala, eu RECUSO o andarilho! “E também há umas cadeiras de rodas com motor eléctrico…” NÃO! Não quero! Recuso! “Está à espera de quê, Catarina? De cair?” NÃO QUERO! Nem um nem outro! E ainda estou à espera de conseguir aceitar isto que me apanhou na curva! E continuo a não aceitar!

Enquanto conseguir, com mais ou menos dores, vou continuar a DAR USO às MINHAS pernas! Aceitei facilmente a bengala. Mas mais do que isso é NÃO!

Venha então a medicação para as dores! Venha o Viparita Karani que o Yoga me trouxe para fazer TODOS OS DIAS e que me ajuda tanto! Venha novamente a fisioterapia! Caminhadas no parque até ao paredão! Venha isso tudo! Mas trocar a bengala por um andarilho NÃO!

{#331.036.2024}

Há uns dias, no Instagram, comentei uma publicação, de uma amiga que veio da blogosfera lá pelos idos de 2003 e permanece até hoje, sobre uma t-shirt que ela comprou e que eu andava há meses a namorar e que já constava da minha wishlist desde a primeira vez que a vi. Achava piada ao boneco, um animal astronauta, mas foi a frase que me prendeu: “Houston, I have so many problems”.

Falámos um pouco sobre a t-shirt e a loja online de onde veio. Já tínhamos falado anteriormente sobre meias. Sim!, meias! Daquelas giras, originais e diferentes vindas da mesma loja de onde eu também já comprei umas quantas com obras de arte de Van Gogh, Klimt, Münch e Da Vinci. Chegámos ambas à conclusão que a loja é uma perdição e que o meu problema é ter nascido pobre e não herdeira e que estar de baixa médica há mais de um ano a receber 70% do meu salário (mínimo) me obrigava a planear muito bem todas as despesas e, claro, compras online seriam “para quando der”.

Falámos nessa altura e ficámos por aí sobre o assunto. Até que, passados alguns dias, ela me envia uma mensagem: “fica atenta à caixa de correio. Ainda vai demorar uns dias, mas considera um Natal antecipado”, seguido de um link para seguir uma encomenda. Fiquei sem saber muito bem como reagir na altura, não estava mesmo nada à espera de uma mensagem dessas, muito menos de receber uma encomenda da tal loja.

Os dias foram passando e eu, volta e meia, lá ia espreitar por onde andava a encomenda e, ao mesmo tempo, pensava “a rapariga é doida! De certeza que resolveu enviar-me os patos que eu adorei!”. Os patos são, oh espanto!, meias! Que fazem uns patos muito engraçados e que também estão na minha wishlist.

Esta manhã, nova mensagem dela: “vai chegar hoje! Entrega prevista entre as 9h45 e as 12h45!” E, confesso, houve um bocadinho daquela ansiedade boa de saber que algo bom está a chegar aliada à ansiedade da curiosidade!

Foi quando a minha mãe chegou da fisioterapia que me trouxe, da caixa de correio deprimida, duas coisas: um envelope com uma carta e um pacote! A carta? Mais uma convocatória da Segurança Social para Junta Médica. Já estava à espera, nada de extraordinário, mas dispensava porque ali tanto posso ser atendida por seres humanos como por autênticos calhaus! E calhaus não me apetece, sinceramente. O pacote era o tal que eu sabia que ia chegar mas que era demasiado volumoso para ser um simples par de meias. Não sendo as meias dos patos então é que não sabia mesmo o que poderia ser…

Não consegui abrir logo o pacote. Estava a saber-me bem saber que tinha ali uma surpresa para mim. Que não fazia a mais pequena ideia do que esperar. Fui até ao cadeirão beber um café e fumar um cigarro e o pacote ali ao meu lado a olhar para mim à espera de ser aberto…

Dei por mim a sentir-me como uma criança de 5 anos sentada ao lado da árvore de Natal à espera de autorização para abrir as prendas, tal era a ansiedade (da boa) aliada à curiosidade! E há muito tempo que não me sentia assim: entusiasmada! E quis preservar esse entusiasmo por mais um bocadinho. Estava mesmo a saber-me muito bem!

Respirei fundo e disse: “bora lá!” Peguei no pacote, rasguei o plástico, meti a mão lá dentro para tirar o que lá vinha e, assim que espreitei ao mesmo tempo que a minha mão agarrava no conteúdo soltei uma gargalhada como há muito tempo não soltava e comecei a rir sozinha! A rir muito! Porque mesmo antes de tirar o conteúdo já tinha conseguido ver o que era! E ri! Ri muito! E disse à minha mãe “aquela miúda é doida!” E continuei a rir! Já estava muito contente por ter chegado a encomenda, mas depois de ver que era “A” t-shirt de que tínhamos falado, que eu lhe tinha dito que era a minha cara só pela mensagem que tinha impressa, só consegui rir! Rir muito! Rir tanto! Porque estava realmente surpreendida e FELIZ! A t-shirt é linda e ainda vinha acompanhada com uma bolsa a fazer conjunto com a mesma mensagem: “Houston, I have so many problems!”.

Não foi só a t-shirt que me deixou feliz. Foi também o gesto de quem ma ofereceu depois daquilo a que normalmente se chama de conversa banal. Informei-a, assim que o pacote me chegou às mãos, de que já estava comigo. Mas ainda demorei quase uma hora para o abrir. E, depois de aberto e ainda a rir, agradeci mil vezes na mesma mensagem e continuei a rir. Disse-lhe que tinha adorado, claro, como não?! Uma t-shirt que é a minha cara! Que me fez ganhar o dia! Ao que ele me responde: “é só uma coisinha pequena para animar um bocadito mais os dias”. Com’assim, uma “coisinha pequena”? Só pelo gesto, pelo carinho, pela amizade, pela preocupação de me animar um bocadinho é uma coisa GIGANTE! E a verdade é que o ânimo deu uma volta de 180 graus para muito melhor!

…e a esta hora, em que a noite começa a roçar a madrugada, ainda estou incrédula, a rir e extremamente agradecida. Pela t-shirt, claro, mas acima de tudo pelo gesto! Inesperado. E inesquecível! E dou por mim a perguntar a mim mesma o que é que eu fiz para merecer tanto?! Mas depois penso logo a seguir “eu também mereço que me aconteçam coisas boas!” E, no caso dela, só é pena morar na outra ponta do país. Porque se fosse daqui de perto saía rapidamente um abraço gigante mal a encontrasse. E, o mais engraçado nisto tudo, é que nos conhecemos há 21 anos, já partilhámos histórias, já partilhámos experiências, já nos inspirámos uma à outra, temos acompanhado o que cada uma decide depositar no éter. Mas nunca nos vimos ao vivo!

Amizades via Internet. Ainda há quem desconfie desse tipo de relações, aproximações, o que lhe quiserem chamar. Mas depois há exemplos como este que, mais uma vez, me diz: sim!, é possível o que começa na Internet de forma tão ligeira e simples como o nosso caso em que líamos o blog uma da outra, tornar-se em algo forte e verdadeiro.

E hoje, só por causa de uma conversa banal que se transformou num gesto gigante, o dia foi bom! Muito bom, até! E, mais uma vez, digo: eu sou uma miúda de sorte!

{#330.037.2024}

Dia demasiado longo e muito dorido, doído e doloroso.

Último dia do ciclo de fisioterapia que será retomada sabe-se lá quando, mas dificilmente antes de Janeiro.

Sair de lá já com dores. Fazer tempo por aqui e ali para entretanto almoçar e seguir para o Hospital para a consulta que eu esperava e que precisava. Consulta que me provou o óbvio: não é com aquele profissional de saúde mental que vou ficar bem. Nas palavras dele, estou a manipular para ter atenção e se os meus amigos desapareceram todos é porque eu não sei como fazer para chegar a eles. Portanto, a culpa é minha. Não!, não é! Mas se ele acha que sim… Está na altura de escrever um email para o hospital e pedir troca de profissional de saúde mental por pura incompatibilidade com ele. E nem vou falar da incompetência…

Voltar para casa continuou a ser muito doloroso. As pernas a fraquejar, as dores cada vez mais fortes e ainda tanto para caminhar…

A aula de Yoga que não aconteceu no sábado passado foi remarcada para ontem. Sabia que me ia fazer muito bem, por vários motivos. Mas cheguei a ponderar não ir. Não só por ter chegado a casa muito em cima da hora para preparar tudo para chegar a horas à aula e ainda lanchar e conseguir descansar as pernas por uns minutos, mas também porque ainda teria muito que caminhar até ao clube. E eu não conseguia dar um passo por causa das dores… “Vais de Uber”, diz-me a minha mãe a certa altura. Ela sabia, sem eu lhe ter dito nada, que ponderava não ir à aula. Mas fui. E ainda bem que fui!

Uma aula de Yoga Restaurativa fabulosa. Dores nas pernas depois da aula? Perto de zero. Profundamente relaxada depois de ter entrado num furacão de emoções à tarde. Mas, ali, voltei a reencontrar-me comigo. Voltei a acertar o ritmo da respiração. Naquela hora de aula, deitada no tapete, era só eu e a respiração. E acalmei as emoções, relaxei as tensões e o Yoga fez o resto.

Voltar para casa não foi tão doloroso. E deitar-me na minha cama teve aquele efeito que é cada vez mais habitual em mim: adormecer com o telemóvel na mão enquanto ainda iria iniciar este post. Que escrevo no dia seguinte porque não quero perder o ritmo diário dos últimos 10 anos. Não quero espaços em branco. Para espaços em branco já me basta quando simplesmente não me lembro de alguma coisa, seja um dia inteiro, seja um momento do dia. Na minha cabeça aparece uma tabela de Excel com células em branco quando há alguma coisa que a minha memória apagou…

Enfim…foi um dia muito longo, doído, dorido, doloroso. E foi também o dia que confirmei o que há meses já suspeitava: em todas as áreas, há bons profissionais, há maus profissionais e depois há “isto” com que me cruzei e que não é a pessoa certa para mim.

{#329.038.2024}

Em Almada, ao meio dia, o Sol escapou de entre as nuvens por uns minutos. O tempo suficiente para poder senti-lo no rosto e receber tudo aquilo que me trazia para além da vitamina D que tanto preciso de receber.


Tirei esta foto e enviei como reflexo de uma foto enviada por ele há dias. Ao que ele me responde “Essa pose tem direitos de autor”. E tem. Esta pose, a sentir o Sol, é o reflexo dele a sentir o mesmo Sol, apenas em dias e locais diferentes.

Aquilo que mais facilmente partilhamos é a mesma Lua, é o mesmo Sol, é o mesmo Céu Azul. E, sendo ele o meu Raio de Sol, que outra pose poderia eu fazer ao senti-lo tocar-me, aquecer-me, iluminar-me e, até, proteger-me?

Partilhamos a Lua, o Sol, o Céu e tanto mais. Até as ondas do Mar da Caparica. Não partilhamos o mesmo local, o mesmo sítio. Não ainda. Um dia, talvez… Mas reflectimos a pose um do outro ao absorver através da Lua, do Sol ou do Céu as mensagens que enviamos um ao outro fora das tecnologias.

Tudo por causa de um simples “Olá” numa qualquer rede social que veio no momento certo. Que trouxe tanto de bom. Que transformou tanta coisa. Para ambos.

E, desde 5 de Junho de 2023, sei que não estou sozinha neste meu percurso atribulado. O meu Raio de Sol faz o caminho comigo, sempre de mão dada. E já me disse “se o caminho se tornar mais difícil, levo-te ao colo“. E nem ele sabe o número de vezes que já me levou ao colo…

O meu Raio de Sol que, ao meio dia, escapou de entre as nuvens em Almada e me envolveu no seu calor. No seu abraço quentinho.

E tudo por causa de um simples “Olá” que valeu tanto. E continua a valer.

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Ir à rua beber um café pouco antes das 19h e sair da esplanada minutos antes das 20h é, agora, sinónimo de dores absolutamente insuportáveis nas pernas. Porque, neste meu novo normal, sinto a humidade e o frio a entranharem-se nas pernas como nunca senti antes.

Já passei muitas horas de Inverno rigoroso de Janeiro naquela esplanada. Nunca, até agora, o frio me atingiu as pernas desta maneira.
Janeiro é conhecido por ser muito frio. Nos tempos de teletrabalho era certo que, perto das 19h, o meu lugar era na esplanada. Ao frio. Sujeita à humidade. Nunca tive dores nas pernas por causa disso. Até que cheguei a este meu novo normal. Que não!, AINDA não aceito. Não aceito que me limite ao ponto de não conseguir dar um passo porque as pernas estão impregnadas de frio e humidade e com dores como nunca senti antes

Ao chegar a casa, tenho ali o tapete de Yoga e os blocos à minha espera para mais 30 minutos de Viparita Karani que me vai ajudar a melhorar a condição das pernas. Um compromisso que assumi com o professor Pedro diariamente até ao Natal, mas que acima de tudo assumi comigo mesma.

Mas, antes de avançar para o tapete, é obrigatório tirar o gelo das pernas ou não consigo, mesmo em casa, caminhar até lá. Por isso, almofadas térmicas de trigo, 2 minutos no microondas e 10 minutos nas pernas. E sinto o gelo a sair das minhas pernas…

Agora, já com as pernas mais aliviadas, vou ali até ao tapete. Sempre soube que o Yoga me ia ajudar muito. Não imaginava que ajudasse TANTO, porque depois dos 30 minutos de pernas na parede já sei que não vou ter dores.

E cada vez mais tenho certeza disto: este meu novo normal não é recomendado a ninguém!

Posso chorar um bocadinho…? Pois…o pior é que continuo a não conseguir chorar

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Aventureiras. Não sei se cabras, se ovelhas. Apenas sei que são aventureiras. E ousadas. No topo da Arriba, com coragem e equilíbrio suficientes para andarem no limite. Às vezes gostava de ser como elas: com coragem e equilíbrio suficientes para arriscar sair daquela zona confortável, de segurança, e arriscar um pouco mais, sem duvidar das minhas capacidades.


Elas, lá em cima, no topo da Arriba, à beira do abismo, com sabedoria suficiente para não darem um passo em falso. Confiantes da sua força. Da sua coragem e equilíbrio. Sem a vertigem do abismo logo ali, à frente delas.
Eu, cá em baixo, com todas as minhas dúvidas e inseguranças, sem coragem para dar mais do que dois passos no passeio sem apoio. Sem o devido equilíbrio, seja ele de que tipo for, para sair da minha zona confortável, de segurança.

Elas todos os dias fazem do topo da Arriba a sua rotina. Vivem sem pressa. Não perdem tempo a pensar no amanhã, ou no dia que vem depois de amanhã ou de como será daqui a um tempo indeterminado.
Eu? Continuo a tentar aprender a viver um dia de cada vez, digo sempre que é sem pressa mas secretamente desejo voltar ao normal rapidamente. Mas depois lembro-me que esse tal normal é, para mim, todo um novo normal ao qual ainda não me habituei. O qual ainda não aceitei

Elas lá em cima sem a vertigem do abismo.
Eu, cá em baixo, a sentir-me à beira do abismo.
Ainda tenho tanto que aprender com aquelas aventureiras no cimo da Arriba…

{#327.040.2024}

Esta manhã, ao contrário do previsto, não houve aula de Yoga. Fez-me falta, claro, mas a (ir)responsabilidade de uns afecta directamente os compromissos de outros em relação a terceiros e lá os “que parece que mandam” saberão o que andam a (des)fazer sem aviso e sem dar cavaco a quem deviam. Claro que o professor não gostou e com toda a razão. Mas há-de haver uma alternativa e eu lá estarei, como sempre.

Não havendo aula, enquanto esperava pela minha boleia para voltar para casa, decidi ir até ao paredão ver o Mar. E, sendo uma zona do paredão para onde raramente vou, percebi que estava na minha praia dos anos 90. A Praia Nova. E instantaneamente fiz uma viagem de 30 anos na minha cabeça.

Recordei o Bexiga, na sua estrutura azul com letras brancas, com esplanada, casa de banho e balneário. Recordei os encontros e desencontros na Praia Nova, os mergulhos quase forçados porque, ao entrar na água devagar, já com a água pela cintura, me dizem “mergulha! Ou vens para a praia para não molhares o cabelo?!”. As Carlsberg geladas na esplanada. Até os dias de Inverno.

Foi uma viagem no tempo que eu não estava a contar, mas que me soube muito bem.
O que também me teria sabido bem era ir até lá abaixo. Talvez até pôr os pés dentro de água daquela maré baixa de um Mar quase sem ondas. O calor que estava de manhã convidava a isso tudo e muito mais. Mas, sabendo que na areia seca não me consigo equilibrar, estando sozinha não arrisquei.

Mas irei lá voltar o quanto antes para, precisamente, caminhar no areal e seguir as ordens do médico: “andar na areia seca para trabalhar o equilíbrio, na areia molhada para estimular os pés. E, se cair, não é muito grave, já está na areia”.

Tenho a vantagem de ter autocarro quase à porta de casa até à “porta” da praia e o acesso do paredão ao areal é feito por uma rampa de madeira com pouca inclinação e não uma escadaria imensa como a praia aqui em frente, portanto com um acesso muito mais facilitado.

Voltarei em breve à Praia Nova. E, na minha cabeça, ressoa apenas isto: “se a Praia Nova falasse……tinha muitas histórias para contar!”

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Sexta feira. E apetecia-me dizer que tenho tanto para contar. Mas não tenho. E, ao mesmo tempo, também não me apetece dizer nada.

Apenas dizer que as amizades com mais de 30 anos têm um valor extraordinário. Mesmo que durante alguns anos nos tenhamos perdido uma da outra, mesmo que milhares de kilómetros nos separassem durante anos, é tão bom saber que, agora a pouco mais de uma hora de comboio, estas amizades, ou neste caso esta em particular, esta amizade me faz sentir de volta a casa. Ambas crescemos, passámos pelo Tempo, o Tempo passou por nós, demos as voltas que a vida tinha guardada para cada uma de nós, mas continuamos exactamente as mesmas uma para a outra. E isso é tão bom. Sabe tão bem.

Afinal, nem toda a gente desapareceu. Porque quem chegou há mais de 30 anos chegou naquela altura para ficar para sempre.