Com licença, vou só ali ao sofá. Hoje? Completamente esgotada. Totalmente
“drained“.
Sim, estou absolutamente ezhorSa. Mmmdi
..
O que se lê acima é o que acontece quando se adormece enquanto se faz uma publicação…juro que estava acordada quando escrevi a primeira frase. Tudo o resto? Pois…foi a dormir…
Não é fácil sentir-me segura o suficiente para deixar cair a armadura que me protege. Ou não era fácil. Não era até à chegada dele. Desde o primeiro dia que senti segurança suficiente para alargar, aos poucos, os laços e os nós que desde sempre me ajustaram as diversas partes da minha armadura. Tudo peças estrategicamente colocadas nos meus pontos mais sensíveis, muitos deles, tantos deles!, já anteriormente atacados, magoados, feridos, com cicatrizes ainda à espera de secar. Mas desde a resposta a um simples “Olá” numa qualquer rede social, resposta pronta dele, desde esse dia que, devagarinho, a minha armadura começou a ficar mais relaxada, mais larga, quase como se eu própria tivesse encolhido de tamanho quando na verdade, e muito, tanto!, por causa dele, cresci. E cresci muito, tanto! Ou então não cresci e apenas aprendi a sentir-me verdadeiramente segura com ele e deixei de me encolher. Enchi o peito de ar. Ergui a cabeça. Endireitei o peito e as costas. E permiti-me aliviar os laços e os nós que prendiam as peças da minha armadura…
Com ele aprendi que posso fazer tudo o que quiser, que sou capaz de fazer o que quiser e que dar um passo em frente é dar o passo certo.
Com ele permiti-me, ou fui-me permitindo, deixar cair a armadura. E descobri que é possível despertar uma conexão quase irreal mas que existe em nós, entre nós. Porque, sem rodeios, aceitamo-nos um ao outro tal como cada um de nós é. Partilhamos momentos intensos. Momentos inesquecíveis. Momentos indescritíveis que são só nossos, haja ou não intervenção de terceiros.
São momentos de vibração a um nível que não sei explicar. Ele também não sabe. Mas ambos sentimos. Ambos vibramos. Ambos vivemos esses momentos que são só nossos. Sem medos. Sem tabus. E acima de tudo sem armaduras. Na total vulnerabilidade que só uma extrema confiança permite.
E é essa extrema confiança que vamos crescendo um com o outro. Vamos experenciando momentos irrepetiveis. Vamos vivendo momentos únicos. De pura conexão. De entrega total. De partilha do segredo mais bem guardado: o Eu que pouca gente conhece. Que praticamente ninguém vê. Mas que, no nosso caso, imediatamente reconhecemos um no outro. Porque não vem de agora o que existe entre nós. Já vem de há muito tempo, muito lá para trás, de outro qualquer tempo na História. O primeiro encontro aconteceu há tanto tempo que não foi no nosso tempo. E foi muito lá para trás que nos fundimos de tal forma que o tempo foi passando e nós fomo-nos encontrando e reconhecendo e fundindo num só.
O tempo pode dar as voltas que der. Mas eu e ele acabaremos sempre por nos reencontrar. Pela vibração. Pela conexão. Pelas partilhas. Por nos reconhecermos sem dúvidas, sem medos, sem tabus. E sempre sem armaduras. Porque não precisamos de nos proteger um do outro. Porque somos um só. Eu e ele. Ele e eu. Quando dois são apenas um, completo. Inteiro.
O nosso momento de hoje…pura conexão. Extremo entendimento. Aceitação do outro tal como é. Sem medos. Sem tabus. Simplesmente ser. Eu. Ele. E confirmar que o caminho mais longo é o que nos pertence. E, por ser o mais longo, pode até ser o mais difícil. Mas seguimos o caminho de mão dada. Como desde o primeiro dia.
Não há volta a dar. Eu sou dele. Ele é meu. Somos os dois um só…
Disto de passar umas quantas horas no Hospital de Dia de Neurologia: na mochila, levei comigo 2 livros que, sendo de aforismos, queria começar a ler, interiorizar e aplicar nos meus dias em breve; 2 cadernos, um para apontamentos do que preciso de fazer, dos emails que preciso de enviar, a lista de queixas, dores, sinais e sintomas que quero levar à médica de família, e outro, obviamente cor de rosa, que quero dedicar exclusivamente à carta, ou às cartas!, que lhe quero escrever e que já queria ter começado há tanto tempo; um powerbank carregado a 100%; um polvinho azul de tecido que já me acompanhou na primeira toma da medicação há 6 meses, que me aconchega e com quem aninho e enrosco no cadeirão do bunker do Hospital de Dia onde ninguém me pode ir acompanhar e que, na falta do meu polvinho giro-giraço-girassol de carne osso, me faz sentir mais segura; um Tupperware com uma Brownie fabulosa do café com a esplanada das mesas infinitas; garrafa de água.
Estava preparada, como há 6 meses, para as várias horas que iria passar ali com a medicação a ser-me servida directamente numa veia bailarina que se fez difícil de apanhar e se escondeu nas profundezas do meu braço esquerdo.
De tudo isto que levei comigo na mochila, só usei, na verdade, 2 coisas: o polvinho azul de tecido que tirei da mochila assim que me aconcheguei no cadeirão e o powerbank que tirei da mochila segundos antes de adormecer sem ter tido tempo de o ligar ao telemóvel. Claro que o telemóvel ficou sem bateria até que acordei algum tempo depois e, aí sim, consegui pô-lo a carregar. Mas ligar efectivamente o telemóvel só o fiz mais tarde, porque assim que o liguei ao powerbank voltei a adormecer…
Não sei ao certo quanto tempo dormi. Sei, sim, que acordei apenas poucos minutos antes da enfermeira me dizer “pronto, já está. Por hoje já acabou.” Foi rápido. Não em número de horas, que foram muito perto de 6. Mas, a dormir profundamente como eu dormi, tudo passa muito rápido.
Até ver, nada de efeitos secundários depois de 600ml de químicos entrarem no meu corpo. Pode ser que o único efeito secundário seja o mesmo de há 6 meses: dormir o dia seguinte todo. Se for isso, não me chateia.
Mochila arrumada para amanhã (mas com a certeza de que me estou a esquecer de alguma coisa, só não sei o quê…). Para variar, levo aquilo que se pode quase chamar de “casa às costas”. A saber:
2 livros: “Yoga-Sutra (Aforismos de Yoga)“, de Patañjali, e “Meditações e Aforismos“, de Goethe – porque não tenho muita paciência, neste momento, para romances, mas tenho sempre disponibilidade para coisas que fazem pensar. E estes dois livros vão-me dar muito para pensar, absorver e vivenciar ;
2 cadernos: o dos escritos do dia a dia, cuja capa diz muito sobre mim ao dizer “I’ll do it my way”, porque tem sido sempre assim nos meus últimos 48 anos (que serão, também, os primeiros 48 anos de muitos, espero eu) e o caderno novo de capa cor de rosa (claro que sim!) onde quero escrever, por exemplo, a carta (daquelas ridículas aos olhos do poeta) que me foi pedida por ele há tanto tempo e que ainda não consegui começar…;
powerbank carregado a 100%;
o meu polvinho azul de tecido que me acompanhou há 6 meses nesta mesma aventura, em que me aconcheguei naquelas longas horas no cadeirão do bunker do Hospital de Dia, mesmo sabendo que, à distância de um clique, outro polvinho, que é ele, vai estar de mão dada comigo como tem estado desde o primeiro dia.
As máscaras FFP2, uma bordeaux e uma roxa (porque, vindo de mim, só podiam ser coloridas!), já estão de lado, a caixa dos óculos será arrumada amanhã e não faço ideia do que é mas sei que me estou a esquecer de alguma coisa…
Passa das 23h30m. Aquela coisa de ir dormir cedo falhou redondamente, claro! Mas ainda tive a oportunidade do telefonema das 21h em que me foi servido um aforismo para guardar, absorver e vivenciar: “Tudo é mutável dentro do Todo” (acho que não me engano…).
Agora? É ir dormir a correr! E amanhã será o que tiver que ser, sabendo que será o melhor para mim.
Sábado, e como habitualmente o dia começou cedo para mais uma aula de Yoga. Aquele momento em que me ponho à prova perante mim mesma. E onde sei que, se hoje não consigo alcançar a permanência numa postura, todas as vezes que me for proposta irei alcançar mais um bocadinho até conseguir a permanência na posição correcta e completa. Mas sempre sem pressa, sempre sem pressão, minha ou do Professor Pedro. E devagar vamos avançando na prática, eu guiada por ele.
Não fazer absolutamente nada o resto do dia e querer dar descanso ao corpo no sofá. Não saí do cadeirão… Não foi exactamente o que tinha pensado, mas também foi não fazer nada, que era o que se pretendia.
Agora, à hora em que a noite já roça a madrugada, continuo a adiar a saída do cadeirão em direcção à cama. Tento enganar-me a mim mesma dizendo-me que estou tranquila quanto a segunda feira. Mas não estou totalmente…
Não vou insistir em ficar no cadeirão. Estou cansada. A ansiedade começa a apertar. Amanhã é dia de preparar tudo para segunda feira e quero fazê-lo com calma, sem pressa. E, para isso, é preciso ir descansar. Domingo é o único dia da semana sem despertador, por isso…à hora que acordar, acordei. O resto? Logo se vê…mas, em primeiro lugar, eu. Depois logo se vê…
Sair do banho de manhã e ter uma inundação na casa de banho que por pouco não chegou ao quarto, à cozinha, à sala e às escadas…
Apanhar a água numa espécie de contra-relógio porque havia um autocarro para apanhar. E lá fora chovia. Muito.
Sair de casa. Já não chovia quando saímos. Mas a grande chuvada de momentos antes tinha sido mais forte do que tínhamos percebido e, como sempre, o nosso bloco de prédios foi transformado numa ilha da qual foi difícil conseguir sair.
Mas saímos. E apanhámos o autocarro a horas.
Fisioterapia terminada, foi voltar para casa. E, em casa, ficar a ver o tempo passar.
Canalizador para tratar da casa de banho, sair de casa para apanhar ar e beber um café. E perceber que o que tinha prometido a mim mesma, dar descanso ao corpo, não foi cumprido. Mais uma vez…
Queria deitar-me cedo. Noutro fuso horário qualquer ainda é cedo. E lembro-me sempre que “menos uma hora nos Açores” faz com que não seja assim tão tarde.
Amanhã? Sair de casa cedo para o Yoga. E depois? Logo se vê…
Exausta. Quando devia estar a tratar melhor do meu corpo. A prepará-lo para, tranquilamente, daqui a 4 dias voltar a bombardeá-lo com medicação para os próximos 6 meses. E, desta vez, pela primeira vez, uma dose completa de 600ml de químicos para tentar travar a progressão disto que me apanhou na curva.
Adormecer à tarde e acordar quase 5 horas depois é sinal de que preciso de me reorganizar para não abusar do meu corpo e levá-lo quase ao limite.
Hoje (já) é quinta feira. Na segunda feira tenho que estar bem. Descansada. Repousada. Recuperada. E preparada para mais um dia passado no bunker do Hospital de Dia. A receber químicos que não sei se estão a fazer o trabalho que lhes compete. Mas espero realmente que sim. Eu não pedi nada disto. Não procurei nada disto. Mas isto apanhou-me na curva e trouxe-me toda uma nova realidade. E, com ela, um novo normal cheio de novas rotinas. E eu só posso acreditar que tudo o que esse novo normal me trouxe é para me ajudar. E se não for para me deixar melhor, que sirva então para que eu não fique pior. E só isso já é um ganho tremendo.
Claro que, a esta hora em que já é muito tarde, eu já devia estar a dormir. Não estou, como sempre. Mas sexta feira, sábado e domingo vão ter que ser suficientes para me fazer descansar. E para me deixarem bem para segunda.
E claro que mesmo a 4 dias de distância já me estou a preocupar. Vai correr tudo bem? Vai ser tranquilo como foram as duas primeiras meias doses há 6 meses e que agora será uma dose inteira? Vou ter algum efeito secundário? Não tive nada há 6 meses a não ser dormir o dia seguinte inteiro…
Não sei…não quero preocupar-me nem stressar-me nem nada que me inquiete. Mas conheço tão bem o funcionamento da minha cabeça…
Dormir, é preciso! E rapidamente! Amanhã, dia de acordar cedo, mais uma sessão de fisioterapia. Onde só volto lá para quarta ou quinta feira depois do descanso obrigatório pós-medicação. Obrigatório porque eu assim entendo que o seja. Dar tempo ao meu corpo para se recuperar do ataque químico.
Sei que quando regressar à fisioterapia serei recebida de braços abertos e com sorrisos por parte de todos. E saber isso faz-me tão bem. Sei que a clínica será a minha segunda casa daqui para a frente e ali terei sempre uma espécie de segunda família à minha espera com o mesmo objectivo que eu: não ficar pior. E só isso já é suficiente para, de alguma forma, ficar melhor.
Mas, agora, é dormir! Rapidamente! Porque o corpo não só precisa como exige que descanse. E é isso que vou fazer.
Amanhã? Logo se vê. Mas, por hoje, já posso dar o dia por terminado.
Digo tantas vezes que não tenho tempo para perder Tempo. E não deixa de ser verdade. Não gosto que me façam perder Tempo. E continuo a achar que o Tempo é o bem mais precioso que qualquer um de nós tem, depois da vida, obviamente. Porque o Tempo não é reembolsável e todo o Tempo que temos é o agora. Porque o que já passou não é possível recuperar. E quem é que sabe se daqui a 5 minutos ainda cá estamos…?
No meu momento actual, e não sei até quando, tenho mais tempo livre em mãos. As manhãs são preenchidas com a fisioterapia, mas após as 11h o dia está completamente livre…mas continuo a sentir que não tenho tempo para fazer tudo o que quero! Mesmo que esse tudo seja apenas uma coisa que tenha pensado para determinado dia. O tempo que tenho livre, e é muito tempo!, não me chega para tudo. E também não me chega para nada…
Faço as noites esticar para ter mais tempo para fazer o que quero. Deito-me muito mais tarde do que o recomendado quando o que preciso mesmo é de dormir as 8 horas mínimas necessárias. Mas nem assim consigo ter tempo para fazer tudo o que quero…
…nem para descansar e recuperar o corpo eu consigo ter tempo…
Amanhã. Amanhã logo se vê. Vou ter que encontrar tempo para o que quero fazer. Mas, neste momento, o que preciso mesmo é de ir descansar…amanhã depois logo se vê…
…e, na minha cabeça, uma palavra a ecoar demasiado perto de mim. Porque em mim.
D I S F A G I A
…ou a dificuldade para engolir…
…que, em mim, existe. É real. Assustadora. Preocupante.
…e eu estou tão farta disto…queria fugir e esconder-me. No meu esconderijo favorito: o abraço dele. E, por um momento, fazer de conta que está tudo bem. Que nada se passa comigo. Que este diagnóstico complexo e sem retorno nunca existiu. Mas não posso…porque a realidade vai estar sempre presente. Mesmo que eu não queira. E não quero…
Há dias em que me sinto assim como as árvores no fim do Inverno, início da Primavera, sem uma única folha depois de uma violenta tempestade: despida e aparentemente sem rumo.
Mas depois lembro-me que, apesar da tempestade e do vento demasiado forte que roubou toda e qualquer folhagem existente, é no início da Primavera que as árvores recomeçam a compôr a folhagem, voltam a criar condições para receber rebentos que com o tempo irão crescer e dar lugar a novas folhas que acabarão por cobrir todos os ramos, recebendo ninhos de pássaros que por ali escolhem ficar e tantas outras formas de vida. Novamente, com o devido tempo, todas as árvores voltarão a estar completas e com um rumo bem definido: com raízes fortes bem enterradas no solo, continuarão a crescer.
Eu sei, eu sempre disse que, quando crescer, quero ser uma árvore. E é com as árvores que aprendo tanto sobre mim mesma: a minha força, a minha resistência, a minha resiliência, a minha capacidade de renovação depois da mais violenta tempestade que me verga mas não me quebra nem derruba.
Sim, tenho momentos em que me sinto como as árvores no fim do Inverno, início da Primavera, sem uma única folha depois de uma violenta tempestade. Mas depois páro, respiro, olho à minha volta e percebo que também eu estou no início da Primavera e os rebentos já se espalham por vários dos meus ramos. E é tão bom perceber que estou no caminho certo simplesmente por ser quem e como sou: uma árvore em crescimento.
…e os últimos dias têm-me mostrado e ensinado tanto sobre mim mesma…
Fim de semana cheio. De coisas boas, de gargalhadas soltas e genuinamente felizes, de muitas horas dormidas para recuperar daqueles dias, e foram muitos!, em que me esqueci ou não tive tempo de parar e descansar.
Senti, claro, a falta, a ausência porque a vida é mesmo assim, dele. Mas, quando me preparava para tratar de mim e do que preciso para amanhã, encontrei-a, quase passando despercebida, iluminada apenas a 3% mas a permitir-me vê-la por completo. E ao encontrá-la tive a certeza que a 135km daqui ela também é vista por ele. E só por isso sorri-lhe. À Lua. Que, sei-o, irá fazer chegar o meu sorriso até ele.
Depois do fim de semana tão bom, tão cheio, tão rico de coisas que me fizeram rir tanto, gargalhada solta e sonora e genuína, só podia mesmo sentir-me completa ao encontrá-la tão timidamente iluminada. Porque ela faz parte de mim assim como eu faço parte dela. E é assim que eu tão facilmente me desloco até ao abraço dele através dela, com ela.
Sim, a falta, a ausência porque a vida é mesmo assim, foi sentida. Mas a minha Lua já me acolheu e aconchegou no abraço perfeito dele que ela trouxe até mim. E, para esta noite, isto basta-me. Amanhã, com a Lua iluminada a 8% a esta hora, irei continuar a contar-lhe os meus segredos, os meus sonhos que sei que ela irá partilhar com ele.
Sim, foi um fim de semana e tanto! Um fim de semana condensado numa manhã de Sábado. Mas que valeu por tanto tempo, tanta coisa. E eu termino o fim de semana a dizer a quem me quiser ouvir: estou feliz!
E esta manhã fomos à praia. Eu e os meus dois apoios: Maria Hermengarda à esquerda como habitualmente, a minha Mãe à direita, à frente ou atrás, mas sempre sempre sempre por perto, de braço dado quando não me sinto tão segura apesar da presença da Maria Hermengarda ou sempre ali à mão ou à distância de um braço para eu me conseguir agarrar.
Hoje decidi seguir a recomendação do neurologista e aproveitei para dar uma folga à Maria Hermengarda e ao braço da minha Mãe. E arrisquei caminhar a solo na areia. Na seca e na molhada. Se caísse, tal como disse o neurologista, não fazia mal porque já estava na areia.
A bengala e as mochilas mais o saco do tapete de Yoga ficaram num monte, atirados para a areia da minha praia da adolescência. Deixeitudo para trás, até a minha Mãe, e segui até ao Mar. Um passo de cada vez. Com cuidado. Com alguma dificuldade em manter o equilíbrio, claro. Mas nem o Mar me derrubou ou fez parar! Já tinha TANTAS saudades de ir até à água, sentir as ondas nas pernas. Dar pulinhos ou pontapés nas ondas já sei que não é possível. Mas caminhar Mar a dentro? Bem, sozinha só o faço enquanto a água não passa dos joelhos. Mas vou! E hoje percebi que ainda o consigo fazer! Devagar, devagarinho. Um passo de cada vez. Sem pressa e sem pressão. Mas bolas!, sou capaz de o fazer! E sabe tão bem!
Se há vídeos disso? Claro que sim! A minha Mãe fez questão de registar o meu progresso. O meu sucesso! Tal e qual como os pais filmam orgulhosos os primeiros passos dos seus bebés, a minha Mãe fez questão de registar, para que eu não me esqueça nunca!, do que eu SOU CAPAZ! Ela orgulhosa a filmar. E eu tão contente, tão feliz!, a bater palminhas de contente e a RIR MUITO por conseguir fazer uma coisa aparentemente tão simples como caminhar na areia e ir até ao Mar SEM QUALQUER APOIO! E sem cair!
Claro que para sair é mais difícil porque olhar para baixo e ver o movimento do Mar a recuar é algo que o meu cérebro não consegue processar facilmente. Mas faz-se! EU faço! EU consigo! Devagar, devagarinho, sem pressa e sem pressão, mas CONSIGO! E ninguém imagina como fiquei FELIZ por conseguir caminhar dentro de água, sair do Mar apesar das ondas, voltar a entrar…!!
E se tivesse que escolher uma única foto entre tantas que a minha Mãe tirou para resumir esta manhã na praia, escolhia esta que está aqui em baixo…
Aquele momento em que o Mar me toca as pernas pela primeira vez ao fim de tantos meses. Pernas ligeiramente afastadas para não perder o meu ponto de equilíbrio. A olhar para baixo, para o Mar a receber-me.
E é, também, um momento de concentração, força, coragem, resiliência e muita determinação. Estava, finalmente!, onde há tantos meses queria estar: à beira do Mar, com os pés dentro de água e a sentir as ondas, ali já tão pequenas e desfeitas mas com a energia que me estava a faltar há tanto tempo.
Sim, foi um final de manhã muito bom. E há muito tempo que não me sentia como me senti esta manhã na praia: a excitação, o entusiasmo, a alegriagenuína do reencontro com o Mar e o reencontro com uma parte de mim que receava não reencontrar.
Foi tão bom. Mas tão bom! E será para repetir brevemente e tantas vezes quantas forem possíveis! Afinal, a minha praia da adolescência até tem um autocarro que apanho perto de casa e saio na paragem a menos de 200 metros do areal.
Não sei exactamente o que aconteceu, que mistério é este que uma pessoa vai dormir com 47 anos e acorda com 48… Deve ser aquela coisa que chamam de mistério do tempo, que vai passando e não espera por ninguém. E, às vezes, ainda bem que vai passando sem esperar por ninguém. É sinal que estamos por cá para contar a história. E eu estou.
A foto é antiga, de 1997, de quando eu tinha 20 anos. Mas é daquelas fotos que gosto tanto que não tenho explicação. Era uma miúda na altura. Rebelde, curiosa, inquieta. Pouco ou nada mudou de lá para cá. Continuo assim: rebelde no pensar, curiosa porque quero sempre saber e conhecer mais, inquieta para alcançar mais e melhor.
A única diferença? Na foto tinha 20 anos, hoje acordei com 48. Ou é isso que diz o Cartão de Cidadão porque, na verdade, são 27 anos com 21 de experiência. É assim que eu sinto e o que eu sinto é o que para mim faz sentido.
Por isso, parabéns para mim e bom dia de Sol e Primavera instalada para todos.
Mas, por favor, alguém que me explique só uma coisa: com’assim48?!
Das coisas que insisto em esquecer-me: descansar! Que é o mesmo que dizer que me ando a esquecer do mais importante: EU!
Se, em situações ditas normais, é preciso reconhecer os limites do nosso corpo, no meu novo normal não só é URGENTE reconhecer esses limites como é OBRIGATÓRIO respeitá-los e não tentar ultrapassá-los com aquela célebre frase “é só mais um bocadinho, não faz mal nenhum porque eu ainda aguento…”. Não! Eu posso achar que ainda aguento porque antes disto até aguentava, mas no meu novo normal quem não aguenta “só mais um bocadinho” é o meu corpo.
Amanhã o dia vai ser longo e ocupado, com pouco tempo para descansar: fisioterapia, reunião com a Segurança Social, voltar para casa a correr para almoçar e TENTAR descansar um pouco antes de ir para o Yoga, jantar. Seria, portanto, importante esta tarde dedicar-me ao sofá e à tarefa mais difícil de todas: não fazer nada! Parece simples. Mas não é. Especialmente quando a cabeça está a mil. Quando estou completamente overwhelmed e sem conseguir parar para desligar e fazer uma espécie de reset. O grande problema é que o corpo já não acompanha a cabeça, mas, e antes que seja tarde!, a cabeça, que também precisa de se reorganizar e acalmar, vai ter que abrandar um pouco para dar oportunidade ao corpo para descansar e tentar recuperar a energia que se perde algures e que, aprendo todos os dias, agora se esgota a um ritmo alucinante e que não achava ser possível…mas é.
Por isso, e antes de ultrapassar o meu próprio limite imposto pelo novo normal do meu corpo, vou só ali um bocadinho…
O V E R W H E L M E D – aquela palavra em inglês que descreve na perfeição como os últimos dias me têm feito sentir. Mas especialmente hoje. Já lá vai o tempo em que era capaz de processar tanta informação no mesmo dia. Como quando estava a trabalhar, antes da baixa, no atendimento telefónico ao cliente numa companhia de seguros. Demasiadas chamadas atendidas nas 8 horas de trabalho diárias, demasiada informação e conhecimento para processar, traduzir e transmitir ao cliente. E mesmo nos dias mais complicados, quando o número de chamada atendidas superava as 80, quando os processos eram difíceis, quando era preciso traduzir de segurês para português de forma a que a informação fosse passada ao cliente da maneira mais correcta e de fácil compreensão possível, quando mal tinha tempo para respirar entre chamadas, mesmo nesses dias que se repetiram durante alguns anos eu conseguia processar toda a informação de forma tranquila e, assim que o relógio marcava as 19h, desligava o computador e dava o merecido descanso ao meu processador interno sem dificuldade. Hoje? Não fui bombardeada com nem 1 décimo da informação de um dia de trabalho dito normal. Mas dei por mim assim: OVERWHELMED
…e não, ainda não fui dormir apesar de pouco faltar para a 1h da manhã e eu estar e x a u s t a e a insistir em esquecer-me de que o meu corpo já não tem a resistência de outros tempos não tão longínquos…
Ataques de pânico. Depois de 10 anos de ausência, eis que voltaram para me infernizar. 3 noites, 2 ataques de pânico. Mas eu, que há pelo menos 30 anos os conheço de ginjeira, não lhes vou dar espaço para se instalarem comodamente nos meus dias. Ou nas minhas noites, que é onde parecem sentir-se mais à vontade para chatear.
Esta tarde prometi a mim mesma voltar a atravessar o Parque até ao Paredão para ver o Mar e regressar pelo mesmo caminho. Demore o tempo que demorar a fazer o caminho. É só o tempo lá fora melhorar e estou de volta ao parque.
Esta noite prometo a mim mesma fechar a porta aos ataques de pânico, de quem não tinha saudades nenhumas e muito menos sentia qualquer falta.
Eu faço questão de cumprir as promessas todas que faço seja a quem for. E estas duas que prometi a mim mesma não vão ser excepção. Vão custar? Curiosamente, a segunda será a mais difícil de cumprir. Mas vou conseguir. Porque ataques de pânico em barda, para mim, é tão anos 90…
Foi há mais de 10 anos que tive o último ataque de pânico. Ataques de pânico que conheço de ginjeira desde os idos de 1994. Que tanto interferiram na minha vida. Mas mas que eu nunca permiti que me condicionassem. Pelos menos não totalmente. Trabalhar na Expo98, ir só para Bruxelas, teatro, mudança de escola e, mesmo bombardeada de ataques de pânico a qualquer momento e várias vezes por dia e ainda sem qualquer medicação, conseguir (ao meu ritmo) fazer o 12• ano, tirar a carta de condução, começar a trabalhar, tudo isto sempre sob a alçada dos ataques de pânico que raramente se fazem anunciar.
Nunca permiti que a ansiedade e os ataques de pânico tomassem conta da minha vida. Não foi isso que aconteceu, embora em alguns momentos tivesse achado que sim. Mas não aconteceu.
E chegou o momento em que dominei a ansiedade e eliminei quase por completo este meu entrave. Foram mais de 10 anos tranquila, serena.
Senti-me outra. Vi-me outra. E, também, despertei a tempo de ver eventos que me poderiam ajudar. Até ontem…
Ontem, no auge do pânico, ele surgiu como um cavaleiro andante para salvar uma donzela em stress. E bastou a presença dele, de facto presente mesmo à distância de um clique para, aos poucos e lentamente e de mão dada comigo recuperar.
Mas a ressaca…? É essa que me está a condicionar. Bastante. Por isso…vou dormir. Que é o que mais estou a precisar…
Até há nem tanto tempo assim fazia questão de todos os dias, sem excepção, sair de casa ao final do dia para apanhar ar, sentir-me um bocadinho mais livre e menos presa do que me sinto em casa, ficar um pouco na esplanada do costume para ter o meu tempo comigo mesma. Essas saídas diárias serviam também para, de alguma forma, me obrigar a reagir e a interagir com o Mundo lá fora. Mas, e já não sei desde quando, de um dia para o outro simplesmente deixei esse hábito de parte. É possível que a minha crescente dificuldade em ir (e voltar) sozinha tenha tido influência.
As minhas idas sozinha ao café são sentidas como uma luta para manter a minha independência, assim como o ir sozinha para o Yoga e para a fisioterapia. Admito que o risco de queda existe acompanhado por algum receio. Mas, na realidade, o meu maior receio é perder essa autonomia. Mas, e não sei de facto porquê, as saídas ao final do dia deixaram de acontecer.
Sinto falta desses momentos. Os tais momentos sozinha comigo mesma. Tenho que os retomar em breve. Para bem, também da minha saúde mental…