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Do Amor, aquele do A maiúsculo

O Amor, aquele do A maiúsculo, também é isto. É escrever em jeito de desabafo que Yann Tiersen tinha concerto marcado para dia 19 de Outubro. E que seria um plano perfeito para esse dia, na altura ainda tão longínquo. E dizerem-me, como resposta, pessoalmente, alguns dias depois “vamos ver o que conseguimos”. Não, não foram estas as palavras exactas, essas guardo-as para mim, porque só a mim foram ditas e para mim. Mas a mensagem era esta. “Vamos ver o que conseguimos”.

E poucos dias antes de dia 19, quando já nem sabia os dias que marcavam o calendário, quando já não pensava no concerto, quando já Outubro corria solto, “arranja lá a tua companhia, temos dois bilhetes para ti”.

Bilhetes de primeira plateia, 4ª fila, praticamente a meio, com uma proximidade brutal de um palco que se revelou minúsculo para tanta energia, tanta força, tanta intensidade de música. E enorme por me sentir tão pequena no meio de tanta genialidade.

Esqueçam Amélie. Yann é, sempre foi, tão mais do que Amélie, já de si genial. Mas é tão mais do que apenas Amélie. É uma força do Universo, que se entrega a cada música com a intensidade de quem Ama o que faz.

E o Amor, aquele do A maiúsculo, também é isto: são os bilhetes, é a entrega. Sim, é tudo isto também.

E fica-me na memória, fica-nos na memória, aquilo que não é possível descrever.

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Ouvido por aí

“O Amor são duas solidões que se encontram”

e

“O passado já ficou lá atrás, só podes garantir o futuro”

Erros tão grandes, em duas frases que podiam ser bonitas. Ou só bonitas. Mas erradas. Porque o Amor, esse, se construído na base de duas solidões que se encontram tem a mesma resistência que castelos de areia moldados a copos de vinho ou chávenas de café. Porque duas solidões que se encontram, mesmo que deixem de olhar para o que ficou lá atrás, moldando os castelos que se querem fortalezas que resistem ao tempo, apenas conseguem alcançar o que já foi e o que ainda não é. E carregam em si areia, amontoando sobre si mesmas, as solidões, mais areia ainda.

Não importa se moldar a areia em copos de vinho ou chávenas de café tem um efeito bonito. Porque a areia é temporária quando apenas se tenta olhar para o que ainda não veio. Para o que ninguém garante que venha. O futuro.

Duas solidões que se encontram serão sempre isso mesmo: duas solidões. Daí só nascerá Amor quando ambas deixarem de existir e passarem a ser outra coisa que não solidão. Porque na solidão não há a ocupação do Amor. E por muito que duas solidões se encontrem falta preencher, em ambas, essa ocupação que não existe.

E essa ocupação pode ser preenchida com areia. Mas olhando sempre a única coisa que é garantida: o aqui e agora. E sim, pode ser areia moldada a copos de vinho ou chávenas de café. Mas precisa também de tantos outros materiais. Que chegam sempre com o aqui e agora e fortalecem esse castelo que se quer de todas as cores, de todos os formatos, com toda a força do Amor.

Não. O Amor não são duas solidões que se encontram. O que podemos garantir não é o futuro porque amanhã quem sabe. Não. O Amor não é nada disto. Mas é, também, a areia que se molda e fortalece no aqui e agora.

 

Da vulnerabilidade da mente num corpo exausto

Num corpo dorido do peso dos dias que começam ainda de noite, atravessam a manhã ainda a correr, sobrevoam a tarde e terminam com o brilho da Lua que marca presença sempre.

Num corpo que pede descanso, a mente solta-se, liberta-se de filtros e vagueia em ideias recorrentes de reciprocidade. De afectos. De sorrisos escondidos ao canto da boca. Não. Escondidos não. Assumidos. Como o brilho nos olhos que se detecta à distância e não precisa de legendas. A tradução é óbvia. É clara. E é simples.

E é nessa vulnerabilidade da mente que o corpo exausto procura o corpo conhecido onde encaixar. Pernas que procuram pernas para se enrolarem. Dedos que procuram dedos para se entrelaçarem. Olhos que procuram olhos para devolver o brilho dos sorrisos. Dos sorrisos assumidos, pintados de beijos que são sopro de vida.

E com essa vulnerabilidade da mente num corpo exausto é deixar-me levar sem pressas porque o tempo não tem pressa nem tem tempo para se perder. E é ficar assim, quieta, a viver o momento, em silêncio porque as palavras são dispensáveis quando os olhos já disseram tudo e o sorriso denunciou o que assume.

É simplesmente deixar-me ficar com dedos a enrolar o cabelo, a arrepiar a nuca. Sem mais que não seja tudo.

E é viver nessa bola de sabão até ao próximo nascer do Sol, mesmo que o Sol apague a Lua.

Porque nessa vulnerabilidade da mente num corpo exausto, sem filtros, sem freios, sem receios, nada mais importa que não seja tudo. E tudo, sendo tanto, pode ser tão pouco como uma bola de sabão ou o nascer do Sol. E eu quero o nascer do Sol.

Letting Go

“Letting go is the hardest part” mas é necessário. É deixar ir o que já passou, o que foi não sendo, o que não foi sendo. Foi o que foi, não foi o que foi. Foi o que não foi. Há que deixar ir. Porque o peso do que está para trás torna difícil o caminho a percorrer para a frente.

E por isso hoje deixo ir. Como já tentei fazer antes, justificando-me num peso que não queria ser, que nunca quis ser, mas que sei que fui por muito que me dissessem, dissesses, que não.

Hoje não interessa o peso que sou ou que tenho, interessa deixar ir não por mais nada nem ninguém, não pelo que ficou para trás, mas por mim apenas e pelo que tenho pela frente. Porque há coisas que não são, simplesmente, para ser, e assim sendo há que deixar ir. Fica a memória, as memórias. As coisas boas, as menos boas, até mesmo as más e as muito más. Fazem parte de um livro de histórias, de um baú de memórias, que de vez em quando se irá abrir como todos os baús, como todos os livros. Mas sou grata por cada momento, incluindo os maus, até mesmo os muito maus, porque aconteceram. E com tudo isso, mal ou bem, à força ou não, cresci. Aprendi que tudo acontece por algum motivo. Mesmo que não se consiga perceber no imediato a razão. Mas tudo o que acontece por algum motivo põe-nos à prova. De um lado e de outro. E mostra-nos que podemos suportar muito mais do que aquilo que achamos possível. Com ou sem ajuda, com ou sem elevadores, com ou sem alavancas, com ou sem roldanas, com ou sem mãos que nos puxem. E neste momento sei que sozinha consigo seguir em frente. E por isso mesmo deixo ir o que até aqui foi mas não foi, ou não foi mas foi. Nunca sendo. Sendo sempre.

Vai. Deixa ir. Sê livre. Vive um dia após o outro. No aqui e agora. Digo-me tanto isto tantas vezes. E está na hora de pôr em prática aquilo que teorizo tanto. E, por isso mesmo, deixo ir. Deixo-me ir. Deixo-te ir. Corto a amarra que eu mesma teci, por acreditar que seria a minha tábua de salvação. E foi. No momento que tinha que ser. Hoje, hoje essa tábua já não flutua. Já não me permite manter-me à tona, embora também não me afunde. Porque já aprendi a manter-me à tona sozinha. Por isso, por isso chegou a hora de cortar o cordão, soltar a amarra, deixar ir aquela que foi a minha tábua de salvação. Porque até as tábuas de salvação, as nossas que não são na realidade nossas, têm outros caminhos a percorrer que não os nossos. E não podem estar ali sempre.

Por isso mesmo deixo ir. Com a certeza que o que tinha que acontecer aconteceu por algum motivo. Mesmo que não o entenda ainda, mesmo que só o venha a entender daqui a muito tempo, noutro espaço de outra vida que não aquela deste momento. Num outro presente, que hoje nada mais é que futuro. Nessa altura entenderei. Mas, para já, aceito e sou grata. Mesmo pelo que me fez chorar tanto, pelo que me magoou tanto, pelo que me fez sofrer como nunca pensei ser possível, mesmo por me ter mostrado, ainda que à força, que sou tão mais forte e resistente do que aquilo que pensava ser. Porque simplesmente aconteceu.

Por isso deixo ir. Deixo-te ir. Deixo-me ir. Por muito que seja “the hardest part”.

But then again, this too shall pass.

 

Luz de Presença

A noite. As minhas noites. É quando as luzes se apagam e o silêncio envolve a cidade adormecida que os meus demónios e os meus fantasmas se mostram. Presentes, sempre. Mas especialmente visíveis e audíveis à noite.

Não são fantasmas ectoplasmas, nem demónios de chifres e caudas pontiagudas. São piores. Porque não são fantasias nem folclores. São meus, são reais, mesmo que não sejam visíveis a olhares externos, nem audíveis por outros.

Caminham comigo, todos os dias, lado a lado. Consigo por vezes silenciá-los, porque como fantasmas e demónios que são, temem a luz do Sol e deixam-se ficar mais ou menos quietos. Nunca completamente parados, mas pelo menos mais quietos, sossegados. Mas à noite, à noite  acordam e soltam-se e fazem-se presentes. Gritam-me aos ouvidos, abanam-me para que não adormeça. Estão lá sempre. A rir. A apontar os meus erros. Os meus defeitos. Que conheço todos. Os erros e os defeitos. Ou a grande maioria, pelo menos. De ambos.

E com os gritos destes fantasmas e destes demónios as minhas noites não são feitas para dormir. São para ficar acordada a tentar domá-los, a tentar, pelo menos, silenciá-los. Porque se adormeço, quando adormeço, invadem-me os sonhos e mesmo aí se fazem presentes.

Para isso preciso de luz. De uma luz de presença. Já que o som de presença não existe, já não existe, falta-me a luz de presença. Que me recorde que é com a luz que os meus fantasmas e os meus demónios se acalmam, sossegam. Por isso procuro pirilampos para me acompanharem. Porque os pirilampos dão-me luz, dão um ponto de foco, dão-me uma referência para onde fugir quando os gritos dos meus fantasmas e demónios se tornam ensurdecedores.

A luz de presença dos pirilampos mostra-me o caminho quando estou perdida e relembra-me que com a luz do Sol tudo fica mais calmo. Mas está-me a faltar essa luz. Para poder focar-me nela e tentar desligar do resto. Tentar esquecer-me dos meus fantasmas e dos meus demónios. Que todas as noites estão lá, ao meu lado, activos, a abanarem-me e a gritar aos meus ouvidos.

……e eu não consigo, pelo menos, silenciá-los……

E os meus gritos por socorro, esses, ninguém os ouve. Por isso preciso, muito, tanto, de uma luz de presença que me recorde que a noite são só umas horas que passam a correr. Mesmo que para mim consiga ter o peso de uma eternidade.

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Bolas de Sabão

Gosto de bolas de sabão. Desde sempre. Mas hoje vejo as bolas de sabão com outros olhos. São outras bolas de sabão.

São bonitas. São perfeitas. Têm cor, tanta cor. São leves e voam. Voam para onde o vento as leva. Deixam-se levar, sem receios do rumo que o vento lhes sopra. Sem receio dos obstáculos que lhes são fatais. E vão. E voam. E permitem-se ser assim, leves. Leves mesmo que nunca vazias, porque as bolas de sabão, ao contrário do que parecem, não são, não estão vazias. Todas elas por dentro são ar. Ar que se respira, ar de palavras, ar de beijos, ar de experiências, ar de memórias. E as memórias, essas, podem ser tão pesadas. Mas ainda assim as bolas de sabão permitem-se ser leves, por muito pesado que seja o ar que as enche, as memórias que as preenchem.

São, também, efémeras. Duram pouco, muito pouco. Tão pouco que por vezes quase não chegam a ser bolas de sabão. Mas enquanto duram, enquanto o são, são bolas de sabão cheias de cor, cheias de sonhos levados por um vento que lhes traça o destino. Enquanto duram, fazem, fazem-me, sorrir. E fazem-me sorrir mesmo depois de deixarem de ser bolas de sabão. Porque se transformam em memórias daquelas que provocam sorrisos.

As bolas de sabão, por serem leves, são capazes de provocar sorrisos e arrepios. Como aqueles provocados pelos dedos a tocar a pele ao de leve. Os sorrisos e os arrepios. As bolas de sabão são capazes de nos fazer querer parar o tempo para que durem mais tempo. Para que os sorrisos e os arrepios se mantenham mais tempo presentes e não apenas memórias.

As bolas de sabão? As bolas de sabão são o momento. São o aqui e agora. São o que são enquanto duram: bonitas, perfeitas, cheias de cor e voadoras. E o aqui e agora é, não sempre, mas é, bolas de sabão.

E há dias em que lhes sinto a falta, das bolas de sabão. E dos sorrisos. E dos arrepios.

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Ponto de Fuga

Diz a Wikipédia que um “ponto de fuga é um ente do plano de visão, que representa a intersecção aparente de duas, ou mais, retas paralelas, segundo um observador fixo. Todo o ponto de fuga situa-se na linha do horizonte.” É assim, dizem, que se cria a prespectiva.

Para mim, um ponto de fuga é aquele local, certo ou incerto, certo ou errado, onde posso refugiar-me com tempo, sem pressas, sem pressões, sem prazo para voltar. É aquele local onde posso estar e ser e sentir e ficar. E pôr as coisas em prespectiva.

Um ponto de fuga não serve, nunca poderia servir, para fugir aos problemas. Porque os problemas, esses, encontram-nos sempre, porque vão, estão, connosco sempre. Mas num ponto de fuga, com tempo, sem pressas, sem pressões, sem prazo, os problemas que vão, que estão, connosco começam a ser vistos por outra prespectiva. Aquela de quem tem tempo, sem pressas, sem pressões, sem prazo, para gerir e digerir tudo o nos rodeia.

Não tenho um ponto de fuga neste momento. Vou ter que o encontrar em mim, cá dentro. Bem no fundo de mim onde acho que não encontro respostas. Ou pelo menos as respostas que me pedem. Daquelas sem tempo, com pressa, com pressões, com prazo. Respostas sem prespectiva correcta ou corrigida. Quando tudo o que preciso é de tempo. Para mim. E um ponto de fuga. Também ele para mim.

Dos sorrisos

Apetecem-me aqueles sorrisos pequeninos ao canto da boca, meio tímidos, meio escondidos. Mas sorrisos bons. E que dizem tudo. Ou que não precisam de dizer nada, porque está lá tudo.

São sorrisos ao canto da boca que acompanham o sorriso dos olhos, que se baixam não para fixar o chão ou o vazio, mas porque jogam o jogo do faz de conta, da sedução, da entrega.

São sorrisos ao canto da boca de quem já se apaixonou e só deu por isso quando se apercebeu da presença desses sorrisos. Que sabem tão bem. Quem preenchem e aquecem. E aconchegam mesmo quando tudo à volta parece ter desmoronado.

Apetecem-me esses sorrisos. E tudo o que esses sorrisos significam. E tudo o que esses sorrisos trazem de volta.

……e acredito que sim, que esses sorrisos estão cá. Se não sempre, quase sempre. E, penso, estão cá agora também. E concluo o óbvio: devia apaixonar-me mais vezes. Já lhe sinto a falta.

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De um corpo exausto

De um corpo que pede descanso. Que me exige que páre, que durma, que abrande. Um corpo que me diz, que me grita, que chega de tanta ansiedade que dói e mói e corrói. Que precisa de dias e dias e dias sem horários, sem histórias futuras, presentes e passadas.

Um corpo que vai gerindo tudo o que deve ser digerido e não gerido. Que aguenta os embates emocionais, as faltas de cuidados quase básicos como abraços e beijos e carinhos. E carícias. Delícias. Deliciosas malícias também, porque não?

Um corpo dorido. Pesado. Que se movimenta quase sozinho porque a mente, essa, está em tantos outros sítios ao mesmo tempo, em tantos tempos diferentes, presente, passado, futuro. Constantemente a tentar focar-se no aqui e agora e sem conseguir porque o passado está presente, o futuro marca presença também e cada vez mais certo. Ou errado. Ou apenas incerto.

Há um corpo a precisar de descanso. Tanto, tanto. De abraços, de carinhos, de beijos e carícias. De pernas entrelaçadas, de dedos no cabelo, de palavras ditas em silêncio, de olhares que falam claramente, de lábios que se tocam sem trocar palavras porque as palavras não são precisas, apenas os beijos como sopros de vida.

Há um corpo a precisar de parar e olhar para a Lua, a 50% como está hoje. A Lua, porque o corpo, esse, já vai num estado de quase Lua Nova, a não existir, ou a não se deixar ver. Um corpo que procura regressar à Lua Cheia, iluminado em força, reflexo apenas do Sol, é certo, mas cheio de Luz. Da Luz que guia o caminho para um corpo que não sabe para onde se dirigir para ingerir esses cuidados básicos que são os beijos, os abraços, as carícias, os sopros de vida.

Há um corpo tão cansado. Que não dorme por estar a digerir uma ansiedade alucinante que dói e mói e corrói, criada numa mente que não vive o aqui e agora mas que já começou a largar o passado e se foca cada vez mais no futuro. O futuro certo. Ou errado. Ou apenas incerto. Não sei, sei lá. Sei lá se é certo, se é errado, se é incerto, se é sequer!

Mas o corpo, esse que está exausto, dá sinais. Auto-regula-se enquanto pode, desregula-se quando começa a não aguentar mais. Como agora. Os sinais estão lá, a desregulação é óbvia e a mente, essa, acompanha o desregular e viaja para outras paragens. Para o que é, o que não é, o que sabe lá se é ou não é.

Há um corpo. O meu. Tão cansado. Quase tão cansado como a minha mente. Há um corpo, o meu, que pede, quase implora, que o deixem descansar. Parar um bocadinho para conseguir dormir quando tem que dormir, obrigando a mente a desligar do que é, do que não é, do que sei lá se é ou não é e do que pode ser ou pode não ser.

Há um corpo, aqui acompanhado por uma mente, ambos meus, que pedem descanso das emoções dos últimos longos meses, dos embates frios e violentos. Não no corpo directamente, mas na mente. Que se reflectem agora no corpo, claro. Há um corpo, aqui acompanhado por uma mente, ambos meus, que pedem emoções mais leves, mais suaves, mais quentes, que envolvam tanto o corpo como a mente em carícias, em beijos de mel, ou de sal, ou de chocolate, mas em beijos, podem até ser de vinho ou de café. Beijos sopro de vida. De aqui e agora e amanhã quem sabe, logo se vê.

Há um corpo exausto. Há uma mente confusa. Há uma ansiedade doida que dói e mói e corrói. Noutra escala que não aquela que não deixa respirar. Mas na escala que não deixa dormir e não deixa parar de pensar “e se…?” e nunca “e se não…?”. Porque o “e se não…?” é tão mais simples de encarar e avançar do que o “e se…?”.

{e depois dou por mim a pensar em ti e a sorrir um sorriso quieto e quase tímido, daqueles apenas ao canto da boca mas que está lá, e a pensar na tradução do que fazes, fizeste, será que vais fazer. Nem tudo precisa de tradução, nem tudo tem tradução. Tanta coisa é apenas porque sim, sem mais. Mas penso em ti, mais do que gostaria de admitir e sim, solto um sorriso. Pequenino. Tímido, quase. E nem o corpo nem a mente, que estão exaustos, me dizem outra coisa que não apenas que era aí que me apetecia estar agora. Valendo o que vale. Ou não valendo nada. Mas sim. Era aí. Agora. A ver a Lua. A sentir o cheiro do mar que hoje me invadiu como há muito não o fazia. A ouvir o som das ondas das noites de Verão. Numa noite de Meia Lua, perfeita na proporção. Era aí. Era aí que este corpo exausto queria agora repousar, enquanto a mente divaga no sabor dos beijos de sal.}

Despir a Alma

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É isto. É despir a alma. É encontrar quem ma dispa, apesar de despir a alma ser algo assustador ao início. Despir seja o que for em frente a outros pode ser constrangedor, mas tantas e tantas vezes o conseguimos fazer sem pudores, sem receios, sem medos. Basta que quem nos dispa o saiba fazer sem darmos por isso. E isso, despir a alma assim a alguém, pode ser perfeito deixando de ser assustador.

A ideia assusta, a prática nem damos por ela. Só nos apercebemos quando, do outro lado, quem nos despiu a alma nos estende as mãos e nos mostra todos os pedaços que nos foi despindo. Mostra-nos sem pedir nada em troca, sem críticas, sem outra reacção que não a de quem encontrou algo precioso e que pretende guardar, acarinhar, mimar, tratar, curar.

Despir a alma a alguém não é para todos. Nem ter a alma despida por outro. Despir a alma a alguém exige cuidado, atenção. Ter a alma despida por alguém exige confiança, segurança. Ou pura e simplesmente um reconhecimento, um encontro, um click certo.

Não é preciso vinho para ter a alma despida por alguém, ou para alguém nos despir a alma. Nem café. Podem estar presentes, não são obrigatórios.

Basta que haja disponibilidade de um lado para despir a alma, do outro para ter a alma despida.

E é isto…despir a alma pode ser assustador. Mas pode também ser tão perfeito.

Ainda do vinho

Beber para esquecer, dizia eu há dias. Percebi depois que, afinal, é mais esquecer para beber. Porque quem bebe não esquece, mas por vezes para se beber em paz é preciso esquecermo-nos. Nunca de nós. Mas do mundo lá fora. Dos problemas. Dos horários. Das obrigações. Estar apenas ali e logo. Ou, como sempre, no aqui e agora.

Porque, diziam-me em resposta, não se bebe para esquecer. Porque simplesmente não se esquece. Mesmo que bebas para além do limite, no dia seguinte volta a estar lá tudo. E, por vezes, até algo mais. No strings attached, sem compromissos, mas marcado na memória. Claro, está lá sempre tudo para lembrar porque nunca se esquece. Não existe o beber para esquecer. Nem eu quero isso.

Ou quero. Pelo menos por uns momentos. Umas horas. Uma noite, vá. Sempre with no strings attached porque é mesmo assim, porque é o aqui e agora que faço questão de agarrar com unhas e dentes. E, tal como um copo de vinho, ou dois, ou mesmo três, saborear o que o aqui e agora me traz, o que o aqui e agora me dá. Mesmo que aparentemente sem sentido. Sempre sem obrigações. Se calhar até sem objectivo que não o de viver o momento. E sobreviver a todos os outros momentos que vieram antes e aos que acabam, invariavelmente, por vir depois.

Não se bebe para esquecer. Assim como não se bebe sozinho. Porque beber só faz sentido se com companhia. Para falar. Sobre tudo e sobre nada. E ouvir. Ouvir tudo e responder, sempre. Eu, pelo menos. Já pouco me importa se me ouvem a mim ou não. Já não quero saber. Já quis. Não quero mais. Mas oiço. E falo. E respondo. E reajo. Com ou sem vinho. Mas mais com vinho. Porque o vinho me solta e só faz sentido se bebido a dois. A três ou até mais se calhar também faz sentido, não sei. Nunca experimentei. Por outro lado tenho a sensação que as conversas se dispersam ainda mais. E estou cansada de conversas dispersas. Estou cansada de tanta coisa, na verdade.

A dois, um copo de vinho a dois, é tão mais produtivo, tão mais positivo. Bebe-se para esquecer não esquecendo. Esquece-se bebendo também não esquecendo. Mas, por umas horas, esqueço-me. E preciso tanto de me esquecer. Porque estou cansada de me lembrar.

{e disto do beber…falo como se fosse frequente, como se fosse hábito, como se fosse meu costume. Eu não bebo. Por norma. E vinho, bebi-o duas vezes. Mas sim, tenho vontade de repetir. O vinho. E tudo o que vinho me trouxer.}

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Kooka no Mundo do Faz de Conta

Já nem sei se é Mundo, País, Reino ou até mesmo Universo. Sei sim que é do Faz de Conta.

Faz de Conta que o tempo não passa, que os dias não correm, que os meses não voam, que os anos não existem.

Faz de Conta que não há pressas, nem pressões.

Faz de Conta que não há horários. Especialmente horários para dormir e horários para acordar. E o que eu preciso de não ter horários para acordar quando já pouco ou nada consigo dormir.

No Mundo do Faz de Conta os dias não são todos iguais, muito pelo contrário. São dias todos eles diferentes uns dos outros, mas onde os dias menos bons são apenas isso, menos bons, nunca maus.

No Mundo do Faz de Conta as únicas lágrimas que existem são aquelas que surgem quando nos dói a barriga de tanto rir.

No Mundo do Faz de Conta as dores são meras comichões, quase cócegas, que nos fazem dar valor aos momentos em que não há coceiras nem arrepios. Sejam elas físicas ou emocionais.

No Mundo do Faz de Conta o mar é sempre azul, tranquilo, morno. E enrola na areia mais branca e fina que não deixa sequer pegadas que nos digam que já passámos por lá. Passamos sempre como se fosse a primeira vez. E é tão bom passar por areia fina e branca pela primeira vez.

No Mundo do Faz de Conta há abraços a qualquer momento. Apertados. E beijos de mel a toda a hora. De mel não, que eu não gosto de mel. De chocolate. Ou mesmo beijos salgados de mar. Mas há beijos e é isso que importa.

No Mundo do Faz de Conta o vento não sopra mais do que uma brisa. Nunca fria, nunca quente. Sempre na temperatura certa. E o Sol brilha todos os dias, menos naqueles dias em que nos apetece mesmo que chova só um bocadinho.

No Mundo do Faz de Conta existo eu e existes tu. Mesmo que tu eu não saiba quem és e eu, eu nem eu sei exactamente quem sou, mas sei com todas as certezas quem não sou.

No Mundo do Faz de Conta não há preocupações. Nem recordações do Mundo do Que É A Sério. Bem, talvez algumas recordações do Mundo do Que É A Sério. As boas. As muito boas.

No Mundo do Faz de Conta há vinho, há café, há mimos, há colo, há abraços, há beijos. Eu sei que já falei nos abraços e nos beijos, mas no Mundo do Faz de Conta nunca há repetições. Há sempre coisas melhores do que as anteriores. Há sempre abraços melhores que os anteriores. E beijos melhores do que os primeiros beijos.

No Mundo do Faz de Conta. No Mundo do Faz de Conta não há cansaço. Nem físico nem emocional. E muito menos emocional que desgasta o físico. E é por isso mesmo que agora me apetece fugir para o Mundo do Faz de Conta.

{wake me up if I’m sleeping}

Acordar não vai acontecer. Não de repente, pelo menos. Acordo devagar, vou acordando. Vou percebendo que é mesmo assim, que não é um sonho, que é realidade.

Que há faltas inesperadas que não voltam a ser preenchidas. São faltas provocadas por ausências, são faltas provocadas por actos absurdos, são faltas provocadas por distâncias inultrapassáveis, são faltas provocadas por mal entendidos, são faltas, apenas. E são faltas que não se preenchem.

Faltam-me pessoas, faltam-me gestos, faltam-me palavras. Não minhas, que essas tenho tantas. Sobre tanta coisa. Ou sobre coisa nenhuma. Palavras, dizem-me, nunca me faltam. Mentira, faltam-me tantas vezes as palavras certas, no tom certo, no momento certo. Ditas e ouvidas. Mas, neste momento, mais propriamente ouvidas. Porque ditas tenho-as dito à medida que me permitem dizer. Tudo o que aqui vai, o que não vai. O que é e o que não é.

Falta-me o vinho, novamente. Para me soltar as palavras e para me soltar o sorriso fácil e para me soltar a mente e para me soltar o corpo rendido ao peso do vinho nos joelhos. E faltam-me os cafezinhos para falar de tudo e de coisa nenhuma. E faltam-me os abraços, daqueles apertados, que confortam, que energizam, que recarregam baterias, que acalmam, que transmitem a segurança que, também ela, me falta agora.

Mas…

Mas não me faltam surpresas. Daquelas boas. Visitas pela manhã em pleno caos de mau humor, visitas que relaxam, que me fazem acreditar que sim, que há pessoas grandes, que apaziguam maus humores simplesmente porque se dão ao trabalho de atravessar toda uma cidade numa temperatura de Inferno para estar ali um pouco e falar e ouvir e, lá está, simplesmente estar. E no final de um dia enorme, pesado, infernal de tão quente, deserto de pessoas que não nos sendo nada são quem nos faz continuar a fazer pela vidinha, no final de um dia de desânimo quase absoluto, um convite para jantar “com algumas pessoas que conheces e outras que não conheces mas ficas a conhecer” e cair de paraquedas num jantar de aniversário de quem não conheço em casa de quem não conheço mas que “vou só para dar um beijinho” e saio de lá com beijinhos e abraços. Os tais abraços que me faltam. Tanto. E que surgem quando menos se espera de onde menos se esperam.

Mas continua a faltar o vinho, o cafezinho, as conversas fáceis de tudo e de nada. Os mimos, o colo, o aninhar, o enroscar, sem sim nem não nem porquê nem porque não. Só porque sim. Só porque mexem com as inas, as endorfinas, as serotoninas, até mesmo as dopaminas. E tudo isso acelera a estamina e tudo isso me faz conseguir dar mais um passo em frente.

E esta semana, a semana quase toda, mentira, os 3 primeiros dias da semana, esta semana, são para recolher onde puder, como puder, com quem puder, todas essas inas. Porque dia 19 está ao virar da esquina, e até lá quero, mentira, preciso, de vinho, de café, de pessoas, de toques, de abraços, de beijos, de colos, de mimos, de tudo.

E, se por acaso estiver a dormir, acordem-me. Acordem-me para viver e para voltar ao aqui e agora que anda adormecido, esquecido, trocado por uma ansiedade que hoje anda camuflada mas que, percebo, está cá instalada, mansa, prestes a fazer das suas.

Aqui e agora. Com ou sem vinho, com ou sem café. Mas aqui e agora. Com ou sem colo, com ou sem abraços, com ou sem mimos, com ou sem beijos. Mas aqui e agora. Aqui e agora. Acordem-me se estiver a dormir, porque o importante é aqui e agora. E já.

I can’t keep calm

Já não falta muito para fazer 20 anos que lido com este bicho. Ou, pensando bem, até já fez. Aliás, já fez mais, uns bons 22 ou assim. Olhando assim à distância, aquele passeio a cavalo que começou num terreno apropriado e iria passar pela praia a meio da tarde, uma tarde quente de Verão em plena adolescência, vejo-o hoje como a minha primeira crise de ansiedade. A falta de ar. Sobretudo a falta de ar. E o medo. O medo de voltar a cair do cavalo, como poucos anos antes aconteceu e em que os cascos roçaram a minha cara bem de perto. Perto demais, diria. Não me esqueço desse tombo, que podia ter feito estragos e apenas deixou uns arranhões. E o medo que veio nesse passeio de Verão.

Lembro-me de dizer a meio “não posso continuar, estou com falta de ar, estou com asma”.

Ao contrário da asma, em que o ar não sai, na ansiedade o ar não entra. Ou às vezes entra, a uma velocidade absurda e que mesmo entrando não deixa respirar. Sim, entra e sai tão depressa que nem respiramos. E deixa-nos assim com aquela sensação de pulmões leves, demasiado leves que mais parece que, por momentos, horas, dias, deixam de existir. Mas estão lá, a tentar cumprir a sua função, num ritmo desordenado e absurdo. Como hoje. Como hoje todo o santo dia. E ontem. E de há uns dias para cá.

O ar entra. Sim. E sai. Mas para sair tantas vezes tem que ser com força para que saia todo. E para entrar também. Inspirar com força, mas nunca conseguindo preencher a capacidade dos pulmões que, lá está, cumprem as funções para as quais foram desenhados, mas a um ritmo que não é o certo, que não traz conforto, não traz alívio.

Fosse apenas esse o problema da ansiedade e seria relativamente fácil de lidar com ele. Bastaria tentar controlar o ritmo, a intensidade, a quantidade de ar. Bastaria? Não sei. Se calhar não. Sim, ao fim de tantos e tantos anos deste bicho que corrói ainda não sei se bastaria controlar a entrada de ar. Como quando enchemos os pneus do carro. 2.0 pedem os meus. Os do carro. E quando o aparelho apita já sei que a pressão está certa, o ar entrou todo e a quantidade é a certa para circular em segurança. Mas no manual de utilizador dos pulmões não consta a pressão, a quantidade nem a velocidade a que o ar deve entrar. Não nestas situações de ansiedade. Fazem parte daquelas questões de desgaste que os carros têm. Tudo certinho, mas ao fim de uns anos começam as desafinações e situações que não surgem nos manuais.

A psicoterapia comportamental aos 19 anos não me ajudou em muito. Com um grupo de pessoas que, como eu, sofriam de ansiedade com perturbação de pânico, algumas com graves distúrbios de agorafobia. Como estarão eles agora, passados 18 anos? Tenho alguma curiosidade se aquela senhora que era em tempos jornalista mas que não saía de casa há 20 anos já consegue, 18 anos depois, levar uma vida normal. Ou aquele senhor que se sentia mal sempre que conduzia em autoestrada. Ou o outro que entrava em pânico em elevadores e na Ponte 25 de Abril. E que, contou-nos, naqueles tempos em que não havia separador central fez inversão de marcha a meio da ponte e voltou para Lisboa. Nunca mais tinha conseguido passar a 25 de Abril. Será que hoje já consegue? E será que já consegue andar em elevadores daqueles com portas de grades?

Éramos tantos no grupo, mas curiosamente só me lembro destes três casos. Talvez porque, apesar da enorme diferença de idades, sendo eu a mais nova de todos, bem mais nova, talvez porque me identifiquei durante tanto tempo com estes cenários. Menos com os elevadores. Acho eu. Apesar de ter tido uma crise de pânico no elevador da Casa da Guia quando encravou com a lotação no máximo, um calor insuportável, e nós ali, a meio, numa altura em que mal se tinha acesso à janela panorâmica e o que se via nada mais era do que um bocadinho de mar e imensidão.

Superei já, e com orgulho, a passagem da ponte. Já o faço sozinha há 5 anos. Já o faço sozinha à noite há menos tempo. Mas já o faço sozinha em ambos os sentidos, seja a que horas for. 3 da manhã incluído.

Já superei também o sair de casa. Durante demasiado tempo não consegui. Fechei-me ali, perdi-me ali. Sim, foi mesmo ali que me perdi de mim e do mundo, por causa deste bicho que corrói e faz doer. Porque estava bem em casa e bastava pôr o pé na rua e ia morrer logo ali, à porta.

Ainda não superei as autoestradas. A única que me gabo de já conseguir fazer sozinha, que já fiz de uma ponta à outra, ida e volta, é a A5. É pequena, já me têm dito. É verdade. Mas é uma vitória incomensurável para alguém que demorou alguns anos desde que tirou a carta até conseguir conduzir sozinha. Falta-me a A1 e a A8. A8 essa que mesmo assim só faço até à saída para a Venda do Pinheiro a caminho de Mafra. Porque, daí para cima, nem acompanhada. Lembro-me da viagem de ida e volta ao Cadaval não ter sido nada, mesmo nada, pacífica.

A1 e A8. Falta-me superar estes dois obstáculos…embora já tenha levado o carro até Aveiras. Mas não sozinha, claro. Mentira, Aveiras não. Cartaxo! Mais uma vitória de poucos kms, mas uma vitória. E também de Leiria a Coimbra. Mas em nenhuma das situações fui capaz de trazer o carro de volta.

Porque estas pequeninas coisas, que parecem tão pequeninas a quem está de fora, são vitória imensas para quem vive com este bicho. Que para além de corroer, morder, moer, fazer doer, tenta com força destruir tudo. Porque nos prende os movimentos. Porque nos tolda as capacidades. E porque nos faz sentir incapazes.

Consigo reconhecer algumas situações que me levam da ansiedade à crise de pânico como aqueles carros que vão dos 0 aos 100 em 10 segundos. Consigo reconhecer que qualquer que seja a situação em que me estejam a avaliar, é garantida a ansiedade em alta a transbordar para o ataque de pânico. Como quando tirei a carta de condução. Já lá vão 11 anos e meio desde o exame, mas lembro-me tão bem de sair da Madre Deus em direcção aos Olivais e não conseguir ver. A visão absolutamente turva. As pernas a tremer. As mãos a tremer. A respiração a mil. E a jurar a mim mesma que ia morrer ali. E que por isso ia chumbar. Mas aguentei-me, fui teimosa, fiz o exame e passei. Mas sim, deixei de ver, como tantas vezes deixei de ver quando passava a Ponte 25 de Abril. Valeu-me, sempre, a minha mãe, a minha co-piloto de sempre, que me detectava os sinais de alarme tantas vezes antes de eu mesma me aperceber e que quando já era tarde simplesmente me dizia “respira, vais bem e estamos quase a sair”.

Ainda hoje a minha mãe me diz “respira”. Tantas vezes. E já não o faz enquanto conduzo o carro, mas enquanto conduzo os meus dias. E os últimos dias, e os próximos dias, todos esses dias têm sido e vão ser de condução turva. Porque o ar não entra. Ou entra tão depressa que nem dou por ele. E ela diz-me “respira” e eu respiro o melhor que consigo. O melhor que sei nestas situações. Embora, ao fim de tantos e tantos anos de prática, já devesse saber respirar melhor.

Mas a ansiedade, que já conheço tão bem e sobre a qual tenho um mestrado, uma pós graduação, um MBA, o que quiserem, tudo isto por equivalência obviamente, a ansiedade ainda me surpreende. Ainda me apanha desprevenida. Tal como tem feito nos últimos dias, num crescendo que me faz ter vontade de chorar, mesmo não o conseguindo fazer (e iria fazer-me tão bem). E a minha mãe, em vez de “respira” já me diz “chora”. Mas não sai…continua a não sair.

Porque desta vez não vou ser avaliada em nada, mas aproximam-se datas de relevo, de importância, de reviver memórias recentes, de conhecer mais pormenorizadamente aquilo que ninguém devia ter que conhecer. 19 de Junho. Está aí tão perto, e ao mesmo tempo ainda tão longe. 19 de Junho, Tribunal de Sintra. A primeira audiência que nos vai fazer, a todos, reviver aquele dia 9 de Novembro. Aquela madrugada. E, apesar de ter já dito tantas vezes a mim própria que sim, que estou preparada, na verdade não estou. Nada. Como posso estar? Quem se prepara para isto? Como se prepara alguém para uma coisa destas? Como se prepara alguém para lidar com o roubo de uma vida? Como se prepara alguém para lidar com aquilo que eu ainda não aceitei porque continuo a acreditar que um dia, um dia destes, qualquer dia, o portão se vai abrir e vai aparecer do outro lado o sorriso de orelha a orelha, o sorriso de miúdo do meu primo.

Não vai nada, eu sei. Mas não aceito. E porque não aceito, estou zangada, tanto. Mas com a pessoa errada. E também isso está a contribuir para que o ar não entre. Ou não saia. Ou não esteja na pressão certa. Ou simplesmente não me faça circular em segurança. Porque estou zangada com quem não vai voltar a cruzar o portão, com sorriso de orelha a orelha, sorriso de miúdo e não com quem o roubou de nós. Sim, Alexandre, é contigo que estou zangada. Porque não vais voltar. Não vais voltar a bater-me quando te falar no Sumol Laranja. E, acredita, sempre que digo “Alex, Sumol Laranja”, dói-me a perna como naquela noite de Natal em que quase nos pegámos porque me deste um murro como nunca levei, nem antes nem depois. Nem o murro no estômago que senti quando a tua mãe me ligou a dizer que já não te tínhamos, nem esse murro foi tão forte como o que ainda sinto cada vez que brindo a ti. Estou zangada, Alexandre, porque não tinhas o direito a ir-te embora assim, dessa maneira estúpida, absurda, sem sentido, sem propósito. E deixar-nos aqui, assim, na merda, na ansiedade, no vazio. E não vais voltar a cruzar o portão, Alexandre. E só por isso me apetece esmurrar-te da mesma forma que me esmurraste a mim. E isso, Alexandre, faz-me não conseguir respirar como devia. Porque sei que não te foste embora porque quiseste. Porque sei que eras demasiado novo para te ires embora. E sei também que, apesar de ter visto o teu sorriso de orelha a orelha naquele caixão, sim, porque estavas a sorrir, como é que é possível alguém ter sofrido o que tu sofreste e despedir-se assim de nós, com um sorriso de orelha a orelha, Alexandre?! E sei que quando te vi, porque fiz questão de te ver, eu que nunca vejo os meus mortos, que sempre me recuso a sequer estar na mesma sala que eles, fiz questão de te ir ver, de olhar para ti. E vi o teu sorriso, Alexandre. Mas quem eu vi ali não eras tu. E continuo a guardar essa imagem na minha cabeça e continuo a dizer, como disse naquele momento a quem me quis ouvir, e acredito que toda a gente ouviu, como não ouvir? Disse e repito que aquele não é o meu primo. Mas era o teu sorriso, Alexandre. O único traço que te reconheci foi o sorriso. Porque, para mim, para a minha mãe, estavas estranhamente irreconhecível. Demasiado magro. Talvez por estares vazio. Vazio de ti, vazio do sangue em que te esvaíste. Talvez porque já não eras tu que ali estava deitado naquele caixão. Mas era o teu sorriso que ali estava. O mesmo que nunca mais irá cruzar o portão.

E isso tudo deixa-me tão zangada contigo, Alexandre. Tão mas tão zangada. Contigo. SÓ contigo! Quando sei que a pessoa com quem devia estar zangada não és tu. Mas é contigo que estou zangada. E magoada. Porque não vais voltar.

E falta-me o ar. Ou entra-me o ar a rodos. Já nem sei. Sei que tudo isto me lembra que dia 19 está quase aí. Mas ao mesmo tempo ainda está tão longe. E a antecipação de ver quem te fez isso, de olhá-lo nos olhos, de o ouvir contar que a única intenção era marcar-te e não matar-te, mas que ainda assim o fez quando teve várias hipóteses de recuar, fê-lo friamente. A antecipação de ouvir os testemunhos do grupinho de heróis da escumalha que esteve presente e que continua a achar que não te fez nada, que não nos fez nada. A antecipação de tudo isso, de ver o teu pai a definhar mais um pouco, a tua mãe a morrer mais um pouco, a tua irmã a consumir-se em raiva e ódio. A antecipação de tudo isso deixa-me assim, sem ar. E sem conseguir dormir. E sem conseguir concentrar-me. E sem conseguir trabalhar. Queria adormecer hoje e acordar daqui a 2 semanas. E não ter que lidar com esta antecipação. Com esta falta de ar. Ou ar a mais. Ou lá o que é isto deste bicho que corrói e se apodera de mim por antecipação.

Não me peçam para ter calma. Quando se tem distúrbios de ansiedade, calma é a última coisa que se consegue ter. Passem mais 20 anos, ou 22. E acho que a antecipação vai continuar a moer-me mais e mais. Mas prometo que não volta a prender-me, a amarrar-me, a perder-me de mim e do resto do Mundo.

Um dia, Alexandre, um dia vou conseguir fazer as pazes contigo. Primeiro tenho que fazer as pazes comigo. Porque não se consegue fazer as pazes com os outros sem as fazermos connosco primeiro. E nesse dia vou respirar fundo, sem pressas, e aceitar que não voltas. E depois, então, quem sabe, zango-me com quem de facto já me devia ter zangado. E não contigo. Espero que me entendas e aceites que possa estar zangada porque não vais voltar. E que, quem sabe, me perdoes por isso.

{dar}

Dar. É isso. É tão isso. Dar. Assim sem mais. Sem quê nem porquê, nem porque sim nem porque não. Apenas dar.

Gosto de dar. Dar tempo, dar atenção, dar mimos, dar colo, dar. Dar coisas também, mas não é esse dar o mais importante. É aquele das coisas que não são coisas mas são. Que não vemos, mas sentimos. Dar sorrisos. Dar motivos. Para sorrir, por exemplo. Dar abraços. Dar beijos e beijinhos. Dar ombros para chorar, dar mãos para sossegar, dar braços para confortar.

Ou simplesmente dar tempo. Ou palavras. Ou gestos. Ou não dar nada dando tudo. Não, dar tudo não dando nada. Sim, é isso, é o tudo que vem do nada. Vem de dentro, apenas. Apenas? Não. O que vem de dentro nunca é apenas. Mas é isso tudo.

Gosto de dar. E dar não exige nada a não ser isso mesmo: dar. E vontade de dar. E gosto em dar. E eu tenho tudo isso: a vontade, o gosto. Quase como se dar fosse, para mim, uma necessidade, uma força maior do que eu. Porque dou. Assim, sem mais. Sem pedir nada. Não, não quero nada em troca quando dou. Seja o que for que dê. Seja o sorriso, o abraço apertado, o beijo na testa de conforto, o tempo e a distância para respirar, o tempo e a proximidade para falar. Não peço nada, não quero nada. Quero apenas poder continuar a, isso mesmo, dar. Sem condições, sem exigências, sem restrições.

Não custa dar. Custa mais darmo-nos. Mas se nos dermos enquanto damos nem damos por isso. E não, dar não custa nada. Apenas é preciso que nos permitam dar o que temos.

E eu gosto tanto de dar. De dar tudo o que trago cá dentro. Que já não cabe e tem que ser dado, porque fica demasiado apertado, sufoca, prende. E dando, partilhando, cresço, cresce em mim mais espaço para dar. E sim, a dar é que me sinto bem. Sem pedir, nunca, nada em troca. Só porque sim, mas também sem quê nem porquê, nem porque sim nem porque não. Simplesmente dar.

{escrever ou não escrever. escrever sempre}

Escrever é terapêutico. Por isso escrevo. De preferência à noite, quando são horas de dormir mas a cabeça está a mil.

Como ontem. Ou como hoje à tarde. Quando, com poucas horas de sono em cima, queria dormir e não podia.

E é a escrever com sono e a cabeça a mil que os filtros caem. E nada do que fica escrito faz sentido. Ou se calhar faz. Mas não faz. Nem tem que fazer. Talvez faça mais tarde, quando voltar a ler. Com a distância que o tempo nos traz sobre aquilo tudo porque passamos ou vivemos ou escrevemos ou sentimos ou queremos ou sonhamos ou nada disso, mas tudo.

Como tudo, nada tem que fazer sentido no imediato. Acabará por fazê-lo depois.

Como tudo o que foi escrito ontem. À noite. Depois de um dia com tanto e tão pouco e tanta coisa e nada e sempre muito, porque de pouco se faz muito.

E o que foi escrito à tarde é a sequência do que não me deixou dormir à noite. Porque a cabeça, essa, sempre a mil. Confusa. Ou nada confusa. Sei lá. Sei lá o que é isto. Sei lá o que vai aqui dentro. Sei que falo de bichos e borboletas e dessas coisas.

Mas não falo de sorrisos ao canto da boca. Pequeninos mas não tímidos, apenas escondidos porque sim, porque para já são para serem vistos apenas por quem têm que ser vistos. Ou apenas sentidos. Sentidos por mim. Porque me é importante, tanto, sorrir. Devagar. Sem pressas.

E sim, há sorrisos e bichos e borboletas. Mas apenas porque sim, porque gosto de estar cá. E a companhia, essa, em existindo é sempre boa. Porque não sendo boa não é companhia, não existe, não conta.

Continuemos em boa companhia, então =)

E sim, continuemos a escrever. Sempre.

{…e agora}

…e agora encostava, aninhava, enroscava. Pele com pele, pernas entrelaçadas, mão na mão, mão no cabelo, beijos no ombro. A entranharem-se no pescoço.
Olhos a pesar, sem pensar, só sentir.
Sonhar de olhos abertos, projectos de arco-íris e borboletas. Na barriga. Na barriga não, em todo o lado. Borboletas e bichos que crescem sem porquê, para quê. Mas sempre com os pés no chão, sempre sem flutuar.

Porque não quero que as borboletas me elevem a dois palmos do chão. Não quero a vertigem. Mas quero tudo isso na mesma. Os bichos, as borboletas, o flutuar, a vertigem.

Mas agora, agora encostava, aninhava, enroscava. Pele com pele, pernas entrelaçadas, mão na mão, mão no cabelo, beijos no ombro. Assim, só.

Do aqui e agora, sempre o aqui e agora

Daquela coisa de não ter tempo para perder tempo, do aqui e agora porque amanhã quem sabe, logo se vê. Da pele com pele, das surpresas, das mensagens trocadas, nunca perdidas. Do estar aqui porque sim, porque estou. Das visitas com pré-aviso e das outras que já chegaram.

Das conversas que são como as cerejas, ou isso são as palavras? São palavras que não dizem nada, mas dizem tanto e que significam menos ainda.

Mas são os actos. Sim, esses. Sem procura, mas de encontro num qualquer {des}encontro porque sim. Gosto de quem actua, de quem age. Gosto de agir e é só para isso que tenho tempo agora. Porque, já o disse, não tenho tempo para perder tempo e agir é viver, é o aqui e agora.

E sim, estou a gostar. E a achar piada. Não daquela de fazer rir, da outra mais importante, de fazer sorrir.

Aqui. Agora. Porque amanhã não sei, não sabemos. Não quero saber. Quero, primeiro, lá chegar. E então amanhã, em chegando, é um novo aqui, um novo agora. E aí, aí se vê e aí se age e aí se está e aí se sabe o que é estar aí.

Dêem-me, dá-me, {mais} um copo de vinho. Tinto. Aqui e agora. Tão só isso.

No alarmes and no surprises

E dizia eu hoje que sim, No Surprises de Radiohead é uma boa música para uma pessoa se apaixonar (não são todas as músicas boas para uma pessoa se apaixonar?) mas que não sei o que é isso há muito tempo.

Mentira. Sei. Sei que me apaixono todos os dias. Pelos meus sobrinhos, pelos meus amigos, pelos meus bichos, pelos meus projectos, pelos dias de sol, pelos dias de chuva, pela Lua Cheia ou até mesmo hoje pela Lua Nova.

Mas sim, é verdade, assim sem alarmes nem surpresas, não me apaixono daquela paixão simplesmente porque não. Porque não sei? Porque não quero? Simplesmente porque não. Não sei. Sei que andaram aí borboletas na barriga que, conforme chegaram, esvoaçaram para longe. Sei que andou aí uma borboletagem que não sendo borboletas também ficou pouco tempo. Sei que andou aí um bicho qualquer que foi crescendo e que afinal era paixão, de mim por mim mesma quando percebi que oh bolas, afinal estou viva e mereço mais que isto. Que aquilo. Que…que…que sei lá eu.

{Bruises that won’t heal}

Sim, se calhar é isso, são marcas que não passam, cicatrizes que ficaram. Ou simplesmente cansada. Nem sei de quê ao certo, quando na verdade nem sei o que isso é. Isso o quê? A paixão? A paixão é carne! Sei, isso sei o que é. Não sei o que é estar cansada. Ou sei, bem demais, o que é e não o querer novamente.

{You look so tired and unhappy}

É isto. Não, não é isto, isto. É isto. Esta coisa. Do não querer voltar a estar tired and unhappy.

E percebo assim, de repente, que sou totó o suficiente para não ver o que está à frente dos meus olhos. Ou esteve. Já não sei. Normalmente só vejo mesmo o que não existe. Como os moinhos de vento. Que só eu via. E para além de só eu ver não passavam, não passaram, não passariam nunca disso mesmo: moinhos de vento. Isto se, sequer, existissem.

Mas continuo a gostar de surpresas e de alarmes, alguns. Afinal, são os alarmes que me dizem “estás cá”, cá seja lá onde for, estás aqui, estás agora.

{This is my final fit}

E as surpresas, essas, aparecem do nada. De uma frase, de uma visita, de um olá. De um nada que pode valer tanto e tão aparentemente pouco e que no fundo é tudo.

Não, há muito tempo que não me apaixono, daquelas paixões de arrebatar e de fazer flutuar pelo menos 2 palmos acima do chão, tal é a força das borboletas na barriga. E muito provavelmente não saberia reconhecer uma paixão do outro lado, porque, lá está, sou totó a esse ponto.

{my final bellyache with}

Mas sei que surpresas, surpresas boas, existem e aparecem todos os dias, com coisas tão pequeninas, que só de olhar para elas percebo que afinal me apaixono mesmo todos os dias. Sem nós na garganta, sem borboletas na barriga que fazem flutuar dois palmos acima do chão. Mas sim, apaixono-me sem carne, apaixono-me porque sim.

{No alarms and no surprises please}

Com alarmes, por favor. Com surpresas, por favor. Os alarmes recordam-me de mim mesma. As surpresas recordam-me dos outros para lá de mim.

Um dia, um dia quem sabe, já amanhã ou daqui a uns anos, um dia volto a apaixonar-me. Paixão de carne. Paixão de borboletas. Com ou sem música. Não, decididamente com música porque todas as grandes paixões trazem uma banda sonora associada. E esta, esta podia de facto ser uma boa música para alguém se apaixonar. Podia, não. Foi. Não eu. Nada teve que ver comigo. Mas sim, é uma boa música para uma pessoa se apaixonar. Ou para acompanhar uma paixão. De carne ou sem ela.

Um dia. E nesse dia, afinal, vou perceber que me apaixonei mesmo sem alarmes e sem surpresas. E sim, aí estarei surpreendida. Alarmada também. Mas aí, aí vai ser tarde. Ou vai ser cedo, não sei. Não quero saber. Vai ser a hora certa para me deixar ir, para me deixar levar. Porque há muito tempo, tanto tempo que não me lembro quanto, há demasiado tempo, 1 ano? 2 anos? 3 meses? 2 semanas? Há tanto tempo que não me apaixono.

Que venha a vida, o aqui e agora, os alarmes, as surpresas. Quero-os todos. Assim. Com tudo.

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Dos prognósticos muito reservados ao copo meio cheio

A culpa é da Lua. Sempre. Porque gosto de a ver, sozinha ou acompanhada. Eu, porque ela, a Lua, tem sempre a companhia das estrelas.

Gosto de olhar para ela, lá em cima, tão longe, mas cuja luz nos chega como se estivesse já aqui à mão. Eu sei, a Lua não tem luz própria, apenas reflete a luz do Sol. Mas ilude-nos acreditando que ela, a Lua, brilha.

Queria ver a Lua hoje. Que está em Quarto Minguante com uns meros 20% a deixarem-se ver. Mas, ao fim da tarde, os prognósticos eram muito reservados. Até que tudo mudou e o céu abriu para que esses tais 20% se possam mostrar em todo o seu esplendor.

20% não é quase nada, é certo. Mas 20% de luz brilham mais que 80% de escuridão. E isso é o meu copo meio cheio. Que, aprendi, não vale a pena estar meio vazio.

E tudo isto, da Lua e do brilho e da escuridão, pode ser como o vinho e o café. Metáfora ou não.

Tal como as pessoas. As que estão, as que não estão, as que vão estando, as que vão voltando. Todas, seja qual for a percentagem de brilho que trazem, mantêm sempre o meu copo meio cheio. E fazem-me reflectir a sua luz.

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