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Se perguntarem por mim, dir-vos-ei que não estou. Esta que vos fala é outra que não eu.

Esta coisa que me apanhou na curva

23 de Setembro de 2024. Hoje. A minha Data de REnascimento. O dia em que FINALMENTE, e depois de uma LONGA e lenta espera, tive acesso à medicação que me vai ajudar. Não me vai curar. Mas vai tentar travar a progressão.

Progressão de quê? Esclerose Múltipla Primária Progressiva. Alguns (poucos) de vocês já sabiam. Agora acho que é o momento de abrir o jogo e, também desta forma, começar a trabalhar para aceitar o que me apanhou na curva e que veio para ficar. E que eu continuo a recusar aceitar que é para sempre

A Esclerose Múltipla NÃO tem cura. MAS NÃO É contagiosa. Não é fatal. É só o meu próprio sistema imunitário a atacar a minha bainha de mielina, aquela substância que existe no cérebro (e em todo o Sistema Nervoso Central) e protege os neurónios e conduz a informação.

No meu caso já existem várias lesões cerebrais (na coluna ainda não sei), não sei quantas nem em que localizações, mas na consulta com o neurologista a 7/Outubro vou ficar a saber.

As lesões foram primeiramente detectadas numa TAC Craneo Encefálica devido às fortes dores de cabeça, intensas e persistentes, que me atacaram em força de Março a Junho do ano passado. “Lesões isquémicas“, “recomenda-se Ressonância Magnética para identificar origem“. Fiz a RM. E na TAC como na RM o neurologista privado percebeu tudo e resumiu “nada disto é bom!“.

“Provável Doença Desmielinizante. Possível Esclerose Múltipla.” ia no relatório para a médica de família. Disse-me que devia pedir à médica de família reencaminhamento para neurologia no Hospital público, porque nenhum privado pega num problema como este, especialmente para diagnóstico e as seguradoras não pagam o tratamento dado o elevado valor.

Dia 10 de Agosto foi feito o pedido com carácter de urgência. A 24 de Novembro a psiquiatra do Hospital reforçou o pedido e prescreveu RM completa que seria necessária para diagnóstico na consulta.

A RM completa aconteceu algures num fim de semana de Janeiro. A consulta com carácter de urgência foi marcada para 5 de Fevereiro.

A reacção do neurologista do Hospital? A mesma do neurologista privado: “nada disto é bom“. Sugeriu, e bem!, internamento rápido para fazer todos os exames em falta. O internamento aconteceu no mesmo dia da consulta. 5 dias no Hospital, muitos testes, muitas análises, muitos exames e uma punção lombar.

E, em Abril, quando o neurologista teve acesso aos resultados todos, a confirmação da suspeita desde a primeira RM: Esclerose Múltipla. E, nessa altura, a identificação de que tipo de EM: Primária Progressiva.

Esclerose Múltipla Primária Progressiva, aquela que chega e, sem pedir licença nem desculpa, vai aumentando as dificuldades e limitações. Que, no meu caso, são (para já!) limitadas ao equilíbrio e à marcha. Daí a necessidade de apoio à esquerda com a bengala e, agora novamente, à direita, seja a minha mãe ou quem se oferecer a caminhar comigo. Que, já se sabe, é devagar, devagarinho.

Desde Abril que esperava por autorização para fazer medicação biológica. Autorização de quem? Dos médicos especialistas, depois do Conselho de Administração do Hospital, posteriormente do Ministério da Saúde terminando o processo de autorização com o aval do Ministério das Finanças.

O tratamento é muito caro? Não . É bem mais do que apenas muito caro. E é suportado totalmente pelo SNS.

Podem dizer muito mal do SNS, que há desinvestimento, que não sabem como cativar médicos. Posso concordar com muita coisa que está mal ou menos bem no SNS. Mas o SNS SALVA vidas. Seja a vida de um rico, de um remediado, de um pobre ou de um miserável. Salva todos por igual, sem querer saber do saldo bancário. E a Saúde (de TODOS) NÃO PODE ser um negócio.

E, quando não é caso de vida ou morte, trata! Como é o MEU caso. Se não fosse o SNS eu não podia ter tratamento, fosse ele qual fosse. Mas com o SNS tenho. E pago zero. A cada 6 meses lá vou eu para nova dose de um tratamento estupidamente caro.

O tratamento cura? Não. A EM, seja ela qual for (e há vários tipos), NÃO TEM cura. Mas, no meu caso, o tratamento vai abrandar (ou, até, travar) a progressão que em menos de um ano progrediu muito e muito rapidamente.

Hoje foi o dia da primeira toma. Dia 8 de Outubro recebo o restante uma vez que a primeira toma é divida em duas vezes para o corpo se habituar. 300ml de aplicação com intervalo de 15 dias para atingir a dose total. Depois da segunda toma então entro no ritmo normal da aplicação da medicação: 1 toma de 600ml a cada 6 meses.

É uma bomba para aguentar o efeito durante 6 meses? É, com certeza. Mas o que tomei hoje é considerado o medicamento topo de gama para o meu caso. É medicação biológica (seja lá exactamente isso o que for) e, até ao momento, sem qualquer efeito secundário. Excepto o muito sono, que é característico, portanto é considerado um efeito secundário normalíssimo e sem importância.

Depois, é voltar à máscara, ao álcool gel, às medidas de higiene e segurança, afastamento, não estar em contacto com pessoas doentes, nem com uma simples constipação. Porquê? Porque o meu sistema imunitário vai todo abaixo para ser posteriormente reconstruído com a medicação. 

Portanto, se já pouco saía de casa, agora é que vai ser ainda mais raro sair. Yoga? Pelo menos duas semanas após cada aplicação não devo fazer. Sendo que a segunda aplicação é daqui a 15 dias e depois dela tenho que estar novamente pelo menos 15 dias longe do Yoga, só devo voltar no fim de Outubro, se não for só em Novembro.

Vai-me fazer falta? Muita. Mas nem o Professor Pedro quer que eu faça nada em casa para dar oportunidade ao meu corpo de recuperar desta bomba. Mas, assim que puder, estou lá novamente para parar e respirar! 

Mas há uma postura que eu posso (e devo!) fazer, e é até recomendada. Se todas as posturas são asanas, acho que o nome desta postura é qualquer coisa como sofásana. Que mais não é do que esticar-me no sofá. Posição fetal, enroscada e aninhada também são posturas válidas no sofásana. O importante é parar para respirar fundo de forma consciente e simplesmente estar ali. Onde não existe mais nada nem ninguém a não ser eu e a minha respiração.


{#265.102.2024}

Kit de sobrevivência para amanhã pronto, organizado e arrumado na mochila. Só falta a garrafa de água que é sempre a última coisa a pôr na mochila.

A saber, temos:

  • – “O Principezinho” que li a primeira vez algures na infância e que desde 1997 que andava para comprar um para mim, porque o que li é do meu irmão e eu “tinha” que ter uma cópia só minha;
  • dois cadernos. Aquele que serve para tudo, onde já apontei respostas da Segurança Social, números de telefone e também escrevi uma carta em Novembro do ano passado. O outro, que comprei pela capa, que prometi a mim mesma que seria para apontar sintomas e questões a colocar ao médico especialista. Tudo isso está ainda na minha cabeça, o caderno mantém-se em branco…;
  • powerbank carregado, just in case de conseguir rede no telemóvel e por isso dê uso à bateria;
  • – uma caixa de chocolate…”You never know what you gonna get“;
  • phones para ouvir música com um protector do cabo em forma de polvinho…se conseguir rede;
  • – uma tira da Equivalenza porque o aroma 211 faz diminuir a distância de 135km;
  • – um polvo de tecido para um bocadinho de conforto. E porque ele me disse “leva-me contigo amanhã”. E claro que levo! Todos os dias o levo comigo para todo o lado. Mas amanhã levo o polvo para me dar o conforto que 135 km de distância não dão, muito menos se não conseguir rede de telefone ou Internet.
  • O despertador toca às 6h. Mas tenho medo de, como sempre, não o ouvir. Por isso, se desse lado alguém acordar (ou ainda estou acordado…) e quiser dar o toque de alvorada, sinta-se à vontade de ligar. Instagram e/ou Messenger nem precisam de ter o meu número de telemóvel, basta fazer a ligação por aí.
    Se já devia estar a dormir? Há muito tempo. Interruptor para desligar a ansiedade? Não temos.
  • Nervosa. Ansiosa. Assustada. Preocupada. Confusa. E sim!, admito, muito assustada. Com muito medo.
    Mas VAI correr tudo bem. Nem pode ser de outra forma…

{#264.103.2024}

Parece que, este ano, o Verão se antecipou. Pelo menos na despedida. O Outono só começa amanhã às 13h43m mas hoje já soube a um verdadeiro dia de Outono.

Não aproveitei tanto o Verão como gostaria. Acho que “aproveitei” apenas o que o meu corpo me permitiu.

Com a praia ao fundo da rua, desci as escadas de acesso do paredão ao areal uma única vez. Não passei da beira mar. Fiquei ali a sentir as ondas a chegar e percebi que, sentir os pés a enterrarem-se na areia cada vez que a água chegava, me desequilibrava. Muito. Até muito mais do que o esperado e desejado.

Foi aí que confirmei o que já suspeitava: já não posso dar pontapés nas ondas. E, acreditem, não foi fácil de aceitar. Afinal, uma coisa tão simples e que no meu caso facilmente resulta num mergulho de rabo no chão.

Entrar no Mar? Só acompanhada. E mesmo assim… O risco é grande e, por isso mesmo, não quis avançar.

Com a chegada do Outono amanhã pode ser que comece a ir até ao paredão mais vezes. Foram tantas as vezes que o calor me impediu de ir até lá…

Não gosto quando as coisas acontecem antecipadamente. Como esta despedida do Verão. E veremos como o meu corpo vai reagir a segunda feira. Porque o regresso ao paredão está muito dependente disso. E eu continuo sem saber o que esperar…

…eu, que não gosto quando as coisas acontecem antecipadamente, sou perita em sofrer por antecipação. Muito por conta, claro, da ansiedade. Mas fazer o quê? Segunda feira é já depois de amanhã!

{#263.104.2024}

Voltar aqui de tempos a tempos e há já tantos anos que já perdi a conta é tratar de mim. Também é tratar de mim. Faz-me sentir bem. Sempre. E tudo o que me faça sentir bem está, no fundo, a fazer-me bem.

Por isso, hoje foi dia de recuperar os meus caracóis, que aqui fiquei a saber que os tinha e onde aprendi a reavivá-los e recuperá-los. Raramente o faço em casa, confesso. Por preguiça, admito. Nada mais do que preguiça.
Mas, aqui, não saio de lá sem os meus caracóis recuperados.

Já não sei há quantos anos lá vou. Sei que comecei na pré-pandemia. Fui lá a primeira vez por ser perto de casa e por ter muita curiosidade em relação ao que via de fora. E descobri alguém que SABE mexer no meu cabelo (e eu sou muito picuinhas com isso) e que recuperou o mau estado do meu cabelo naquela altura e o tornou aquilo que tenho hoje: aquilo que vulgarmente chamo de cabelão.

E, logo na primeira vez, me falaram nos caracóis que eu nem imaginava que tinha. E que, afinal!, tenho!

Cortar é sempre aquela decisão difícil de tomar e que tantas vezes leva mais de um ano a ser aceite. Por mim, não por quem sabe quando está na altura.

Sim, esta tarde foi para tratar de mim. Para me sentir bem. E recuperar os meus caracóis faz-me sempre bem.

Daqui a uns meses volto. Duvido que na altura já esteja convencida a cortar novamente (e hoje não cortei!), mas volto! E, mais uma vez, hei-de reavivar os meus caracóis!

Amanhã também é dia de tratar de mim. É dia de parar para respirar. Alongar. Relaxar. Amanhã, logo de manhã, é dia de Yoga. Que, já sei, depois de segunda feira não vou poder frequentar por algum tempo. Ainda não sei quanto tempo, mas já sei que me vai fazer falta. Não só pela prática mas pelas pessoas que me acompanham nas aulas, desde o Professor Pedro às minhas colegas que, desde o primeiro dia, me acolheram tão bem.

Pedi ao Professor Pedro recomendações de asanas para fazer em casa. Disse-me que não ia recomendar prática nenhuma, recomendava descanso. Nada de prática. Perguntei “e sofá? Posso praticar sofá?” ao que ele respondeu “esse DEVES praticar!” e rimos os dois.

Já sei que os primeiros tempos a partir de segunda feira não recomendam estar próxima de outras pessoas, não por elas, mas por mim. Para não apanhar nada. “Nem uma simples constipação!”, reforçou a enfermeira Dina. Ficar sem sistema imunitário dá nisto. Por isso, a partir de segunda feira também vou estar a tratar de mim, mesmo que seja ficando em casa, sem estar à vontade para sair.

Mas, não me posso esquecer!, é por um bom motivo. Por um óptimo motivo! Pelo melhor de todos os motivos: eu!

Agora é hora de ir descansar. O dia foi puxado. Não que tenha feito muita coisa, que não fiz. Mas percebi que, hoje, caminhar foi muito difícil. Mais do que nos outros dias. E não gostei disso…

Por isso, nada como dar o dia por terminado. Hoje um pouco mais cedo do que é habitual. E amanhã parar para respirar, alongar e, depois, relaxar.

E segunda feira está quase, quase, quase a chegar…

{#262.105.2024}

Por norma, não sou destas coisas de publicar fotos do que vou almoçar ou jantar. Todos sabemos que, na verdade, são fotos que não interessam a ninguém.

Mas hoje abro uma excepção. Para quê? Para que EU me lembre do último dia em que pude comer Sushi. Pelo menos espero que seja só uma questão temporária, mas quando te dizem que segunda feira o teu sistema imunitário vai ser destruído para começar a ser reconstruído do zero e a cada 6 meses tens que voltar a fazer o mesmo, tenho algumas dúvidas se vou poder voltar a isto ou não.

P de Presença também pode ser (e tem sido desde o primeiro dia!) P de Partner in Crime no que diz respeito a ir ao Sushi. E, claro, hoje não podia ter sido excepção. Claro que ele próprio já me disse “não faz mal! Ficas com os fritos!”. Não me importo de ficar com os fritos, mas vou ter saudades de um bom Salmão bem cortado, ou Atum delicioso e um peixe branco para acompanhar.

Hoje despedi-me do Sushi. E foi como tinha que ser: um bom almoço, uma boa companhia, um dia bonito para um café na esplanada à beira rio.

E, com isto tudo, faltam 4 dias. Ou 3, já não sei fazer contas! Não interessa. O que interessa é que esperei longos meses pela próxima segunda feira. E, claro, vou confirmar a proibição do Sushi. Que é, para mim, a pior parte de todo o processo que se inicia segunda feira.

Por isso, já sabem: quando forem ao Sushi saboreiem por mim tudo o que tiver Salmão, por favor!

{#261.106.2024}

Dizem que hoje foi quarta feira. A mim só me resta acreditar que sim. Porque de facto ando perdida nos dias. E ando de tal maneira perdida, confusa e esquecida que, ao início da noite e em conversa com a minha mãe, não me lembrava se ontem tinha saído de casa. Mas claro que saí! Ontem foi dia de Hospital de Dia para análises pré-tratamento. E, com isto tudo, já só faltam 5 dias para concretizar aquilo que esperei durante longos e intermináveis meses.

E não, hoje não saí de casa. Se sequer saí do pijama? Não confirmo nem desminto.

Mas amanhã sim! Vou sair! Porquê P de Presença combina com S de Sushi. Que, já sei, a partir de segunda feira, me vai ser proibido. “Ficas com os fritos!”, já me disse o meu companheiro de Sushi. Ficarei, com certeza. Mas o Sashimi de Salmão…e todos os outros elementos que contenham peixe cru ser-me-ão proibidos. Porque depois de segunda feira o meu sistema imunitário vai todo abaixo para ser posteriormente reconstruído. Com tempo. Com calma. E para, não sei ainda como, me ajudar a tentar travar a progressão disto que me apanhou na curva.

A esta hora em que a noite já passou a madrugada eu já devia estar a dormir. Mas uma hora e meia ao telefone com a minha prima atrasou-me tudo. Soube bem, claro que sim, mas ainda não foi hoje que consegui ir dormir cedo…

Mas vou agora. Porque amanhã é dia de acordar relativamente cedo para ir almoçar S de Sushi que combina com P de Presença. E a minha mãe não vai estar em casa. E eu vou ter que arriscar tomar banho sozinha em casa. É arriscado? É. Tomo sempre banho sozinha, felizmente não preciso de ajuda, só raras vezes para entrar e/ou sair da banheira. Mas sempre com gente em casa. Just in case…amanhã logo se vê como será.

Agora é hora de enroscar e aninhar na nossa conchinha de bichinho de conta onde ele já me espera. Tentar não adormecer com o telemóvel na mão e o Spotify a tocar a noite toda como tem acontecido praticamente todas as noites…e uma destas noites vou ter que me obrigar a ir dormir cedo, sem música, sem telemóvel na mão, sem luz acesa. Ainda não sei como o vou conseguir fazer, mas vai ter que (voltar a) acontecer.

Por hoje, que foi um dia todo ele esquisito e que apenas vi o tempo passar, nada melhor do que dar o dia por terminado e ir dormir muito para lá da hora que devia. Amanhã há S de Sushi, P de Presença e Y de Yoga. Por isso, vai ser um bom dia. E bem melhor do que o dia de hoje. Que foi simplesmente nada

{#260.107.2025}

Começar o dia cedo com análises. Mas, finalmente!, não umas análises quaisquer. São, sim, as análises pré-tratamento. Para confirmar que está tudo bem e não tenho infecções activas ou outra coisa qualquer que possa impedir o tratamento de segunda feira, dia 23 de Setembro de 2024 às 8h da manhã (e fica registada para memória futura a, correndo tudo como previsto, data de renascimento).

Já conheci a enfermeira que me vai acompanhar, já conheci o espaço do procedimento que tem uma mega televisão na parede e que NÃO ESTÁ NA TVI (…!) mas sim nos canais de cabo (já no internamento foi assim, só mudou o tamanho da televisão), mas que, por estar no corredor da Radiologia, não tem sinal de Internet nem rede de telefone! Quer dizer, se conseguir ficar no cadeirão ao lado da janela, pode ser que tenha um bocadinho de sorte e conseguir rede suficiente para estar ligada ao Mundo (wish me luck!).

Já sei que serão umas 5 horas por lá. E sei, por experiência, que aqueles cadeirões são óptimos para dormir. Música só tenho no Spotify. Versão gratuita, claro, que só dá música havendo internet. Levar algum livro para ler é uma hipótese. E o livro que quero muito levar é O Principezinho. Não só porque é um livro bonito, mas também porque as letras são fáceis de ler. Livros com letra de tamanho normal, com a visão dupla ao rubro, não são grande ideia. Mas, o que vai sempre comigo para todo o lado todos os dias, e segunda feira não será excepção, é o meu caderno e a esferográfica.

Tenho uma carta para escrever. Uma carta que também já foi baptizada de projecto por quem ma pediu. E segunda feira vou ter tempo. É só não me esquecer de pôr o braço esquerdo à disposição e deixar o braço e mão direitos livres.

Já falta pouco tempo para o dia do renascimento. E, claro, a Fénix vai renascer das cinzas, como já fez tantas vezes.
Agora é aguentar a espera e acalmar a ansiedade até segunda feira às 8h da manhã. E lembrar-me que, depois desse dia, há tanta coisa que vai (ter que) mudar. Vai ser toda uma vida nova. Pois então que seja! Se for para ficar melhor, antes das 8h já quero lá estar! Quero o cadeirão ao pé da janela! Para não me sentir tão sozinha naquele processo…

{#259.108.2024}

Hoje, 30 dias depois, fechou-se uma porta, fechou-se um capítulo. E, claro, se era para haver uma despedida (e eu senti que tinha que, de alguma forma, despedir-me), tinha que ser por escrito. E assim foi.

Depois de algum tempo em pé, sozinha, em frente ao caixão, peguei no caderno que carrego todos os dias na minha mochila, peguei na esferográfica e deixei sair a despedida que não sei se necessária, se merecida, se o que for. Apenas sei que foi sentida. Cada palavra.

Agradeci porque com ele aprendi O QUE NÃO quero ser, aprendi QUEM NÃO quero ser.

Lembrei-me tanto de todos os que me disseram que tinha que perdoar. “Não por ele. Por ti!” E a voz do Rui a ecoar cá dentro “Perdoa! Solta e deixa ir! Por ti! Release and let go!”

Achei que não o conseguiria fazer por não saber como. E disse isso mesmo no que escrevi. “Ainda não conheço o caminho para o perdão.”

E continuei a agradecer as (poucas) coisas boas que retenho na memória. A ida para os escuteiros será, provavelmente, a memória mais importante. Porque uma vez escuteira, sempre escuteira. Faz muito parte de quem sou, do que sou.

Escrevi a custo. Mas foram duas páginas com as palavras que senti, cada uma delas. As últimas. Que sei que já não ouviu, mas que de alguma forma a mensagem vai chegar a quem já cá não está.

A chamada carta de despedida foi colocada dentro do caixão. Era esse, desde o primeiro momento, o seu destino.

Voltei para junto do caixão. Sozinha. E ali fiquei até ser levado para a cremação. A vê-lo ir. O caixão a passar aquela porta. E, finalmente, o fechar da porta. Que eu tanto precisava!

Logo de seguida, aquele ombro e aquele abraço de quem é P de Presença. E, de mim, nem uma lágrima apesar do nó na garganta. Porque continuo a não conseguir chorar…
Mas fechou-se a porta, terminou o capítulo. Acabou tudo ali.

Pode tanta coisa ter corrido mal, podem as boas memórias ser escassas. Mas, independentemente de tudo isso, era o MEU pai…ausente, distante, mas O meu PAI.

Um dia talvez chore esta despedida. Mas sei que, se acontecer, não estarei sozinha para limpar as lágrimas.

E, no final, consegui perdoar. Não por ele. Mas por mim! E repito para mim: release and let go.

{#258.109.2024}

Domingo nunca foi, até hoje, aquele dia de me sentir confusa por não saber exactamente que dia da semana é. Mas hoje foi…

Ontem à noite, mais uma vez, adormeci mais tarde do que gostaria. Desta vez não houve partilha de áudios nem nada que se pareça, apenas não consigo desligar a cabeça para dormir cedo todas as noites. Como hoje, em que já passa bem da hora que tinha pensado em ir dormir porque, amanhã, é dia de acordar cedo e preparar-me, seja lá como for que se faz isso, para finalmente fechar um capítulo. Mas a noite já começa a roçar a madrugada e ir para a cama é a última coisa que quero fazer…

Fui beber café à rua depois de jantar. Afastei-me da esplanada que estava cheia e onde o barulho e as conversas eram demasiado agressivas para a minha cabeça sempre confusa e cada vez mais intolerante ao barulho. Levei comigo, claro, a minha mãe, que me acompanha nestas curtas viagens à rua porque, para mim, sair sozinha é um risco. Risco esse que, à noite, aumenta significativamente.

Fomos as duas para o banco do jardim até que ela começou a dizer que queria voltar para casa. E a minha vontade de voltar para casa era zero… Como agora é zero a minha vontade de ir para a cama…

Cabeça a mil, ainda ponderei fazer uns minutos de Yoga. Viparita Karani para relaxar e desacelerar. Mas acabei por me vir isolar no cadeirão e tentar distrair-me a fazer scroll por aí nas redes sociais, a ver vídeos de animais. Cães, gatos, até baleias!, têm sido a minha companhia esta noite. E, de vez em quando, chega-me a voz da minha mãe. “Já é tarde!”. E é. Eu sei que é. E amanhã não vai ser fácil…

Mas sei que vou ter, à distância de um clique, a companhia dele, de mão dada comigo. E, à distância de um abraço, a pessoa que, no primeiro momento!, me disse “eu vou contigo, nem que seja em Bragança!”. P de Presença, claro. A quem fico a dever tanto. Mais do que ele próprio imagina. Porque, de facto, não só foi o primeiro a dizer “eu vou contigo!” como, do grupo de amigos, foi o único. E foi também quem se ofereceu para tudo! “Se for preciso reconhecer o corpo, eu vou contigo!” e “Para o que precisares, podes contar comigo!” E isso não tem preço.

P de Presença. Que não tem obrigação de nada disto. Mas que só confirma aquilo que eu digo tantas vezes desde que nos conhecemos em 2017: é das melhores pessoas que conheço, se não for mesmo a melhor pessoa que conheço! Sem dúvida nenhuma. E, por isso mesmo, fico com uma dívida enorme para com ele, embora já saiba que, para ele, essa dívida não existe. Mas, se eu já estava para o que fosse que ele precisasse, agora então será que eu vou estar se/quando for preciso! Nunca conseguirei ser do tamanho de pessoa que ele é, acho eu. Mas posso tentar. E simplesmente estar sempre para ele. Nem fico bem comigo mesma se não for assim.

E, com isto tudo, continuo a não ir para a cama. A cabeça continua a mil. E a vontade de chorar, e desta vez sem perceber bem o motivo, a apertar-me o nó na garganta…

O dia foi confuso. Acordar muito tarde como há muito tempo não acontecia. Ligar a televisão no canal de sempre e estar a dar, ao Domingo, aquela série que vejo todos os dias da semana àquela hora e que não costuma dar ao Domingo. Foi um imediato nó no cérebro… Por momentos pensei que tinha, de alguma forma, passado de Sábado directamente para Segunda feira e tinha que ter tratado de várias coisas no Domingo para preparar para Segunda feira e não tinha tratado de nada. Cada vez me acontece mais perder-me no calendário. E, se não estou em erro, também isso faz parte disto que me apanhou na curva. No fundo, é a parte cognitiva a dar sinais de vulnerabilidade…

Mas agora não me posso esquecer de uma coisa: um dia de cada vez! E, afinal, confirmei pouco depois que hoje ainda é Domingo. Mas, à conta dessa confusão no início do meu dia, todo o Domingo foi estranho… O melhor a fazer agora é dar o dia por terminado e tentar desacelerar e desligar a cabeça. Amanhã o dia não vai ser fácil, por isso é melhor ir tentar relaxar e descansar e dormir…

E amanhã, depois de tudo terminado, logo se vê como estou. Confusa estarei de certeza, nem que seja a nível emocional. Mas pelo menos sei que não vou estar sozinha. E só isso é uma ajuda preciosa e sem tamanho.

{#257.110.2024}

Sábado, aquele dia que começa cedo para (mais) uma (fantástica) aula de Yoga. Já o disse antes, mas vou repetir as vezes que me apetecer: já não passo sem elas! E se houvesse aulas todos os dias, lá estaria. Em não havendo aulas todos os dias, há imensas apps e sites e whatever com aulas completas que posso fazer em casa. Mas a verdade é que me sinto mais segura ao ter a orientação do Professor Pedro. Que já me deu coisas para fazer em casa, é verdade, e que eu raramente faço por achar sempre que quero mais e que aquilo é pouco. Não é. É o que estou a precisar neste momento. Por isso, não tenho desculpa para não fazer o que ele recomendou. Mas, tirando isso, a verdade é que o Yoga já faz parte de mim. E eu já não passo sem ela.

O que eu passava bem sem: esta sensação insuportável de calor que me faz sentir a destilar. E que vem do nada e fica horas a incomodar-me como se, na rua, estivesse um calorão. Não está. Mas bastou vestir uma sweatshirt quando fui à rua beber café para o meu corpo aquecer, aumentar a temperatura e destilar. E não!, não são afrontamentos da menopausa. Ainda não cheguei lá embora saiba que já não falta muito, mas as análises dizem que não é para já. Por isso, este calorão que me atormenta, me faz destilar e que eu simplesmente não aguento não tem nada a ver com isso. Está, de certeza, dentro da imensa lista de sintomas disto que me apanhou na curva. Felizmente já falta pouco tempo para a consulta com o especialista. E, para iniciar o tratamento, já só faltam 9 dias. E 9 dias passam a correr. Mas correm como eu agora caminho: devagar, devagarinho…

Acordar cedo este Sábado não foi fácil depois de uma longa noite de partilha com ele. Mas, e especialmente por ter dormido pouco e tarde pelas horas de partilha com ele ontem, não foi difícil acordar cedo. Faz sentido? Já nem sei. O que sei é que ele me faz cada vez mais sentido. E, já lhe disse, por mim ficávamos horas, a noite inteira!, a conversar. Mas ontem foi através de áudios enviados por mim para ele, onde pude ser tudo aquilo que sou, sem vergonha, sem timidez que bloqueia alguns assuntos, sempre à vontade para ser EU por inteiro. Ri. Falei sério. Assuntos parvos. Assuntos sérios. Sobre nós e o que temos desde o primeiro dia. O momento que é só nosso. Que ninguém nos pode tirar…

Ontem foi possível acompanhá-lo até tão tarde e com tantos áudios (50…!) por ele estar de serviço nocturno. Hoje também estará, mas sei que não descansou tudo o que precisava durante o dia, dormiu pouco ou nada, vai estar de serviço muito cansado. E, só por isso, não o vou inundar com 50 áudios novamente. Talvez um ou dois só para desejar uma boa noite e deixar que a minha voz lhe faça companhia durante a noite. Mas, aqueles 50 áudios que enviei ontem, eram necessários. Foram o nosso momento. Porque, apesar de estarmos à distância de um clique, a minha voz viajou daqui para e ele, ao ouvir a minha voz, absorveu uma parte de mim. De forma eterea, é verdade, mas sou eu naquela voz, naquelas mensagens, mais patetas ou mais sérias. Aquela voz que viajou daqui para sou eu. Por inteiro em cada palavra dita.

Não tem que fazer sentido para mais ninguém. Só para nós. E para nós faz todo o sentido.

Esta noite não serão 50 áudios, nem nada que se pareça. Mas, com áudios ou sem áudios, estar à distância de um clique é como eu estar , é como ele estar cá. E não tem que fazer sentido para mais ninguém. Só para nós. E para nós faz. Cada vez mais.

Agora, é tentar que o meu corpo arrefeça mais um bocadinho, que se tente auto-regular e me livre deste calor que não aguento e, depois, dar o dia por terminado. Amanhã? Logo se vê. É Domingo. Não prevejo que se vá passar grande coisa, por isso o sofá e o cadeirão serão os meus companheiros para ver o tempo passar. Mas agora é mesmo preciso é descansar. Rapidamente. E, esta noite, sem horário para acordar. Por isso, boa noite a quem diz boa noite. Boa noite também a quem não diz. Até amanhã.

{#256.111.2024}

Não, a foto não está tremida nem mal tirada. Está, isso sim, editada. Para que, desse lado, quem nunca passou pela visão dupla (felizmente!) tenha uma ideia muito ligeira do que é isto de “ver a dobrar“. Porque, mais uma vez, ando nisto há dias! E já estou farta. E sem paciência. E sem saber se algum dia vou deixar de ver assim, mesmo depois de iniciar a medicação daqui a 10 dias. DEZ dias! DEZ LONGOS DIAS! Não sei, mesmo!, o que me espera nesse dia, nem sei o que esperar desse dia para a frente. Só sei que a visão dupla é horrível, é desconfortável, atrapalha, tira a paciência a um santo! E desanima. Muito! Por isso, se nunca tiveram um episódio de visão dupla, um que seja!, sorte a vossa.

E se, ao ver a dobrar, juntar o meu andar aos ésses, qualquer dia mandam-me soprar no balão! Mas aí posso garantir que o resultado será zero.

Esta coisa que me apanhou na curva não me vai largar nunca, já sei. Mas quero muito, daqui a DEZ dias, começar finalmente a medicação que, dizem-me, não me vai curar mas vai ajudar. E eu já só peço que comece rapidamente a acalmar esta coisa de ver a dobrar. Porque já não há pachorra! Para o resto dos danos também não, mas este sintoma ainda é o que mais me incomoda…

…falta muito para dia 23 de Setembro às 8h da manhã…? Please…make it stop!

{#255.112.2024}

Disto de estar sempre (muito) cansada e da falta de equilíbrio. Fazer coisas simples e básicas que, por norma, damos por garantidas e fazemos de forma automática sem pensar muito no assunto: tomar banho.

Um simples banho. Duche. Prática diária que, em circunstâncias ditas normais, nem sequer pensamos como é que vai correr…
Neste momento, e por causa da falta de equilíbrio, tomar um simples banho é uma aventura. Começa logo pelo acesso à banheira em que tenho sempre que me apoiar para conseguir passar lá para dentro devagar, devagarinho. Depois, temos o duche simples e o duche em que é dia de lavar o cabelo. O duche simples tem sido tranquilo, desde que encostada à parede, claro. Já o duche em dia de lavar o cabelo, como hoje, exige outros cuidados. Como, por exemplo, ter que levar um banco para me sentar porque, diz-me a experiência, o momento de levantar os braços para esfregar o champô é perfeito para perder o equilíbrio e não há encostar à parede que me safe. O que eu sei é que não me apetece nada estatelar-me na banheira enquanto tomo banho. Por isso, banco na banheira, tomar banho sentada, essas coisas que são o meu novo normal.

Seria de esperar que tomar banho sentada não fosse cansativo. Porque, afinal, estou sentada. Certo?
Errado! Ninguém imagina o quão cansativo um banho, um simples duche!, pode ser. E, neste meu novo normal, leva-me quase à exaustão… Nunca pensei que fosse possível ficar tão cansada com um simples duche, mas desde que tomei banho que estou de rastos…

Tenho agora 15 minutos para estar no sofá e tentar recuperar um pouco para, daqui a pouco, estar a caminho do Yoga. E a verdade é que a aula ainda não começou e eu já estou cansada…muito cansada. Por causa de ter tomado um simples banho sentada num banco na banheira…

Bem-vindos ao meu novo normal. Do qual já estou farta e estou longe de aceitar e de me habituar…

——-

E, cansada e com as dores nas pernas que não me largam, fui ao Yoga. E se há coisa da qual dificilmente, mas mesmo muito dificilmente, vou desistir é do Yoga. As aulas estão cada vez mais interessantes, diferentes, dinâmicas e num nível já muito diferente de quando comecei com o Professor Pedro em Maio do ano passado. Além disso, o Professor Pedro está informado desde o primeiro dia em que foi levantada uma suspeita sobre o que se passava comigo passando pelo internamento, confirmação do diagnóstico e daquele dia para o qual já só faltam 11 dias, o dia da medicação. Tem acompanhado também a progressão das minhas dificuldades e, sempre que é possível, adapta os asanas especialmente para mim para que eu consiga fazer o trabalho dentro do que me é possível.

Mas hoje, e já não pela primeira vez, me disse que estou muito melhor. Nos asanas, talvez. Na progressão das dificuldades e limitações no equilíbrio e na marcha não sinto o mesmo. Mas sei que ali trabalho muito o equilíbrio. E sempre que consigo fazer algum asana em que me desequilibrava sempre, muitas vezes chegando a cair, fico muito feliz e contente comigo mesma. É a prova de que não desistir é o caminho certo.

Perguntou-me quando me dava o braço para descermos as escadas: “já pensaste o que seria se tivesses desisto das aulas?” Sem hesitar, respondi-lhe: “provavelmente a esta altura já não conseguia andar”. Não sei se realmente seria assim, mas sei que sem as aulas não estaria a trabalhar o equilíbrio, não estaria a reforçar os músculos das pernas, braços, abdominais. E, parecendo que não, tudo isso acabaria por influenciar negativamente o meu estado geral. Que, para ser sincera, já não é o melhor.

Ir ao Yoga obriga-me a sair de casa, a estar com outras pessoas de quem gosto, a trabalhar o equilíbrio físico e mental, faz-me parar para respirar. O Yoga é tudo o que eu precisava há muito tempo. Comecei em 2016 mas infelizmente, apesar de um início bastante assíduo, acabei por desistir por incompatibilidade de horários a partir do momento que comecei a trabalhar. Entretanto o centro onde comecei em 2016 fechou e encontrar o Professor Pedro foi o puro acaso. Sabia da existência do Spa, mas não sabia que tinham Yoga. Fui lá, pedi informações, inscrevi-me e reiniciei a prática vários anos depois. Mas parecia que tinha parado apenas no dia anterior.

O Professor Pedro diz que “o corpo tem memória”. E desde a primeira aula com ele percebi que sim. E essa memória vai até bem lá atrás no tempo, aos tempos da ginástica, da dança, do teatro e o workshop de expressão corporal onde fazíamos asanas sem saber que estávamos a fazer Yoga. E é essa memória do corpo que me tem ajudado também a lidar com este meu “novo normal“.

Não, não vou desistir. De fazer as adaptações necessárias para conseguir continuar a fazer aquilo que todos damos por garantido, como tomar um simples banho ou simplesmente caminhar a direito. Assim como também não vou desistir do Yoga que me trabalha o equilíbrio, o corpo e a mente. Porque desistir de tudo isto seria desistir de mim mesma. E isso eu recuso fazer. Desistir de mim não é opção.

Depois da aula de Yoga de hoje cheguei a casa super tranquila, relaxada, sem dores nas pernas. Aquilo a que chamei de “estado Zen”. Claro que agora, aquela hora tardia que eu insisto em alcançar antes de ir, finalmente, dormir, aquela hora em que a noite já roça a madrugada, está mais do que na hora de ir descansar. Dormir. Sem hora para acordar. Simplesmente deixar-me levar pelo estado pós Yoga e descansar, tanto o corpo como a mente.

O dia já vai longo e, tirando o Yoga, não fiz absolutamente mais nada, excepto ficar exausta com um simples banho. Por isso, e porque o sono que já aperta assim o exige, dou o dia por terminado por hoje. Amanhã? Será sem horário de acordar, será sem ter sítio onde ir, será sem ter coisas para fazer. Será um dia para aproveitar sem pressa, sem pressão, para descansar e recuperar, fortalecer-me para daqui a 11 dias.

Por isso, amanhã será outro dia. E depois logo se vê como será.

Até amanhã.

{#254.113.2024}

Por aqui, continua-se assim: visão dupla a bombar! O dia todo!

Ver televisão é uma aventura para conseguir ler as legendas, para escrever no telemóvel é outra aventura para não errar as teclas. E depois há os óculos. Que, para ler as legendas na televisão, dão uma grande ajuda quando não estou a ver a dobrar mas que para ler ou escrever no telemóvel só atrapalham e cansam demasiado e por isso prefiro tirá-los. As lentes têm 2 anos e precisam (já há largos meses) de ser ajustadas. Mas o orçamento para passar de lentes intermédias para progressivas, mesmo com 40% de desconto!, é assustador, por isso a mudança de lentes vai ter que esperar.

Quanto à visão dupla, não há lentes que resolvam. Faz parte disto que me apanhou na curva. Mas, e há sempre um mas!, faltam apenas DOZE dias para finalmente ter acesso à medicação e tratamento que espero há meses e que, dizem, me vai ajudar. Não me vai curar, porque esta coisa que me apanhou na curva não tem cura, mas dizem que tudo vai melhorar. Espero que ajude também a travar a visão dupla, porque já não há pachorra para ver as coisas a dobrar!

Faltam 12 dias. DOZE! Uma dúzia de dias. Sempre ouvi dizer que à dúzia é mais barato. Mas o que eu SEI mesmo, ninguém me contou!, é que serão 12 longos dias de espera. Pelo menos já há uma data de renascimento marcada! Que venha ela então rapidamente. Daqui a 12 longos dias e a visão dupla a bombar…

Vá, eu espero mais este bocadinho. Faltam “só” 12 dias

Entretanto, passava das 20h10m e eu hoje (ainda) não tinha saído de casa. Aos poucos, vou aceitando que este cansaço estúpido, que me faz apagar durante horas no sofá mesmo que não tenha acordado assim tão cedo como gostaria, é normal. Ou “normal“, já nem sei. Sei que faz parte. Faz parte disto. Ou “disto“, cujo nome ainda não consigo aceitar, nomear, escrever. Fazê-lo é tornar demasiado real aquilo que não procurei mas que me encontrou e me apanhou na curva. E que teimo em ainda não aceitar. Teimo em negar. Teimo em fazer de conta que vai passar. Não vai.

Mas o tempo passa. E ainda há pouco foi hora de almoço e agora, de repente, ao olhar pela janela, vi que o Sol já se tinha posto. E vi também que hoje, na praia, o pôr do Sol deve ter estado um espectáculo lindo. Chegou-me, pela minha janela, lá ao longe, o jogo de cores do final de dia. E pensei em como gostava de ter estado no paredão hoje para o pôr do Sol na praia. Mas, acreditem ou não, o meu corpo ainda está a recuperar de lá ter ido há dois dias…

Sei que vão haver mais dias para lá voltar. Sei que daqui a 12 dias a tendência será para, se não melhorar, pelo menos estabilizar. E, mesmo parecendo pouco, já é tanto!

Tenho saudades de ir ver o pôr do Sol na praia todos os dias como cheguei a fazer em Janeiro até chegar a chuva? Tenho. Muitas. Tenho capacidade física para isso? Nem por isso. Mas sair de casa todos os dias um bocadinho é possível. Nem que seja para ir só ali à mercearia, como fiz questão de fazer.

Amanhã? É dia de Yoga, portanto vai ser dia de sair de casa. Mas vai ser tão bom sair pelo motivo que é. De resto, já sei que o dia vai ser muito lento e preguiçoso até serem horas de, finalmente, ir apanhar o autocarro. Mas, por hoje, já chega. Não fiz absolutamente nada o dia todo, é verdade, mas sinto-me muito cansada. Por isso, é hora de dar o dia por terminado e enroscar e aninhar daquela forma que só nós dois sabemos e que não é para partilhar porque não interessa a mais ninguém. Aninhamos e enroscamos à distância de um clique, é verdade, mas há já mais de um ano que ambos nos sentimos mais aconchegados quando enroscamos à noite. Por isso, agora vou só ali enroscar, amanhã estou de volta mais revigorada.

Até amanhã.

{#253.114.2024}

Percebi hoje que, de facto, o meu corpo já se ressente de esforços da véspera. Não vejo outra explicação para a estupidez de cansaço, sono e fadiga do dia de hoje a não ser como resposta à ida até ao paredão ontem.

O paredão é “já ali“, mas ir e voltar resulta numa caminhada de 3 km. Que, realmente, não é grande distância. Para os outros… Para mim, neste momento e desde que fui apanhada na curva por isto que, de certa forma, me derrubou, fazer uma simples caminhada até “já ali” e totalizar nas pernas 3 km é muito. E, desta vez, sem pausa no caminho, seja para lá ou para cá. Parei pouco mais de 10 minutos no paredão para ver o pôr do Sol na praia e pus-me a caminho de volta para casa.

O ritmo da caminhada não foi intenso, nunca é porque já não consigo que o seja. Mas acabou por até ser um pouco mais rápido do que o meu já habitual devagar, devagarinho. E acho mesmo que foi isso que hoje o meu corpo acusou.

Acordei pouco depois das 8h. Para voltar a apagar poucas horas depois. 11h? 11h e tal? Já não sei…mas não aguentei. Ou o meu corpo não aguentou.

Voltei a acordar pelas 14h, talvez. Almocei. Bebi café. Tentei reagir para acordar. Ir à rua era impensável porque a Nortada estava demasiado forte e não convidava a sair.

E sempre o sono. Tanto. E o corpo cansado. Muito lento. A pedir repouso.

Não, hoje que precisava tanto!, não aterrei no sofá. Ainda estiquei as pernas cansadas ao final da tarde, mas não dormi. E a luta para me manter acordada foi muito difícil, muito complicada. Mas consegui resistir e não adormecer.

A Nortada abrandou significativamente e consegui convencer-me a mim mesma a ir à rua beber café e dar uso às pernas. Foi pouco mais de meia hora na esplanada com a minha mãe, naquele café que, já sei, fica a 17 minutos de casa. Para cada lado. E que hoje pode até ter sido um pouco mais.

Ainda houve tempo para conversar com a vizinha do rés do chão e a minha afilhada-gata Mia. E as minhas pernas, de estarem tanto tempo em pé, gritavam-me dores que só eu ouvia, só eu sentia.

Voltámos para casa tarde, claro. E o sono parece ter acalmado. Continuo a sentir-me cansada. E começo a desconfiar que aquele cansaço imenso que senti hoje, juntamente com o sono quase incontrolável é, de facto, aquela verdadeira fadiga que isto que me apanhou na curva também traz consigo.

Consegue não ser fácil distinguir o simples cansaço de um estado de fadiga quando o corpo só pede para parar e descansar. Mas acho que, na sequência do passeio de ontem, fiquei finalmente a conhecer o que é essa tal fadiga

Continuo a sentir-me cansada, com algum sono que já não é incontrolável como era mais cedo. E olho para as horas e vejo que já passei da noite à madrugada e já devia estar a dormir há muito tempo. Mais uma vez, não estou…

Amanhã devo acordar à hora de sempre. Cedo, portanto. Para tomar o antibiótico, fazer tempo e tomar o pequeno almoço. Beber café. E voltar para a cama.

Sempre, no meio disto tudo, com a companhia dele à distância de um clique. Com tempo para partilhas e segredos que, juntos, tatuamos na memória um do outro, um com o outro. E com despertares únicos, indizíveis, que apenas nós entendemos. E, no final de um dia que em tudo foi estranho, confirmar que temos lugar no abraço um do outro. E nada mais importa.

Agora é hora de, finalmente, dar o dia por terminado e enroscar, mesmo que à distância de um clique, no abraço seguro, quente e protector dele. Amanhã será outro dia. E mais tatuagens serão gravadas na memória de ambos.

O resto? O resto é só isso mesmo: o resto. Depois, logo se vê. Por hoje já chega.

{#252.115.2024}

E depois há aquele dia em que o telefone toca. O telefone que, tirando família que liga, raramente toca. E hoje tocou. Logo de manhã. Aquele telefonema que eu esperava há meses aconteceu! E confirmou: a Fénix VAI renascer das cinzas. Já com data marcada. Uma espécie de data de nascimento. Ou renascimento como boa Fénix que é. Que sou!

E hoje o telefone tocou. Aquele telefonema que esperei durante meses intermináveis. Finalmente aconteceu. E, claro, entrei em contagem regressiva. Faltam 14 dias. 14 dias para renascer das cinzas. E, dizem, depois desses 14 dias, as coisas melhoram. Eu melhoro.

Vão ser 14 longos dias? Vão. Mas, como sempre, não tenho pressa e vai ser um dia de cada vez. E renascer das cinzas é dos acontecimentos mais importantes do mundo de cada pessoa. E este, que acontece dentro de 14 dias, será O MEU momento de renascer das cinzas.

Fénix. Tantas vezes já renasci das cinzas. Esta será só mais uma vez. Com data marcada. E que, a seu tempo, ficará também marcada na pele. Porque se há coisas que vêm para ficar, outras há que são importantes de registar. Como a data de nascimento. Como a data de RENASCIMENTO!

Faltam 14 longos dias. Mas, pelo menos, já há data, hora, local e um processo demorado marcados na agenda. E, neste momento, pouco ou nada mais importa.

14 dias. E em contagem regressiva.

{#251.116.2024}

Às 19h15 o Sol (ainda) bate directamente na minha janela. Sei que já não vai demorar muito tempo até deixar de o fazer e só lá para finais de Março volta aqui. Hoje reclamo que, a esta hora, o Sol ainda está quente e não consigo estar muito tempo tempo no cadeirão por causa disso a menos que baixe as cortinas. E mesmo assim… Sei que lhe vou sentir a falta naqueles 6 meses em que não bater aqui, mas também sei que, sendo eu, tenho que reclamar porque sim, porque não e ainda porque também…

Tirando isso, hoje estou num daqueles dias em que me apetece (muito) conversar. Ao fim de uma hora na esplanada com a minha mãe, em plena hora de jantar (jantar esse que, por minha causa, só aconteceu lá pelas 22h), dizia eu que ao fim de uma hora de esplanada com a minha mãe, não sei como é que ela (ainda) não me disse “cala-te um bocadinho”. Quero dizer, sei! É minha mãe!

Mas, lamento, não só me apetece (muito) conversar como PRECISO de o fazer. Tenho alguma coisa de jeito para dizer? Não, nem por isso. Mas, cada vez mais, sinto uma enorme necessidade de conversar. Ou, por outras palavras, COMUNICAR. Se tenho com quem conversar de viva voz? Tenho a minha mãe. E muito raramente uma ou outra pessoa. Talvez por isso o tente fazer por escrito. Ajuda. Mas serve para alguma coisa? Só se for para tirar de dentro de mim a pressão que trago cá dentro.

Se houver por aí alguém que queira conversar de viva voz, mesmo que eu não tenha nada de jeito para dizer, sintam-se à vontade de ligar. Qualquer Messenger ou Instagram tem a função de fazer chamadas de voz, nem precisam de ter o meu número de telemóvel. Eu tenho é que deitar tudo cá para fora, mesmo que esse tudo seja…nada!

Entretanto, sexta feira na sala de espera deprimida do Hospital Garcia de Orta, a sala de espera da consulta externa dos serviços de Psicologia e Psiquiatria.

A Depressão é, de facto, um lugar escuro. Mas não é obrigatório que, visto por fora, o doente deprimido tenha que apresentar um ar escuro, triste, pesado. Também faz parte, é verdade. Mas também é possível um doente deprimido apresentar-se na consulta com uma “máscara”, aquela máscara cheia de brilho e cor que transparece sorrisos e tenta abafar risos. Tanto os sorrisos e os risos que a tal máscara transparece nada mais são do que armas espontâneas de defesa contra a escuridão que carrega. São uma espécie de camuflagem que permite a integração no ambiente que o rodeia. Por isso, quando um doente deprimido entra no consultório do psicólogo a rir e a fazer piadas, não quer necessariamente dizer que “está muito animada hoje”, como me disse o psicólogo na sexta feira.

É preciso tempo, muito tempo, e disponibilidade para permitir que o doente deprimido se sinta seguro para deixar cair a máscara.

Sim, a Depressão tem cura. Mas deixar cair a máscara é dos passos mais difíceis quando se inicia o caminho da cura com alguém que acabou de entrar na nossa vida e (ainda) não nos conhece. Por isso, sim!, dêem-me tempo para me permitir deixar cair a máscara. Só depois disso é que me vai ser possível encontrar o caminho no mapa para a cura.

Mas pedir ajuda não é vergonha nenhuma. Por isso, se precisares de sair da escuridão, respira fundo e PEDE ajuda. Há muita luz e cor lá fora. E ajuda para encontrar o caminho.

{#250.117.2024}

Sábado de manhã é sinónimo de Yoga cedo. E cada nova aula, que nunca é igual à anterior, é sempre a melhor forma de começar o dia. Assim como à quinta feira, que acontece ao final do dia, é sempre a melhor forma de terminar o dia.

Não busco a perfeição nos asanas, não é para isso que lá estou. Também não procuro aquelas posturas estranhas que se vêem tanto por aí, de inversões com a cabeça a servir de ponto de apoio ou qualquer outra coisa que pareça (e seja) um bocadinho mais extrema. Não é isso que quero do Yoga. E, como diz o professor Pedro, isso não é Yoga, é só showoff.

Yoga é permanecer no asana, a postura, mantendo a respiração profunda e consciente e com isso revigorar corpo e mente. Cada asana tem a sua função e a respiração profunda e consciente não só permite que a postura que se está a trabalhar cumpra o seu papel.

E, já o disse antes, a prática de Yoga cada vez me faz mais sentido. São apenas 2 vezes por semana, por mim poderia ser todos os dias. Em aula, sei que não seria possível, não só por condicionantes do espaço mas também porque, para mim, seria financeiramente impossível. Mas sei que já tenho conhecimentos suficientes para, em casa, seguir aulas online, seja em versão YouTube ou seja em versão app dedicada ao Yoga. O que me falta? Aquilo que, para fazer seja o que for em casa, nunca tive muita: auto-disciplina.

Mas depois queixo-me que os meus dias são sempre iguais, a ver o tempo passar, quando podia tirar uma hora por dia para me dedicar à prática em casa… Enfim, sou eu a ser eu, como sempre.

Mas a verdade é que a prática de Yoga me ajuda a muitos níveis. Ajuda a trabalhar os músculos, seja a fortalecer ou a alongar, a melhorar a postura, a trabalhar o equilíbrio (que preciso tanto!) e, também muito importante, a aquietar a mente. Mente essa que tem estado em rebuliço com tanta coisa a acontecer ao mesmo tempo. E aqui a respiração profunda e consciente tem um papel fundamental. Porque enquanto me concentro só na respiração não estou a pensar no que não devo, no que não interessa, no que não me faz bem. Porque enquanto me concentro na respiração nada mais existe, só eu e o meu respirar.

Como disse lá para cima, as aulas nunca são iguais. Obviamente que há asanas que se repetem nas várias aulas, mas o esquema da aula actual nunca é igual à aula anterior. E isso é muito bom.

Tenho mesmo que me convencer a praticar em casa. Tenho que me auto-disciplinar sem me cobrar demasiado. Porque, praticar em casa todos os dias um bocadinho, só me trará benefícios.

Já disse ao professor Pedro que não desisto do Yoga por nada. Sei que, quando regressar ao trabalho, se tiver que ser um regresso presencial (que eu não consigo…), volto ao esquema inicial de apenas uma aula por semana e sei que lhe vou sentir a falta e a diferença. Mas, se me for permitido o regime de teletrabalho dadas as dificuldades de deslocação, mantenho as duas aulas por semana.

Mas não quero estar agora a pensar em algo que não sei sequer quando irá acontecer. Vou parar 5 minutos, respirar profundamente e de forma consciente para fechar o dia que já vai longo e vou descansar. Também preciso disso. E, de preferência, a horas decentes e não como tem acontecido nos últimos dias (semanas?) e que também vai acontecer hoje: ir dormir demasiado tarde. Também aqui preciso de me auto-disciplinar.

Do dia também ficam as conversas com ele e confirmar o que já tinha percebido: não está a 100%. E eu não posso fazer grande coisa para além de dar tempo e espaço e estar cá, deste lado, nos dias bons e nos dias menos bons, como estou sempre desde o primeiro dia.

Enfim…um dia de cada vez. E o de hoje já terminou. Amanhã? É permitir-me descansar de manhã, dormir até quando for e, se for de sair de casa para um café na rua, saio. Mas não me vou obrigar a fazê-lo. A vontade é ir novamente até ao paredão ver o pôr do Sol na praia. Se vai acontecer? Não faço ideia. Logo se vê. Mas o mais importante agora é ir descansar. O meu corpo está a pedi-lo e eu vou fazer-lhe a vontade. Mas, antes disso, posso resumir o dia como não tendo sido um dia mau. E só isso já vale a pena.

{#249.118.2024}

Sexta feira, 6 de Setembro, aquele dia pelo qual eu esperava desde a primeira consulta a 17 de Julho: finalmente nova consulta com o psicólogo.

E, sem dúvida, fiquei muito mal habituada com o terapeuta fofinho e os praticamente 8 anos em que fui acompanhada por ele: tinha tempo para falar. Sei que, no Hospital, não posso contar com consultas de 3 horas como tantas vezes aconteceu com o terapeuta fofinho. No Hospital, as consultas são contadas ao segundo. E hoje não podia ter sido de outra forma.

Tanta coisa que tenho para trabalhar com ele e tão pouco tempo fazem-me falar depressa, com pressa, para ter tempo para falar de tudo e acabar por não falar de quase nada…

E perceber, de uma vez, que a Depressão é tão fácil de esconder. Porque por fora podem ver-me a sorrir, a rir, a fazer piadas e dizerem-me logo no início da consulta que estou muito animada. Por fora podem ver tudo isso, mas o que vai cá dentro só é visível com tempo e trabalho. E, ali, o tempo é contado ao segundo. E o aparentar estar tão animada nada mais é do que uma espécie de bóia de salvação. Salvação do quê? De mim mesma. Do que trago cá dentro.

Na primeira consulta, o psicólogo usava máscara cirúrgica por causa dos surtos activos que havia naquela altura. Hoje, já tinha decidido, ia pedir-lhe para retirar a máscara nem que fosse por 10 segundos só para poder associar uma cara a um nome, a um especialista que me segue e que me irá ajudar a trabalhar e arrumar o caos que carrego comigo. Mas, assim que me chamou para a consulta, percebi que esse pedido não ia ser necessário: hoje não trazia máscara cirúrgica. E, no final da consulta, percebi que quem estava a usar máscara hoje era eu. Não uma máscara cirúrgica, apenas uma cara sorridente e animada que em pouco ou nada corresponde ao que trago cá dentro…

Não, eu não estou bem. Já me conheço o suficiente para saber que por fora posso estar perfeitamente bem disposta, mas cá dentro está tanta coisa desfeita, a doer e a sangrar. Por isso, não é estranho que a primeira coisa que tenha dito quando iniciámos a consulta tenha sido “sinto-me completamente perdida”. Tentei explicar o porquê. Falei-lhe no mapa que tenho na cabeça onde tudo está baralhado e não existe o pino a informar “você está aqui”.

Falámos disto que me apanhou na curva. Disse-lhe que ainda estou na fase da não aceitação. Que continuo à espera da medicação. Que as dificuldades e limitações são cada vez mais evidentes. Mas não soube pedir ajuda. Não directamente. Provavelmente porque ainda não aceitei isto.

Voltamos a ter consulta no final de Outubro. Outra vez tanto tempo de intervalo… Um mês e meio é muito tempo para quem precisa tanto de orientação, ajuda, chamem-lhe o que quiserem. É muito tempo…

Mas, já sei, terei que viver um dia de cada vez até chegar à data da consulta e não adianta contar o tempo que falta, não será por isso que a consulta vai chegar mais depressa…

Páro. Respiro fundo. Respiração profunda e consciente. Lambo as feridas. E logo se vê como vou aguentar este mês e meio até à próxima consulta…

Por agora, que já é bem mais tarde do que eu queria para ir dormir, dou o dia por terminado mas com a cabeça num turbilhão. Amanhã, Sábado, é dia de acordar cedo, é dia de Yoga. Que é o que me tem realmente ajudado a desligar do Mundo por um bocado. Depois? Quando voltar para casa? Ou volto para a cama ou refugio-me no sofá. Longe do Mundo, de tudo e de todos. E, se adormecer, é da forma que não vejo o tempo passar…

{#248.119.2024}

Acordar porque sim às 6h da manhã depois de mais uma vez ter adormecido com o telemóvel na mão enquanto escrevia. Não pode continuar a acontecer… Preciso mesmo muito de me auto-disciplinar para voltar a dormir cedo…

Claro que voltei para a cama por volta das 10h já com os telefonemas importantes da manhã feitos. E, quando voltei a acordar, estava muito confusa. Perfeitamente convencida de que seria já umas 8h da noite, tal era a confusão nesta cabeça…

Felizmente não eram 8h da noite, era hora de almoço. Menos mal. Não tinha perdido o dia por completo. Mas, mesmo assim, acho que o meu dia só começou mesmo lá pelas 4h da tarde quando comecei a organizar as coisas para o Yoga às 7h…

Desta vez, para garantir que não perdia o autocarro que chega sempre antes da hora, saí de casa antes da hora prevista. O Yoga é às 19h, eu saí de casa antes das 18h. Para dar tempo para tudo, incluindo chegar à paragem antes do autocarro. E, desta vez, não perdi o autocarro! Mesmo que o autocarro tenha chegado à paragem 5 minutos antes do que está previsto no horário.

Cheguei cedo à Associação onde agora são as aulas, fui com calma, sem pressa, ainda tive tempo para, no bar da Associação, ir beber um café à esplanada, ouvir um pouco de música, estar comigo mesma. E depois então ir para dentro.

Também o professor Pedro chegou mais cedo, ainda tivemos tempo de um pouco de conversa antes de chegar o resto das minhas colegas. E se há pessoa com quem gosto de conversar desde o primeiro dia é com ele. É professor de Yoga? É. Mas também é psicólogo. Tem a cabeça no sítio. Pés na Terra. Tem as suas crenças, os seus hábitos, mas não os impõe a ninguém. E só por isso já vale a pena conversar com ele.

A aula, mais uma vez, foi o que é sempre: muito boa. E que me estava a fazer falta. Não só para alongar o corpo, mas também para sossegar a mente. E, de certa forma, preparar-me para a consulta de amanhã com o psicólogo. Que, de tanta coisa que tenho para trabalhar com ele, nem faço ideia por onde começar…

Logo se vê… A única coisa que sei neste momento é que a noite já começa a roçar a madrugada, o despertador toca às 7h da manhã para fazer tudo o que tenho que fazer antes de apanhar o autocarro às 9 e qualquer coisa que ainda nem vi o horário e, pelo meio, ainda tenho que dormir e descansar. Já sei que vai ser dormir a correr e, quando chegar a casa vai ser almoçar e enroscar no sofá e depois logo se vê.

Não posso dizer que o dia tenha sido longo por ter acordado às 6h da manhã. A verdade é que a única coisa de que me lembro antes de voltar para a cama às 9h é do telefonema que fiz. E, após ter acordado, sei que almocei mas já nem sei o quê…não me lembro mesmo. E até às 16h a memória do meu dia é um vazio pouco agradável…

Sei que os meus dias não podem continuar assim. Mas também sei que não estou em condições de voltar ao trabalho, especialmente enquanto aguardo a medicação que tarda em chegar até mim. Portanto, o que é que eu posso fazer dos meus dias para além de ver o tempo passar? Pois…nada.

Enfim…esse é só mais um assunto que preciso de falar com o psicólogo. Se vou conseguir no meio de tanta coisa? Não faço ideia.

O melhor mesmo é dar o dia por terminado por hoje. Amanhã logo se vê como será. Mas, para já, estou cansada, tenho sono e, ao contrário do que é costume e muito por conta da aula de Yoga, estou relaxada. E hoje não vou adormecer com o telemóvel na mão enquanto escrevo porque tudo o que era para escrever hoje está escrito, publicado e enviado. E amanhã há mais…

{#247.120.2024}

Hoje, como ontem, fechada na minha concha, isolada do Mundo, de tudo e de todos por opção e necessidade. Todos menos ele, claro.

Há quem me diga para descansar. E eu descanso. Não sei do que é que estou cansada quando não faço nada, mas até isso cansa. Por isso, descanso.

Todos os dias acordo relativamente cedo, sem propósito ou objectivo que não seja ver o tempo passar. Tomo o pequeno almoço. Bebo o meu café. E sinto o regresso violento e forte do sono que foi interrompido ali umas duas horas antes sem necessidade. E não é possível resistir a esse sono forte e violento que toma conta de mim. Nem o café o consegue vencer…

Volto a dormir. Mais 3 horas? 4 horas? Não sei, mas são as horas que o meu corpo me exige. Para descansar não sei do quê…

Depois do almoço, novamente o café e novamente aquela sonolência sempre presente, mas nem sempre tão forte e violenta. Mas há dias, ou tardes!, em que não lhe consigo resistir. E o sofá sabe tão bem como me aconchegar…

Se esta tarde dormi depois do almoço? Muito sinceramente, é coisa de que já não me lembro. Sei que enrosquei no sofá, desligada do Mundo, isolada de tudo e de todos menos dele, mas não me lembro mesmo do que aconteceu esta tarde…

Sei, sim, que não saí nem tive vontade de sair de casa. E cada vez tenho menos vontade. Faz-me falta retomar a fisioterapia, não só porque preciso mesmo muito de trabalhar o equilíbrio com orientação de um fisioterapeuta, mas também porque me faz sair de casa, porque me obriga a dar uso às pernas, a cansar o corpo de forma que justifique o cansaço que sinto todos os dias e que, neste momento em que não saio de casa, só vejo ser possível se for um cansaço mental. Não vejo outra explicação…

Ainda estamos no Verão, é verdade, mas o vento forte, a Nortada feia que insiste em não ir embora faz arrefecer os dias. Dentro de casa é preciso manta para não arrefecer quando me enrosco no sofá. Mas, mais perto do final do dia, o Sol bate directo na janela e a casa aquece um pouco. E, com ela, já percebi que aqueço eu também. Um aquecer estranho em que mais parece que o meu corpo inteiro começa a destilar por causa de um calor absurdo que não aguento. Mesmo que só eu sinta esse calor. Mesmo que, da janela, entre ar frio, é um calor que eu não consigo aguentar, que parece fazer o meu corpo destilar, mas ao mesmo tempo sem transpirar… Não sei que raio de calor é este, mas sei que não são afrontamentos. Ainda não cheguei a essa fase. Mas, pelo que já fui lendo, é a ausência de auto-regulação da temperatura corporal e também faz parte disto que me apanhou na curva…

E foi esse calor insuportável que me fez sair de casa depois de jantar para ir beber um café ao único café que estava aberto hoje às 9h da noite. Porque a esplanada do costume está de férias, o café ao lado fecha às 20h, o restaurante com esplanada no jardim encerra às quartas feiras, a esplanada alternativa em frente ao parque fecha às 19h, o café mais próximo fecha antes das 18h e sobra aquele lá ao fundo, ao pé da paragem do autocarro, que não sendo demasiado longe, porque não é!, está a 17 minutos de distância no meu acelerado passo devagar, devagarinho…

Café com esplanada, onde pude beber um café, fumar um cigarro, arrefecer este calor absurdo com o vento e, às 21h48, ser convidada a sair porque o café fecha às 22h…

Novamente 17 minutos para voltar, devagar, devagarinho. Envergonhar quem acabou de estacionar o carro atravessado em cima do passeio até ficar a 10cm da parede do prédio, eu querer passar, não poder, recusar-me a ir pela estrada, o dono do carro sair do carro, ver-me, ouvir o que não gostou, voltar a entrar no carro, afastá-lo da parede para eu poder passar juntamente com a minha mãe, o meu necessário apoio à direita, para voltar a avançar até à parede para que quem vier depois tenha que seguir pela estrada… Não dá para perceber esta gente que quer ter o carro estacionado dentro de casa.

Chegar a casa, finalmente. Naquela estranha mistura de tenho calor mas também tenho frio… E olhos embaçados. Tal e qual como se, de repente, os meus olhos ficassem embaciados. Já não bastava a visão dupla? Tudo isto faz parte daquilo que me apanhou na curva. E eu estou farta…

Dizem-me para descansar. E é isso que tenho feito. Na minha concha, isolada do Mundo e de tudo e de todos. Não quero saber. O Mundo, pelos vistos, também não quer saber de mim. A minha única ligação directa com alguém é com ele. Sempre com ele. O único que ainda me aconchega. Que, sei-o, se sente frustrado por não poder fazer nada para me ajudar. Já lhe disse, ele já sabe, basta que ele esteja , à distância de um clique. Sabê-lo , especialmente nos dias menos bons, é a melhor forma de me ajudar. Porque ele estando , à distância de um clique, significa que não desiste de mim, apesar disto que me apanhou na curva e tudo o resto que me tem caído em cima nas últimas semanas e que ele tem acompanhado de perto porque não lhe escondo nada.

Tudo isto é uma treta. Para não dizer logo que é uma merda! E não, hoje não foi um dia muito bom. Nem muito mau, na verdade. Foi só mais um dia igual aos outros, a ver o tempo passar. E eu não gosto de ver o tempo passar sem nada a acontecer…mas a verdade é que nada acontece!

A medicação que tarda. A consulta com o especialista daqui a um mês. O funeral que não acontece. A fisioterapia que não recomeça. A única coisa que ainda me dá esperança de ver alguma coisa a acontecer em breve é a consulta com o psicólogo daqui a 2 dias. E se eu preciso dessa consulta…

Mas agora a noite já começa a roçar a madrugada. É tempo de tentar desligar a cabeça mais uma vez. Voltar a dormir tarde porque agora a luta que travo todos os dias comigo mesma não me deixa ir dormir mais cedo como fazia antes disto. Sei que não me faz bem nenhum ir dormir tarde. Mas não consigo desligar a cabeça cedo…

Amanhã? Logo se vê como corre. Sei que vou ter que sair de casa porque é dia de Yoga, e ainda bem que é! Não me apetece ver ninguém, ouvir ninguém, falar com ninguém. Mas a prática em si é-me demasiado importante para me ajudar a sentir melhor. E só por isso é que amanhã saio de casa e me volto a ligar um bocadinho ao Mundo. Mas só mesmo ao Mundo que se resume às aulas de Yoga. Porque, de resto, estou na minha concha e, quando assim é, não estou para ninguém. Excepto para ele.