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Se perguntarem por mim, dir-vos-ei que não estou. Esta que vos fala é outra que não eu.

{#257.110.2024}

Sábado, aquele dia que começa cedo para (mais) uma (fantástica) aula de Yoga. Já o disse antes, mas vou repetir as vezes que me apetecer: já não passo sem elas! E se houvesse aulas todos os dias, lá estaria. Em não havendo aulas todos os dias, há imensas apps e sites e whatever com aulas completas que posso fazer em casa. Mas a verdade é que me sinto mais segura ao ter a orientação do Professor Pedro. Que já me deu coisas para fazer em casa, é verdade, e que eu raramente faço por achar sempre que quero mais e que aquilo é pouco. Não é. É o que estou a precisar neste momento. Por isso, não tenho desculpa para não fazer o que ele recomendou. Mas, tirando isso, a verdade é que o Yoga já faz parte de mim. E eu já não passo sem ela.

O que eu passava bem sem: esta sensação insuportável de calor que me faz sentir a destilar. E que vem do nada e fica horas a incomodar-me como se, na rua, estivesse um calorão. Não está. Mas bastou vestir uma sweatshirt quando fui à rua beber café para o meu corpo aquecer, aumentar a temperatura e destilar. E não!, não são afrontamentos da menopausa. Ainda não cheguei lá embora saiba que já não falta muito, mas as análises dizem que não é para já. Por isso, este calorão que me atormenta, me faz destilar e que eu simplesmente não aguento não tem nada a ver com isso. Está, de certeza, dentro da imensa lista de sintomas disto que me apanhou na curva. Felizmente já falta pouco tempo para a consulta com o especialista. E, para iniciar o tratamento, já só faltam 9 dias. E 9 dias passam a correr. Mas correm como eu agora caminho: devagar, devagarinho…

Acordar cedo este Sábado não foi fácil depois de uma longa noite de partilha com ele. Mas, e especialmente por ter dormido pouco e tarde pelas horas de partilha com ele ontem, não foi difícil acordar cedo. Faz sentido? Já nem sei. O que sei é que ele me faz cada vez mais sentido. E, já lhe disse, por mim ficávamos horas, a noite inteira!, a conversar. Mas ontem foi através de áudios enviados por mim para ele, onde pude ser tudo aquilo que sou, sem vergonha, sem timidez que bloqueia alguns assuntos, sempre à vontade para ser EU por inteiro. Ri. Falei sério. Assuntos parvos. Assuntos sérios. Sobre nós e o que temos desde o primeiro dia. O momento que é só nosso. Que ninguém nos pode tirar…

Ontem foi possível acompanhá-lo até tão tarde e com tantos áudios (50…!) por ele estar de serviço nocturno. Hoje também estará, mas sei que não descansou tudo o que precisava durante o dia, dormiu pouco ou nada, vai estar de serviço muito cansado. E, só por isso, não o vou inundar com 50 áudios novamente. Talvez um ou dois só para desejar uma boa noite e deixar que a minha voz lhe faça companhia durante a noite. Mas, aqueles 50 áudios que enviei ontem, eram necessários. Foram o nosso momento. Porque, apesar de estarmos à distância de um clique, a minha voz viajou daqui para e ele, ao ouvir a minha voz, absorveu uma parte de mim. De forma eterea, é verdade, mas sou eu naquela voz, naquelas mensagens, mais patetas ou mais sérias. Aquela voz que viajou daqui para sou eu. Por inteiro em cada palavra dita.

Não tem que fazer sentido para mais ninguém. Só para nós. E para nós faz todo o sentido.

Esta noite não serão 50 áudios, nem nada que se pareça. Mas, com áudios ou sem áudios, estar à distância de um clique é como eu estar , é como ele estar cá. E não tem que fazer sentido para mais ninguém. Só para nós. E para nós faz. Cada vez mais.

Agora, é tentar que o meu corpo arrefeça mais um bocadinho, que se tente auto-regular e me livre deste calor que não aguento e, depois, dar o dia por terminado. Amanhã? Logo se vê. É Domingo. Não prevejo que se vá passar grande coisa, por isso o sofá e o cadeirão serão os meus companheiros para ver o tempo passar. Mas agora é mesmo preciso é descansar. Rapidamente. E, esta noite, sem horário para acordar. Por isso, boa noite a quem diz boa noite. Boa noite também a quem não diz. Até amanhã.

{#256.111.2024}

Não, a foto não está tremida nem mal tirada. Está, isso sim, editada. Para que, desse lado, quem nunca passou pela visão dupla (felizmente!) tenha uma ideia muito ligeira do que é isto de “ver a dobrar“. Porque, mais uma vez, ando nisto há dias! E já estou farta. E sem paciência. E sem saber se algum dia vou deixar de ver assim, mesmo depois de iniciar a medicação daqui a 10 dias. DEZ dias! DEZ LONGOS DIAS! Não sei, mesmo!, o que me espera nesse dia, nem sei o que esperar desse dia para a frente. Só sei que a visão dupla é horrível, é desconfortável, atrapalha, tira a paciência a um santo! E desanima. Muito! Por isso, se nunca tiveram um episódio de visão dupla, um que seja!, sorte a vossa.

E se, ao ver a dobrar, juntar o meu andar aos ésses, qualquer dia mandam-me soprar no balão! Mas aí posso garantir que o resultado será zero.

Esta coisa que me apanhou na curva não me vai largar nunca, já sei. Mas quero muito, daqui a DEZ dias, começar finalmente a medicação que, dizem-me, não me vai curar mas vai ajudar. E eu já só peço que comece rapidamente a acalmar esta coisa de ver a dobrar. Porque já não há pachorra! Para o resto dos danos também não, mas este sintoma ainda é o que mais me incomoda…

…falta muito para dia 23 de Setembro às 8h da manhã…? Please…make it stop!

{#255.112.2024}

Disto de estar sempre (muito) cansada e da falta de equilíbrio. Fazer coisas simples e básicas que, por norma, damos por garantidas e fazemos de forma automática sem pensar muito no assunto: tomar banho.

Um simples banho. Duche. Prática diária que, em circunstâncias ditas normais, nem sequer pensamos como é que vai correr…
Neste momento, e por causa da falta de equilíbrio, tomar um simples banho é uma aventura. Começa logo pelo acesso à banheira em que tenho sempre que me apoiar para conseguir passar lá para dentro devagar, devagarinho. Depois, temos o duche simples e o duche em que é dia de lavar o cabelo. O duche simples tem sido tranquilo, desde que encostada à parede, claro. Já o duche em dia de lavar o cabelo, como hoje, exige outros cuidados. Como, por exemplo, ter que levar um banco para me sentar porque, diz-me a experiência, o momento de levantar os braços para esfregar o champô é perfeito para perder o equilíbrio e não há encostar à parede que me safe. O que eu sei é que não me apetece nada estatelar-me na banheira enquanto tomo banho. Por isso, banco na banheira, tomar banho sentada, essas coisas que são o meu novo normal.

Seria de esperar que tomar banho sentada não fosse cansativo. Porque, afinal, estou sentada. Certo?
Errado! Ninguém imagina o quão cansativo um banho, um simples duche!, pode ser. E, neste meu novo normal, leva-me quase à exaustão… Nunca pensei que fosse possível ficar tão cansada com um simples duche, mas desde que tomei banho que estou de rastos…

Tenho agora 15 minutos para estar no sofá e tentar recuperar um pouco para, daqui a pouco, estar a caminho do Yoga. E a verdade é que a aula ainda não começou e eu já estou cansada…muito cansada. Por causa de ter tomado um simples banho sentada num banco na banheira…

Bem-vindos ao meu novo normal. Do qual já estou farta e estou longe de aceitar e de me habituar…

——-

E, cansada e com as dores nas pernas que não me largam, fui ao Yoga. E se há coisa da qual dificilmente, mas mesmo muito dificilmente, vou desistir é do Yoga. As aulas estão cada vez mais interessantes, diferentes, dinâmicas e num nível já muito diferente de quando comecei com o Professor Pedro em Maio do ano passado. Além disso, o Professor Pedro está informado desde o primeiro dia em que foi levantada uma suspeita sobre o que se passava comigo passando pelo internamento, confirmação do diagnóstico e daquele dia para o qual já só faltam 11 dias, o dia da medicação. Tem acompanhado também a progressão das minhas dificuldades e, sempre que é possível, adapta os asanas especialmente para mim para que eu consiga fazer o trabalho dentro do que me é possível.

Mas hoje, e já não pela primeira vez, me disse que estou muito melhor. Nos asanas, talvez. Na progressão das dificuldades e limitações no equilíbrio e na marcha não sinto o mesmo. Mas sei que ali trabalho muito o equilíbrio. E sempre que consigo fazer algum asana em que me desequilibrava sempre, muitas vezes chegando a cair, fico muito feliz e contente comigo mesma. É a prova de que não desistir é o caminho certo.

Perguntou-me quando me dava o braço para descermos as escadas: “já pensaste o que seria se tivesses desisto das aulas?” Sem hesitar, respondi-lhe: “provavelmente a esta altura já não conseguia andar”. Não sei se realmente seria assim, mas sei que sem as aulas não estaria a trabalhar o equilíbrio, não estaria a reforçar os músculos das pernas, braços, abdominais. E, parecendo que não, tudo isso acabaria por influenciar negativamente o meu estado geral. Que, para ser sincera, já não é o melhor.

Ir ao Yoga obriga-me a sair de casa, a estar com outras pessoas de quem gosto, a trabalhar o equilíbrio físico e mental, faz-me parar para respirar. O Yoga é tudo o que eu precisava há muito tempo. Comecei em 2016 mas infelizmente, apesar de um início bastante assíduo, acabei por desistir por incompatibilidade de horários a partir do momento que comecei a trabalhar. Entretanto o centro onde comecei em 2016 fechou e encontrar o Professor Pedro foi o puro acaso. Sabia da existência do Spa, mas não sabia que tinham Yoga. Fui lá, pedi informações, inscrevi-me e reiniciei a prática vários anos depois. Mas parecia que tinha parado apenas no dia anterior.

O Professor Pedro diz que “o corpo tem memória”. E desde a primeira aula com ele percebi que sim. E essa memória vai até bem lá atrás no tempo, aos tempos da ginástica, da dança, do teatro e o workshop de expressão corporal onde fazíamos asanas sem saber que estávamos a fazer Yoga. E é essa memória do corpo que me tem ajudado também a lidar com este meu “novo normal“.

Não, não vou desistir. De fazer as adaptações necessárias para conseguir continuar a fazer aquilo que todos damos por garantido, como tomar um simples banho ou simplesmente caminhar a direito. Assim como também não vou desistir do Yoga que me trabalha o equilíbrio, o corpo e a mente. Porque desistir de tudo isto seria desistir de mim mesma. E isso eu recuso fazer. Desistir de mim não é opção.

Depois da aula de Yoga de hoje cheguei a casa super tranquila, relaxada, sem dores nas pernas. Aquilo a que chamei de “estado Zen”. Claro que agora, aquela hora tardia que eu insisto em alcançar antes de ir, finalmente, dormir, aquela hora em que a noite já roça a madrugada, está mais do que na hora de ir descansar. Dormir. Sem hora para acordar. Simplesmente deixar-me levar pelo estado pós Yoga e descansar, tanto o corpo como a mente.

O dia já vai longo e, tirando o Yoga, não fiz absolutamente mais nada, excepto ficar exausta com um simples banho. Por isso, e porque o sono que já aperta assim o exige, dou o dia por terminado por hoje. Amanhã? Será sem horário de acordar, será sem ter sítio onde ir, será sem ter coisas para fazer. Será um dia para aproveitar sem pressa, sem pressão, para descansar e recuperar, fortalecer-me para daqui a 11 dias.

Por isso, amanhã será outro dia. E depois logo se vê como será.

Até amanhã.

{#254.113.2024}

Por aqui, continua-se assim: visão dupla a bombar! O dia todo!

Ver televisão é uma aventura para conseguir ler as legendas, para escrever no telemóvel é outra aventura para não errar as teclas. E depois há os óculos. Que, para ler as legendas na televisão, dão uma grande ajuda quando não estou a ver a dobrar mas que para ler ou escrever no telemóvel só atrapalham e cansam demasiado e por isso prefiro tirá-los. As lentes têm 2 anos e precisam (já há largos meses) de ser ajustadas. Mas o orçamento para passar de lentes intermédias para progressivas, mesmo com 40% de desconto!, é assustador, por isso a mudança de lentes vai ter que esperar.

Quanto à visão dupla, não há lentes que resolvam. Faz parte disto que me apanhou na curva. Mas, e há sempre um mas!, faltam apenas DOZE dias para finalmente ter acesso à medicação e tratamento que espero há meses e que, dizem, me vai ajudar. Não me vai curar, porque esta coisa que me apanhou na curva não tem cura, mas dizem que tudo vai melhorar. Espero que ajude também a travar a visão dupla, porque já não há pachorra para ver as coisas a dobrar!

Faltam 12 dias. DOZE! Uma dúzia de dias. Sempre ouvi dizer que à dúzia é mais barato. Mas o que eu SEI mesmo, ninguém me contou!, é que serão 12 longos dias de espera. Pelo menos já há uma data de renascimento marcada! Que venha ela então rapidamente. Daqui a 12 longos dias e a visão dupla a bombar…

Vá, eu espero mais este bocadinho. Faltam “só” 12 dias

Entretanto, passava das 20h10m e eu hoje (ainda) não tinha saído de casa. Aos poucos, vou aceitando que este cansaço estúpido, que me faz apagar durante horas no sofá mesmo que não tenha acordado assim tão cedo como gostaria, é normal. Ou “normal“, já nem sei. Sei que faz parte. Faz parte disto. Ou “disto“, cujo nome ainda não consigo aceitar, nomear, escrever. Fazê-lo é tornar demasiado real aquilo que não procurei mas que me encontrou e me apanhou na curva. E que teimo em ainda não aceitar. Teimo em negar. Teimo em fazer de conta que vai passar. Não vai.

Mas o tempo passa. E ainda há pouco foi hora de almoço e agora, de repente, ao olhar pela janela, vi que o Sol já se tinha posto. E vi também que hoje, na praia, o pôr do Sol deve ter estado um espectáculo lindo. Chegou-me, pela minha janela, lá ao longe, o jogo de cores do final de dia. E pensei em como gostava de ter estado no paredão hoje para o pôr do Sol na praia. Mas, acreditem ou não, o meu corpo ainda está a recuperar de lá ter ido há dois dias…

Sei que vão haver mais dias para lá voltar. Sei que daqui a 12 dias a tendência será para, se não melhorar, pelo menos estabilizar. E, mesmo parecendo pouco, já é tanto!

Tenho saudades de ir ver o pôr do Sol na praia todos os dias como cheguei a fazer em Janeiro até chegar a chuva? Tenho. Muitas. Tenho capacidade física para isso? Nem por isso. Mas sair de casa todos os dias um bocadinho é possível. Nem que seja para ir só ali à mercearia, como fiz questão de fazer.

Amanhã? É dia de Yoga, portanto vai ser dia de sair de casa. Mas vai ser tão bom sair pelo motivo que é. De resto, já sei que o dia vai ser muito lento e preguiçoso até serem horas de, finalmente, ir apanhar o autocarro. Mas, por hoje, já chega. Não fiz absolutamente nada o dia todo, é verdade, mas sinto-me muito cansada. Por isso, é hora de dar o dia por terminado e enroscar e aninhar daquela forma que só nós dois sabemos e que não é para partilhar porque não interessa a mais ninguém. Aninhamos e enroscamos à distância de um clique, é verdade, mas há já mais de um ano que ambos nos sentimos mais aconchegados quando enroscamos à noite. Por isso, agora vou só ali enroscar, amanhã estou de volta mais revigorada.

Até amanhã.

{#253.114.2024}

Percebi hoje que, de facto, o meu corpo já se ressente de esforços da véspera. Não vejo outra explicação para a estupidez de cansaço, sono e fadiga do dia de hoje a não ser como resposta à ida até ao paredão ontem.

O paredão é “já ali“, mas ir e voltar resulta numa caminhada de 3 km. Que, realmente, não é grande distância. Para os outros… Para mim, neste momento e desde que fui apanhada na curva por isto que, de certa forma, me derrubou, fazer uma simples caminhada até “já ali” e totalizar nas pernas 3 km é muito. E, desta vez, sem pausa no caminho, seja para lá ou para cá. Parei pouco mais de 10 minutos no paredão para ver o pôr do Sol na praia e pus-me a caminho de volta para casa.

O ritmo da caminhada não foi intenso, nunca é porque já não consigo que o seja. Mas acabou por até ser um pouco mais rápido do que o meu já habitual devagar, devagarinho. E acho mesmo que foi isso que hoje o meu corpo acusou.

Acordei pouco depois das 8h. Para voltar a apagar poucas horas depois. 11h? 11h e tal? Já não sei…mas não aguentei. Ou o meu corpo não aguentou.

Voltei a acordar pelas 14h, talvez. Almocei. Bebi café. Tentei reagir para acordar. Ir à rua era impensável porque a Nortada estava demasiado forte e não convidava a sair.

E sempre o sono. Tanto. E o corpo cansado. Muito lento. A pedir repouso.

Não, hoje que precisava tanto!, não aterrei no sofá. Ainda estiquei as pernas cansadas ao final da tarde, mas não dormi. E a luta para me manter acordada foi muito difícil, muito complicada. Mas consegui resistir e não adormecer.

A Nortada abrandou significativamente e consegui convencer-me a mim mesma a ir à rua beber café e dar uso às pernas. Foi pouco mais de meia hora na esplanada com a minha mãe, naquele café que, já sei, fica a 17 minutos de casa. Para cada lado. E que hoje pode até ter sido um pouco mais.

Ainda houve tempo para conversar com a vizinha do rés do chão e a minha afilhada-gata Mia. E as minhas pernas, de estarem tanto tempo em pé, gritavam-me dores que só eu ouvia, só eu sentia.

Voltámos para casa tarde, claro. E o sono parece ter acalmado. Continuo a sentir-me cansada. E começo a desconfiar que aquele cansaço imenso que senti hoje, juntamente com o sono quase incontrolável é, de facto, aquela verdadeira fadiga que isto que me apanhou na curva também traz consigo.

Consegue não ser fácil distinguir o simples cansaço de um estado de fadiga quando o corpo só pede para parar e descansar. Mas acho que, na sequência do passeio de ontem, fiquei finalmente a conhecer o que é essa tal fadiga

Continuo a sentir-me cansada, com algum sono que já não é incontrolável como era mais cedo. E olho para as horas e vejo que já passei da noite à madrugada e já devia estar a dormir há muito tempo. Mais uma vez, não estou…

Amanhã devo acordar à hora de sempre. Cedo, portanto. Para tomar o antibiótico, fazer tempo e tomar o pequeno almoço. Beber café. E voltar para a cama.

Sempre, no meio disto tudo, com a companhia dele à distância de um clique. Com tempo para partilhas e segredos que, juntos, tatuamos na memória um do outro, um com o outro. E com despertares únicos, indizíveis, que apenas nós entendemos. E, no final de um dia que em tudo foi estranho, confirmar que temos lugar no abraço um do outro. E nada mais importa.

Agora é hora de, finalmente, dar o dia por terminado e enroscar, mesmo que à distância de um clique, no abraço seguro, quente e protector dele. Amanhã será outro dia. E mais tatuagens serão gravadas na memória de ambos.

O resto? O resto é só isso mesmo: o resto. Depois, logo se vê. Por hoje já chega.

{#252.115.2024}

E depois há aquele dia em que o telefone toca. O telefone que, tirando família que liga, raramente toca. E hoje tocou. Logo de manhã. Aquele telefonema que eu esperava há meses aconteceu! E confirmou: a Fénix VAI renascer das cinzas. Já com data marcada. Uma espécie de data de nascimento. Ou renascimento como boa Fénix que é. Que sou!

E hoje o telefone tocou. Aquele telefonema que esperei durante meses intermináveis. Finalmente aconteceu. E, claro, entrei em contagem regressiva. Faltam 14 dias. 14 dias para renascer das cinzas. E, dizem, depois desses 14 dias, as coisas melhoram. Eu melhoro.

Vão ser 14 longos dias? Vão. Mas, como sempre, não tenho pressa e vai ser um dia de cada vez. E renascer das cinzas é dos acontecimentos mais importantes do mundo de cada pessoa. E este, que acontece dentro de 14 dias, será O MEU momento de renascer das cinzas.

Fénix. Tantas vezes já renasci das cinzas. Esta será só mais uma vez. Com data marcada. E que, a seu tempo, ficará também marcada na pele. Porque se há coisas que vêm para ficar, outras há que são importantes de registar. Como a data de nascimento. Como a data de RENASCIMENTO!

Faltam 14 longos dias. Mas, pelo menos, já há data, hora, local e um processo demorado marcados na agenda. E, neste momento, pouco ou nada mais importa.

14 dias. E em contagem regressiva.

{#251.116.2024}

Às 19h15 o Sol (ainda) bate directamente na minha janela. Sei que já não vai demorar muito tempo até deixar de o fazer e só lá para finais de Março volta aqui. Hoje reclamo que, a esta hora, o Sol ainda está quente e não consigo estar muito tempo tempo no cadeirão por causa disso a menos que baixe as cortinas. E mesmo assim… Sei que lhe vou sentir a falta naqueles 6 meses em que não bater aqui, mas também sei que, sendo eu, tenho que reclamar porque sim, porque não e ainda porque também…

Tirando isso, hoje estou num daqueles dias em que me apetece (muito) conversar. Ao fim de uma hora na esplanada com a minha mãe, em plena hora de jantar (jantar esse que, por minha causa, só aconteceu lá pelas 22h), dizia eu que ao fim de uma hora de esplanada com a minha mãe, não sei como é que ela (ainda) não me disse “cala-te um bocadinho”. Quero dizer, sei! É minha mãe!

Mas, lamento, não só me apetece (muito) conversar como PRECISO de o fazer. Tenho alguma coisa de jeito para dizer? Não, nem por isso. Mas, cada vez mais, sinto uma enorme necessidade de conversar. Ou, por outras palavras, COMUNICAR. Se tenho com quem conversar de viva voz? Tenho a minha mãe. E muito raramente uma ou outra pessoa. Talvez por isso o tente fazer por escrito. Ajuda. Mas serve para alguma coisa? Só se for para tirar de dentro de mim a pressão que trago cá dentro.

Se houver por aí alguém que queira conversar de viva voz, mesmo que eu não tenha nada de jeito para dizer, sintam-se à vontade de ligar. Qualquer Messenger ou Instagram tem a função de fazer chamadas de voz, nem precisam de ter o meu número de telemóvel. Eu tenho é que deitar tudo cá para fora, mesmo que esse tudo seja…nada!

Entretanto, sexta feira na sala de espera deprimida do Hospital Garcia de Orta, a sala de espera da consulta externa dos serviços de Psicologia e Psiquiatria.

A Depressão é, de facto, um lugar escuro. Mas não é obrigatório que, visto por fora, o doente deprimido tenha que apresentar um ar escuro, triste, pesado. Também faz parte, é verdade. Mas também é possível um doente deprimido apresentar-se na consulta com uma “máscara”, aquela máscara cheia de brilho e cor que transparece sorrisos e tenta abafar risos. Tanto os sorrisos e os risos que a tal máscara transparece nada mais são do que armas espontâneas de defesa contra a escuridão que carrega. São uma espécie de camuflagem que permite a integração no ambiente que o rodeia. Por isso, quando um doente deprimido entra no consultório do psicólogo a rir e a fazer piadas, não quer necessariamente dizer que “está muito animada hoje”, como me disse o psicólogo na sexta feira.

É preciso tempo, muito tempo, e disponibilidade para permitir que o doente deprimido se sinta seguro para deixar cair a máscara.

Sim, a Depressão tem cura. Mas deixar cair a máscara é dos passos mais difíceis quando se inicia o caminho da cura com alguém que acabou de entrar na nossa vida e (ainda) não nos conhece. Por isso, sim!, dêem-me tempo para me permitir deixar cair a máscara. Só depois disso é que me vai ser possível encontrar o caminho no mapa para a cura.

Mas pedir ajuda não é vergonha nenhuma. Por isso, se precisares de sair da escuridão, respira fundo e PEDE ajuda. Há muita luz e cor lá fora. E ajuda para encontrar o caminho.

{#250.117.2024}

Sábado de manhã é sinónimo de Yoga cedo. E cada nova aula, que nunca é igual à anterior, é sempre a melhor forma de começar o dia. Assim como à quinta feira, que acontece ao final do dia, é sempre a melhor forma de terminar o dia.

Não busco a perfeição nos asanas, não é para isso que lá estou. Também não procuro aquelas posturas estranhas que se vêem tanto por aí, de inversões com a cabeça a servir de ponto de apoio ou qualquer outra coisa que pareça (e seja) um bocadinho mais extrema. Não é isso que quero do Yoga. E, como diz o professor Pedro, isso não é Yoga, é só showoff.

Yoga é permanecer no asana, a postura, mantendo a respiração profunda e consciente e com isso revigorar corpo e mente. Cada asana tem a sua função e a respiração profunda e consciente não só permite que a postura que se está a trabalhar cumpra o seu papel.

E, já o disse antes, a prática de Yoga cada vez me faz mais sentido. São apenas 2 vezes por semana, por mim poderia ser todos os dias. Em aula, sei que não seria possível, não só por condicionantes do espaço mas também porque, para mim, seria financeiramente impossível. Mas sei que já tenho conhecimentos suficientes para, em casa, seguir aulas online, seja em versão YouTube ou seja em versão app dedicada ao Yoga. O que me falta? Aquilo que, para fazer seja o que for em casa, nunca tive muita: auto-disciplina.

Mas depois queixo-me que os meus dias são sempre iguais, a ver o tempo passar, quando podia tirar uma hora por dia para me dedicar à prática em casa… Enfim, sou eu a ser eu, como sempre.

Mas a verdade é que a prática de Yoga me ajuda a muitos níveis. Ajuda a trabalhar os músculos, seja a fortalecer ou a alongar, a melhorar a postura, a trabalhar o equilíbrio (que preciso tanto!) e, também muito importante, a aquietar a mente. Mente essa que tem estado em rebuliço com tanta coisa a acontecer ao mesmo tempo. E aqui a respiração profunda e consciente tem um papel fundamental. Porque enquanto me concentro só na respiração não estou a pensar no que não devo, no que não interessa, no que não me faz bem. Porque enquanto me concentro na respiração nada mais existe, só eu e o meu respirar.

Como disse lá para cima, as aulas nunca são iguais. Obviamente que há asanas que se repetem nas várias aulas, mas o esquema da aula actual nunca é igual à aula anterior. E isso é muito bom.

Tenho mesmo que me convencer a praticar em casa. Tenho que me auto-disciplinar sem me cobrar demasiado. Porque, praticar em casa todos os dias um bocadinho, só me trará benefícios.

Já disse ao professor Pedro que não desisto do Yoga por nada. Sei que, quando regressar ao trabalho, se tiver que ser um regresso presencial (que eu não consigo…), volto ao esquema inicial de apenas uma aula por semana e sei que lhe vou sentir a falta e a diferença. Mas, se me for permitido o regime de teletrabalho dadas as dificuldades de deslocação, mantenho as duas aulas por semana.

Mas não quero estar agora a pensar em algo que não sei sequer quando irá acontecer. Vou parar 5 minutos, respirar profundamente e de forma consciente para fechar o dia que já vai longo e vou descansar. Também preciso disso. E, de preferência, a horas decentes e não como tem acontecido nos últimos dias (semanas?) e que também vai acontecer hoje: ir dormir demasiado tarde. Também aqui preciso de me auto-disciplinar.

Do dia também ficam as conversas com ele e confirmar o que já tinha percebido: não está a 100%. E eu não posso fazer grande coisa para além de dar tempo e espaço e estar cá, deste lado, nos dias bons e nos dias menos bons, como estou sempre desde o primeiro dia.

Enfim…um dia de cada vez. E o de hoje já terminou. Amanhã? É permitir-me descansar de manhã, dormir até quando for e, se for de sair de casa para um café na rua, saio. Mas não me vou obrigar a fazê-lo. A vontade é ir novamente até ao paredão ver o pôr do Sol na praia. Se vai acontecer? Não faço ideia. Logo se vê. Mas o mais importante agora é ir descansar. O meu corpo está a pedi-lo e eu vou fazer-lhe a vontade. Mas, antes disso, posso resumir o dia como não tendo sido um dia mau. E só isso já vale a pena.

{#249.118.2024}

Sexta feira, 6 de Setembro, aquele dia pelo qual eu esperava desde a primeira consulta a 17 de Julho: finalmente nova consulta com o psicólogo.

E, sem dúvida, fiquei muito mal habituada com o terapeuta fofinho e os praticamente 8 anos em que fui acompanhada por ele: tinha tempo para falar. Sei que, no Hospital, não posso contar com consultas de 3 horas como tantas vezes aconteceu com o terapeuta fofinho. No Hospital, as consultas são contadas ao segundo. E hoje não podia ter sido de outra forma.

Tanta coisa que tenho para trabalhar com ele e tão pouco tempo fazem-me falar depressa, com pressa, para ter tempo para falar de tudo e acabar por não falar de quase nada…

E perceber, de uma vez, que a Depressão é tão fácil de esconder. Porque por fora podem ver-me a sorrir, a rir, a fazer piadas e dizerem-me logo no início da consulta que estou muito animada. Por fora podem ver tudo isso, mas o que vai cá dentro só é visível com tempo e trabalho. E, ali, o tempo é contado ao segundo. E o aparentar estar tão animada nada mais é do que uma espécie de bóia de salvação. Salvação do quê? De mim mesma. Do que trago cá dentro.

Na primeira consulta, o psicólogo usava máscara cirúrgica por causa dos surtos activos que havia naquela altura. Hoje, já tinha decidido, ia pedir-lhe para retirar a máscara nem que fosse por 10 segundos só para poder associar uma cara a um nome, a um especialista que me segue e que me irá ajudar a trabalhar e arrumar o caos que carrego comigo. Mas, assim que me chamou para a consulta, percebi que esse pedido não ia ser necessário: hoje não trazia máscara cirúrgica. E, no final da consulta, percebi que quem estava a usar máscara hoje era eu. Não uma máscara cirúrgica, apenas uma cara sorridente e animada que em pouco ou nada corresponde ao que trago cá dentro…

Não, eu não estou bem. Já me conheço o suficiente para saber que por fora posso estar perfeitamente bem disposta, mas cá dentro está tanta coisa desfeita, a doer e a sangrar. Por isso, não é estranho que a primeira coisa que tenha dito quando iniciámos a consulta tenha sido “sinto-me completamente perdida”. Tentei explicar o porquê. Falei-lhe no mapa que tenho na cabeça onde tudo está baralhado e não existe o pino a informar “você está aqui”.

Falámos disto que me apanhou na curva. Disse-lhe que ainda estou na fase da não aceitação. Que continuo à espera da medicação. Que as dificuldades e limitações são cada vez mais evidentes. Mas não soube pedir ajuda. Não directamente. Provavelmente porque ainda não aceitei isto.

Voltamos a ter consulta no final de Outubro. Outra vez tanto tempo de intervalo… Um mês e meio é muito tempo para quem precisa tanto de orientação, ajuda, chamem-lhe o que quiserem. É muito tempo…

Mas, já sei, terei que viver um dia de cada vez até chegar à data da consulta e não adianta contar o tempo que falta, não será por isso que a consulta vai chegar mais depressa…

Páro. Respiro fundo. Respiração profunda e consciente. Lambo as feridas. E logo se vê como vou aguentar este mês e meio até à próxima consulta…

Por agora, que já é bem mais tarde do que eu queria para ir dormir, dou o dia por terminado mas com a cabeça num turbilhão. Amanhã, Sábado, é dia de acordar cedo, é dia de Yoga. Que é o que me tem realmente ajudado a desligar do Mundo por um bocado. Depois? Quando voltar para casa? Ou volto para a cama ou refugio-me no sofá. Longe do Mundo, de tudo e de todos. E, se adormecer, é da forma que não vejo o tempo passar…

{#248.119.2024}

Acordar porque sim às 6h da manhã depois de mais uma vez ter adormecido com o telemóvel na mão enquanto escrevia. Não pode continuar a acontecer… Preciso mesmo muito de me auto-disciplinar para voltar a dormir cedo…

Claro que voltei para a cama por volta das 10h já com os telefonemas importantes da manhã feitos. E, quando voltei a acordar, estava muito confusa. Perfeitamente convencida de que seria já umas 8h da noite, tal era a confusão nesta cabeça…

Felizmente não eram 8h da noite, era hora de almoço. Menos mal. Não tinha perdido o dia por completo. Mas, mesmo assim, acho que o meu dia só começou mesmo lá pelas 4h da tarde quando comecei a organizar as coisas para o Yoga às 7h…

Desta vez, para garantir que não perdia o autocarro que chega sempre antes da hora, saí de casa antes da hora prevista. O Yoga é às 19h, eu saí de casa antes das 18h. Para dar tempo para tudo, incluindo chegar à paragem antes do autocarro. E, desta vez, não perdi o autocarro! Mesmo que o autocarro tenha chegado à paragem 5 minutos antes do que está previsto no horário.

Cheguei cedo à Associação onde agora são as aulas, fui com calma, sem pressa, ainda tive tempo para, no bar da Associação, ir beber um café à esplanada, ouvir um pouco de música, estar comigo mesma. E depois então ir para dentro.

Também o professor Pedro chegou mais cedo, ainda tivemos tempo de um pouco de conversa antes de chegar o resto das minhas colegas. E se há pessoa com quem gosto de conversar desde o primeiro dia é com ele. É professor de Yoga? É. Mas também é psicólogo. Tem a cabeça no sítio. Pés na Terra. Tem as suas crenças, os seus hábitos, mas não os impõe a ninguém. E só por isso já vale a pena conversar com ele.

A aula, mais uma vez, foi o que é sempre: muito boa. E que me estava a fazer falta. Não só para alongar o corpo, mas também para sossegar a mente. E, de certa forma, preparar-me para a consulta de amanhã com o psicólogo. Que, de tanta coisa que tenho para trabalhar com ele, nem faço ideia por onde começar…

Logo se vê… A única coisa que sei neste momento é que a noite já começa a roçar a madrugada, o despertador toca às 7h da manhã para fazer tudo o que tenho que fazer antes de apanhar o autocarro às 9 e qualquer coisa que ainda nem vi o horário e, pelo meio, ainda tenho que dormir e descansar. Já sei que vai ser dormir a correr e, quando chegar a casa vai ser almoçar e enroscar no sofá e depois logo se vê.

Não posso dizer que o dia tenha sido longo por ter acordado às 6h da manhã. A verdade é que a única coisa de que me lembro antes de voltar para a cama às 9h é do telefonema que fiz. E, após ter acordado, sei que almocei mas já nem sei o quê…não me lembro mesmo. E até às 16h a memória do meu dia é um vazio pouco agradável…

Sei que os meus dias não podem continuar assim. Mas também sei que não estou em condições de voltar ao trabalho, especialmente enquanto aguardo a medicação que tarda em chegar até mim. Portanto, o que é que eu posso fazer dos meus dias para além de ver o tempo passar? Pois…nada.

Enfim…esse é só mais um assunto que preciso de falar com o psicólogo. Se vou conseguir no meio de tanta coisa? Não faço ideia.

O melhor mesmo é dar o dia por terminado por hoje. Amanhã logo se vê como será. Mas, para já, estou cansada, tenho sono e, ao contrário do que é costume e muito por conta da aula de Yoga, estou relaxada. E hoje não vou adormecer com o telemóvel na mão enquanto escrevo porque tudo o que era para escrever hoje está escrito, publicado e enviado. E amanhã há mais…

{#247.120.2024}

Hoje, como ontem, fechada na minha concha, isolada do Mundo, de tudo e de todos por opção e necessidade. Todos menos ele, claro.

Há quem me diga para descansar. E eu descanso. Não sei do que é que estou cansada quando não faço nada, mas até isso cansa. Por isso, descanso.

Todos os dias acordo relativamente cedo, sem propósito ou objectivo que não seja ver o tempo passar. Tomo o pequeno almoço. Bebo o meu café. E sinto o regresso violento e forte do sono que foi interrompido ali umas duas horas antes sem necessidade. E não é possível resistir a esse sono forte e violento que toma conta de mim. Nem o café o consegue vencer…

Volto a dormir. Mais 3 horas? 4 horas? Não sei, mas são as horas que o meu corpo me exige. Para descansar não sei do quê…

Depois do almoço, novamente o café e novamente aquela sonolência sempre presente, mas nem sempre tão forte e violenta. Mas há dias, ou tardes!, em que não lhe consigo resistir. E o sofá sabe tão bem como me aconchegar…

Se esta tarde dormi depois do almoço? Muito sinceramente, é coisa de que já não me lembro. Sei que enrosquei no sofá, desligada do Mundo, isolada de tudo e de todos menos dele, mas não me lembro mesmo do que aconteceu esta tarde…

Sei, sim, que não saí nem tive vontade de sair de casa. E cada vez tenho menos vontade. Faz-me falta retomar a fisioterapia, não só porque preciso mesmo muito de trabalhar o equilíbrio com orientação de um fisioterapeuta, mas também porque me faz sair de casa, porque me obriga a dar uso às pernas, a cansar o corpo de forma que justifique o cansaço que sinto todos os dias e que, neste momento em que não saio de casa, só vejo ser possível se for um cansaço mental. Não vejo outra explicação…

Ainda estamos no Verão, é verdade, mas o vento forte, a Nortada feia que insiste em não ir embora faz arrefecer os dias. Dentro de casa é preciso manta para não arrefecer quando me enrosco no sofá. Mas, mais perto do final do dia, o Sol bate directo na janela e a casa aquece um pouco. E, com ela, já percebi que aqueço eu também. Um aquecer estranho em que mais parece que o meu corpo inteiro começa a destilar por causa de um calor absurdo que não aguento. Mesmo que só eu sinta esse calor. Mesmo que, da janela, entre ar frio, é um calor que eu não consigo aguentar, que parece fazer o meu corpo destilar, mas ao mesmo tempo sem transpirar… Não sei que raio de calor é este, mas sei que não são afrontamentos. Ainda não cheguei a essa fase. Mas, pelo que já fui lendo, é a ausência de auto-regulação da temperatura corporal e também faz parte disto que me apanhou na curva…

E foi esse calor insuportável que me fez sair de casa depois de jantar para ir beber um café ao único café que estava aberto hoje às 9h da noite. Porque a esplanada do costume está de férias, o café ao lado fecha às 20h, o restaurante com esplanada no jardim encerra às quartas feiras, a esplanada alternativa em frente ao parque fecha às 19h, o café mais próximo fecha antes das 18h e sobra aquele lá ao fundo, ao pé da paragem do autocarro, que não sendo demasiado longe, porque não é!, está a 17 minutos de distância no meu acelerado passo devagar, devagarinho…

Café com esplanada, onde pude beber um café, fumar um cigarro, arrefecer este calor absurdo com o vento e, às 21h48, ser convidada a sair porque o café fecha às 22h…

Novamente 17 minutos para voltar, devagar, devagarinho. Envergonhar quem acabou de estacionar o carro atravessado em cima do passeio até ficar a 10cm da parede do prédio, eu querer passar, não poder, recusar-me a ir pela estrada, o dono do carro sair do carro, ver-me, ouvir o que não gostou, voltar a entrar no carro, afastá-lo da parede para eu poder passar juntamente com a minha mãe, o meu necessário apoio à direita, para voltar a avançar até à parede para que quem vier depois tenha que seguir pela estrada… Não dá para perceber esta gente que quer ter o carro estacionado dentro de casa.

Chegar a casa, finalmente. Naquela estranha mistura de tenho calor mas também tenho frio… E olhos embaçados. Tal e qual como se, de repente, os meus olhos ficassem embaciados. Já não bastava a visão dupla? Tudo isto faz parte daquilo que me apanhou na curva. E eu estou farta…

Dizem-me para descansar. E é isso que tenho feito. Na minha concha, isolada do Mundo e de tudo e de todos. Não quero saber. O Mundo, pelos vistos, também não quer saber de mim. A minha única ligação directa com alguém é com ele. Sempre com ele. O único que ainda me aconchega. Que, sei-o, se sente frustrado por não poder fazer nada para me ajudar. Já lhe disse, ele já sabe, basta que ele esteja , à distância de um clique. Sabê-lo , especialmente nos dias menos bons, é a melhor forma de me ajudar. Porque ele estando , à distância de um clique, significa que não desiste de mim, apesar disto que me apanhou na curva e tudo o resto que me tem caído em cima nas últimas semanas e que ele tem acompanhado de perto porque não lhe escondo nada.

Tudo isto é uma treta. Para não dizer logo que é uma merda! E não, hoje não foi um dia muito bom. Nem muito mau, na verdade. Foi só mais um dia igual aos outros, a ver o tempo passar. E eu não gosto de ver o tempo passar sem nada a acontecer…mas a verdade é que nada acontece!

A medicação que tarda. A consulta com o especialista daqui a um mês. O funeral que não acontece. A fisioterapia que não recomeça. A única coisa que ainda me dá esperança de ver alguma coisa a acontecer em breve é a consulta com o psicólogo daqui a 2 dias. E se eu preciso dessa consulta…

Mas agora a noite já começa a roçar a madrugada. É tempo de tentar desligar a cabeça mais uma vez. Voltar a dormir tarde porque agora a luta que travo todos os dias comigo mesma não me deixa ir dormir mais cedo como fazia antes disto. Sei que não me faz bem nenhum ir dormir tarde. Mas não consigo desligar a cabeça cedo…

Amanhã? Logo se vê como corre. Sei que vou ter que sair de casa porque é dia de Yoga, e ainda bem que é! Não me apetece ver ninguém, ouvir ninguém, falar com ninguém. Mas a prática em si é-me demasiado importante para me ajudar a sentir melhor. E só por isso é que amanhã saio de casa e me volto a ligar um bocadinho ao Mundo. Mas só mesmo ao Mundo que se resume às aulas de Yoga. Porque, de resto, estou na minha concha e, quando assim é, não estou para ninguém. Excepto para ele.

{#246.121.2024}

Estado actual: fechada na minha concha.

Isolada do Mundo, de tudo e de todos, por opção e por necessidade urgente de me reencontrar. Não estou para ninguém, excepto para ele. Que, mesmo à distância de um clique, está sempre comigo.

A minha concha, o meu auto-isolamento, tem lugar no sítio de sempre: no meu sofá, na minha sala, na minha casa. Com a televisão nas séries de sempre que já vi e revi 500 mil vezes. No limite, com o Spotify a tocar as mesmas playlists de todos os dias.

Porquê? Porque não me são estranhas, não me são desconhecidas. São, sim, para mim neste momento!, confortáveis. E é isso que eu procuro. E preciso. Sentir-me confortável. Sentir conforto. E, fechada na minha concha, isolada do Mundo, de tudo e de todos, é conforto que sinto, é conforto que tenho.

Não estou para ninguém. Excepto para ele. Por isso, se o telemóvel tocar, só irei atender se vir o nome dele no identificador de chamada. Caso contrário, lamento, vai acabar por ir parar ao voice mail.

Dêem-me o que eu preciso agora: tempo e espaço. Só para mim.

Obrigada.

{#245.122.2024}

Escrevi ontem aqui no blog que a minha vontade é desaparecer daqui, ir para um sítio qualquer no meio do nada, onde NINGUÉM me conheça, onde não me façam perguntas, onde não me exijam estar aquilo que não consigo estar: bem. Porque, de facto, não o estou. E tenho todo o direito a não o estar.

Só preciso de um sítio longe daqui, no meio do nada mas com árvores à minha volta. Não me perguntem o porquê da necessidade de ter árvores à volta, não o sei explicar. Mas sinto-lhes a falta por perto.

Já sei que desaparecer daqui para um sítio qualquer longe daqui no meio do nada não vai acontecer. Por isso, a alternativa que encontro é fechar-me ainda mais na minha concha. Não procurar nada nem ninguém. Deixar os dias correr e riscá-los do calendário um atrás do outro. A única pessoa que me faz sentido ter presente comigo é ele. Mas, diz-nos a vida e as suas rasteiras, não pode ser. E não é a distância de 135 km, que não é nada, o maior obstáculo. Se calhar é só a pessoa certa no momento errado. E quem somos nós para controlar os momentos certos ou errados? Se calhar este não é, de todo, o nosso momento. Embora já o seja de certa forma. Porque é real. Existe. Só (ainda) não é físico. É tudo à distância de um clique. Mas não foi essa distância de um clique que impediu ou dificultou tudo o que já temos hoje. Que, para uns, é tão pouco a roçar o nada, mas que, para nós, é tanto a roçar o tudo.

E, neste momento, é só disso que preciso: o tanto a roçar o tudo que temos. Que me aconchega todos os dias, em todos os momentos, sejam bons ou maus dias e/ou momentos. Que me conforta quando tudo o que procuro é o conforto do que me faz sentir bem. Que vê em mim mais do que eu mesma vejo. Que acredita mais nas minhas capacidades do que eu mesma arrisco acreditar. E está tão certo em ver e em acreditar em mim mais do que eu mesma. Porque, aos poucos, os meus dias dão-lhe razão. Às vezes nem eu sei muito bem como, mas a verdade é que dão. E o último ano, mas mais especificamente as últimas semanas, têm sido exemplo disso. E, acredito, é por isso que, ao fim de mais de um ano, ele não desistiu de mim. E já disse, várias vezes, que não vai desistir, venha o que vier.

E é só disso que eu preciso: ter, ao meu lado, alguém que, desde o início me disse “fazemos o caminho de mão dada. E, se ficar muito difícil, levo-te ao colo”. É este conforto, esta segurança, este sentimento que partilhamos. É isto. Nada mais do que isto. Que existe. É real. É intenso. É profundo. É recíproco. É quase vital! É só disto que eu preciso para, todos os dias, ter força e coragem e vontade para sair da cama e enfrentar o Mundo. Enfrentar os meus demónios. Os meus monstros. Os meus medos. A minha realidade! É só disto que eu preciso. E tenho! Nele! E é por ele que todos os dias dou um passo de cada vez para enfrentar tudo o que ele sabe que eu consigo superar. E faço-o porque ele sabe que eu sou capaz. E só por isso não merece que eu faça o mínimo de sobrevivência. Ele merece que eu continue a ser EU mesma, que sou tão mais do que tudo o que me caiu em cima nos últimos meses. Ele sabe que eu sou tão mais do que aquilo que por vezes demonstro, que tento esconder gato com o rabo de fora. Ele sabe que eu sou tão mais que tudo isso. Eu também sei. Mas, em momentos de fraqueza e maior desânimo, acabo por me esquecer. Mas lá está ele, ao meu lado, para me relembrar quem sou, o que sou, o que consigo ser!

Sim, é das pessoas mais importantes que tenho. Acima dele, só a minha mãe e os meus sobrinhos. Mas família é um patamar diferente que não é possível comparar com mais ninguém. Por isso, tirando o patamar Família, ele está bem lá em cima no grau de importância, destacado das restantes pessoas importantes que tenho e que são poucas, muito poucas.

Sim, continuo com vontade de desaparecer daqui para um sítio qualquer longe e no meio do nada. E ele, não podendo ir comigo, não deixaria nunca de estar sempre presente à distância de um clique. Continuo com vontade de me isolar do Mundo e de quem me exige e me cobra. Isolar-me de volta para a minha concha já que não tenho para onde ir, nem como ir. Por isso, e mesmo sem sair de onde estou, cada vez me isolo mais na minha concha. Mas com ele sempre comigo. De mão dada comigo desde o meu primeiro momento de dificuldade. Ele sempre comigo porque, e se calhar nem ele sabe, é ele que me impede de desistir de mim mesma.

Fecho-me na minha concha numa última tentativa de o Mundo se esquecer de mim por uns dias. Para me dar tempo. Para me dar espaço. Para que, nesse tempo e nesse espaço, eu me volte a reencontrar, eu me volte a conhecer nesta nova versão de mim mesma. E para que eu mesma me aceite como estou. Não como sou, porque serei sempre EU. Mas como estou: com as dificuldades e limitações que vieram para ficar.

Dêem-me tempo. Dêem-me espaço. Eu preciso de mim mesma, independentemente de qualquer outra ajuda externa que tenha ou ainda venha a ter. EU preciso de MIM mesma. E, por isso mesmo, isolo-me na minha concha para tratar de mim, para cuidar de mim, para me reencontrar no que sou, para me conhecer no que estou. E, ao interior da minha concha onde me escondo, onde me isolo, onde me procuro, só ele terá acesso. Sempre.

{#244.123.2024}

Setembro, dia 1, Domingo.

Sempre encarei Setembro como o mês do início de um novo ciclo. Março é o meu mês da renovação, Setembro é o meu mês do início de um novo ciclo. Uma espécie de passagem de ano antecipada. É uma coisa que vem dos tempos de escola, quando era em Setembro que se dava início a um novo ano lectivo. Os tempos de escola passaram, terminaram há muitos anos, ficaram lá atrás, noutros tempos, noutra vida. Mas o início de um novo ciclo, ou de um novo ano, ficou.

Não houve festa de passagem de ano, nunca há, embora ontem à meia noite tenha havido fogo de artifício vindo dos bares de praia para, ainda que com alguns dias de antecedência, darem o Verão por terminado. À meia noite terminou, para os bares de praia, o Verão. À meia noite, e com o fogo de artifício, chegou Setembro, o mês do meu ano novo.

É em Setembro, algures lá pelo meio do mês, que completo um ano de baixa médica. Porque, na altura e mesmo só tendo trabalhado um mês e meio depois de três meses de baixa, não só ouvi mas senti que o meu corpo não aguentava mais os horários, os percursos, a pressão das mais de 50 chamadas diárias. O meu corpo estava no limite. E, nos primeiros três meses de baixa inicial, eu jurava que o meu problema era um Burnout. Que os três meses tinham sido suficientes para descansar e recuperar corpo e mente.

Nada disso aconteceu. Nem o corpo nem a mente recuperaram. E, a meio de Setembro, o meu corpo cedeu. E eu parei. E, até ver, indefinidamente. Porque não era Burnout. Ou, pelo menos, não era só Burnout. Era algo mais. Que ainda hoje não consigo, por muito que me seja necessário escrevê-lo para aceitar, não consigo escrever o nome disto que me apanhou na curva. Não consigo. Porque ainda hoje não aceito, não compreendo, não entendo o “porquê eu?” que, já sei, não tem resposta. Ainda hoje não aceito as dificuldades e limitações que se têm desenvolvido a uma velocidade, para mim, assustadora.

Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não.

Estou farta disto? Muito. Estou cansada. Estou frustrada. Estou triste. Estou revoltada. Estou magoada. Estou, acima de tudo, assustada!

Quero chorar e continuo a não conseguir. Preciso de o fazer. Não para resolver nada!, mas para aliviar este peso que carrego em cima de mim, o peso no peito, o nó na garganta, o nó que me revolve o estômago! Eu preciso mesmo muito de chorar e NÃO CONSIGO!

E depois recordo as palavras da médica de família depois da consulta com o psiquiatra que deixou no meu processo: “está melhor da Depressão”. Não, não está! Não, não estou! Estou a afundar-me a uma velocidade que me assusta, que eu conheço tão bem o processo por já ter passado por ele antes!

E eu sou a primeira a dizer: eu preciso de ajuda. Urgente. Tenho psiquiatra? Tenho, mas que acha que eu estou melhor da Depressão porque, pelos vistos, não ouviu metade do que lhe disse. Tenho psicólogo? Tenho, mas que só vi 1 vez no mês de Julho e que se riu quando eu lhe disse que tenho muito trabalho para ele. Porque tenho! Não é só isto que me apanhou na curva que me leva até ele. É possível que tenha sido isso que levou o psiquiatra a encaminhar-me para a consulta de Psicologia, mas tenho tanto mais para trabalhar, arrumar, resolver…

Tenho consulta com o psicólogo quase dois meses depois esta sexta feira de manhã. Nem vou saber por onde começar por ter tanta coisa em cima de mim. Mas vou-lhe dizer que preciso de ajuda. Da ajuda dele. Não faço ideia de quando voltarei a ter consulta, mas preciso muito de ajuda. Porque não sei a quem mais posso pedir ajuda. Não sei. Só sei que PRECISO de ajuda porque eu sozinha não vou conseguir aguentar tudo por muito mais tempo. E esse tudo é tanto

A minha vontade? É sair daqui, ir para um sítio qualquer longe daqui, no meio do nada, onde NINGUÉM me conheça. Um sítio onde ninguém me faça perguntas. Não me critiquem. Não me julguem. Não me cobrem.

Sim, isso seria isolar-me ainda mais do que já o faço. Mas eu preciso de me afastar desta realidade, deste ambiente que me limita os movimentos, que me prende, que não me deixa respirar, onde há sempre alguém à espera de alguma coisa vinda de mim que eu não posso dar! Porque me pedem, me exigem, me cobram!, um estado positivo que eu não tenho e, neste momento, não consigo ter!

Preciso de tempo para mim. Mas também preciso de espaço para mim! Para trabalhar em mim tudo aquilo que, mental e/ou emocionalmente me está agora a falhar. E eu sei que tenho todo o direito a estar assim! E a querer isolar-me do Mundo. E fechar-me sobre mim mesma e simplesmente sentir tudo o que tenho que sentir, tudo o que tenho para sentir. Sentir tudo o que já sinto, e é tanto e tão confuso, mas que sinto, tenho que sentir porque está cá dentro, preciso de sentir para saber como processar o que sinto.

Respiro fundo. Respiração profunda e consciente. Lambo as feridas. Mas continuo perdida, sem saber onde estou para poder reencontrar-me. E é por isso que preciso de me afastar. De me isolar. De me fechar para o Mundo. De onde vêm de todos os lados exigências e cobranças do que eu não posso dar neste momento: o melhor de mim.

Sim, preciso de ajuda. Preciso muito de ajuda. Urgente. Porque sozinha não vou conseguir voltar a ser EU…

Setembro, início de novo ciclo. Mas, apesar de ser um novo ciclo, mantenho um velho hábito: viver no Mundo do Faz de Conta. Faz de conta que está tudo bem. Faz de conta que eu estou bem. Faz de conta, simplesmente. E eu já sou especialista nesse jogo. Porque, todos os dias, faço de conta que está tudo bem…mas não está.

{#243.124.2024}

Ainda funciona, todos os dias úteis, com recolha sempre às 10h30 em ponto a única caixa de correio que substitui os velhinhos (e lindos!) marcos do correio aqui do bairro. Todos os dias a vejo, quando olho para ela, oiço-a a dizer-me “estou à espera que envies mais dos teus postais!”. E eu sei que ela tem razão. Eu é que não estou lá grande coisa para escrever e enviar coisas bonitas para ninguém. Mas sei que ela tem razão…e eu tenho que me reencontrar por aí algures para voltar a fazer coisas bonitas. Como enviar postais.

Hoje o dia não é dos melhores. A manhã começou com uma fantástica aula de Yoga que me afastou da (minha) realidade durante 2 horas. E foi também de manhã que percebi que ainda há pessoas que não conhecemos com o coração do lado certo. Como o condutor do Uber que me levou de manhã até ao Yoga e que, quando chegámos, se prontificou a sair do carro para me ajudar a sair com as mil tralhas que levava comigo. Agradeci, sorri e disse-lhe “não é preciso, eu consigo”.
E, no caminho de regresso a casa, depois da meia boleia, quando atravessei a avenida nos semáforos, a custo, onde ainda me apoiei no pilar antes de avançar para a segunda metade que faltava atravessar, ouvir uma voz “precisa de ajuda para atravessar?”. Era o motorista do autocarro que estava parado no sinal, pronto a sair do autocarro para me ajudar com um sorriso no rosto. Sorri de volta, agradeci e disse que não era preciso só para, logo de seguida, avançar ainda com o sinal verde para mim.

Estas coisas parecem pequeninas. Mas não são. São enormes. Eu insisto em fazer o máximo de coisas possíveis sem ter ajuda. É, claro, uma parte de orgulho a responder por mim e outra parte a não querer desistir de mim.

Mas, às duas pessoas que me aconchegaram esta manhã, só posso mesmo sorrir de volta e dizer “obrigada!”.

E não, o resto do dia não foi fácil e às 22h50 continuava a não ser…

Agora, já de volta a casa, o último sítio onde quero estar, e já depois da meia noite continua a não ser fácil. A cabeça num turbilhão de pensamentos menos bons, vozes que não se calam e ainda se riem de mim e do (mau) estado em que estou e que eu não consigo calar. Já cá as tive antes e foi preciso muito trabalho e muito tempo para as silenciar com a ajuda fundamental do terapeuta fofinho. Agora já não há a presença semanal do terapeuta fofinho. Há um novo psicólogo que vi uma vez há já largas semanas e que voltarei a ver na próxima semana. Tive oportunidade de, na altura, lhe dizer, que tinha muita coisa para trabalhar com ele. Riu-se na altura. Mas nem ele imagina o que trago comigo e que preciso de ajuda para aguentar, arrumar, ultrapassar, resolver, o que lhe quiserem chamar. Mas que, numa só palavra, posso dizer que é para resolver.

Já sei, tenho que serenar, acalmar a cabeça, bater com o pé no chão, afastar de mim todos estes pensamentos menos bons. Mas é fácil? Não. Não é. Porque esses pensamentos reflectem a minha realidade actual. Aquilo que me apanhou na curva e já me trouxe tanta coisa menos boa e em tão pouco tempo. E eu não sei lidar com isto! Não sei o que sentir. Não sei o que esperar. Mas sei que todos os dias são um bocadinho piores que o dia anterior. Seja nas dores, seja na falta de equilíbrio. E hoje foi dia de comunicar à minha mãe o que tenho tentado não comunicar a mim mesma: já uso bengala de apoio à esquerda, é verdade, mas começo a sentir cada vez mais necessidade de ter, em simultâneo, outra bengala de apoio à direita. Porque não dá mais para fingir que não tenho dificuldade em caminhar só com um apoio. E eu não quero nada disto! Mas esta é a minha realidade, que teimo em não querer aceitar!

Por isso, sim!, o novo psicólogo vai ter algum trabalho comigo. E não pode ser uma consulta a cada dois meses. Porque, se for assim, eu não vou conseguir aguentar…

Eu sei que sou muito mais do que isto. Mas está tão difícil de conseguir ser esse tal “muito mais”…

A pergunta que mais repeti esta noite à minha mãe foi “o que é que eu faço à minha vida?”. Ela, claro, não me soube responder. E eu também não…

{#242.125.2024}

De manhã, uma passagem (muito longa) pelo Hospital Garcia de Orta. À tarde, a chamada visita de médico, de tão rápida que foi, ao Hospital de Santa Maria.

A questão da manhã continua a ser seguida no Garcia de Orta. A questão da tarde vem na sequência da pequena cirurgia dermatológica realizada no final do ano passado. O material recolhido foi para análise e já houve consulta marcada para Fevereiro para saber o resultado. Mas, entretanto, o médico responsável foi-se embora de Santa Maria. Reagendamento para hoje, seis meses depois da primeira marcação.

Resultado ao material recolhido? Deu positivo para tumor, sim. MAS tumor NÃO maligno e até bastante comum que surge tantas vezes num simples folículo piloso. Palavra do médico para definir o tumor? Insignificante. Toda a zona adjacente foi retirada com sucesso, portanto não há perigo de coisa nenhuma.

O que é que importa reter daqui? Isto: depois de tanta pancada e tantas rasteiras da vida nos últimos meses, finalmente uma boa notícia!

No autocarro de regresso a casa lá estava ele. SEMPRE de braços abertos para quem chega à Margem Cool, a margem certa. E, ao fim de tantos anos, percebi hoje porque é que gosto tanto de o encontrar assim à chegada à Margem Cool: sinto-me acolhida. Bem recebida. E com um abraço à minha espera. Claro que, abraços na Margem Cool são raros de acontecer. Mas acontecem. Nem que eu tenha que pedir ao fim da noite, à porta do meu prédio, dentro do carro ao P de Presença. Mas, sem ter que pedir, nas últimas semanas começaram a acontecer no fim da aula de Yoga, depois de terminado o relaxamento, quando a aula é dada por terminada. Mas, aí, sou eu que me abraço a mim mesma. Num abraço de conforto. E que, aprendi, me sabe sempre tão bem. E sim, vou continuar a terminar as minhas aulas de Yoga assim: a abraçar-me a mim mesma. Porque me faltam os abraços. E eu tenho sempre dois braços disponíveis para um abraço. Tenho-me é esquecido de mim mesma. Como sempre. Como em tudo. E não posso continuar a esquecer-me de mim…

{#241.126.2024}

O dia, apesar de parcialmente ocupado, felizmente foi mais tranquilo. Mais alguns episódios da novela dos últimos dias, mas nada que não fosse suportável ou demasiado stressante.

Mas foi um dia que me obrigou a dar uso às pernas. 2,140km não é nada, eu sei. Mas as minhas pernas estão no seu direito de discordar. Por causa das dores. E, por falar em dores, não falemos do meu joelho esquerdo que, nos últimos meses tem dado sinais de não estar a 100%. E hoje foi dia de ir buscar o resultado da TAC aos joelhos. E o diagnóstico, que para mim é grego, é uma Entesopatia. Seja lá isso o que for…

Mas isto tudo para dizer: eu sempre soube que era tesa! Daquelas sem um tostão. Nem sequer um tostão furado! Não era preciso gastar dinheiro ao Estado para fazer uma TAC aos joelhos para confirmar! Bastava mostrar o saldo bancário, ou não?!

Eu juro que, se não brincar com estas coisas, acabo por enlouquecer, e hoje, apesar das dores nas pernas e no joelho, só o nome me dá para rir e fazer piadas! O relatório sugere Ressonância Magnética. Está bem. Só que não… Vou pedir à médica de família encaminhamento para Ortopedia, claro. E, no Hospital, se quiserem avançar com a Ressonância Magnética, não me vou opôr, claro. Porque de outra forma não é possível.

É só mais uma queixa para juntar às outras todas. Como aquelas dores horríveis que tenho nas virilhas e que não faço ideia de onde vêm nem porque as tenho. Mas a vontade que dá é trocar algumas peças por outras novas. Infelizmente, não é possível. Por isso, façam-se exames atrás de exames e encaminhe-se para especialidade. E, acontecendo o encaminhamento hospitalar, é desta que eu peço o Cartão de Paciente Frequente com visitas convertíveis em cafés. Não peço muito, na verdade. Mas se o meu objectivo agora é tratar de mim, mesmo já vindo um pouco atrasada, encaminhe-se, examine-se e trate-se.

Eu sei, a idade não perdoa. Mas escusava era de me cair tudo em cima ao mesmo tempo. Afinal, eu sou só UMA! E já me bastava esta coisa que me apanhou na curva e que eu ainda não consegui aceitar.

Mas seja. Amanhã é dia de acordar cedo, de manhã um Hospital, de tarde outro. Vai ser um dia muito longo e cansativo, um verdadeiro desafio de resistência para as minhas pernas. E para o meu joelho. E para a minha cabeça. E para a minha paciência. Mas bora lá! É só mais um dia e, desta vez, não vai ser um dia igual aos outros.

O que me tem safado, ou seja, me tem ajudado a manter um mínimo de sanidade mental, ainda é o Yoga. E é também aí que vou descobrindo que há coisas que me doem em posturas básicas e não deviam doer. Mas, sim, é o que me faz aguentar o resto. E cada vez mais sinto ali uma espécie de rede de apoio. E isso não só é bom e sabe bem como é muito importante. E já sei que, naquele grupo, estou perfeitamente integrada, com bengala ou sem ela. Desde o professor Pedro às minhas colegas, estão lá todos para me ajudar. Não existe relação fora do Yoga, é verdade. Mas naquele período sei que posso contar com a ajuda de todos.

Agora já passa largamente da meia noite e o despertador amanhã toca muito cedo. E hoje podia continuar para aqui a divagar e conseguir a proeza de não dizer nada de jeito. Mas não posso. Estou cansada. E o dia amanhã promete ser duro para além de longo. Por isso, que se dê o dia por terminado. Amanhã? É devagar, devagarinho, mas chegar a horas às consultas é muito importante. Por isso, cama! Já! O resto? Logo se vê.

{#240.127.2024}

É impressionante como é que, depois de tantos anos com consultas semanais com o terapeuta fofinho em que todos os (meus) temas foram abordados, de repente, e em simples trocas de mensagens com quem me permite desabafar e descarregar o que trago cá dentro, as fichas me estão todas a cair.

Na semana passada foi sobre o meu pai, tema que durante anos não consegui entender, aceitar, processar. Depois sobre os meus irmãos e as relações que não existem com nenhum dos três e que, já percebi, dificilmente serão recuperáveis.

Hoje? Foi sobre a minha mãe e a dificuldade que tem em dar-me aquilo que, neste momento, mais preciso. O apoio da minha mãe, desde sempre e em tudo, sempre foi incansável e incondicional. Mas, neste momento em que ainda estou a tentar aceitar o que me apanhou na curva, e apesar de nunca me falhar ou faltar, percebo que não há, há muito tempo, o que mais falta me está a fazer agora: o apoio emocional. Que preciso tanto nem que seja para poder dizer que já sei que sexta feira me vai ser um dia duro com duas consultas hospitalares em hospitais distintos que me vão obrigar a caminhar demasiado e as dores vão fazer-se presentes em força. Poder dizer isto sem ser imediatamente criticada por ser “tão negativa”, por só “pensar no lado mau”, por me queixar, no fundo.

Não duvido que também ela tenha sido apanhada de surpresa, claro que foi. E também não é fácil para ela lidar com o que se passa comigo de forma neuro-degenerativa e progressiva e que assusta qualquer um. Ela também não saberá como lidar com isto. Mas eu também não! E esta seria a altura certa de ambas aprendermos! Mas, para isso, preciso muito do tal apoio explícito que me está a faltar: o apoio emocional.

E, de repente, percebo porque é que, tendo tanta gente à minha volta com palavras de apoio e mãos estendidas prontas para não me deixarem cair, me sinto sempre tão sozinha. Porque sinto a falta do mais importante: o apoio emocional da minha mãe

Eu sei que, para ela, exprimir emoções é difícil. Guarda tudo para dentro. E não pode! Não lhe faz bem nenhum! Não faz a ninguém… E sei, também, que não é agora que ela vai mudar. Faz parte da maneira de ser dela. Da maneira de sentir dela. E eu sou completamente o oposto… Não existe um ponto de equilíbrio entre nós. E era tão importante que existisse.

Eu preciso da minha mãe agora mais do que nunca. Não só para ir aqui ou ali. Eu preciso do apoio emocional da minha mãe. E esse está-me a faltar…

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Das coisas que tenho aprendido (à força!) nos últimos meses: quando o teu corpo diz que é para parar, tu páras! Mesmo que tenhas acordado tarde, mesmo que o simples tomar banho te tenha deixado cansada, mesmo que só tenhas ido “já ali” à rua beber café na esplanada do costume a 100 metros de casa e te tenha levado o resto de energia que ainda tinhas. Ou seja, mesmo que não tenhas feito absolutamente NADA e só tenhas andado 200 metros para ir ao café e voltar para casa, se o teu corpo diz “PÁRA!” tu ouves e obedeces.

Portanto, sofá! E em menos de nada tinha a certeza que estaria a dormir. Porquê? Porque quem manda é o meu corpo e a mim só me resta obedecer-lhe…

Dizem que “faz parte” disto que me apanhou na curva. E que o stress dos últimos dias não ajudou em nada. Por isso, é tempo de pensar em mim, tratar de mim, ouvir o meu corpo e obedecer-lhe.

Se eu queria os meus dias reduzidos a isto? Não! Não queria mesmo! Mas é o que se pode arranjar. Agora é ir aprendendo um dia de cada vez, mesmo que cada dia seja sempre diferente do anterior e esta coisa não seja linear, simples e/ou previsível…

E acabaram por ser, novamente, três horas completamente apagada no sofá. Para acordar ainda cansada e com sono. Ainda não são 23h30 mas, ao contrário das outras noites, é a caminho da cama que vou agora.

A noite passada foi mais uma daquelas, uma já de muitas, de adormecer com o telemóvel na mão e Spotify a bombar a noite toda. E não pode continuar a ser…por isso, cama já!

Amanhã? Logo se vê como será. Mas se o dia for tranquilo como foi hoje, sem telemóvel a tocar para mais um episódio da novela actual, já será um dia muito.

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Ontem à noite, numa inesperada conversa de raparigas com desabafos de ambas as partes, quando falei do que me apanhou na curva e do que preciso de fazer para recuperar o recuperável e manter o que ainda vou tendo, do outro lado disseram-me (e com muita razão!) “a Catarina está a precisar de um abanão!”. Estou, eu sei. Não tenho dúvidas nenhumas disso. O que eu não estava a contar era que esse abanão chegasse às 5h11m da madrugada com uma magnitude de 5.3 na escala de Richter!

Foi um senhor tremor de Terra! Daquelas coisas que eu mais pavor tenho! Que me acordou sobressaltada, assustada e que me levou a ter a única reacção que poderia ter: chamar pela minha mãe! A minha mãe que estava à janela, na varanda, com tantos outros vizinhos e todos a tentar entender que som horrível foi aquele que os acordou.

A minha mãe não sentiu nada a abanar ou a tremer, mas ouviu o som da Terra em actividade e que, quem já ouviu, diz ser horrível e verdadeiramente assustador.

Três horas depois do susto, sem sinais de réplicas nem alerta de Tsunami apesar da proximidade do Mar, voltei a dormir. Não sem antes pintar o pior cenário na minha cabeça e concluir: eu não tenho como sair daqui num estado de urgência…não tenho como nem consigo!

Acordei poucas horas depois para confirmar o que já sabia: ao fim de semana nada mexe, nada acontece, nada funciona. Mas, logo após o almoço começou o telemóvel a tocar: agência funerária a informar que já havia autorização do Ministério Público para a cremação desejada, a advogada do meu pai de férias na Suécia e que só regressa a Portugal amanhã à tarde a querer saber o que se passou e a informar-nos do que nem suspeitávamos, os advogados da Associação que, por sua iniciativa e conta, vão avançar com o processo crime que é mais do que correcto neste caso.

Era preciso e urgente enviar um email. Um simples email. Mas com recibo de leitura. Que o Gmail não tem… Um pedido de ajuda online, uma resposta concreta e, três horas depois, conseguimos enviar o email. Agora, mais uma vez, é esperar. E eu só quero que este filme termine. Rapidamente! Vi o estado da minha mãe no fim de semana. O estado físico de um corpo de 72 anos que gritou para parar a bem. Porque, caso contrário, não duvido que o corpo acabaria por ceder e parar à força. O desgaste psicológico foi muito forte durante toda a semana e reflectiu-se, claro, no corpo físico.

Descansou bastante no Sábado e no Domingo, recuperou. Mas hoje, segunda feira, depois de dois dias em que nada mexe, nada acontece, nada funciona, recomeçou a pressão…e eu, claro, tenho medo por ela.

Foi um dia de tal forma estranho que só agora, largamente depois das 23h, consigo ter um bocadinho de tempo SÓ para mim. Aquele meu momento de esplanada para desligar e mudar o chip na esplanada do costume só está a acontecer agora… E, mais uma vez, a minha vontade é a de ter um colo e um abraço e conseguir chorar.

Hoje nem para ele consegui ter tempo. Hoje nem para nós consegui ter tempo. E o que eu precisava TANTO dele agora. O que eu precisava TANTO de nós agora…

Dia tão confuso que demorou a passar e que passou tão depressa! Não gosto de dias assim. Mas também não gosto de telenovelas e menos ainda de filmes de terror surreal sem data prevista para terminar…

Só quero fechar um capítulo. Fechar a porta e deitar a chave fora de uma vez. Está difícil de acontecer. Mas, quando finalmente acontecer, só peço tempo e espaço para mim e para a minha mãe. Especialmente para ela. Para respirar. Para descansar. Para recuperar.

Agora é hora de desistir da esplanada do costume e voltar para casa. Vim sozinha. Volto sozinha. E aposto que, quando entrar em casa, a minha mãe já terá adormecido. Portanto continuarei sozinha até acordar novamente amanhã, seja a que horas for. Só não quero ser novamente acordada à força de abanões, sejam eles de que magnitude forem…