{#176.190.2025}

Um dia de turbulência interior, muita inquietação, uma vontade imensa de fugir das dores nas pernas que hoje estavam diferentes, pesadas, intensas e que dificultaram o percorrer, sozinha, o caminho para a Fisioterapia assim como dificultaram também o caminho para o Yoga.

O regresso à Fisioterapia, 20 dias depois, foi uma espécie de voltar a casa. Mas, na verdade, a vontade de voltar era muito pouca ou até nenhuma. Não pelas pessoas que lá estão e que, desde o primeiro dia, me recebem sempre com um sorriso. Mas, depois de 20 dias em que não fiz nada de exercícios que devia ter feito, sabia que iria ser difícil. Mais pesado, talvez. Os exercícios foram feitos, a massagem recebida, mas o que eu queria mesmo era não ter a necessidade do tratamento diário. Mas a realidade é sempre mais crua e dura do que aquilo que gostaríamos que fosse…

De regresso a casa e um novo livro na caixa de correio. Um livro que procurava há quase 2 anos. Mas a versão portuguesa está esgotadíssima e sem previsão de reedição. Por isso, veio a versão original, em inglês, e encontrado por puro acaso numa busca online que me levou ao sítio certo.

Ao final da tarde, aula de Yoga. Que me continua a surpreender pela positiva. E, depois da aula, as palavras do professor Pedro e que não posso esquecer: “espero que tenhas noção do imenso progresso que tens feito, que continuas a fazer independentemente do teu diagnóstico e das dores e todas essas chatices. É um progresso impressionante! E tens mesmo que ter noção do teu progresso!” E sim, tenho noção disso. Basta ver que já não vou ao chão como ia nem há tanto tempo assim. Eu tenho noção do progresso, mas quando é quem nos guia que nos faz chegar um feedback tão positivo, só podemos mesmo agradecer.

Agora e muito cansada entrego os pontos por hoje. Já devia estar a dormir há muito tempo. Por isso, dou o dia por terminado. Mas já sei que não posso esquecer-me também de aumentar a minha colecção de comentários aos condutores. Mas vai ter que ser muito bem…

{#175.191.2025}

It’s OK not to be OK…” e eu estou cansada de fazer de conta. Fazer de conta que está tudo bem. Fazer de conta que EU estou bem. Quando não está tudo bem. Quando EU não estou bem. Ou, como lhe disse a ele há pouco, quando estou profundamente na merda. Como agora.

…e também estou cansada de repetir vezes sem conta, quando a dor se faz presente, como se fez na noite passada que me acordou violentamente às 4h30m e não me deixou voltar a adormecer até já ser dia, como se fez esta tarde que me levou a verbalizar o quanto me doeu, como se está a fazer agora que está a chegar de mansinho mas que já se faz sentir e me faz adivinhar o que aí vem, dizia eu que estou cansada de repetir vezes sem conta a pergunta que não tem resposta “porquê?!“…

Sim, profundamente na merda resume bem como estou. E eu até nem sei fazer resumos…

…e preciso tanto de chorar…e não consigo…!

{#174.192.2025}

Estas duas hoje acordaram muito preguiçosas. Especialmente a esquerda, a que comprovadamente já perdeu alguma sensibilidade e, para ajudar, perdeu já também um pouco a capacidade de transmissão de informação entre o cérebro e, oh espanto!, a perna! Ainda passa corrente eléctrica? Passa. Mas já não em boas condições. Enfim…

Hoje, que foi dia de sair de casa cedo para mais uma voltinha no carrossel das consultas no Hospital, estas duas meninas acordaram estupidamente preguiçosas. Eu sei, se eu me deitar tarde como me deitei ontem para hoje acordar cedo, elas ressentem-se e acabam por não corresponder ao que lhes é exigido: ir do ponto A ao ponto B com suavidade. E claro que dou por mim a discutir com elas…(sim, eu discuto com as minhas pernas! Nunca vos disse que sou normal, pois não?)

Mas o que me fez e soube tão bem foi a conversa desta tarde com ele. E confirmar que, mesmo à distância de um clique, é possível nascer algo tão bonito e que há 2 anos continua a crescer, a fortalecer-se todos os dias mais um bocadinho. Num espaço onde a aceitação mútua é rainha. Num Mundo só nosso onde, por momentos, aquilo que me apanhou na curva deixa de existir para existirmos só nós. Tal como somos.

2 anos já é muito tempo? É. Mas ao mesmo tempo ainda não é. Porque, depois de 2 anos, a vontade mútua é ficar. Um com o outro. Um no outro.

Conversar é preciso. Sobre tudo. Ou, até, sobre nada. É crescer em conjunto. É fortalecer o que já é tão forte. É continuar a construir a dois o que se quer continuar a viver a dois. É reforçar o NOSSO Mundo. Tão distante e tão distinto do mundo lá fora… É um Mundo à nossa maneira, que só nós entendemos e que não tem que fazer sentido a mais ninguém.

Enfim…foi chegar ao fim do dia com um sorriso no rosto apesar da preguiça das pernas de manhã. E foi recordar as palavras dele quando ainda só existia uma suspeita: o caminho é feito a dois, de mão dada. E, quando o caminho se tornar mais difícil, ele leva-me ao colo.

…e já tem levado mais vezes do que até ele imagina…

{#173.193.2025}

Já foi há muito tempo, mas ainda me lembro de quando estava a aprender a atar os atacadores. Lembro-me da confusão que fazia na minha cabeça todas aquelas voltas que tinha que dar para formar um laço e, finalmente, conseguir dar um nó para prender o laço e terminar com outro nó para evitar que todo o trabalho se desfizesse. Lembro-me, também, daquele momento da transição do “ainda não consegui” para o “já está!”. E, quando finalmente cheguei ao “já está!”, lembro-me tão bem do orgulho que senti naquele momento. Vejo na minha cabeça esse momento em que acabei de atar os atacadores com sucesso, me levantei do chão do local de trabalho da minha mãe, soltei um sorriso largo carregado daquele orgulho da infância quando passamos a ser um bocadinho mais crescidos. Levantei-me do chão, enchi orgulhosamente o peito de ar e, de sorriso imenso no rosto, dei a mão à minha mãe e seguimos juntas para atravessar a estrada e seguir o nosso caminho.

A minha memória lembra-me, frequentemente, de coisas aparentemente pequeninas e sem importância. Como aconteceu agora com este episódio que aconteceu há mais de 40 anos. Num tempo distante, numa realidade distante, numa vida distante.

E quando, passados tantos anos desde essa aprendizagem de algo que todos acabamos por dar por garantido, a dificuldade para atar os atacadores surge é normal que com ela venha a frustração. E a revolta. E o facto de ficar zangada. Muito zangada!

Sei exactamente quais são todos os movimentos que tenho que dar para que os atacadores fiquem justos e não desfaçam o nó. Mas as minhas mãos…as minhas mãos já se atrapalham, os dedos baralham-se e os atacadores passam a ser um desafio diário que me dão vontade de deitar tudo ao ar e barafustar! Barafustar muito!

A parte cognitiva pode até não estar nem vir a ser afectada. Mas a motricidade…então a motricidade fina deixa-me profundamente zangada! Mas aceito o desafio e repito o ritual dos atacadores as vezes que forem precisas até ter a certeza que ficam bem apertados!

E tudo o resto que, agora, assumo como sendo um desafio, enfrento de cabeça erguida! E, aos poucos, voltarei a largar um sorriso grande e encherei o peito de orgulho!

{#172.194.2025}

Dia de Solstício de Verão. Quando a luz atinge o seu expoente máximo na duração do dia. Quando a noite é reduzida ao fechar um ciclo. Em Setembro, no Equinócio de Outono, o equilíbrio. Quando a luz e a sombra se encontram num momento de ressonância, de encontro com o mesmo peso, a mesma força…

Dia tão estranho, este de hoje. Dia de Teleconsulta com uma duração prevista de 50 minutos que, rapidamente e sem darmos por isso, passou a 99 minutos. Uma hora e trinta e nove minutos. De conversa, de partilha de ideias, pensamentos e emoções. Aquela conversa terapêutica que me ajuda a não me perder no meu caminho. Caminho de aceitação de um diagnóstico que não procurei e que ainda não digeri, não processei. Um caminho que começa, antes de mais nada, por um processo que há algum tempo que pretendo seguir: o auto-conhecimento. Porque cada vez mais sinto que sei o que sou, mas não sei quem sou.

Quem sou passa muito por o que sou. No fundo, não existe um sem o outro. É a soma dos dois que totaliza o todo que sou eu. E sou muito. Sou tanto. Sou uma imensidão. De experiências, de histórias, de fracassos e sucessos, de vitórias e derrotas. De várias formas de superação. Aquela superação em eventos de vida no passado que reconheço agora, aquela superação que procuro agora para o evento de vida actual com uma magnitude que ainda não ousei pesar…

A superação. É o que procuro. Já a alcancei antes. Em situações que, na altura, me eram pesadas, me eram duras. Mas as quais eu nunca permiti que dominassem os meus objectivos. Enfrentei porque não via sequer outra hipótese. Ficar parada, ficar presa, ficar imóvel, nunca foram opção. Sempre enfrentei como (não) sabia. Sempre enfrentei como podia. E sempre superei os obstáculos que me foram surgindo pelo caminho.

É disso que não me posso esquecer: sempre enfrentei. Tudo. Nunca nada com esta magnitude, é verdade. Mas também agora não aceito ficar parada, não aceito ficar presa, não aceito ficar imóvel. Porque essa não sou eu. E o meu corpo pode estar danificado, mas a minha mente permanece intacta. Ou até mais forte, na verdade. O resto? O resto não interessa. O que interessa agora sou eu. E se o meu objectivo é não perder a mobilidade, é isso mesmo que eu vou alcançar: não vou perder a mobilidade.

Há, claro, um longo caminho a percorrer, começando logo pelo processo de auto-conhecimento. Para não me esquecer de mim mesma e de tudo o que sou e que no final dessa conversa de 99 minutos foi tão bem reduzida a uma só palavra: guerreira!

Foram 99 minutos de manhã que me esgotaram, que me sugaram toda a energia que, já sendo pouca, ainda tinha de manhã. E que me esgotaram fisicamente de uma forma tão violenta que me exigiu o que não fiz: descansar para recuperar, para recarregar a bateria. Dormir! Não fiz nada do que o meu corpo me pediu. Mas fiz o que a minha mente sugeriu para o dia de Solstício: fui até ao paredão ver o pôr do Sol na praia. Despedir-me do Sol de Primavera e receber o Verão de braços abertos. E aí sim, fiz o que a minha mente me sugeriu. E saí de casa. E dei uso às pernas. E vi o pôr do Sol na praia. E vi também as nuvens que pareciam pinceladas numa tela. Pinceladas com várias cores. Nuvens que fluiam no céu com apontamentos cor de rosa…

A hora de recuperar dos 99 minutos é agora. Este dia já vai demasiado longo. A fadiga fez-se presente o dia inteiro, o cansaço só chegou agora. E amanhã cá estou de novo.

{#171.195.2025}

Chorar. É preciso. É urgente…

…e eu continuo a não conseguir…!

{#170.196.2025}

Absolutamente de rastos. Completamente esgotada.

Tenho sentido demasiado aquilo que não sabia como lhe chamar: fadiga sensorial.

Já sabemos que fadiga não é o mesmo que cansaço, é muito pior. Quando existe uma sobrecarga sensorial não fica fácil seguir um dia normal.

Não há problema… Vou aprender cada trigger e adaptar-me a isto. Mas, para já, vou fazer aquilo que não consegui fazer na noite passada: dormir

{#169.197.2025}

Calor? Dores por todo o lado, seja nos músculos das costas, seja no joelho que faz o som de batatas fritas de pacote a serem mastigadas, seja na junção/encaixe da perna na anca/virilha, seja no pescoço que há mais de 2 anos que me dá queixas e ninguém me ouve? Temos tudo! Sendo que o plural se aplica apenas a mim. Sim, tenho tudo isso.

Calor a mais, já se sabe, nunca me ajudou em nada e agora ainda ajuda menos. E dores que não passam com nada já cansam.

Cabeça a mil, com tanta coisa a acontecer cá dentro sem que eu consiga ter resultados nenhuns de nada, de nenhuma ideia, de nenhuma dúvida inquieta que procura resposta, nada!

E, mais uma vez, a noite já roça a madrugada. Aliás, já passou de noite a madrugada. O relógio conta o tempo que passa e eu a vê-lo passar quando devia estar a descansar, a dormir! Posso não ter feito nada o dia todo até à hora do Yoga, mas estive sempre cansada. Cansada de quê? Pois…de nada!

Apesar das dores, apesar dos músculos presos, apesar do calor, Yoga. Que foi exactamente o que tem sido sempre: tão mas tão bom! E olho para trás e revejo o meu percurso e evolução e não me arrependo nada de ter dado o passo de reiniciar as aulas, agora com um professor diferente dos que tive em 2016. Há 2 anos com o Professor Pedro e com o mesmo grupo tão pequeno que compõe a turma. Tem sido um percurso desafiante, claro, mas tão positivo.

E agora que já é tão tarde e o corpo cansado e moído pede descanso vou-lhe dar o que me pede. E tentar não me embrenhar nos pensamentos confusos que me visitam. Neste momento? A esta hora? Não quero saber! Amanhã? Logo se vê!

{#168.198.2025}

O Verão ainda não chegou oficialmente. Mas o calor…

Nunca gostei de muito calor. Há muitos anos que digo que temperaturas acima dos 27 graus deveriam ser inconstitucionais de tão violentas que são. E agora, desde que fui apanhada na curva por uma coisa que não procurei mas que me encontrou e veio para ficar, percebo que muito calor, assim como muito frio!, é dos meus piores inimigos.

Às 12h30m estavam 30 graus em Almada e eu no autocarro para ir ao Centro de Saúde. Baixa mais uma vez renovada por mais 60 dias. Seja… Mas com o calor que estava eu não devia sequer ter saído de casa.

A esta hora, quando a noite começa a roçar a madrugada, dou por mim a pensar no que escrevi ontem durante o dia e também à noite… O meu medo teima em querer tomar conta de mim, mas eu não o posso permitir. Afinal, tudo está bem. Pelo menos no que ontem abanou a minha insegurança e despertou o meu medo. Nada mudou. O silêncio foi quebrado. A normalidade traduzida em presença aparenta ter regressado. E claro que, a esta hora tão tardia, cansada, moída e com sono, todas as dúvidas parecem querer instalar-se… Sinto-as aproximar devagar. Tentam soprar-me ao ouvido todos os aspectos que me fazem tremer nas bases. E eu, na minha bolha, no meu Mundo do Faz-de-Conta, faço de conta que não as oiço…

…é tarde. Tão tarde. Teimo em não pôr em prática o que sei ser o melhor para mim: ir dormir cedo. Tão simples quanto isso. Ir dormir CEDO! Especialmente depois do dia de hoje, que não tendo sido demasiado activo foi particularmente violento por causa do calor. Esgotou-me. Mas, claro, fiz de conta que não estou cansada e que não se passa nada…

Não sei até quando fazer de conta é a melhor opção. Sei, sim, que olhar a realidade nos olhos é algo que tenho tentado evitar. Porque dói. Muito…e eu estou cansada. Cansada de sentir dores. Físicas ou não. Estou cansada…

Mas chega! Não posso ficar aqui ad eternum a debitar sabe-se lá o quê para o éter. É verdade que seria um exercício interessante. Acima de tudo seria um excelente exercício de libertação. E provavelmente de crescimento. Até de cura, talvez. Mas não posso. Não agora. Não a esta hora. Não tão cansada e não, nunca!, com tantas coisas disconexas a passar, ao mesmo tempo!, pela minha cabeça!

Não! Hoje não…! Amanhã? Logo se vê…

{#167.199.2025}

Recolhida na minha bolha. Envergo novamente a minha armadura. Oiço o silêncio de quem tem pressa, de quem perdeu o encanto da novidade…

Sinto a ausência. Permito-me sentir. Tudo. Questiono-me. Sobre tudo. Oiço as respostas que eu própria dou às minhas perguntas. Se as respostas estão correctas? Dou por mim, horas depois do fim do silêncio, a acreditar que as respostas que eu própria dei às minhas questões não são as respostas certas, correctas. Porque existe mais realidade para lá das minhas inseguranças. Dos meus medos.

Os meus medos, esses sim!, são reais. O medo da perda. O medo do abandono. O medo da rejeição, da não aceitação do meu novo normal. O medo… Acima de tudo, o medo. E o refrão de uma música que se repete há anos na minha cabeça: “a vida é sempre a perder!“… E é.

Na minha bolha continuo a fazer de conta. E depois de colocar a minha armadura faço de conta. Que não tenho medo. Que já me habituei a perder e que cada nova perda já não vai doer. Sou perita a fazer de conta. De tal forma que roço a perfeição quando digo que não me dói aquilo que, na realidade, me corrói por dentro.

São muitas coisas a acontecer ao mesmo tempo. E nem todas são boas. Ou quase nenhuma é boa. E é também por isso que recolho à minha bolha onde poucos conseguem aceder. Onde poucos sabem como aceder. Onde poucos, raros!, querem aceder…

Na minha bolha faço de conta. Que está tudo bem. Que não se passa nada. Que sou confiante o suficiente para não ter medo. Da perda. Do abandono. Da rejeição. Da não aceitação.

Na minha bolha. Cor de rosa. Como se fosse uma bola de sabão.

Amanhã, se for preciso, continuarei a fazer de conta. E já sei que vai ser preciso.

Depois? Logo se vê…

Na minha bolha. A fazer de conta.

Na minha bolha. A fazer de conta. Que não vi. Que não sei. Que não li. Que não senti. Que não vivi.

Na minha bolha. Armadura vestida depois de observados os danos recentes que se juntaram aos danos anteriores. Como cicatrizes, no corpo e na memória, contabilizam histórias. Bem ou mal contadas, são histórias que fazem ou já fizeram doer. Que fazem parte. Que me fizeram crescer.

…que me fizeram endurecer

Endurecida, mas não amarga. Apenas consciente da e na distribuição do que não amargou. Como os meus lápis de cor, que trago em mãos, prontos para distribuir cores por aí. Faltam-me as telas que já foram paredes que já foram pele. Assim como me faltam as letras que formam palavras das cartas que não escrevi. Da carta que, prometida, não cumpri.

Na minha bolha. A fazer de conta. Que não vi. Que não sei. Que não li. Palavras, em verso ou em prosa, faço de conta que não senti. Que não vivi.

Na minha bolha onde poucos, raros!, entram. Porque eu não deixo. Ou porque não tentam sequer. Na minha bolha, uma espécie de Mundo do Faz-de-Conta. Onde já tudo foi possível. Onde hoje só eu existo. Eu e a minha armadura na minha bolha a fazer de conta.

São só palavras, dizem-me. Sempre me disseram. São só palavras que aproximam. São só palavras que afastam. Mas são só palavras. Falta o toque. O arrepio na pele. As borboletas na barriga que me morreram há tanto tempo com um murro no estômago. Já não morreriam hoje com a protecção da minha armadura.

Palavras como gestos ou movimentos, coisas que nos habituamos a dar como garantidas. Não na minha bolha. Aqui já aprendi a abrir mão de tudo, menos dos meus lápis de cor. E enquanto o silêncio se repete, enquanto o silêncio se mantém, na minha bolha ecoa a certeza de que nada pode ser dado por garantido. De que ninguém pode ser dado por garantido. E muito menos eu, com a minha armadura, me permito sequer ser dada por garantida. Porque não o sou, de facto…

Estão 30 graus lá fora. Está demasiado calor. Mas a armadura…? Essa mantêm-se agrilhoada…

Da pressa. E o fim do encanto…

Segunda feira, um calor infernal e impeditivo de ir à rua, um café em casa que aconteceu já há algum tempo, os lápis de cor da minha bolha que se resumem ao lápis preto enquanto esperam por uma oportunidade para a abertura do leque de cores que, durante algum tempo, me preencheram os dias, o silêncio de quem tem a pressa de quem perdeu o encanto do que é novidade e não se queda mesmo com medo, mesmo com dúvidas porque encontra em mim aquele contraponto que é o não ter pressa. Que eu não tenho. Deixei de ter.

Porque eu opto sempre pelos caminhos mais difíceis, porque eu opto sempre por cuidar do que existe de facto, porque eu opto por fazer crescer tudo aquilo que construo. Sim, mesmo com medo. Sim, mesmo com dúvidas. Sim, mesmo cansada. Por dentro, onde me pesa tanto tudo o que sinto, tudo o que vivo. Mas deixei de ter pressa.

A armadura prende-me os movimentos para evitar aquele passo que sei ser desastroso. Protege-me do impacto silencioso do confronto com uma realidade que me chegou sem convite.

O silêncio. E eu não tenho pressa. De armadura que me protege do silêncio. Acolhida pela minha bolha onde os meus lápis de cor aguardam pacientemente o seu tempo também sem pressa.

Terminou o encanto da novidade? Para mim não. Todos os dias, desde que sem pressa, encontro novos pontos de encanto que me fazem querer dar uso aos lápis de cor fora da minha bolha. Mas, por agora, será na minha bolha que permaneço sem pressa. Ainda a deixar-me levar pelo encanto do todo, novidade ou não. Até ao dia em que, na minha bolha, a minha armadura me impeça de dar mais um passo que seja. Em direcção ao silêncio. De quem tem pressa e deu por terminado o encanto da novidade…

{#166.200.2025}

Fazer de conta. Continuar a.
Escondida na minha bolha. Ou será protegida?

Na minha bolha. Continuarei a fazer de conta.

Na minha bolha onde reencontro a minha armadura. Já cheia de marcas de embates anteriores que não contabiliza os últimos embates. Porque, um dia não tão longínquo, ousei retirar a armadura por completo. E também tive a audácia de sair da minha bolha. Senti-me verdadeiramente corajosa e com força e vontade de conhecer e enfrentar o Mundo lá fora. Aquele que existe fora da minha bolha e para lá da minha armadura. Hoje regresso. À minha bolha. À minha armadura.

A minha armadura encho de filtros. Daqueles que só deixam passar o que faz falta, o que faz bem. Na minha bolha pinto o meu Mundo com os meus lápis de cor.

A minha armadura irá continuar a contabilizar embates. Os embates daquilo que, à força, tenta ultrapassar os filtros. A minha bolha irá resguardar-me do Mundo onde, afinal, não posso pertencer.

Na minha bolha terei tempo, o meu tempo!, para me reencontrar. Para sarar as feridas e formar cicatrizes. E, na minha bolha, irei reencontrar a segurança que me foi arrancada depois de ousar retirar a armadura.

A minha armadura. A minha bolha. Estão de volta. E, percebo agora, tardiamente!, nunca deveria ter aberto mão de nenhuma…

{#165.201.2025}

Banho. Aquele momento que, percebemos no final, é devastador. É uma daquelas coisas básicas que nos habituámos a fazer sem pensar muito e sem grande esforço. Físico e/ou mental. E eu tenho (muitas) saudades de tomar um banho assim…

…porque já não sei o que é tomar um banho sem ter que pensar como é que vou manter o equilíbrio quando tenho que lavar o cabelo, e essa parte já faço sentada no banco para não cair!, sem ter que pensar como é que vou ter força para sair da banheira quando as pernas já me dizem que não aguentam muito mais porque a água, morna porque a quente é absolutamente destrutiva, deixou as pernas quase inúteis. Sem ter que pedir ajuda para ir da casa de banho para o quarto que é literalmente na porta ao lado.

Tenho saudades de tomar um banho sem ter que calcular cada gesto, cada movimento, cada passo antes, durante e depois. Sem ter que fazer gestão de energia para depois do banho não me deixar ficar até amanhã em cima da cama, sem me mexer e sem ter energia para absolutamente nada.

Banho de manhã? Acontece. Mas só se não tiver que lavar o cabelo. Aquele banho rápido e sem grandes cálculos de manhã também acontece. E sabe bem. Ajuda a acordar de manhã e não compromete muito a gestão da energia. Mas o outro? Aquele que eu chamo de banho completo que implica duas passagens de shampoo no cabelo, tirar a espuma, pôr a máscara no cabelo, dar-lhe tempo enquanto me ensabôo para depois tirar a espuma e a máscara que parece que nunca sai? Esse só acontece ao fim do dia. Ou já à noite, como hoje. Porque, depois desse banho completo, deixo de existir para o Mundo. Energia? Talvez tenha, com muita sorte, uns 5% na bateria interna.

A verdade é que depois desse banho completo até um simples sorriso tem o peso do Mundo. E, apesar de saber bem sentir a água no meu corpo, fico completamente exausta. Absolutamente esgotada…

Por isso, quando forem tomar banho, façam por apreciar esse momento. Especialmente se for revigorante e vos encher de energia. Eu já não sei o que é isso há demasiado tempo. E tenho saudades…

{#164.202.2025}

O meu corpo tem dores. Várias. Muitas. De diferentes graus. Mas a dor maior…? Não é no meu corpo que dói mais.

A dor maior? Dói-me o meu Eu.

…e quem não entender, não pergunte. Ficamos assim.

{#163.203.2025}

Dia de recuperar. Como se o dia de ontem tivesse sido muito activo, muito desgastante. Que não foi…

Mas, já sei!, às vezes tenho que parar. E tirar o dia só para mim. É verdade que comecei o dia cedo ao telefone e a receber fotografias de um Mini-Batman que nasceu há pouco mais de uma semana e que veio aumentar o número de sobrinhos do coração desta tia babada. E depois ainda há quem diga que as redes sociais são muito más e não trazem nada de bom. A mim têm-me trazido tantas coisas boas que não saberia por onde começar. E neste momento trouxe-me este Mini-Batman maravilhoso, na continuação de uma amizade que nasceu há 11 anos e que nem a distância apaga.

Depois? Foi dedicar o dia a mim mesma. A não fazer nada. A recuperar a energia que estoirei ontem. E, sem medo mas também sem coragem, olhar para as caixas por abrir, as bolas por encher e dizer “Não!”.

Ainda não foi hoje…será um dia destes. Quando tiver que ser. Sem pressa. É, por favor!, sem pressão…

{#162.204.2025}

De Janeiro a Junho. São apenas 5 meses. Não chega a meio ano. Não parece muito tempo. Mas é. É até demasiado tempo. Faz 5 meses que esta encomenda chegou. Faz 5 meses que a caixa por baixo que contém algo que me vai ajudar a trabalhar o equilíbrio em casa ainda não foi aberta. Faz 5 meses que aquelas bolas compradas para me ajudar em alguns exercícios neurológicos estão por encher…

Durante 5 meses estiveram na sala em cima da minha mesa do computador, aquela mesa que eu uso em teletrabalho e que desde Setembro de 2023 não é utilizada para trabalhar e que não sei quando voltarei a usar. Mas algum dia terá que ser…

Tudo isto está há 5 meses à espera. À minha espera. À espera que eu lhes mexa. Há 2 dias trouxe tudo isto para a varanda. Menti a mim própria e convenci-me que estou preparada para isto. E percebo agora essa mentira que contei a mim mesma. Não estou preparada para isto…

Abrir estas caixas, encher estas bolas, confrontar-me com o “antes” e o “depois“. Antes e depois do diagnóstico. Aquele que eu faço de conta que já aceitei. Aquele que justifica tudo aquilo que me é difícil de fazer e que sempre dei por garantido. Aquele diagnóstico que me faz querer chorar de revolta e frustração. E que não consigo chorar…tão simples e tão complicado quanto isso: não consigo chorar…!

Diz-me a Neuropsicóloga que eu preciso muito de chorar. Percebeu isso nos meus olhos em 5 minutos de consulta quando a máscara, da qual não abdico, escondia a minha expressão.

Tenho medo de abrir estas caixas, de encher estas bolas. Por tudo o que representam e por tudo o que me fazem sentir. Da mesma forma que tenho medo de chorar

Diz-me a Neuropsicóloga que eu não consigo chorar porque estou, inconscientemente, a proteger-me e a bloquear o sofrimento que esse acto de chorar me irá trazer. E o mesmo se passa com a abertura destas caixas, o encher destas bolas. É auto-protecção. E medo. Muito medo.

Tenho medo de chorar. E, por muita vontade que tenha de chorar, não consigo fazê-lo.

Preciso de alguém fisicamente ao meu lado. Que me dê a mão e me garanta a segurança que preciso para conseguir soltar toda a revolta e toda a frustração

Isto que me apanhou na curva atingiu-me onde me dói mais: na minha confiança em mim mesma. Aquela que nunca tive muita mas que, mesmo não sendo muita, nunca me impediu de, pelo menos, tentar. Perceber até onde conseguia ir. E quando percebia que me faltava algo, voltava ao ponto de partida e seguia outro caminho. E neste momento não há sequer como voltar ao ponto de partida. Porque aquilo que sempre dei por garantido começa a fugir-me e não tenho como o recuperar…

Abrir estas caixas, encher estas bolas, aquele encontro comigo mesma numa nova realidade que não aceito. E, por não aceitar, acredito que consigo atingir objectivos irreais que proponho a mim mesma como sendo um acto de superação. Não consigo. O meu corpo não me permite alcançar essa superação que procuro. Essa superação que procuro e que, neste momento, já não sei onde encontrar.

5 meses de caixas à espera de serem abertas. Que não aceito que sejam abertas por mais ninguém. Serei eu a abri-las e a confrontar-me com a minha nova realidade que ninguém sabe nem imagina como me dói. Dói. Muito. E preciso de deixar sair essa dor. Dor composta por raiva. Revolta. Frustração. E mil perguntas sem resposta…!

PORQUÊ EU?!……não há resposta, dizem-me. E eu preciso de respostas! Preciso de respostas para passar do “Porquê eu?!” ao “Porque não eu?”!

5 meses…5 meses de um confronto com a realidade em 2 caixas por abrir e 3 bolas por encher! E, apesar de todas as dificuldades com que já me deparo, continuo a não conseguir abrir as caixas, continuo a não conseguir encher as bolas, continuo a não conseguir chorar

Chorar. Preciso muito de chorar. Mas o medo é do tamanho da necessidade que é enorme, imensa e o medo toma proporções de tal forma assustadoras que o meu inconsciente já sabe que vou sofrer e por isso bloqueia a minha capacidade de chorar. Mas eu preciso tanto de chorar

Não conseguirei fazê-lo sozinha. Não conseguirei desbloquear esta raiva, esta revolta, esta frustração. Não conseguirei fazê-lo sem ter ao meu lado alguém que me dê a mão, que me garanta segurança para quando eu me permitir ceder à dor da descarga emocional. Preciso de ter ao meu lado quem acredite que sou capaz de ultrapassar este bloqueio e que me possa agarrar quando cair. Porque eu sei que, nesse momento, vou cair. E tenho medo, muito medo!, de não ter força suficiente para me reerguer..,

Medo. Estes 5 meses de Janeiro a Junho, de caixas por abrir, de bolas por encher, são o sinal mais do que evidente do muito medo que sinto por não conseguir chorar…e só não vê quem não quer ver…

…e eu opto por continuar a fazer o que sei fazer melhor: continuo a fazer de conta…!

{#161.205.2025}

Começar o dia, feriado, com 2 horas de Yoga. Que me pareceram 20 minutos. Que, por mim, podiam ter sido 2 dias.

O resto do dia? Sem energia para nada. Hoje, que não esteve calor, estava perfeito para ir fazer aquilo que quero tanto há tanto tempo: ir caminhar no Parque à tarde. Mas energia? A zero, foi toda consumida de manhã.

Tenho que fazer uma gestão muito rigorosa da energia que vou tendo. Que, já se sabe, está longe, muito longe!, de chegar para tudo…

E tenho que reencontrar o meu caminho. Ia dizer que tenho que o reencaminhar rapidamente, mas depois lembrei-me que deixei de ter pressa seja para o que for. Porque tudo tem o seu tempo, o seu ritmo. Tudo acontece quando tiver que acontecer. Por isso, o meu caminho será reencontrado quando tiver que ser. Não tenho pressa.

E o Mundo lá fora continua a ser um lugar tão feio…cada vez tenho menos vontade de o enfrentar. Porque se está a construir um Mundo com base no Ódio. E eu sou pelo Amor.

{#160.206.2025} – parte II

Frustração? Também é isto! É querer escrever um postal. É querer escrever de forma legível um postal! É escrever o curto texto numa folha à parte para depois copiar para o postal e perceber a quase ilegibilidade do que escrevi. Letras que não foram escritas deturpando várias sílabas das poucas palavras escritas. Passar do rascunho para o postal e escrever devagar, com calma. Mas a caneta teima em voar da minha mão direita. Aquela que escreve, apressada ou calmamente, roubando letras ou criando novos hieróglifos para, eventualmente, serem traduzidos pelo destinatário.

…e entre a caneta que me voa dos dedos, a visão dupla em força a distorcer o que vejo à minha frente, a hiper-estimulação sensorial que tanto me incomoda, o calor que o meu corpo já não consegue regular…entre tudo isso, a frustração de já não ser quem era, de ter dificuldade em coisas tão básicas como escrever…! A frustração que me desperta a revolta, a zanga, tudo o que tenho cá dentro e que precisa de sair rapidamente…! Sim. A frustração também é isto…

…e também é querer esconder-me no abraço dele por um momento até me reencontrar e não posso porque a distância não o permite…

…também é querer, e precisar tanto de, chorar. E não conseguir. E diz-me a Neuropsicóloga que o trabalho de casa é começar a delinear esse processo que tem que acontecer muito em breve porque não me está a fazer nada bem não chorar…e também é a frustração de saber que não vai acontecer como eu gostaria, como me faria todo o sentido, como eu na realidade preciso tanto…

Sim, a frustração também é tudo isto. Mas também é tanto mais…

…e eu só queria, agora, o colo e o abraço dele para me reencontrar…e a frustração também é saber que não tenho comigo o colo e o abraço dele que preciso tanto…

{#160.206.2025} – parte I

O Mundo lá fora está um lugar muito feio. Eu ia dizer que está um lugar estranho, mas estranho sempre foi. Agora, e cada vez mais!, está um lugar feio. Muito feio. Demasiado feio!

Não me vou alongar sobre TUDO o que está a acontecer. Pelo Mundo inteiro! Não é só aqui ou ali. É em todo o lado. E incomoda-me. Muito! Porque, por detrás do que está a acontecer em todo o lado, existe um denominador comum: o ser humano. Que, em tantos casos, demasiados casos!, perdeu toda e qualquer humanidade que ainda poderia ter. E eu não entendo. Não entendo o porquê e muito menos aceito o que está a tornar o Mundo num lugar tão feio…

Sinto-me demasiado pequena no meio disto tudo. E, não pode ser mudar o Mundo lá fora, refugio-me no MEU Mundo cá dentro. No meu Jardim das Leguminosas, que eu teimo em querer chamar de Jardim das Buganvílias. O tal meu Jardim que não tem nem Leguminosas nem Buganvílias. Mas é o MEU Jardim. É o MEU refúgio. Onde as notícias do Mundo lá fora me chegam. Todas. E me fazem, cada vez mais, não querer sair daqui.

Digo que não entendo o que se passa no Mundo lá fora. Mas entendo. Até bem demais. E precisamente por entender, até bem demais, não quero largar o meu Jardim. Baptizado das Leguminosas quando eu queria Buganvílias e proliferam as Suculentas.

Seja. Se o Mundo lá fora me bater à porta é no MEU Jardim que mesmo vai encontrar. Mas a vontade é de lhe abrir a porta SÓ se trouxer boas notícias. Porque, como está, não o quero…