{#226.141.2024}

Primeiro dia sem Fisioterapia…sem Yoga…sem consultas ou análises…ou seja, primeiro dia sem rigorosamente nada para fazer.

É verdade que, entre ciclos de Fisioterapia, já tive vários dias assim: completamente vazios e sem rigorosamente nada para fazer, portanto este não é exactamente o primeiro dia sem rigorosamente nada para fazer. Mas parece… Entrei de tal forma no ritmo diário de sair de casa de manhã que agora sinto-lhe a falta.

Para o dia de hoje havia, de facto, algo previsto que, infelizmente, não foi possível realizar. Mas não duvido que venha a ser remarcado.

E agora é aquela parte em que digo que aproveitei o dia para descansar. E vocês perguntam: mas descansar do quê se há 11 meses que estás sem trabalhar e não fazes nada o dia todo, todos os dias? Pois…Eu própria pergunto o mesmo. Não sei. Apenas sei que, apesar de tudo, me sinto cansada. Se é consequência do que me apanhou na curva? Aquela questão da fadiga? Não sei…ainda não me ensinaram a reconhecer a fadiga, a distingui-la do normal cansaço ou da simples preguiça. Não sei, de facto. Só sei que todos os dias me sinto cansada. Faça o que fizer. Ou mesmo que não faça nada.

Há um cansaço que conheço bem. Que é este cansaço que sinto por causa da (ainda) surpresa do que me apanhou na curva, das dificuldades que (já) me trouxe, da (ainda) falta de tratamento em jeito de medicação. Sim, disto eu sei que estou cansada. E ainda estou no início desta aventura que veio para ficar sem possibilidade de, um dia, passar.

Tento desligar do assunto. Tento esquecer-me. Tento fazer de conta. É só um sonho mau demasiado longo do qual um dia vou acordar. Só que, já sei, não é um sonho mau demasiado longo do qual um dia vou acordar. É a realidade que me bateu à porta. Porta essa que, de alguma forma, foi aberta sem eu saber como e permitiu que essa realidade entrasse na minha vida.

Um dia, sabe-se lá quando, pode ser que aceite. E que aprenda a ver o lado positivo disto, se é que existe. E, com tempo, sem pressa e sem pressão, gostava mesmo muito de mudar o discurso de “porquê eu?” para “e porque não eu?”. Fazer diferente, fazer a diferença, fazer alguma coisa que nem eu sei se posso fazer e, em podendo, como fazê-lo ou o que fazer.

Não sei. Estou muito cansada. Muito confusa. Muito nem eu sei bem o quê. Mas, segundo o que o psiquiatra deixou registado no meu processo clínico a que tanto a médica de família como a Segurança Social têm acesso, “a Catarina está bem da Depressão“. Só que não, não está! Sair de casa todos os dias para ir à Fisioterapia não é sinónimo de não estar deprimida. É tratar de mim, de uma condição que me afecta fisicamente e que eu quero travar ou até reverter, se é que é possível reverter e eu já sei que não é! Ainda sem medicação, resta-me a Fisioterapia e é isso que me obriga a sair de casa todos os dias. E o obrigar-me a sair de casa ao fim do dia para ir à rua apanhar ar, ver o resto da luz do Sol e beber um café também não é sinónimo de não estar deprimida. É, sim, uma ferramenta que aprendi com o terapeuta fofinho para evitar o isolamento. Por isso não!, a Catarina não está bem da Depressão!

E o isolamento, mesmo saindo de casa todos os dias, existe. Não que eu o procure. Porque eu procuro exactamente o oposto. Mas poucos, muito poucos, são os que se fazem presente.

Deprimida. Isolada. Sem rigorosamente nada para fazer. Sem ver ninguém. Sem conversar com (praticamente) ninguém. Sozinha. Completamente sozinha. Mas, se o psiquiatra diz que “a Catarina está bem”…encolho os ombros e penso que depois logo se vê.

Não sei quando será a próxima consulta. Sei, sim, que este psiquiatra, aquele que dispensa título de Doutor e o apelido, só regressa no próximo ano e já encaminhou o meu processo para um colega me acompanhar até lá. Mas quando é que será a próxima consulta? Ninguém sabe…

Sei, sim, que estou cansada. E, mais uma vez, falhei o objetivo de me deitar cedo. A noite já começa a roçar a madrugada e eu, que achava que não tinha nada para escrever hoje, deixei correr a pena e ainda aqui estou…

Mas não por muito mais tempo. O sono começa a apertar. Por isso dou o dia por terminado por hoje. Amanhã, já sei, não tenho rigorosamente nada para fazer, por isso logo se vê como será…

{#225.142.2024}

Segunda feira. E, para já, a semana promete ser longa.

Último dia deste ciclo de Fisioterapia, consulta de avaliação com o Fisiatra. Dia de lhe dizer que não, não estou melhor e que o foco do tratamento não pode ser (só) o reforço do tónus muscular das pernas e alguma marcha, que acho sempre pouca. O foco principal tem que ser o equilíbrio. Foi com foco no trabalho de equilíbrio que saí da Fisioterapia hospitalar a conseguir andar mais a direito e sem necessidade de me apoiar à direita para além da bengala à esquerda. Lembro-me das palavras do Miguel, o último estagiário que apanhei e que trabalhou muito comigo e puxou pelo meu equilíbrio, quando me disse “Catarina, não precisa da bengala para nada!” Treinámos equilíbrio, subida e descida de escadas, marcha de várias formas e velocidades no corredor do Hospital, chegámos a experimentar a marcha no exterior, onde o piso de calçada mais me atrapalha, especialmente quando existe inclinação como houve nessa experiência. E foi depois desse exercício que me disse que não preciso da bengala…

No dia seguinte, curiosa com o que ele me tinha dito, eu e a minha mãe decidimos atravessar o parque até ao paredão. E foi ainda no parque, longe do paredão que lhe disse “hoje levas tu a bengala, vou experimentar ir até ao paredão sem qualquer apoio…”. E consegui! Atravessei o parque sem bengala e sem me apoiar a ela. Atravessei a estrada. Subi a rampa de acesso ao paredão. Andei um pouco por lá para ver como me sentia e como corria caminhar sem bengala e sem apoio. E correu bem.

Na hora de regressar a casa, fazer novamente o percurso até ao parque, atravessar o parque, atravessar a avenida, vir pela rua de sempre e rumar até casa. Sempre sem qualquer apoio. Foram 3 km que me deixaram cheia de orgulho pelo resultado do trabalho de muitas sessões, de muitas horas de trabalho intenso e sempre focado no equilíbrio. No dia seguinte o Miguel já não estava no Hospital, já tinha terminado o estágio. Mas estava a fisioterapeuta responsável pelos estagiários e que me acompanhou nas últimas sessões. E partilhei com ela os 3 km de sucesso e orgulho. Porque também foi ela que me ajudou no processo, também por ser ela a responsável pelos estagiários. Foi, no fundo, um bom trabalho de equipa. E eu estava feliz com a possibilidade de largar de vez a bengala. Mas também me lembro de, quando fui à última consulta de avaliação com a Fisiatra do Hospital, ela me ter dito que, com as lesões que apresento, largar de vez a bengala vai ser praticamente impossível…

Ouvi e, calada, aceitei. Mas sempre a pensar que, se calhar, com muito trabalho, talvez pudesse largar a bengala. Por muito difícil que pareça dado o desequilíbrio que sinto e, pelos vistos, dada também a lesão que tenho, de facto, no cérebro.

Duas ou três semanas de pausa, sem qualquer trabalho de natureza nenhuma à espera de uma vaga na Clínica de Fisioterapia. E, logo depois de ter iniciado o primeiro ciclo, o calor abrasador à hora de almoço, à torreira do Sol no caminho até ao autocarro. 1,5km sem qualquer sombra nem ponto de repouso. E comecei a sentir-me a regredir. Não só pelo calor mas também por perceber que não havia qualquer trabalho de marcha ou equilíbrio… No ciclo seguinte a mesma coisa. Tónus muscular das pernas e movimentação dos membros inferiores. Até que o ciclo foi interrompido porque o meu corpo decidiu pregar-me uma partida de dia da criança num sábado aborrecido e sem planos.

Mais um período de tempo à espera de nova vaga, noutro horário agora já com autocarro a 450 metros de casa. Mas o trabalho? Igual…

Em nova consulta com o Fisiatra falei na questão da marcha e do equilíbrio. Continuou o tónus muscular como trabalho principal, mas inserindo agora (algum) trabalho de marcha. Equilíbrio? Nada

Esse último ciclo terminou hoje e na consulta de avaliação com o Fisiatra reforcei a urgência de trabalhar o equilíbrio. Já sei que vou ter que esperar uma a duas semanas até ter nova vaga para tratamento. E estou muito curiosa com o que vai acontecer com o trabalho de equilíbrio…

Hoje saí de casa mais cedo para chegar a casa mais tarde do que o habitual. Sozinha, fui a todos os sítios que tinha que ir depois da Fisioterapia e da consulta de avaliação. Caminhar custou-me horrores. As dores nas pernas, com o calor infernal que está, intensificam-se e caminhar é doloroso. Mesmo agora, tantas horas depois de chegar finalmente a casa, as dores nas pernas estão presentes e incomodam bastante.

Mas, com ou sem dores, com mais ou menos desequilíbrios, está na hora de descansar. Dar o dia por terminado e ir dormir. Amanhã, ao contrário do que estava previsto, vai ser mais um dia igual aos outros. Quem sabe não vá até à praia. Não aquela que me obriga a atravessar o parque, mas outra onde o autocarro me pode levar e onde não existe escadaria de acesso à praia. Vamos ver. Agora o urgente é ir descansar. Amanhã? Logo se vê. Por hoje o dia está dado como terminado. E foi longo, difícil e doloroso

{#224.143.2024}

Domingo. Aquele dia de dormir até mais tarde e não fazer nada. Dormir até mais tarde não aconteceu, muito pelo contrário. Afinal, todos os dias dos próximos meses o despertador toca às 7h da manhã para tomar o antibiótico em jejum. Hoje já não me recordo a que horas acordei para, de facto, tomar o antibiótico, sei que foi mais tarde do que era suposto, mas este não obriga a hora certa, só obriga ao jejum. E assim foi.

Uma hora depois, o pequeno almoço. E, mais uma vez, a constatação de não ter absolutamente nada para fazer…e é isso que me tem custado mais nos últimos meses. É ficar a ver o tempo passar sem ter nada para fazer. É verdade que nos últimos meses tenho tido diariamente a fisioterapia a meio da manhã. Que à hora de almoço está terminada. E o resto do dia? Tirando o Yoga à quinta feira ao final do dia e ao Sábado de manhã, nada

Tenho noção de que deveria encontrar alguma coisa para fazer. Mas não faço ideia do quê. Ler não é opção, ou porque estou em fase de visão dupla ou porque simplesmente não consigo concentrar-me para o fazer. Tenho um desafio que aceitei e que foi designado de projecto por Ele: escrever, à mão, uma carta. Mas não uma carta qualquer. Uma carta daquelas especiais que se escrevem para pessoas especiais. Uma carta de amor.

Não me lembro de alguma vez ter escrito uma carta declaradamente de amor. Sei que já escrevi muita coisa mais ou menos apaixonada, mas raras foram as que chegaram às mãos de alguém. Provavelmente por não serem, de facto, cartas. Apenas desabafos meus, registos de algo que sentia no momento e que não sei dizer se era amor ou outra coisa qualquer. Mas agora, neste momento, sei. Sei que é amor e que escrever essa carta faz todo o sentido.

Ainda não comecei a escrever no papel, mas na minha cabeça a carta todos os dias se desenvolve mais um bocadinho. Todos os dias há mais alguma coisa a acrescentar, a dizer, a querer deixar registado. Porque, e já lhe disse hoje, o que está escrito fica para sempre. Mas o que é dito de viva voz tem outro peso embora também fique para sempre guardado na memória…

Voltei para a cama depois do pequeno almoço. Nada para fazer, uma carta de amor para escrever e sem saber por onde ou mesmo como começar, corpo cansado sei lá do quê, voltei para a cama. Adormeci rapidamente e, como já começa a ser hábito, com o telemóvel na mão… Este é aquele escape de quem não quer ficar de braços cruzados a ver o tempo passar. Ou seja, é o meu escape. E o tempo passou e eu não me preocupei em simplesmente vê-lo passar. Fiz o que o meu corpo pediu: dormi.

Acordei com a gata a chamar por mim. Estávamos as duas sozinhas em casa. Não sei ao certo o que ela queria. Mas, ao acordar e pegar no telemóvel, vi que tinha uma mensagem de voz. Dele. E, mais uma vez digo, o que é dito de viva voz tem outro peso. E, nessa mensagem de voz, com o peso que uma mensagem de viva voz tem, lá estavam as palavras todas, as palavras certas. As palavras que eu queria tanto ouvir mesmo já as tendo sentido todas, todos os dias, a todas as horas…

Domingo é o dia de não fazer nada. E eu não fiz, de facto, grande coisa. Ao final da tarde ainda fui à rua beber um café, andar um pouco, apanhar ar, ver o céu azul, encontrar a Lua que olha por mim e que conhece todos os meus segredos e a quem peço que entregue um beijo meu a quem me desafia a escrever uma carta de amor e que está a 135km daqui ou à distância de um clique. Sim, Domingo é dia de não fazer nada e eu não fiz grande coisa. Apenas me apaixonei mais um bocadinho depois daquela mensagem de voz que esperava por mim quando acordei. E só isso já é tanto e tão bom.

A esta hora já tardia em que a noite começa a roçar a madrugada está mais do que na hora de ir descansar. Ir dormir. Amanhã é o último dia deste ciclo de fisioterapia, portanto é dia de acordar cedo e sair de casa cedo. Por isso dou o dia por terminado. Mas é um dia que termina com um sorriso no rosto porque o que é dito de viva voz, as palavras todas, as palavras certas, tudo isso tem outro peso. E esse peso é o do sorriso que trago no rosto e no olhar. E amanhã o sorriso continuará presente para quem o quiser ver. O resto? Logo se vê, como sempre.

{#223.144.2024}

Das coisas que fui aprendendo nos últimos meses: enquanto for a bengala a cair e não eu, está tudo bem. E todos os dias a bengala cai. Várias vezes. Por vários motivos. Em sítios vários. Mas, lá está, enquanto for ela a cair e não eu, está tudo bem.

Mas hoje de manhã, na aula de Yoga e sem perceber muito bem como, ia dando um grande trambolhão de cara no chão. Sei que estava a mudar de posição, de deitada de barriga no bolster para sentada de pernas cruzadas. Não sei bem o que aconteceu, mas acho que as pernas ficaram presas algures, já cruzadas e, se não fosse ter ainda o bolster pôr baixo de mim, o trambolhão seria jeitoso.

Mas no Yoga já sei que, às vezes, vou ao chão. Nunca grandes quedas, mas sempre por falta de equilíbrio. Mas, mesmo prevendo as quedas no Yoga, tento sempre os asanas propostos e, se cair, já aprendi a não ficar muito chateada. Fico mais frustrada por não conseguir alcançar ou manter a postura do que com a queda, da qual me rio sempre mesmo que me sinta frustrada. E, se as eventuais quedas no Yoga continuarem a ser ligeiras e sem me magoar, está tudo bem.

O medo grande das quedas é na rua. Uma queda na rua pode provocar estragos. E não me apetece. Por isso é que, todos os dias, à noite, sinto como uma pequena grande vitória o facto de (ainda) não ter caído.

Se for para haver quedas, que sejam então as da bengala. Se já lá por que motivo for. Desde que não seja eu, está tudo bem.

{#222.145.2024}

Sexta feira e mais um dia igual a tantos outros. Acordar cedo, sair para a Fisioterapia, chegar a casa e almoçar. E, depois do almoço, aquilo que andava a prometer a mim mesma há vários dias: aterrar no sofá e, no caso de adormecer, não ter horas para acordar. E assim se passaram três horas. Há, de certeza, quem diga que assim se perderam três horas. Eu já fui uma dessas pessoas. E acho que ainda sou. Mas, quando não se tem absolutamente nada para fazer, a melhor forma de passar as horas sem entrar em conflito comigo mesma é dormir. Especialmente quando é o corpo que assim o pede, quase o exige.

E hoje pediu. Já sei que o dia a seguir ao Yoga Nidra é um dia muito lento e que, por algum motivo que ainda desconheço, me faz parar para dormir. E ontem, depois do Nidra, sentia-me profundamente relaxada. Ao ponto de, quando me deitei, mais uma vez adormecer com o telemóvel na mão após escrever uma mensagem que não enviei. E, claro, ligar o telemóvel ao carregador não aconteceu. Nem sei como acordei com a minha mãe a chamar-me ainda a horas de ir para a Fisioterapia…

Dormi a tarde toda? Dormi. Mas não é por isso que agora deixo de ter sono. Estou cansada (de nada, na verdade) e com sono. Já é tarde e amanhã é dia de acordar cedo para o Yoga. E eu cada vez gosto mais daquilo…

Por isso, dia terminado por hoje. E, amanhã, logo se vê como será.

{#221.146.2024}

Não esperamos nada dos nossos amigos, e essa franqueza é fundamental. Mas, não esperando nada, esperamos tudo, na medida em que a sua existência nos permite existir.” – José Tolentino Mendonça in ‘O Pequeno Caminho das Grandes Perguntas’

Cruzei-me com esta (chamemos-lhe) reflexão sobre a amizade sem a procurar. Quase posso dizer que me caiu no colo. E, de imediato, me fez tanto sentido. Porque realmente “não esperando nada, esperamos tudo”. Para o bom e para o mau. E também porque a existência de amigos permite-nos, de facto, existir. E os meus últimos dias têm sido de pura solidão, e (já) não sou só eu quem o afirma. A minha mãe já percebeu que estou demasiado sozinha. Só comigo mesma e não por opção minha.

Eu sei que tenho amigos, que tenho pessoas que gostam de mim. Mas também sei que me estão a faltar. Não me atrevo a dizer falhar, embora seja o que sinto…

Mas também sei que tenho quem me diga “vou levar-te a passear”. E não é a primeira vez que se faz presente desta forma. Esse já entrou na categoria de Amigo com A maiúsculo, sem qualquer dúvida. Podemos nem conversar por aí além nas aplicações de mensagens privadas, mas vamos falando nas caixas de comentários. E, de uma forma ou de outra, vamos sabendo um do outro. E isso não só é bom como é tão importante.

……pausa para respirar……porque as emoções, às vezes, tiram-nos o ar. E o assunto acima é-me caro……

Apesar de os últimos dias terem sido pesados, mental e emocionalmente difíceis, o dia hoje passou a correr de forma mais serena. Até que, ao final da tarde, chegou a hora do Yoga seguida de Nidra. E cada vez gosto mais. Gosto do grupo (que é pequeno), gosto do novo espaço, gosto do professor e gosto muito e acima de tudo dos efeitos das aulas e do Nidra. E a aula de hoje e o Nidra de hoje quase podiam ter acontecido por encomenda porque foram exactamente o que estava a precisar tanto.

O Yoga faz muito bem a todos os níveis, e hoje acalmou-me o turbilhão da minha mente que há demasiados dias me incomodava. E, parecendo que não, o estado mental influencia o estado emocional. E agora, já tão tarde quando a noite começa a roçar a madrugada, posso dizer que me sinto serena, tranquila e plenamente relaxada.

O dia hoje foi mais sereno. A todos os níveis. E eu já estava a precisar de um dia assim. Agora, que já passa muito da hora em que já devia estar a dormir, dou o dia por terminado. Amanhã de manhã repete-se a rotina da Fisioterapia, mas a tarde fica por conta do sofá. Porque, nos últimos dias, não tenho dormido o suficiente tal é a agitação dentro de mim e não tenho descansado o corpo que me exige descanso.

Amanhã? É um novo dia. E depois logo se vê. Não me vou preocupar com ele agora. Agora vou aproveitar o efeito do Nidra de hoje e vou facilmente dormir a noite toda.

{#220.147.2024}

A minha cabeça está, sem dúvida, muito confusa numa luta constante para manter o que me resta da minha sanidade mental.

Fora de brincadeiras: cabeça muito confusa, baralhada com datas e dias da semana, tarefas que quero obrigar-me a fazer e não consigo. A Depressão também é isto, mas o médico que dispensa título e apelido mas que me acompanha na especialidade certa (uma delas…) disse-me, no final da consulta, que não via sinais de agravamento da Depressão porque, afinal, eu continuo a sair de casa todos os dias e isso, para ele, é um bom indicador. Mas, apesar de sair de casa todos os dias, saio de manhã pela obrigação de ir à Fisioterapia e ao fim da tarde por OBRIGAÇÃO PARA COMIGO MESMA.

Obrigo-me a ir à rua beber café, apanhar ar e um pouco de luz do dia. Mas a vontade é sempre a mesma: zero! E porquê? Porque apesar de sair de casa todos os dias, não vou além do rectângulo de todos os dias desde há meses.

Não estou a cumprir nenhuma pena de prisão domiciliária controlada por pulseira electrónica, mas por vezes parece porque o rectângulo está demasiadamente bem delineado e é como se fosse cercado por uma qualquer vedação de segurança que não me permite afastar.

Sim, a minha cabeça está demasiado cansada, confusa e profundamente deprimida. E, na próxima consulta, sempre posso dizer ao médico que dispensa título e apelido para ler o que escrevo. Diariamente. Porque sim!, a Depressão está a agravar-se. E eu estou cansada, frustrada, revoltada, zangada, isolada e muito sozinha.

Mas posso garantir que não estou a cumprir nenhuma pena de prisão domiciliária. Embora todos os dias pareça que sim. TODOS OS DIAS.

…mas, já sei, “isso um dia passa”. Só que não…(não sozinha e não a atingir o meu limite…)

{#219.148.2024}

Cansada. Tão cansada. E não é o tradicional cansaço físico que me afecta. Ou que mais me afecta. É o cansaço mental. Psicológico. Emocional. É o sentir-me isolada. O não sair de um rectângulo pré-definido. Aquele rectângulo onde está a minha casa, o Hospital, a Fisioterapia e o CDP. Os únicos sítios onde vou. E, ao Hospital, correndo tudo bem e não havendo nenhuma urgência, só regresso a 30 de Agosto. Ao CDP a 27 de Setembro. O último dia de Fisioterapia é já na próxima segunda feira, dia 12 e, muito provavelmente, só volto a ter vaga duas ou três semanas depois, portanto dificilmente antes do fim do mês. E, a partir daí, o rectângulo diminui significativamente para o meu bairro e (muito) pouco mais…

Sinto-me presa. Como se, à minha volta, houvesse uma qualquer vedação de segurança que me impede de sair. Como se estivesse agrilhoada para não me afastar.

Não vejo ninguém das minhas pessoas. Aquelas de quem eu gosto, aquelas que eu sei que gostam de mim. Raros, muito raros são os contactos feitos por telefone e, quando existem, é sempre com a mesma pessoa. A única que ainda dispende do seu tempo para conversar. Seja sobre o que for.

Ontem o psiquiatra disse-me que não achava que a minha Depressão tivesse agravado. Isto porque eu saio de casa todos os dias para a Fisioterapia e depois ao final do dia para beber café. Mas, desconfio, não deve ter ouvido quando lhe disse que, para além da Fisioterapia, se saio de casa todos os dias é porque me obrigo a isso. Aprendi com o terapeuta fofinho há alguns anos que é importante sair de casa. E é aos ensinamentos dele que tenho recorrido. Mas, na verdade, quando saio de casa para ir beber um café, vou sempre ao mesmo sítio, porque é o mais próximo e é, correndo o risco de exagerar um pouco, como se estivesse em casa. Porque é sempre no mesmo sítio. Como em casa. Onde não está ninguém das minhas pessoas. Como em casa, tendo como excepção a minha mãe. Onde não converso com ninguém. Como em casa, onde falamos mas não conversamos. Onde vejo sempre a mesma coisa. Como em casa. Por isso, obrigar-me a sair de casa todos os dias para beber um café não é, necessariamente, sinal de ânimo, motivação, o que for. É, sim, uma regra que impus a mim própria para apanhar um pouco de ar, ainda ver a luz do dia e mexer um pouco as pernas, mesmo que cada vez custe mais.

Não, nada disto diz que a Depressão não agravou. A solidão é cada vez maior, tal como o silêncio que me rodeia e a ausência de interacção. E a vontade de chorar também passa por aí. Não é apenas pelo que me apanhou na curva e que eu continuo a recusar, ou a negar, ou seja lá o que for! Passa também por cada vez me sentir mais sozinha. Mais presa. Mais isolada do Mundo!

Há umas semanas disseram-me que eu também tinha que fazer a minha parte, a de chamar as pessoas. E na semana passada foi o que tentei fazer. Com quem me chamou a atenção para isso. Até ver, sem sucesso. Provavelmente até já esquecido…sei lá eu.

Eu sei que toda a gente tem a sua vida. O seu trabalho. Os seus afazeres do dia-a-dia. Também sei que Agosto é sinónimo de férias para muita gente. E também sei que chamar alguém para vir até aqui, terra à beira da praia, é pedir que percam horas intermináveis no trânsito de acesso à ponte na vinda para cá e outras tantas horas intermináveis no acesso à portagem no regresso a Lisboa. E, se alguém quiser vir até cá recorrendo aos transportes públicos, é garantida a enorme dificuldade de conseguir entrar num autocarro no regresso. Por isso, não!, não me atrevo a chamar ninguém da outra margem para vir até cá, seja ao fim de semana (que é impensável!) ou seja durante a semana porque Agosto tem trânsito igual todos os dias. E nesta margem, que eu tantas vezes chamo de Margem Cool, são poucas, muito poucas as minhas pessoas.

E também a solidão dói. E deprime. E corrói cá por dentro. E é como se eu me transformasse num saco de pancada agredido por mim própria. Porque é isso que faço todos os dias de diversas formas. Daquelas que poucos, muito poucos, interpretam como uma auto-agressão. Mas é. Porque, estando sozinha, não há quem me pegue na mão e me puxe de volta à Terra, à realidade (por muito negativa que esteja a ser neste momento), que me diga “eu estou aqui“. Porque, na realidade, não está. Ninguém. E eu, sozinha, já o sei: não aguento.

Apoio psicoterapêutico, sugeriram-me há umas semanas. Confirmei que já tinha consulta marcada para o psicólogo para iniciar o apoio psicológico e a consulta de Psiquiatria também estava marcada. Portanto, à partida, o apoio psicoterapêutico já estaria assegurado. E eu sei a importância que tem o apoio especializado. Psicoterapêutico. Com psicólogo. Com psiquiatra. Mas também sei a importância que tem o apoio voluntário de quem gosta de nós e nos quer ver bem. E se tenho o apoio especializado de psicólogo e psiquiatra, só me fica a faltar o apoio voluntário de quem gosta de mim e me quer ver bem

Porque não!, eu não estou bem. Todos os dias me viro do avesso para encontrar coragem para enfrentar o dia. E descobri a forma mais fácil, que não é necessariamente a melhor: chegar a casa depois da Fisioterapia, almoçar, passar pelo cadeirão enquanto bebo café e faço de conta que o dia já não vai só a meio para depois aninhar no sofá e simplesmente dormir…nunca menos de três horas. Que passam por mim sem eu dar por elas, sem me sentir presa, sem me sentir isolada, sem me sentir sozinha. Sem ter rigorosamente nada para fazer, para me enganar a mim mesma vou pelo atalho do sono e morro para o Mundo por umas horas, só para perceber que, durante esse tempo, também não fiz falta a ninguém, também ninguém deu pela minha falta

Por isso não me digam que eu não estou sozinha. Porque estou! Cada vez mais presa. Cada vez mais isolada. Cada vez mais sozinha! E eu sozinha não aguento

{#218.149.2024}

Falar dói. Falar sobre o que nos dói ainda dói mais. E hoje foi dia de falar.

De manhã acordar a horas por acaso, sem bateria no telemóvel, sem o despertador tocar, claro. Mas ainda assim acordar a tempo de fazer tudo o que era preciso fazer antes de sair de casa e, mesmo assim, chegar a tempo de apanhar o autocarro à hora de sempre. Tinha dado a fisioterapia por perdida quando, ao acordar sem despertador e sem saber que horas eram, olhei para a janela e, a julgar pela luz lá fora, acreditava que já seria meio dia e meia. Não eram. Eram 8h35. Foi fazer tudo a correr, sair de casa às 9h30 sabendo que o autocarro passa às 9h30 e, apesar de a paragem ficar a 500 metros, eu não consigo andar (muito) depressa. Mas hoje consegui provar a mim mesma que, afinal, quando é preciso até consigo. Muitos desequilíbrios pelo caminho, alguns tropeções, mas consegui chegar à paragem do autocarro 30 segundos antes do autocarro. Foi uma pequena (grande) vitória. Que me custou horrores. Por causa das dores, por causa dos desequilíbrios, por não gostar de começar o dia a correr. Mas o que importa é que consegui!

Depois da fisioterapia, seguir para onde queria ir almoçar hoje em Almada. Um calor insuportável. E aquele sítio que nunca fecha, hoje estava fechado para obras de remodelação… Seja! Na cafetaria do Hospital também se come bem e havia consulta marcada para as 15h30.

Seguir (sempre) pela sombra até à paragem de autocarro e, ainda, um calor insuportável. Apanhar o autocarro, seguir para a cafetaria e, naquele corredor, ficar a conhecer a sensação de estar numa fornalha, tal era o calor.

Almoçar, beber café e seguir para a consulta. Um calor mais do que insuportável, infernal! E a consulta naquele edifício fora do corpo principal do Hospital, com uma rampa para subir à torreira do Sol. Bem-vindos ao edifício dedicado às consultas de Saúde Mental do Hospital Garcia de Orta…

Chegar lá e perceber que a sala de espera não tem ar condicionado e a única ventoinha de serviço não era suficiente para acalmar o calor…

Foi dia de voltar à consulta de Psiquiatria. Com aquele psiquiatra que, na primeira consulta em Abril, se apresentou pelo primeiro nome deixando de parte o título de Doutor e o apelido. E que, nesse exacto momento e com essa exacta atitude me conquistou.

A primeira pergunta que me fez eu já sabia qual seria: como é que vai a Depressão? A minha resposta não podia ter sido mais simples: “quanto tempo é que temos?” e, claro, rimos os dois. Porque ambos sabemos que, nas consultas, seja de que especialidade for, o tempo é contado ao segundo. E, da mesma forma que eu sabia que tinha muita coisa para dizer, ele percebeu que havia essa necessidade.

Falei de tudo: do querer chorar e não conseguir, das faltas de resposta concretas e verdadeiras do meu médico de especialidade, do sentimento de solidão e o porquê de me sentir assim, da minha necessidade de falar com alguém que esteja a passar ou já tenha passado pela mesma fase que eu, da minha negação e do ainda não aceitar o que tenho, do desconhecer sequer em que ponto estou para, posteriormente, poder definir o meu mapa. Do não conseguir ainda assumir que não é uma simples condição mas sim uma doença. Que eu não procurei, não desejei, nunca pensei sequer que me fosse acontecer. A mim. E ainda estar na fase do “porquê eu?”…

Disse-lhe que estou frustrada, zangada, revoltada, magoada. E sem respostas do médico especialista. “Acho que é preciso acordarmos o Dr. Miguel”, disse-me ele. E eu disse-lhe que sim!, está mais do que na hora! Só não sei o que fazer mais. Disse-lhe que entendo perfeitamente o caos que deve estar naquele serviço neste momento com a saída de sete médicos mais três de baixa. Mas eu preciso de resposta às minhas questões, e que sejam respostas coerentes, verdadeiras e que não sejam só de dizer por dizer.

No final da consulta fiquei com a sensação de que sim!, o médico de nome próprio que dispensa título de Doutor e o apelido, me entendeu e realmente me ouviu. Decidiu não mexer na medicação porque, afinal, eu até saio de casa todos os dias, para a fisioterapia e para beber um café e, para ele, é sinal de que a Depressão está estabilizada. Mas, para mim que a sinto todos os dias, ela está a agravar-se. Porque, desta vez, omiti pormenores que até de mim tento esconder…

A próxima consulta ainda não foi marcada. Mas já sei que não será com ele. Vai-se ausentar “por uns meses” mas vou continuar a ser acompanhada pelo Dr. Nuno, seja ele quem for. E quando me disse que se ia ausentar “por uns meses” não nego que tremi. Contei-lhe da experiência da psiquiatra anterior com quem só tive uma consulta e que logo de seguida deixou de trabalhar no Hospital. E, muito desanimada fiz-lhe um pedido. “Dr. posso pedir-lhe uma coisa…?” Claro, foi a resposta.”Prometa-me que volta…” Nem um segundo depois, a resposta: “Prometo que volto! Vão ser só uns meses, mas para o ano volto!” Não sei para onde vai, o que vai fazer, mas quero muito que volte! Porque com o médico de nome próprio que dispensa título de Doutor e o apelido houve empatia desde o primeiro dia! E isso é tão importante!

A conversa durante a consulta correu ligeira, mas falar doeu-me. Sobretudo falar sobre aquilo que me apanhou na curva. Pareceu fácil, mas não foi. Tinha (e tenho!) uma grande necessidade de falar sobre isso…

E hoje, já em casa, o telefone tocou. E desta vez houve retorno à minha tentativa de contacto de sexta feira. E, sem darmos muito por isso, assim se passaram duas horas ao telefone. A falar do quê? De mim. Do que se passa comigo. Disto que me apanhou na curva. E, pela primeira vez, foram abordados todos os assuntos relacionados com isto e com o como estou a lidar, o facto de ainda não ter encaixado, de a ficha ainda não ter caído, de ainda estar em negação. Do não pronunciar facilmente o que tenho. Nem com médicos que me acompanham nem com o fisiatra ou as fisioterapeutas. E, agora que penso nisso, nem com a médica de família eu sou capaz de chamar os bois pelos nomes…

E foi então que me caiu uma ficha… Desde sábado que digo que não me lembro da sessão de massagem na fisioterapia de sexta feira. Recordo-me do momento em que a massagista começou a espalhar o creme. Mas não me lembro de mais nada até ela tirar de cima de mim os cobertores quentes. Durante todo o fim de semana me fez confusão não me lembrar de rigorosamente nada da massagem. Foi como se não tivesse acontecido. Mas aconteceu. E hoje, quando começámos a massagem comentei isso com ela. “Como assim? Não se lembra? Estivemos a falar do seu diagnóstico…” e foi aqui que, ao telefone, quando falávamos sobre o não chamar os bois pelos nomes, me caiu esta ficha: simplesmente bloqueei essa conversa da minha memória… Continuo a não recordar os pormenores da massagem em si, mas agora já me recordo do que falámos.

Sei que a mente tem o poder de nos proteger. E não duvido que foi isso que aconteceu… Porque eu não falo do meu diagnóstico, ou do processo até ele, muitas vezes. E, mesmo na fisioterapia, seja com o fisiatra ou as fisioterapeutas, raramente tenho chamado os bois pelos nomes…

Não consigo pronunciar o nome daquilo que tenho, que me apanhou na curva, que eu não procurei mas que me encontrou e veio para ficar para sempre. Nem aqui consigo escrever o nome. Porque, sempre que tenho que o referir por algum motivo, dói. Muito!

E sim, falar dói. Falar sobre isto dói. Mas, se há umas semanas dizia que queria ter uma conversa normal, agora tenho muita necessidade de falar sobre isto. Não sei se me vai ajudar a aceitar. Mas preciso de ter alguém do outro lado da mesa da esplanada, da mesa do restaurante, do banco do jardim, seja lá onde for!, com disponibilidade para me ouvir. E fazer perguntas. E obrigar-me a responder. Pensar, ponderar e responder. Mesmo sabendo que falar dói.

E se chorar óptimo! Afinal, e como foi hoje dito ao telefone, é preciso fazer o luto! Porque quem eu era há 2 anos já não é a mesma que escreve aqui hoje. E o luto tem que ser feito… E por isso escrevo. Mas, o que eu preciso mesmo é de falar, ouvir e ser ouvida. Só assim consigo avançar neste luto que tem que ser feito…

{#217.150.2024}

Domingo com demasiado calor na rua? É sinónimo de ficar em casa, ouvir o meu corpo, obedecer-lhe e simplesmente dormir para descansar (nem eu sei bem do quê…) e recuperar para enfrentar mais uma semana de calor.

Podia dizer que seria para enfrentar mais uma semana de trabalho, mas ainda não. Não me sinto em condições para isso, não só a nível físico como também mental e psicológico.

Amanhã é dia de consulta com o psiquiatra. Admitir que não estou bem. Que a depressão continua presente. Aliás, cada vez mais presente e mais intensa. Sinto-me, na verdade, profundamente deprimida. E com tantas razões para isso. Desde isto que me apanhou na curva e que eu ainda não quis aceitar nem enfrentar continuando à espera de acordar de um longo sonho muito mau, até tudo o que anda à volta disto. A falta de suporte médico, de informação clara e honesta e, muito importante, a falta de acesso à medicação que me vai ajudar a pôr um travão na progressão desta coisa.

E a solidão. Que não mata, mas mói, dói e corrói. Demasiado…

Tudo isto está a contribuir para que me afunde todos os dias mais um bocadinho. E não posso afundar-me outra vez naquele buraco escuro de onde me custou tanto a sair. E não só não posso como também não quero. Por isso, sim!, preciso de ajuda. Mas uma ajuda persistente, correctamente direccionada. Já sei que, de certeza, vai mexer na medicação. Como se o que tomo diariamente ainda fosse pouco…não é. Mas, mesmo tomando toda a medicação, que não é pouca nem ligeira, pelos vistos não está a ser suficiente para eu me aguentar. Aguentar-me a mim e ao peso que carrego às costas à espera que haja um qualquer desenvolvimento nesta história que não escolhi para mim.

Vai ser duro enfrentar o calor previsto para amanhã. Ter que andar na rua para ir à fisioterapia de manhã, almoçar algures no caminho, ir até ao Hospital para enfrentar aquele longo caminho ao Sol até ao serviço de psiquiatria. E, terminada a consulta, enfrentar novamente essa longa distância, novamente ao Sol, para depois regressar a casa e entregar-me ao sofá. Porque, já sei, na minha situação actual, o calor não é nada recomendado. Mas eu preciso desta consulta. Porque preciso de ajuda… Tão simples como isso: preciso de ajuda. Urgente

{#216.151.2024}

E hoje ela bateu palminhas de contente porque foi à praia! E caminhou à beira mar. Em alguns momentos, em algumas ondas, a água chegou aos joelhos. Caminhou. Chapinhou. Deixou os pés serem enterrados na areia a cada nova onda. Confirmou que dar pontapés nas ondas não é boa ideia, mas é uma excelente forma de dar mergulhos de rabo no chão. E só não aconteceu porque ia de muleta à esquerda (a bengala ficou em casa para não se estragar) e apoio à direita.

Já tinha muitas saudades disto. Que é uma coisa tão pequenina para tanta gente e dada por garantida por praticamente toda a gente que consegue ir à praia, mas para mim é um grande feito especialmente por todos os obstáculos que existem para conseguir ir à praia e chegar à beira mar.

Foi a visita dos meus sobrinhos para almoçar que me permitiu ir até ao paredão de carro com o meu irmão.
As escadas de acesso à praia não foram fáceis de descer. E subir de volta ao paredão não foi melhor. Mas fui até lá abaixo! Molhei os pés! Caminhei na areia molhada e à beira mar! Senti as ondas!

Não dei melhor uso ao bikini (novo e giro que dói!) por causa do vento forte e frio. Mas hei-de voltar à praia em breve. E, o que fiz hoje ao final da tarde, foi (para mim) uma vitória!

O acesso ao paredão tem rampas para além das escadas, e a malta agradece.
Já o acesso à praia…? Quem quiser, puder, conseguir!, vai de escadas se fizer muita questão de descer até ao areal!
E eu hoje fiz questão de descer!

Dores horríveis num joelho a descer não prometem nada de bom para subir, mas ou é assim ou não tenho como ir até à praia.
E hoje fui! Desci as escadas, sem pressa, degrau a degrau no meu já habitual devagar, devagarinho. Para subir, será igual. Muito devagar. Muito devagarinho. Mas já posso dizer que sim!, vim à praia este Verão!

{#215.152.2024}

Sexta feira e o total desânimo

E ter medo de desapontar aqueles que ainda apostam em mim. Ele, que mesmo à distância de um clique, me dá força todos os dias só por estar , do outro lado, mesmo a 135 km de distância. E o professor Pedro que, depois de ler o que lhe escrevi ontem sobre a minha frustração, me responde hoje com a indicação de que vai traçar um plano de asanas específico para mim e me indica uma modalidade do Yoga que eu não conhecia e que é específico para quem tem determinadas dificuldades. Como eu, neste momento… É o Iyengar Yoga.

A fisioterapia continua, mas os exercícios não me convencem. Não sinto que me ajudem por aí além. Mas, se tenho que continuar, seja! Acredito que o Yoga me irá ajudar mais (e melhor) com as questões do equilíbrio do que a fisioterapia, mas que raio sei eu? Sei como estou, como me sinto e comparo com o trabalho realizado no Hospital…

30 minutos de Viparita Karani hoje ao final do dia. Que passaram rapidamente. Que souberam muito bem. Que podiam perfeitamente ter sido muitos mais minutos. O professor Pedro sugeriu 15 minutos de manhã depois do pequeno almoço, 15 minutos ao final do dia antes de jantar. Ainda não consegui organizar os meus horários para encaixar os 15 minutos de manhã, mas vou ter que conseguir. Porque me alivia as dores nas pernas, me relaxa, me sabe bem, me faz bem.

Mas o desânimo é total… Só me apetece chorar. Mas, como sempre, não consigo

Já devia estar a dormir? Já. Vontade de ir para a cama? Não tenho. A vontade é apenas uma: chorar.

Segunda feira tenho consulta com o psiquiatra. E vou ter que lhe dizer que estou profundamente deprimida e a precisar de ajuda. E que preciso de chorar e NÃO CONSIGO! Eu sei que é sexta feira à noite, mas segunda feira à tarde ainda parece estar tão longe…e eu não sei até quando e como vou continuar a aguentar tudo isto.

Recordo-me das palavras do psiquiatra quando lhe disse, em Abril, que me sentia sozinha e andava ao sabor do vento. Disse-me: “não está sozinha, Catarina, tem uma vasta equipa de médicos à sua volta a tratar do seu caso”. Passados quase quatro meses, não houve avanços e sinto-me cada vez mais sozinha, cada vez mais ao sabor do vento. E não aguento muito mais

Sim, eu preciso de ajuda. Urgente. E não quero desapontar ninguém: ele, que está sempre lá mesmo que à distância de um clique e o professor Pedro que continua a apostar em mim e a encontrar alternativas para que eu não desista do Yoga, que seria o mesmo que desistir de mim. Mas, acima de tudo e mais importante, não quero nem posso desapontar-me a mim mesma! Mas está cada vez mais difícil…

Já é tarde. Já devia estar a dormir há muito tempo. Amanhã é dia de Yoga no horário habitual mas em local mais distante. Vai mexer com os meus horários e fazê-los corresponder com os horários dos autocarros. E eu não quero ir dormir…quero chorar. E não consigo

Mas, o dia de amanhã, logo se vê. E mesmo esta noite será assim: logo se vê.

{#214.153.2024}

Dia de consulta para controlo dos resultados das análises da função hepática devido à terapêutica preventiva da tuberculose latente que irá durar 6 ou 9 meses, dependendo de quando será iniciada a medicação biológica. Dois meses e uns pozinhos já passaram, e passaram a correr. E, felizmente, os valores das análises têm sido bons. Não houve reacção ao início da toma do antibiótico, o que é muito bom. E o facto da função hepática se manter bem é outro bom sinal.

Manhã passada nisto, com consulta marcada para as 9h30 já saí de lá depois da hora de terminar a fisioterapia. Ou seja, hoje não consegui ir. Nem ligar para lá a avisar. Amanhã volto à rotina e, depois, logo se vê. Mas é menos um dia de tratamento. Que, na minha opinião, deveria ser mais intenso. E, até, mais intensivo. Já é muito bom ser diário, não chegando a duas horas, sendo que meia hora é para massagem, outra meia hora para fortalecer os músculos das pernas e o que sobra para trabalhar a marcha e o equilíbrio, para mim não é suficiente. E, comparando com o tratamento que tive no Hospital, que não era intensivo mas era intenso, não sinto diferenças nem melhorias…

Mas depois, como hoje, tenho o Yoga que me ajuda com a questão do equilíbrio. No entanto, nem sempre corre bem. E hoje foi um desses dias em que, por muito que tentasse, a maior parte da aula foi zangada comigo mesma por não conseguir fazer os asanas propostos. As dores na perna esquerda, que há tantos dias me têm incomodado, hoje acompanhadas de dores no joelho esquerdo e no pé esquerdo…não deu. E eu, claro, frustrada e zangada comigo. Mas a ouvir o meu corpo e a obedecer-lhe. E seja no Yoga ou fora dele é isso que tenho que continuar a fazer: ouvir o meu corpo e obedecer-lhe. Se agora não consigo fazer alguma coisa, tento novamente mais tarde. Até voltar a conseguir.

Felizmente, no meio de tudo isto que me apanhou na curva, posso dizer que sou uma miúda de sorte. Pelas pessoas que me rodeiam. E hoje foram os colegas do Yoga que me surpreenderam pela positiva. As aulas mudaram para um novo espaço, mais longe. Ir até lá não é problema, o autocarro leva-me. Mas, para regressar, os horários dos autocarros são incompatíveis com o horário a que terminam as aulas. Mas bastou-me comentar isso no grupo de Whatsapp para, de imediato, ter boleia, ter quem se organizasse, ter o professor Pedro a dizer que se vão revezando e não ter que me preocupar demasiado com o regresso. Tinha pedido boleia até à entrada na via rápida e o resto do caminho já poderia fazer até casa por ser perto. Mas, o que aconteceu, foi ter boleia até casa para não ter que fazer o resto a pé. E, claro, esse pormenor fez diferença e soube muito bem.

E depois tenho também o professor Pedro que me dá exercícios para fazer em casa que já sei que me ajudam e diz-me para não me preocupar com o facto de conseguir ou não fazer tudo. Desde o primeiro dia, e já lá vai mais de um ano, que está a par do que se passa comigo e da minha evolução (ou, por outras palavras, progressão. Da doença…) e não desiste de me ajudar quando preciso de ajuda no equilíbrio ou de ajustar algum asana para que eu consiga fazê-lo.

Enfim…apesar de tudo sou uma miúda de sorte, mesmo no meio do caos. E isso, claro, sabe bem. Muito bem. E ajuda a suportar melhor toda a frustração que todos os dias me invade.

O dia hoje começou muito cedo. Foi uma manhã cansativa. Consegui apagar no sofá antes de serem horas de sair de casa para o Yoga. Mas já é tarde. Muito tarde. Mais uma vez, a noite começa a roçar a madrugada. E eu estou cansada. Muito cansada. Amanhã é dia de acordar cedo novamente. Por isso vai ser, mais uma vez, uma noite de dormir a correr.

Amanhã, sexta feira, vai ser um bom dia. Só porque sim e porque eu quero. Já sei que vou voltar para casa cansada e, depois do almoço, vou aterrar no sofá e vou apagar rapidamente. Mas nem quero saber. Logo a seguir é fim de semana e logo se vê como será.

Mas, amanhã, vai ser um dia bom. Porque eu quero que assim seja.

{#213.154.2024}

Mais um dia mais ou menos igual aos outros. A única diferença foi não ter adormecido no sofá depois do almoço…acho eu. Agora que penso nisso, e tive que pensar muito para me lembrar, de facto não tive oportunidade de adormecer no sofá. Muita papelada para rever, organizar e enviar. A tarde passou e eu não dei por ela…

Quarta feira e hoje seria dia de Yoga ao final do dia. Mas mudando o local (mantendo o professor!), muda também o horário. Ou pelo menos passa de quarta para quinta feira. Ainda não tive oportunidade de saber exactamente onde fica, sei qual é a rua e, para lá chegar, terei que ir de autocarro. Não sei, ainda, qual o melhor a apanhar, nem horários de ida e muito menos de vinda. Mas vai correr bem. Nada que o GPS e o Google Maps não me ajudem.

De resto, fui demasiado confrontada com a minha realidade actual e com o que pode vir a ser daqui a uns tempos. Não sei, obviamente, quanto tempo, mas sei que o que me espera é algo que, definitivamente, não quero! Ainda não sei, claro, a que velocidade o tempo vai passar e a progressão avançar. Só sei que não quero!

Tenho tantas perguntas para fazer a quem me devia acompanhar clinicamente e que simplesmente não responde aos meus pedidos de esclarecimentos e ponto de situação. E eu precisava tanto que esse alguém, o meu médico de especialidade, olhasse para mim como um ser humano e não como um número. Para ser um número já basta no emprego…e na realidade eu sou um ser humano que, neste momento, precisa de respostas a todas as perguntas que só o médico pode dar, sou um ser humano em sofrimento por uma espera sem prazo para terminar…no fundo, sou um ser humano, não um número. Mas estou a ser tratada como tal. E não posso…

Amanhã é dia de consulta mensal na única especialidade que me tem dado conhecimento do estado do meu processo. E, apesar de ser uma especialidade que faz sentido, não é aqui que vou ter as respostas às minhas questões…

E já não sei o que mais fazer, mas sei bem o que não quero para o meu futuro. Seja ele próximo ou longínquo, não interessa. Só interessa que sei o que não quero! E preciso que me digam o que posso eu fazer para desacelerar esta coisa! Isto enquanto não me chega a medicação que, diz quem sabe, ajuda a travar ou a desacelerar a progressão disto que me apanhou na curva, que eu não procurei mas que me encontrou!

A única frase que me vem à cabeça quando penso em todas as possibilidades é “não quero!”. Não quero! Não quero! Não quero! Mas porra! Preciso de ajuda que tarda em chegar até mim!

Para variar, já é muito mais tarde do que gostaria para ainda andar por aqui. A noite começa a roçar a madrugada e amanhã é dia de acordar cedo. Vai ser mais uma noite dormida a correr. E a vontade de chorar insiste em fazer-se presente e em força. E eu continuo a não conseguir chorar…

Amanhã logo se vê. Não vou pensar nisso agora. Não interessa. Amanhã o dia será preenchido, mas há ali um intervalo de tempo que me vai permitir recuperar antes de me fazer ao caminho do Yoga. Caminho que ainda nem sei qual será…

{#212.155.2024}

Das coisas importantes a não esquecer: arranjar sempre tempo para beber café antes de sair de casa!

Para não correr novamente risco de chegar à esplanada da manhã antes da Fisioterapia e a máquina do café estar avariada…

Primeiro café do dia? Muito para lá das 13h30. Ninguém merece. Nem aguenta…

De resto? Dar descanso ao corpo depois de chegar a casa porque, especialmente com o calor, o corpo assim o exige.

E a vontade de ir até à praia ao final do dia? Pois…essa ninguém me tira…

{#211.156.2024}

Poder, finalmente!, conversar de viva voz com alguém que, como eu, foi apanhada na curva pela mesma coisa, simplesmente numa versão mais simples.

Foram duas horas ao telefone, com alguém que não conheço pessoalmente e que provavelmente nunca irei conhecer dada a distância, mas que sabe tão bem o que estou a passar porque já passou pelo mesmo.

Há muito tempo que queria, precisava!, de uma conversa assim. Sentar-me à mesa da esplanada e falar, conversar, ouvir e ser ouvida por alguém que entende porque vive na pele a mesma condição que eu. Sim, continuo a não conseguir chamar-lhe doença, que é!, e menos ainda tratar a condição pelo nome que tem. E tudo porque ainda não a estou a aceitar…

Mas ouvir alguém partilhar a mesma experiência…não tem preço!

Foram as duas melhores horas dos últimos tempos, não há como negar. E (acho que) fiz uma nova amiga. Companheira de luta, sem dúvida. E uma enorme ajuda para a minha cabeça. De repente, deixei de me sentir tão sozinha.

Obrigada! E obrigada também a quem me fez chegar até ela.

{#210.157.2024}

A noite passada? Foi adormecer depois das 4h da manhã por causa da luta interna que se fez sentir em força.

Seria de esperar que hoje acordasse mais tarde… Mas todos os dias o despertador toca às 7h da manhã para tomar o antibiótico e hoje nem me deixaram esperar pelas 7h. Fui acordada às 6h30 para o antibiótico. Já não voltei a dormir. Não antes das 10h30 da manhã…e aí fugi do Mundo e escondi-me dele até às 16h.

Porque, mais uma vez, queria ir à praia. Mas sabia que não ia conseguir porque 900 metros é uma distância curta para todos, mas não para mim. Especialmente nestes últimos dias…

Ao final da tarde, um café fora da zona habitual. Pouco mais de 400 metros para cada lado. Mas, pelo menos, obriguei-me a caminhar. Se foi fácil? Manter-me equilibrada enquanto caminho está cada vez mais complicado apesar da fisioterapia. Mas fui! E vim…

Mas, a melhor parte deste dia que não prometia nada foi, ainda antes de ir à rua, quando o telemóvel tocou e, no outro lado, estava aquela voz que eu há tanto tempo queria voltar a ouvir! A voz dele! Era tudo o que eu estava a precisar mas não estava a contar! Surpresas destas são tão boas! E foi tão bom. Porque é muito giro podermos conversar por escrito à distância de um clique, mas nada bate uma conversa de viva voz quando não se está à espera.

Foram, ao todo, 38 minutos. E, durante esses 38 minutos, o Mundo deixou de existir lá fora. Porque éramos só os dois. O resto não existia. E foram, sem dúvida, os melhores 38 minutos deste dia “meh”.

Amanhã é o regresso à rotina da fisioterapia de manhã, seguida de consulta com a médica de família e regressar a casa. Vou continuar a querer ir à praia. Vai continuar a não acontecer.

Mas agora, e porque eu insisto em não saber fazer resumos, depois de escrever mais um longo email para aquele médico em quem deixei de confiar, a noite já roça a madrugada, vou tentar descansar. A minha cabeça continua a mil, a luta interna intensifica-se e a vontade de chorar agrava-se mas continua sem acontecer… Por isso, o melhor é mesmo esconder-me do Mundo até às 7h da manhã de amanhã.

Um dia de cada vez. Sempre. Hoje foi como e o que foi. Amanhã? Logo se vê…

{#209.158.2024}

Passava das 22h45 e estava na esplanada do costume. Vontade de voltar para casa? Zero. Capacidade física para ir dar uma volta por aí, nem que fosse uma volta ao quarteirão? Com as dores na perna esquerda, desde a coxa até ao pé com especial incidência no joelho? Zero também.

Estou cansada de não sair deste rectângulo. Preciso de sair daqui um dia destes. Seja para almoçar. Seja para jantar. Seja apenas para um café. Seja o que for. Mas FORA deste rectângulo. Sinto-me presa aqui. Prestes a sufocar. E tudo por não sair deste rectângulo. E por NÃO CONSEGUIR sair sozinha para lado nenhum.


Hoje caminhar, até em casa, está muito difícil. Mas tinha que vir à rua à noite. Porque, se continuasse fechada em casa, acho que enlouquecia.

Mas, claro, tive que voltar para casa. E, já em casa, travo uma intensa luta interior comigo mesma. Já devia estar a dormir, agora que a noite já roça a madrugada. Mas não quero.

Tenho a cabeça a mil e não é com boas ideias. É um acumular de sentimentos negativos. Frustração. Zangada com o Mundo e comigo. Com isto que me apanhou na curva e que eu não procurei mas que me encontrou, que de alguma forma me escolheu.

Não merecia isto. Não fiz mal a ninguém. Não prejudiquei ninguém. Não….merecia…isto! E o que também me magoa é perguntar à minha mãe “eu merecia melhor do que isto, não merecia?” e, como resposta, recebo o habitual silêncio. Assim não dá…assim é suportar tudo sozinha. Mais tarde disse-me que não respondeu porque não sabe o que me dizer. Bastava ter dito que sim, que merecia melhor. Ao não me responder nada fez-me sentir como se efectivamente eu não mereça melhor. E, FODA-SE, isso dói para caraças!

Acredito que não seja fácil para ela também ter que assistir a tudo o que se está a passar comigo, a ver as dificuldades a aumentarem e eu a não ter o acompanhamento médico que preciso. Acredito que seja doloroso para uma mãe assistir à degradação, às progressivas dificuldades, ao sofrimento que as dores trazem juntamente com tudo o resto, à frustração, ao agravamento da depressão de uma filha que foi apanhada na curva por uma coisa que não tem cura. Mas tem tratamento que melhora a qualidade de vida. Tratamento esse que demora a chegar…

Admito a dificuldade da minha mãe em assistir a tudo isto. Mas eu preciso de sentir o apoio da única pessoa que me ajuda em tudo e que está sempre presente. Apenas não verbaliza, não me responde. Não me diz nada sobre o que se está a passar, sobre o que EU estou a passar. E isso, para além de doer (muito!), traz-me o peso insuportável da porra da solidão! E eu não quero, não posso!, suportar isto tudo sozinha. Porque eu não aguento.

Continuo a querer chorar. A precisar de chorar. E continuo a não conseguir.

Sei que não posso fazer nada para me livrar disto. Veio para ficar. Não há nada a fazer a não ser ter o acompanhamento médico que preciso e acesso rápido à medicação. E nada disso está a acontecer.

E preciso também de alguém que se sente comigo para conversar sobre isto e me ouvir, mas sobretudo para me orientar. Porque eu continuo a estar perdida! E preciso de saber onde estou. Para onde vou. O que esperar. O que me espera. Como vai ser daqui para a frente. No fundo, o que eu preciso é de ajuda. Urgente. Que não tenho tido. Que não sei quando vou ter. SE vou ter.

Sei que tenho uns poucos amigos com quem posso falar, desabafar. Mas também sei que, em alguns casos, não tenho comentado nada sobre o que estou a passar, o que estou a sentir, porque sei que do outro lado a frustração também se faz sentir. Como é o caso dele. Sei que está comigo nisto, desde o início a segurar-me na mão, a fazer o caminho comigo. Mas, se me queixo, a frustração chega até ele não só pelo factor distância mas também por não poder fazer nada. E eu não quero contagiar ninguém com a (minha) frustração. E por esse motivo tenho guardado algumas coisas para mim. Digo apenas, quando me fala da frustração de não poder fazer nada, que basta estar lá, à distância de um clique. Saber que não se vai embora por causa disto.

Mas, caramba! Eu sei que não estou, mas sinto-me completamente sozinha! Preciso tanto de ajuda. Urgente! De deixar de me sentir sozinha! Porque não aguento mais…

Às vezes quero desistir, outras vezes quero bater o pé e fazer as coisas acontecer. Mas estou SEMPRE sozinha…e já não sei o que fazer nem para que lado me virar nem com quem contar, já não sei nada de nada de nada! Só sei que estou cansada, farta, frustrada, zangada, perdida, sozinha. E não quero continuar assim…mas não sei até quando vou conseguir aguentar isto assim. Não sei mesmo…

{#208.159.2024}

…e depois há aquele dia em que te cai uma dolorosa ficha e percebes que aquela pessoa em quem depositaste toda a tua confiança afinal parece não merecer o que lhe dedicaste e aparenta estar apenas e só a gozar com a tua cara dizendo coisas só por dizer, só para te calar a boca, só para, de alguma forma, te enganar…

Se fosse outra pessoa qualquer, bastava continuar a encolher os ombros, sorrir e acenar e partir para outra seguindo em frente. O problema é quando é o teu médico, da especialidade que te devia acompanhar de forma regular há meses, que já devia ter iniciado medicação há algum tempo e que, afinal, quando te liga em resposta aos teus três emails, te diz coisas por dizer, só para te calar e que nos serviços do Hospital não há qualquer informação, muito menos confirmação.

Sim, hoje deixei de confiar num médico. Aquele que começou bem em Fevereiro decretando um internamento imediato para dar início aos muitos exames necessários para o diagnóstico. O mesmo que, de imediato marcou consulta para a primeira data que tinha disponível, 7 de Outubro, mas que afirmou e combinou que assim que tivesse os resultados todos me chamava para diagnóstico e início de medicação.

Os resultados saíram há meses. O diagnóstico consta do relatório que efectuou para a Junta Médica da Segurança Social em Março. O início do tratamento estaria dependente do início da terapêutica preventiva para a tuberculose latente, teria que aguardar 30 dias desde o início da terapêutica para poder avançar com a medicação biológica.

A terapêutica preventiva foi iniciada a 23 de Maio. Já passados os 30 dias soube pelo Infecciologista que me segue neste tratamento que já constava do meu processo que era candidata a medicação biológica.

Foi nessa altura que comecei a tentar saber o ponto de situação junto do médico. Sem sucesso. Até insistir no secretariado que por sua vez insistiu com o médico que finalmente me ligou. Para quê? Para me mentir? Não sou eu que o digo, são os próprios serviços do Hospital para onde o próprio me disse que iria ligar de imediato para acelerar a marcação do início da medicação. Serviços esses que, já em duas semanas diferentes, me dizem “o doutor não fez qualquer pedido em seu nome”…

E com isto perco a confiança em quem achei que me iria, de facto, ajudar. Não só em termos de medicação mas também ao nível de maior conhecimento do que se passa comigo…

Sei que tenho outro local onde recorrer. Que já me disseram estar à espera do pedido da minha médica de família. Mas fica em Lisboa… Sei que aí teria tudo o que preciso para enfrentar o que me apanhou na curva. Mas neste momento não sei o que faça… Sinto-me completamente perdida, desiludida e, até, enganada. Porque não gosto de pessoas que dizem as coisas só por dizer, só para calar o outro. E cada vez mais acho que é exactamente isso que está a acontecer. E não quero. Nem posso permitir que aconteça.

Não quero perder o meu precioso tempo a pensar demasiado nisto. Tenho outras coisas importantes em que pensar. Que, apesar de tudo, não me magoam porque eu já aceitei ir a jogo sabendo todas as regras e obstáculos.

Tenho, à distância de um clique, alguém que me completa e a quem eu completo de uma forma que não tem uma explicação racional. Mas que é vivida e, acima de tudo, sentida, de forma intensa e de entrega total.

Não tem que fazer sentido a mais ninguém que não eu e ele, nós os dois que, na realidade, somos um só.

Ambos somos intensos. Em tudo o que fazemos, por mais básico que seja. Ambos nos sabemos de cor. Ambos nos aceitámos e aceitamos como somos. Não há uma explicação racional. É assim e pronto. Somos assim e pronto. Desde o primeiro dia há mais de um ano. E o que existe, que não tem que fazer sentido para mais ninguém, cresce todos os dias mais um pouco.

Onde é que isto vai dar? Não faço ideia. E, neste momento, nem quero saber. Quero viver um dia atrás do outro. Sentir um dia atrás do outro. A partilha. A entrega. A intensidade. E o que tiver que ser será. Neste momento? Não quero saber.

Hoje foi um longo dia. Cansativo. De desilusão e, até, desconfiança na visita breve ao Hospital. Vim de lá profundamente chateada e frustrada e, até, magoada por me sentir enganada. Mas a tarde trouxe-me o equilíbrio que este dia estava a precisar. De forma intensa, verdadeira e de entrega total.

Amanhã é dia de acordar cedo outra vez. Yoga no parque novamente logo cedo. E eu gosto muito de começar o dia assim, a recentrar-me, a reencontrar-me. E a relaxar e a desligar dos pensamentos que me incomodam e magoam. Por isso, e agora que já é muito tarde e a noite começa a roçar a madrugada, está na hora de dar o dia por terminado por hoje. E amanhã logo se vê como será depois do Yoga.

{#207.160.2024}

Acordar cedo depois de mais uma noite curta. E, claro, acordar cansada.

De manhã, fisioterapia. Pergunta a fisioterapeuta: “cansada da fisioterapia de ontem e do Yoga?” Respondi que nem por isso, apesar do trabalho de pernas no Yoga ter sido um pouco mais puxado.

Passar pela massagem e dizer “não sei porquê, mas sinto os ombros demasiado tensos” e, ao primeiro toque, a massagista encontrar o ponto de tensão no ombro direito que está pior do que o esquerdo. Porquê essa tensão nos ombros? Não faço ideia… Se calhar, é só mais uma coisa que “faz parte“. Assim como as dores que tenho nos pulsos quando os dobro nos exercícios de Yoga e até nos da fisioterapia. “Ataca as articulações todas”…e é na fisioterapia que vou aprendendo estas coisas…

Disse que não me sentia cansada, e na realidade, só me sentia moída e ensonada. Mas, depois do café a seguir ao almoço, entrei no plano horizontal. Que é o mesmo que dizer que aterrei no sofá. E, em menos de nada, estava a dormir. Foram três horas nisto…

Acordei para jantar a horas decentes, o que não tem acontecido nos últimos dias. Com planos de ir dormir cedo… Já não é cedo. É praticamente meia noite, mas sempre é mais cedo do que a 1h ou 2h da manhã dos últimos dias. Semanas? Já nem sei…

Faz-me falta aqui ao meu lado a presença dele. A quem chamo Polvinho. Eu, a Corujinha, posso não ter a presença física do meu Polvinho, mas todas as noites enroscamos um no outro numa conchinha só nossa. Que ninguém tem que entender como é possível com 135 km de separação física. Não interessa. O que interessa é que, para nós, faz todo o sentido.

Não tenho a presença do meu Polvinho Giro-giraço-girassol, mas tenho um polvinho azul ao meu lado que todas as noites olha por mim e para mim e, de manhã, me sorri. E é o suficiente para reforçar esta presença que sinto todas as noites como se a distância não existisse…

Ainda não é meia noite. Hoje consigo deitar-me cedo. Ou, pelo menos, mais cedo. Amanhã o dia vai ser longo… Mas, só por sentir sempre comigo a presença do meu Polvinho Giro-giraço-girassol de mão dada comigo desde o primeiro dia, já sei que vai ser um bom dia. O resto? O resto é só isso mesmo, o resto.