Author Archives: Kooka

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Se perguntarem por mim, dir-vos-ei que não estou. Esta que vos fala é outra que não eu.

{#325.042.2024}

Dia comprido, mas nem por isso um dia menos bom:

  • na fisioterapia, e ainda por causa das dores nas pernas, novamente um tratamento mais ligeiro, sem esforço muscular, apenas alongamentos, manipulação das pernas e pés e ligeira massagem;
  • ir aos correios levantar o pacote volumoso que me enviaram e confirmar que vinha exactamente com o que eu já calculava: diospiros do mais natural que existe, sem qualquer químico, alimentados a água e amor;
  • uma aula de Yoga para recuperação do que tem atormentado as minhas pernas e que, ao sair da aula, pude sentir como as minhas pernas fossem tão leves como uma nuvem e sem qualquer dor;
  • uma chamada que não atendi, nem ouvi entrar, por estar no Yoga mas que retornei assim que entrei em casa e que me deixou de coração quentinho: aquele amigo que fiz há 10 anos e que me ajudou tanto a sair do fundo do poço quando mais precisei vai ser pai e eu não podia estar mais feliz por ele; claro que a chamada nunca poderia ser breve, foram duas horas e meia que pareceram tão menos do que isso.

A única coisa que falhou neste dia comprido foi o tempo. Que não estica e não me deu oportunidade de fazer tudo o que queria e ainda estar com ele tanto quanto e como gostaria. Mas, agora que está na hora de aninhar e enroscar, é quando vou poder estar mais perto e durante a noite toda, mesmo que à distância de um clique.

A esta hora já a noite roça a madrugada. Outra vez. E amanhã é dia de fisioterapia logo cedo. Por isso, dou o dia de hoje por terminado. E amanhã será um dia bom novamente. Mas com mais tempo para mim, para ele, para nós.

{#324.043.2024}

Lido por aí hoje, numa qualquer rede social através dele: “nunca desvalorize o poder de um elogio“.

É aquela coisa do reforço positivo. Que nos ajuda a manter a cabeça erguida e a seguir em frente. No sábado tive esse reforço positivo quando o Pedro, professor de Yoga, me disse que, apesar do meu diagnóstico, eu sou capaz de alcançar nas aulas mais do que eu mesma imagino. E soube muito bem ouvir isso, claro que sim. Foi também uma espécie de elogio, penso eu. Pelo menos, é como eu o vejo.

Na fisioterapia cruzo-me com muitas pessoas de diversas idades e condições físicas. E algumas bastante sérias e limitantes. Como a é o caso da Célia. Mais ou menos da mesma idade que eu, com algumas dificuldades parecidas com as minhas, mas com muito mais limitações pelo diagnóstico mais complexo. Foi a Célia que, no dia em que nos conhecemos e sabendo ela já do que se passava comigo porque o encontro não foi casual mas sim programado pela fisioterapia que me sabia tão perdida no meu processo, me disse qualquer coisa como “a vida não acaba com o diagnóstico”. E tenho aprendido, devagar, que é como ela diz. Tem sido uma pessoa que puxa por mim, que me faz acreditar que é possível viver bem e com qualidade apesar do diagnóstico.

Na fisioterapia temos muitos exercícios semelhantes, um dos quais é caminhar entre duas barras paralelas com pequenos obstáculos que nos (re)ensina a andar e a forçar a manutenção do equilíbrio. Já tenho visto a Célia a fazer o seu exercício de barras e é notória a dificuldade maior do que a minha. Ontem foi a vez da Célia me ver a mim a caminhar entre as barras. Neste exercício as barras estão lá para nos podermos apoiar em segurança enquanto caminhamos. Já o conhecia dos tempos de Fisioterapia no Hospital e logo nessa altura eu fazia questão de tentar caminhar sem me apoiar nas barras. Era raro consegui-lo. Tinha que me apoiar sempre, nem que fosse só com uma mão. Mas sempre fiz questão de insistir em tentar largar as barras.

Os resultados da Fisioterapia no Hospital foram muito positivos, saí de lá a caminhar melhor, com um pouco mais de equilíbrio, mais confiante. Com a passagem para a Clínica mantive o objectivo que tinha, mentalmente, definido para mim: não ir pelos caminhos mais fáceis. Neste caso, o mais fácil não me traz grande benefício. Por isso, sempre que vou às barras, insisto em tentar caminhar sem me apoiar. É verdade que a distância é muito curta, não sei se chega sequer a 2 metros, mas é o suficiente para me desequilibrar logo no primeiro passo se não me apoiar.

Tenho insistido muito em não me apoiar nas barras. E tenho conseguido o meu objectivo: ir de uma ponta à outra, ultrapassando os obstáculos que estão no chão, sem me apoiar. E ontem, ao observar-me no exercício das barras, a Célia viu aquilo a que eu chamo de pequena conquista: fazer o percurso várias vezes sempre sem me apoiar. E, quando viu que eu consegui, começou a bater palmas e genuinamente a puxar por mim, feliz por mim. Se isto não é um reforço positivo, não sei o que será. Soube muito bem perceber que não estou sozinha, que há quem torça por mim e fique feliz comigo com as minhas pequenas conquistas.

Hoje o tratamento foi mais reduzido, mais limitado porque as dores que tinha ontem à noite ainda estavam presentes nas minhas pernas esta manhã. Não houve caminhar nas barras para repetir o não me apoiar. A fisioterapeuta apostou apenas na manipulação das pernas e pés para aliviar do esforço das últimas semanas. E eu agradeço esse intervalo. Ainda tenho mais 4 sessões até terminar este ciclo de tratamento. Mas tenho que ouvir o meu corpo e obedecer-lhe.

As pernas hoje continuam com dores. Mais ligeiras que ontem, mas as dores continuam a incomodar. Amanhã de manhã logo se vê como estarei e como será o tratamento. Mas, saber que o reforço positivo está lá, é meio caminho andado para correr bem.

{#323.044.2024}

Depois do nevoeiro da manhã, o céu de um azul intenso como há muito tempo não o via. O Sol quente. O regresso da Arriba Fóssil ao lugar que lhe pertence.

E, o que regressou também, igualmente de forma intensa como há algum tempo não acontecia, foram as dores. Nas pernas. Dos joelhos para baixo. Dores que não me deviam pertencer, não deveria haver lugar para elas em mim. Dores de uma intensidade impossível de descrever…
Já doíam ontem. Mas nada comparado com o que doem hoje. Já doíam de manhã. Mas nada comparado com o que doem agora…

Os exercícios da fisioterapia moem-me os músculos das pernas, é verdade, mas não estes músculos. Porque na fisioterapia o que sinto mais trabalhado são os músculos dos joelhos para cima. Mas aí só os sinto moídos. E com a manipulação da fisioterapeuta aliviam bastante e não chegam a doer. Mas dos joelhos para baixo…

Ingenuamente cheguei a pensar que as dores eram resultado de mais uma noite pouco dormida e que, se descansasse no sofá com as pernas esticadas, as dores iriam passar. Fui tão ingénua

Adormeci no sofá. Foram 2 horas e meia em que desliguei do Mundo. E, quando acordei, as dores… As dores mais fortes, mais intensas, quase insuportáveis. Ainda assim, novamente ingenuamente, decidi ir à rua beber um café. E foi a caminho do café que percebi: as dores. Piores do que as sentia em casa. E dar um simples passo em frente esteve muito perto de se tornar impossível.

Ainda não sei bem como, mas consegui chegar ao café. Sentei-me na esplanada do costume. Bebi o café. E, ao levantar-me para voltar para casa…as dores. O esforço imenso para fazer 150 metros. A vontade de chorar de dores. Mas as minhas lágrimas secaram e foram substituídas por palavras, apenas.

Não faço ideia de como estarei amanhã de manhã para ir à fisioterapia. Mas sei como estou agora para ir do cadeirão até ao sofá. E as dores são de tal forma fortes e intensas que chego a duvidar se vou conseguir sair da varanda para a sala.

Se isto faz parte daquela coisa que me apanhou na curva? Não faço ideia. Sei que as dores são muito perto de serem insuportáveis de tão fortes e intensas que estão hoje.

E eu não aguento mais…

{#322.045.2024}

Segunda feira. Aquele dia em que todos os outros que não eu retomam a rotina do trabalho. Sair de casa cedo, enfrentar o trânsito em veículo próprio ou transporte público. Entrar à hora certa. Cumprir funções. Cumprir horário. Sair do trabalho à hora de sempre ou, em tantos casos, mais tarde do que o horário no contrato dita. Voltar a enfrentar o caminho, desta vez de regresso a casa. Eventualmente ir ao ginásio ou ao supermercado. Tratar do jantar. Tratar dos miúdos quando os há. Olhar para a televisão sem realmente assistir a alguma coisa. Preparar o dia de amanhã em que tudo repete no mesmo horário, no mesmo ritual, no mesmo ritmo.

Tenho algumas saudades dessas rotinas diárias. Não tenho saudades de sair de casa ainda de noite para sair do trabalho já de noite. Mas tenho saudades de acompanhar o nascer do Sol no caminho para Lisboa. Atravessar a ponte. Ver o Sol à direita na ida para lá e ainda a acabar de nascer.

Não tenho saudades do autocarro, nem do trânsito, nem do barulho da cidade logo cedo. Mas sinto falta do segundo pequeno almoço do dia naquele café que adoptei e onde sempre fui bem recebida, bem tratada e bem servida. Tenho saudades do café cheio, intenso e sem açúcar na esplanada a ver os pombos a entrar no estabelecimento e os funcionários a apressarem-se a tentar expulsá-los.

Não tenho saudades do caminho que fazia enquanto fumava aquele que seria o último cigarro nas próximas horas. Mas tenho saudades das montras das lojas onde nunca entrei nem perdi um segundo que fosse a ver o que as montras promovam.

8h50. Passar o cartão, abrir a porta e entrar naquele espaço amplo e quase asséptico onde não é permitido haver um mínimo sinal, fora do horário entre as 8h30 e as 19h, de que quem ali trabalha são, de facto, pessoas. E, mesmo no horário de trabalho, os sinais de que ali estão quase 100 pessoas a pôr uma imensa máquina a mexer têm que ser mínimos.

Não tenho saudades de me sentir apenas um número ou peça de engrenagem numa máquina que precisa dessas quase 100 pessoas para funcionar de forma célere, correcta e satisfatória. Tenho saudades de me rir com os colegas localizados mais perto, mesmo que esses momentos de riso sejam escassos, rápidos porque há clientes para atender ao telefone.

Tenho saudades de fazer atendimento telefónico ao cliente, conhecer o processo em questão, responder às questões que posso responder, resolver o que tenho autonomia para resolver, ser prestável, educada, correcta, amável. Dar o melhor de mim para um atendimento de qualidade. Não tenho saudades das análises mensais de resultados em que, mesmo tendo excelentes resultados em 3 de 4 factores, há sempre um onde falho porque me é exigida a quantidade quando eu dou prioridade à qualidade.

Não. Não tenho saudades de ser um número. Pressionada para ser uma máquina de trabalho e não aquilo que sou: um ser humano. Mas sim!, tenho saudades de rotinas certas e horários que sejam mais do que apenas ir à fisioterapia durante 15 dias úteis para depois ficar novamente sabe-se lá quanto tempo novamente à espera de vaga para retomar os tratamentos. Cumprir 1 hora e meia, se tanto, de exercícios que têm como objectivo recuperar um pouquinho do tanto que já perdi.

Tenho saudades de me sentir útil. De ser aquela miúda do atendimento telefónico ao cliente prestável, educada, correcta, amável e que nas auditorias de qualidade não raras vezes passava dos 90%. Até mesmo dos 95%.

Segunda feira. Aquele dia em que todos os outros que não eu retomam a rotina do trabalho. Eu? Para já mantenho a rotina de sair de casa com o Sol já nascido, apanhar o autocarro que, por vezes, como hoje, falha e não aparece, sair no centro de Almada com tempo mais do que suficiente para beber café com calma na esplanada que, mesmo no Verão, me gela o corpo mas cujas colheres de café são muito giras. Terminado o café, inicia-se a fisioterapia. Terminada a fisioterapia, fazer o caminho de volta a casa. Se o autocarro aparecer. Não sei o que se passou hoje com o autocarro, mas para lá falhou um, para cá falharam dois.

E do que eu não tenho mesmo saudades, porque acontece todos os dias, é ficar a ver o tempo passar. A sentir-me inútil. Continuo educada, prestável dentro do que me é possível fazer, amável com quem me recebe bem.

Do que eu também não tenho saudades, e cada vez tenho menos!, é de ter à minha volta blocos de tijolo e cimento, vulgarmente conhecidos como prédios. Fazem-me sentir ainda mais enclausurada e quase sem conseguir respirar. São blocos de prédios com gente dentro, com vida a acontecer no interior, mas que só nos mostram as paredes exteriores todas mais ou menos parecidas, com uma ou outra excepção, já elas onde não se vê ninguém, como se fosse tudo um amontoado de caixotes de tijolo e cimento.

Sim, eu sei que tenho um parque maravilhoso praticamente à porta de casa e que depois do parque está a praia. Tanto um como o outro me fazem bem, permitem-me respirar, sentir-me um bocadinho mais viva. Mas não é só disso que estou a precisar. E não é de hoje que penso nisto, que sinto isto. Começou antes do Verão a vontade, praticamente a roçar a necessidade!, de ter, ao meu redor, não blocos de tijolo e cimento, mas sim o verde de árvores e as imensas cores da natureza no seu estado não agredido, não derrubado onde, em troca, se encontram os tais blocos de tijolo e cimento.

Preciso, muito!, de campo. Árvores. Flores. Bichos. Grandes, pequenos, o que for. Preciso de algum sítio onde ninguém me conheça, onde ninguém me faça perguntas e simplesmente me deixe estar, me deixe ser, me deixe sentir o pulsar na natureza, onde me permitam tocar em árvores, senti-las, e porque não abraçá-las?, onde possa respirar fundo.

E aí podia criar uma nova rotina qualquer. Porque a rotina faz(-me) falta. Mas não aquela rotina de segunda a sexta, de passar o dia a correr de um lado para o outro para um dia perceber que essa é a rotina de quem apenas sobrevive, também por não ter tempo para muito mais, e não de quem realmente vive! E eu quero viver, não apenas sobreviver. E não quero ser apenas um número ou uma peça de uma qualquer engrenagem onde me é exigido o que não consigo dar, mas onde dou aquilo que deveria ser realmente importante e com muito bons resultados.

Sim. Segunda feira. Dia de regresso à rotina. E eu? Também tenho uma rotina, embora não seja a melhor opção para uma rotina minimamente saudável: todos os dias, sem excepção, ver o tempo passar…apenas e só, ver o tempo passar.

{#321.046.2024}

Ontem escrevi sobre o efeito das palavras. As que nos doem e (quase) nos destroem e as outras: as que nos suavizam as dores, as que nos ajudam a crescer, as que nos fazem olhar para nós próprios com maior segurança e, até, com mais e melhor confiança.

A estas últimas, as que realmente nos fazem bem, chamo de reforço positivo. E o que me foi dito ontem foi exactamente isso: um reforço positivo! Que tanta falta faz quando sentimos tudo a desmoronar em nós. E um reforço positivo não é, nunca foi, nunca será!, um “dar na cabeça“. Para abrir os olhos. Para olhar para e por mim.

Não! Não é disso que eu preciso, de levar na cabeça. Estou cansada de levar na cabeça por tudo e por nada! Estou cansada de levar na cabeça por toda a gente. Lamento, mas comigo levar na cabeça não funciona. Nunca funcionou, na verdade.

Se teve algum efeito em mim, crescer a levar na cabeça por ser quem e como sou? Teve. Aquele efeito negativo de hoje não me saber valorizar. De achar sempre que fiz alguma coisa mal. De sentir que não pertenço a lado nenhum. De sentir que não sou suficiente. De sentir que sou um fardo para todos.

Cresci a levar na cabeça por ser quem e como sou porque sempre foi mais fácil dar-me na cabeça do que tentar entender-me. Mas, para tentar entender-me, seria preciso primeiro conhecer-me realmente. E cada vez mais percebo que, quem diz que me conhece, é quem menos sabe de mim. Quem sou realmente. Porque é que sou como sou. Porque é que sinto tudo como sinto. Até as palavras. Todas elas são sentidas por mim como algo com poder. Poder de destruição e/ou poder de crescimento.


E eu prefiro sentir as palavras com poder de crescimento. As tais que são o reforço positivo. Porque as palavras com poder de destruiçãocresci com elas, já fizeram o estrago que tinham a fazer. Não quero mais. Não preciso de mais!

Neste momento, em que me vejo a regredir em tanta coisa por causa disto que me apanhou na curva, o que eu mais preciso é de reforço positivo. De palavras com poder de crescimento. Porque é nessas que vejo e sinto o apoio que mais preciso.

Mas, infelizmente, dar-me na cabeça sempre foi o caminho mais fácil. Como esta manhã, que me estragou o resto do dia e até da noite…

{#320.047.2024}

Há palavras que nos doem. Que nos magoam. Que (quase) nos destroem. Mas depois as outras. As que nos suavizam as dores. As que nos ajudam a crescer. As que nos fazem olhar para nós próprios com maior segurança. E até com mais e melhor confiança.

Às vezes temos que estar atentos ao que nos é dito. E filtrar. Deixar no coador as palavras que nos doem para não nos afectarem e deixar fluir as outras. Deixá-las entrar em nós, deixá-las ter em nós aquele efeito positivo que, por vezes, nem nos apercebemos que precisamos.

E hoje ouvi palavras dessas, das que não sabia que precisava de ouvir mas que entraram em mim e têm ecoado na minha cabeça o dia todo. E as palavras que hoje ouvi são daquelas que me fazem olhar para mim mesma com mais segurança. Com muito mais confiança.

As aulas de Yoga fazem-me muito bem, não apenas pelo Yoga em si mas também por quem está lá. Como o professor Pedro que, desde o primeiro dia, se mostrou uma pessoa que nos ouve e nos vê. E que, tantas vezes, nos diz as palavras certas. Como hoje.

No final da aula, naquele momento em que já estamos a arrumar as coisas para ir embora e já toda a gente se foi embora menos nós, já nem sei do que falávamos em concreto. Até que ele me diz “tu, apesar da doença que tens, fazes aqui coisas que acho que nem tens noção que consegues“.

E isto, estas palavras, trouxeram-me aquela confiança em mim mesma que me tem faltado e a segurança mais do que suficiente para não desistir. Nem do Yoga e muito menos de mim.

Por isso, Pedro, muito obrigada por tudo desde o primeiro dia, mas especialmente por estas palavras que me deram exactamente o que estava a precisar.

O Yoga é um desafio constante. Mas é daqueles desafios que, quando superados, nos trazem tanto mais do que aquilo que é visível. E saber que, apesar do que me apanhou na curva, alcanço aquilo que nem eu tenho noção de que consigo, só me dá mais força, ânimo, coragem e confiança para continuar o meu caminho. Com mais ou menos dificuldade, é possível continuar e chegar . Seja esse “” onde for. Mas que para mim é chegar à melhor versão de mim mesma, em todos os aspectos.

E que bom foi saber filtrar e deixar fluir só as palavras que fazem bem.

{#319.048.2024}

Uma hora e meia de fisioterapia todos os dias a começar às 9h30 da manhã. Requer alguma disciplina de horários, coisa que eu não tenho. A disciplina de me deitar cedo, pelo menos.

Sendo que acontece todos os dias, é normal uma pessoa chegar a sexta feira cansada. Especialmente depois de uma aula de Yoga à quinta feira ao final do dia que me atrasa os horários ainda mais do que nos outros dias. Mas não é por isso que vou desistir do Yoga. Seja à quinta feira ou seja a que dia for.

Voltando à fisioterapia: ir aos tratamentos é, literalmente, (re)aprender a andar. Dou por mim muitas vezes a recordar-me do microsobrinho quando aprendeu a andar. Agarrado, ia a todo o lado. Como eu agora, desde que tenha a bengala comigo, vou. E se tiver quem me dê o braço, ainda vou mais longe e mais depressa. Não muito mais depressa, mas pelo menos mais segura.

Um dia o microsobrinho percebeu que, largando os apoios e uma vez que já dominava o equilíbrio, podia ir sem medos onde quisesse. E foi.

Eu gostava de conseguir fazer como ele: dominar o equilíbrio, largar os apoios e simplesmente ir. Não vai acontecer. Mas posso (e devo!) trabalhar o equilíbrio o mais possível e (re)aprender a dar passos mais seguros. O apoio da bengala é para ficar. Mas o equilíbrio e o caminhar (mais) segura e sozinha são para reconquistar. Um dia atrás do outro. Sem pressa e sem pressão.

O resto do dia foi para recuperar. Mas como é que se recupera das saudades que temos de alguém? Não sei…

À noite falamos de sonhos. E assumo que foi com ele e por causa dele que reaprendi, recordei, seja lá o verbo que for!, que é possível sonhar. E também por isso continuo a escrever todos os dias. Porque não é só o poeta que sonha e escreve, que escreve e sonha. E deixar de sonhar não pode acontecer. Assim como, para mim, também não pode acontecer deixar de escrever

A noite hoje não se vai alongar. Não pode. Estou cansada. Moída. Dorida. Amanhã é dia de Yoga logo de manhã cedo. E, apesar de tudo, dou por mim a sonhar ao mesmo tempo que vou escrevendo. Porque, se um dia eu deixar de acreditar no poder dos sonhos, deixo também de acreditar na força da palavra escrita. Seja em prosa ou poesia.

{#318.049.2024}

Dia sem grande História ou histórias. Manhã de fisioterapia para reaprender a andar com equilíbrio, à tarde Yoga para me reencontrar a mim e ao meu equilíbrio interior.

Horários desencontrados e 135km de distância resultam em muitas saudades. Minhas dele. Dele minhas. Nossas de nós.

Mas nem isso nos afasta.

Amanhã? Reaprender a andar de manhã. Depois? Logo se vê. Provavelmente será adormecer no sofá. Mas com ele logo ali à distância de um clique.

{#317.050.2024}

Com tanto cá dentro. Para sentir. Para expressar. Para exprimir. Para digerir. Para gerir. Tanto cá dentro.

E não me sai nada…

{#316.051.2024}

Já decidi, há muitos anos!, que quando crescer quero ser uma árvore. Mas não uma árvore qualquer. Posso até ser retorcida, não demasiado alta ou de tronco largo. Não é isso que me interessa. Interessa-me, sim, ser uma árvore diferente. Porque diferente já sou, nunca poderia ser mais uma árvore igual às outras.

Mas quero ser uma árvore. Diferente. Única. E posso até estar, como já estou, na realidade, sozinha num qualquer lugar. De maior ou menor destaque, não interessa. E tão pouco me importa se estou em lugar de passagem onde, de vez em quando, alguém pare para me olhar. E realmente ver.

O que eu quero é ser uma árvore quando crescer. Seja lá isso quando ou como for. Não quero saber. O que quero mesmo é ser uma árvore. Como ela. Que via diariamente quando saía do autocarro depois do trabalho naquela paragem onde, agora, só muito raramente saio. Mas, sempre que saía do autocarro e passava por ela, parava sempre. Todos os dias depois do trabalho tirava aqueles breves momentos para olhá-la. E vê-la.

Muitos anos antes de a ver pela primeira vez já tinha decidido que quero ser uma árvore quando crescer. E quando a conheci, reconheci-me nela… Sozinha, isolada, morta, mas de pé!

Quando crescer quero ser uma árvore. Como ela. E continuar a fazer o que já faço: ser diferente, estar sozinha, já morta tantas vezes embora renascida. E sempre de pé!

É à noite que os ecos na minha cabeça fazem mais barulho. E hoje estão particularmente barulhentos. Talvez, mas só talvez, quando for uma árvore já não os oiça. Mas, mesmo depois de morta, irei manter-me como ela: diferente, sozinha, mas de pé!

{#315.052.2024}

Gosto de livros. Em papel. Os digitais não me seduzem minimamente. Falta-lhes o toque. A textura. Até o cheiro!
E gosto (muito) de livros em 2• mão. Em feiras de velharias a única coisa que me interessa são os livros (e os botões, vá, mas isso são outros 500) e na já extinta Feira da Chincha em Cacilhas fiz belíssimas aquisições de livros em 2• mão. 1984, por exemplo, foi uma delas.

Hoje não fui a nenhuma feira de velharias nem a nenhum alfarrabista. Não sei se fui eu que encontrei Vitorino Nemésio sozinho ali em cima de uma caixa de electricidade ou se foi ele que, sabendo que eu ia passar por ali, ficou à minha espera. Bem, na verdade o Universo deve ter alguma coisa a haver com isso, porque na realidade eu ia fazer o meu caminho no passeio oposto, mas ao passar junto à passadeira que nem era suposto atravessar um rapaz no seu carro acelerado travou bruscamente e fez-me sinal para passar. Agradeci e atravessei a estrada. Afinal, o passeio oposto por onde eu tinha pensado ir ia dar exactamente ao mesmo sítio, só tendo que usar a passadeira mais à frente.

Atravessei conforme o jovem condutor me fez sinal para fazer e, poucos, muito poucos passos mais à frente, lá estava a caixa de electricidade e Vitorino Nemésio à minha espera.

“Limite de Idade”, assim se chama o livro. Uma edição da Editorial Estúdios Cor. Ainda não consegui perceber de que ano é esta edição, sei que a primeira foi em 1972. E esta, que de acordo com o carimbo que consta no interior foi oferta, não deve andar muito longe de 1972.

É um livro de poesia. E, pelo que já li pelo Google, dedica-se, mas não exclusivamente, ao humor negro. Tem tudo para ser bom, portanto!

E, pelo que já folheei, a minha visão dupla quase constante, não vai atrapalhar a leitura. Por isso, este encontro inesperado, veio na hora certa para me iluminar os dias. E, sendo um livro de poesia, é para ir lendo. Sem pressa. Exactamente naquele registo em que me encontro agora: sem pressa.

Aquela travagem brusca daquele jovem condutor junto à passadeira que eu nem ia atravessar, afinal, trouxe alguma coisa boa. E, mesmo não fazendo ideia de quem era o condutor, só lhe tenho a repetir o que lhe disse antes: obrigada!

{#314.053.2024}

Entesopatia no joelho esquerdo? Check ✔️

E o que é a Entesopatia? Bem…vamos decompor a palavra para percebermos melhor.

Ora então, diz-nos o Priberam:

  • patia

elemento de composição

  1. Exprime a noção de doença ou sofrimento (ex.: frenopatia; psicopatia).

Ou seja, o sufixo patia sugere-nos que se trata de uma doença. Já o início da palavra, ENTESO, sugere o óbvio! Uma Entesopatia é uma doença dos TESOS! Daqueles que, de cada vez que vão à farmácia, ficam ainda mais tesos! A contar os tostões todos. Ou os cêntimos, vá! Já não se usam tostões.

Portanto, confirmo: depois do Burnout no ano passado, do diagnóstico que me apanhou na curva no início deste ano, da falta de equilíbrio a caminhar, só me faltava mesmo agora andar coxa do joelho esquerdo por, sabe-se lá como!, ter a doença dos tesos! Se algum dia me encontrarem no Metro com uma latinha, não se esqueçam de deixar uma moedinha. Obrigada desde já!

[Agora falando mais a sério, uma Entesopatia é uma inflamação daquilo que liga os tendões aos ligamentos ou aos ossos, já não sei nem me apetece ir procurar outra vez. O que sei é que dói para caracinhas. O que não sei é como é que isto apareceu. Tratamento? Gelo, Diclofenac (vulgo Voltaren) em pomada e repouso. O que, sendo num joelho e ter que trabalhar a marcha e o equilíbrio na fisioterapia é para rir. Mas também sempre ouvi dizer que mais vale rir que chorar! E, seja como for, ando há praticamente 2 anos a dizer que não consigo chorar, por isso siga! É rir para não enlouquecer, pronto!]

{#313.054.2024}

Esta tarde o telefone tocou. Era aquela chamada que nunca sabemos, tirando as datas de aniversário, quando vai acontecer, mas que realmente acontece.

“Quero saber de ti, o que é que se passa contigo?”

Esta é uma daquelas amizades que existem há mais de 20 anos, que começou a nível profissional com ela a ensinar e eu a aprender. E posso dizer que muito do que sei hoje (se não praticamente tudo) a nível de seguro automóvel o devo a ela. E, arrisco dizer, o clique entre as duas foi imediato.

Entretanto, cada uma seguiu o seu rumo profissional e o seu caminho. Mas, mais uma vez, as redes sociais nos trouxeram de volta, embora nunca se tenha perdido totalmente o contacto.

Não é daqueles telefonemas que acontecem todos os dias, todas as semanas ou todos os meses. Nem tem que ser para que a amizade, carinho e preocupação que temos uma pela outra se mantenha firme. Houvessem mais amizades assim…

A pergunta bateu cá dentro. Falámos sobre como estou, sobre o que se passa comigo. Como se ela não soubesse, como se ela não lesse o que escrevo.

E fica uma pergunta no ar: “mas porquê?“. Seguida de uma afirmação “não consigo compreender…!”.

Nem eu, Fernanda. Nem eu. Mas a verdade é que a Fernanda, e não seria de esperar outra coisa vinda de si, foi a única a fazer aquilo que mais ninguém faz: ligou e quis saber. O que se passa comigo. Como estou. Porque é que está a acontecer comigo aquilo que nenhuma de nós entende.

E ficou a pergunta no ar: custa assim tanto enviar uma mensagem que demora 30 segundos a ser enviada?

Quem souber que responda. Mas não me venham, mais uma vez, com promessas que nunca se quiseram cumprir nem dizer coisas só por dizer. “Havemos de ir beber café” é uma dessas coisas. Quando começa com “havemos de“, já sei que não irá acontecer. É dizer por dizer. Para ficar bem na fotografia? Não sei.

Mas, lá está: não sei, Fernanda. E também eu não entendo, mesmo que todos os dias pergunte “porquê?“… Acho que nunca saberemos a resposta a isso.

E à outra questão também não devemos ter resposta: “custa assim tanto enviar uma mensagem que demora 30 segundos a enviar?”

E, se não souberem sequer o que dizer, podem sempre começar com um simples “Olá.” Dizem que não custa nada. E faz bem. Aos dois lados…

{#312.055.2024}

Há muito tempo que deixei de fazer planos. Já sei que acaba sempre por acontecer alguma coisa que impede que os planos se realizem. Mas não deixo de programar coisas. E, depois do dia fisicamente puxado de ontem, com fisioterapia de manhã cedo e Yoga ao final do dia, novamente fisioterapia hoje cedo, só havia um programa possível para a tarde: sofásana, aquela postura de Yoga que, na verdade, não existe mas que eu tenho adoptado como a minha favorita. Para ajudar, tinha recomendações da fisioterapia: gelo no joelho e almofada térmica quentinha na lombar. Assim um misto de frio e quente estranho, mas necessário.

Depois do almoço ainda tive energia para vir ao Jardim da Depressão beber um café, fumar um cigarro e pisgar-me daqui para o sofá. E, ao chegar ao sofá, quase não tive tempo de pôr o gelo no joelho e a almofada na lombar. E, se bem me lembro (mas não garanto), nem cheguei a pôr os óculos para ler as legendas na televisão. Foi kaput imediato.

Mas antes de tudo isso ainda consegui comentar uma publicação de uma rapariga escocesa, doente crónica e no espectro do autismo, que publicou um poema com o qual eu me identifiquei na totalidade. E, em resposta ao meu comentário, chegaram-me respostas a assegurar-me aquilo que os meus amigos não me asseguram: que não estou sozinha! Porque existe uma enorme comunidade online de doentes crónicos, com Esclerose Múltipla como eu ou não, que se apoiam mutuamente. Porque se entendem uns aos outros. Porque se ACEITAM uns aos outros, tal como estão e TODOS se recordam que são MUITO MAIS do que a doença que carregam.

Curiosamente (ou não…), tem sido nessa comunidade online espalhada pelos quatro cantos do Mundo e composta por pessoas que eu NÃO CONHEÇO que tenho encontrado mais apoio. Raramente interajo com as publicações, mas reconheço-me em cada dificuldade, cada dor, cada cansaço extremo, cada partilha, cada palavra.

Como não ter nas redes sociais o garante da minha saúde mental se é nas redes sociais que ENCONTRO apoio? E esse apoio pode ser um simples post, uma simples resposta a um comentário, mesmo que seja a dizer-me que também passaram pelo afastamento e abandono dos amigos e que a responsabilidade não é nossa

{#311.056.2024}

A melhor forma de apaziguar os meus monstros e os meus demónios que me acompanham diariamente e se fazem mais presentes à noite assumindo o papel de vozes negativas e intrusivas a ecoar na minha cabeça é, sem dúvida, moer o corpo…

Fisioterapia de certa forma intensa logo de manhã, um início de tarde estranho e cansativo, uma caminhada inesperada e feita a muito custo porque um autocarro não apareceu seguida de uma aula de Yoga que, como acontece sempre, foi desafiante.

Dói-me o corpo, especialmente as pernas. E o joelho que piora todos os dias. Mas esta noite não há ecos na minha cabeça.

E soube muito bem terem-me dito “fazes bem em manter uma espécie de diário digital, ajuda-te”. E sim, o escrever no éter, especialmente no blog e, mais recentemente, no Instagram, é a minha ferramenta terapêutica de eleição. O que escrevo pode até nem interessar a ninguém. Mas é o meu momento de reflexão e, tantas vezes, o meu momento de catarse.

Por isso, sim!, irei continuar a fazê-lo.

{#310.057.2024}

De que me serve um psicólogo que se ri de escárnio quando lhe digo que as redes sociais têm sido o garante da minha saúde mental quando estou mal?

De que me serve um psicólogo em que as consultas acontecem com intervalos de mês e meio quando eu preciso de ajuda para ontem e de forma mais regular e menos espaçada?

De que me serve um psicólogo que dá consultas de 30 minutos em que eu posso falar durante 10 minutos e mesmo assim ele não ouve, ou não quer ouvir!, o que lhe digo e os restantes 20 minutos são para preencher testes de avaliação solicitados pelo psiquiatra que entretanto se ausentou do Hospital com regresso previsto para daqui a dois anos e não me deixou com substituto atribuído?

De que me serve um psicólogo que, ao me receber na consulta estando eu de máscara onde só o meu olhar está disponível, não consegue ver o que, na véspera!, e nas mesmas circunstâncias, ou seja de máscara!, até o neurologista percebe e diz, do nada, “essa depressão não vai muito bem, pois não?”.

De que me serve esta ajuda que não ajuda em absolutamente nada?!

Há uns anos, um até então chamado amigo que entretanto deixou de me falar sabe Deus porquê, criticou a minha forma de estar nas redes sociais. Que me expunha demasiado. Especialmente nos meus momentos maus. Como agora. Chegou a dizer-me que eu escrevia demais. E eu respondi, publiquei e agora repito: não se preocupem se escrevo “demais”. Preocupem-se no dia em que deixar de escrever!

É que, enquanto escrevo, é sinal que ainda tenho forças para pedir ajuda. E, ao expôr dentro do limite que eu mesma traço!, é isso que estou a fazer: a pedir ajuda! A tentar não me perder. Não me afogar naquelas lágrimas que teimam em não cair mas que me sufocam!

Alternativa a este psicólogo? Já estou a procurar opções. E a falta imensa que me faz o terapeuta fofinho nestas horas!

A depressão, claro, está confortavelmente instalada e em franco crescimento. E eu já cá estive antes e não gostei.

E o meu céu continua escuro. Cada vez mais escuro. E a solidão é um bicho que rói e corrói por dentro e, ao mesmo tempo, tem um peso insuportável.

Falta-me a luz-guia para eu reencontrar o meu caminho de volta. E durante 8 anos essa luz-guia foi o terapeuta fofinho. Que já não me acompanha. E que tanta falta me faz…

Amanhã? Continuo a fazer de conta que está tudo bem quando for para a fisioterapia de manhã e para o Yoga ao final do dia. Afinal, se sou boa em alguma coisa é em fazer de conta

{#309.058.2024}

Das coisas que eu teimo em não aprender a fazer: ser mais gentil e positiva COMIGO MESMA!

Na semana passada liguei à Maria, que tinha feito 76 anos uns dias antes e que eu, que só sei datas de aniversário por causa do Facebook e não me lembro quando foi a última vez que lá fui, deixei passar. Dei por mim a puxar por ela, a animá-la, e a ouvir da boca dela “eu gostava tanto de ser tão positiva como a Catarina”. E eu, que pensava mas não dizia, repetia na minha cabeça “mas eu não sou nada positiva“.

Há umas semanas, comecei a conversar com uma pessoa no Instagram, que vive na Índia e que só hoje soube que não tem sequer 30 anos e cujo nome ainda nem sei. Uma miúda, portanto! Ela foi apanhada na curva pela mesma coisa que eu. Mas o que me levou a comentar uma publicação dela foram os ataques de pânico que ela também tem. Com 30 anos de experiência em ataques de pânico e crises de ansiedade dei-lhe o meu exemplo de que é possível sobreviver e até ultrapassar os ataques de pânico.

A partir daí, temos conversado. Contei-lhe as minhas experiências mais marcantes e que superei com mestria no que diz respeito aos ataques de pânico e dei-lhe algumas dicas de como os enfrentar para poder superar.
Hoje falámos de trabalho. O meu que é óptimo para fritar a pipoca e o dela que, na Índia rural, é assustador.
No final da longa conversa de hoje agradeceu-me. Pelas “kind words“, por ser uma “beautiful soul” e por ser “so full of positivity“.

Não sei se sou tudo isso que ela me disse…

Comentei esta conversa com a minha mãe, que também assistiu à conversa que tive com a Maria. E no final, diz-me: “já viste que tu és assim com toda a gente, puxas por todos, és positiva nos problemas dos outros…fazes isso por toda a gente menos por TI?”

O pior é que, como sempre, a minha mãe, que me conhece melhor do que ninguém incluindo eu própria, tem razão. Tem TODA a razão.

Sou gentil e positiva com todos, para todos. Menos comigo. Menos para mim.

Como é que se muda esse chip? Não faço ideia. Só sei que é fácil para qualquer pessoa lidar comigo. Menos para mim. Tenho dito várias vezes que não é fácil ser eu. E não é. E ser positiva e gentil comigo mesma não acontece…e devia!

Este canto da varanda, onde se encontra o meu cadeirão, foi há uns largos meses baptizado, meio a brincar, de Jardim das Leguminosas. Ambos, eu e ele, sabemos que o que ali se encontra não são Leguminosas mas sim Suculentas. Na altura, rimo-nos os dois com a gafe, mas o nome ficou.

De há umas semanas para cá eu, na minha cabeça, chamo-lhe muitas vezes Jardim das Buganvílias, sabendo que seria sempre impossível ter um jardim desses no interior de uma varanda fechada, mas que é o meu sonho.

O cadeirão no Jardim das Leguminosas é onde passo o dia todo, excepto quando adormeço no sofá. São tantas as horas que aqui passo que já pondero em rebaptizar o Jardim. Tem todas as condições para se chamar Jardim da Depressão. Porque é aqui que a sinto tomar conta de mim e com cada vez mais força. E, por mais que peça ajuda, não a tenho.

Aqui neste canto a única coisa que vive realmente são as Suculentas de quem a minha mãe trata todos os dias. Porque eu, como a foto, estou cada vez mais esbatida e a perder a cor e o brilho. E os riscos na foto não são os riscos no corpo…ainda.

É impressionante o silêncio que se ouve quando eu digo “não me sinto bem, preciso de ajuda”. Porque é isso que se ouve cá em casa: silêncio. Ensurdecedor

Hoje li num cartoon:
Como é que se reconhece um verdadeiro amigo?“, perguntou a Raposa.
Espera pela escuridão“, respondeu a Lua, “e vê qual é a Estrela que ainda brilha.”

O meu céu está absolutamente escuro. A única Estrela que ainda brilha é ele, mas ele está tão longe. De resto…o meu céu está absolutamente escuro.

…e só não reconhece um pedido de ajuda quem não quer…

É nestas alturas que faz falta à minha mãe ter um telemóvel. Porque, já que aparenta não me ouvir, podia ser que me lesse

{#308.059.2024}

É preciso desmistificar o poder do café. Ou será que, a partir de um determinado número de cafés bebidos ao longo da vida, já não funciona? Já não dá aquele kick para me manter acordada? Ou apenas mais desperta? Com um bocadinho mais de energia para, sequer, dar um passo?

É que, por aqui, beber café ou beber água tem exactamente o mesmo efeito: hidrata mas não dá mais energia.

Depois lembro-me daquela coisa que me apanhou na curva, cujo nome me recuso a verbalizar oralmente ou por escrito, não por vergonha mas apenas porque ainda não a aceitei…e com essa coisa vem a fadiga. Incapacitante? Tem sido.

Por isso, desmistifique-se o poder do café. Porque, pelo menos comigo, já não funciona.

E se eu queria estar neste estado incapaz de fazer grande coisa durante o dia? Não, não queria. Nem quero! E por favor, alguém com mais experiência nisto que me diga como voltar a ter um bocadinho mais de energia, por favor! Porque eu não aguento isto…muito menos sei o que posso (ou não) fazer…

{#307.060.2024}

Hoje? Não posso dizer que estou cansada. Porque, na verdade, é muito mais do que apenas cansada. Nem posso dizer que estou muito cansada. Porque, na verdade, estou exausta. Completamente esgotada.

Ontem fui dormir muito tarde, é verdade. Não me lembro se foi às 2h da manhã ou às 3h da manhã. Só sei que foi demasiado tarde. E também sei que me esqueço destas coisas simples que, é certo, não são muito importantes. Mas são simplesmente apagadas da minha memória com imensa facilidade, o que não devia acontecer. Não a esta velocidade…

Seja lá a que horas for que eu tenha ido dormir, a verdade é que acordei às 9h da manhã. Para nada. Não havia nada programado para hoje. Mas, já percebi, tenho um novo despertador. Mas este não dá para acertar a hora do alarme. É ele próprio que decide a que horas preciso mesmo de acordar. É um despertador biológico que tanto me deixa dormir até ao meio dia como me acorda cedo ou, na pior das hipóteses, a meio da noite. Até quando adormeço no sofá é este despertador que, tantas vezes, me acorda. É a minha bexiga! Que enche demais e me faz acordar. Ou que eu não consigo esvaziar na totalidade, também acontece. E funcionar já é muito bom. Dia 1 de Junho, mais uma voltinha às urgências do Hospital porque não quis funcionar. E, ao fim de 14 horas sem funcionar, na Linha SNS24 recomendaram, e bem!, uma passagem nas urgências. E assim foi.

Felizmente esse episódio, até à data, não se repetiu na totalidade, mas a dificuldade em esvaziar a bexiga existe, está cá. E, às vezes, é realmente complicado esvaziar na totalidade. Por isso é que me acorda tantas vezes a meio da noite ou, como hoje, demasiado cedo depois de ir dormir demasiado tarde.

A verdade é que, ainda antes do almoço, arrisquei ir sozinha à rua, tentar (re)conquistar um pouco mais de autonomia. E já a essa hora me sentia exausta. De quê? Para variar, de nada

Voltei para casa 300 e poucos metros depois, completamente exausta, absolutamente esgotada. Porque, dizer apenas que estou cansada ou até mesmo muito cansada, não é suficiente.

Acabei, obviamente, por adormecer no sofá. Mais tarde do que gostaria. E, mais uma vez, as horas não são claras…passava pouco das 16h? Ou já passava largamente das 17h? Não sei. Que já passava das 16h eu sei porque foi quando ele iniciou o serviço hoje e ainda conversámos. Muito tempo? Pouco tempo? Não faço ideia. Não me lembro… A única coisa que sei, porque assim mo disseram, foi que adormeci com o telemóvel em cima da barriga. Muito provavelmente à espera de nova mensagem dele

Fui acordada para jantar já depois das 20h. Mas a sensação de não ter um mínimo de energia continua…

Já sei que esta estupidez de cansaço é a tão falada fadiga, mais um sintoma clínico e claro desta coisa que me apanhou na curva. Tenho que aprender a gerir a minha energia… Ontem de manhã, foi dia de Yoga, portanto o ideal teria sido descansar à tarde. E não me lembro se o fiz… Lembro-me, claro, que, já tarde, me dediquei à escrita. Longa. Demorada. Isto depois de o acompanhar até terminar o turno à meia noite. Portanto, aqui está tudo errado: gastar energia de manhã sem recuperar à tarde e esgotar a restante à noite? Só podia resultar num dia de hoje como resultou…

Tudo isto faz parte desta coisa que me apanhou na curva e que eu ainda estou a conhecer. Ainda estou na fase do querer fazer tanta coisa e não conseguir fazer nada porque não soube gerir a minha energia. Nem sei, sequer, se é possível fazer essa gestão. O que sei é que o meu corpo é que manda agora! Seja para me acordar a meio da noite ou de manhã cedo com a bexiga cheia ou seja para me obrigar a parar e a recuperar energias.

Tudo isto é, ainda, novo para mim. E eu ainda não aprendi, nem aceitei!, a dizer “não posso/não consigo“… Porque essa não sou eu. Ou, nesta nova vida que agora enfrento e é a minha nova realidade, essa não era eu.

Não está a ser fácil lidar com tudo isto. Gerir tudo isto. Felizmente, para além da minha mãe, tenho-o a ele que caminha comigo, ao meu lado, do meu lado, sempre de mão dada comigo. Desde o primeiro dia. Ele não sabe, mas já me tem trazido ao colo várias vezes. Tal como me disse que faria se/quando o caminho se tornasse mais difícil…

Agora está mais do que na hora de dar o dia por terminado. Não aguento muito mais acordada. E para amanhã há planos. Convém descansar. Não vou conseguir fazer-lhe companhia até ao final do turno. Mas, já sei, acabaremos sempre por enroscar, com os dedos dele no meu cabelo e uma mão a percorrer-me as costas. Até eu adormecer.

{#306.061.2024}

Sábado e o regresso a alguma normalidade na rotina. Dia 21 de Setembro, Sábado, foi a última aula de Yoga antes da infusão do medicamento pelo qual tinha esperado tanto tempo e que, depois de o receber, me deixou completamente sem sistema imunitário e me levou a uma bolha de auto-isolamento nos primeiros 15 dias, em que pouco saí de casa.

Veio Outubro e o isolamento ainda era necessário, o período mais crítico ainda decorria e tanto a enfermeira como o médico me disseram para esperar mais um pouco, evitar locais com muita gente, centros de saúde, hospitais, centros comerciais, transportes públicos e máscara sempre quando em contacto com os outros.

Adiei o regresso à Fisioterapia que não faço desde Agosto e tanta falta me está a fazer para trabalhar o equilíbrio. Segui o conselho do neurologista: “nem pense em desistir do Yoga!”. Não desisti mas, claro, adiei. Até hoje!

Dei por mim ontem à noite a arrumar as coisas para levar para a aula e a roupa para vestir e não me lembrava onde estavam…eu sei que esta coisa que me apanhou na curva também compromete o funcionamento cognitivo e esquecer alguma coisa faz parte. Mas fez-me alguma confusão ontem à noite não me lembrar do básico que tinha que preparar. Mas também é verdade que, também ontem ao final do dia, não me lembrava de nada do que fiz durante a semana…e mesmo agora que penso nisso há coisas que simplesmente me estão em branco. E não gosto de sentir isso…

Mas hoje foi o dia tão esperado do regresso! E soube tão bem! Não só pela aula em si que me veio confirmar que um mês parada não me fez bem nenhum fisicamente, mas também pela recepção das minhas colegas. Sorrisos de boas vindas quando me viam, abraços, beijinhos enviados pelo ar porque uma delas estava constipada e, mesmo eu estando de máscara, uma constipação não é nada bem vinda.

Depois da aula, boleia de regresso a casa, como sempre. Mas hoje não com a boleia do costume. Hoje com o Professor Pedro que, desde o início disto tudo, tem sido um enorme apoio. Ao chegarmos junto à esplanada do costume disse-lhe que ia ficar por aí porque ainda ia beber um café antes de voltar para casa. “Então vou beber um café contigo!” E foi.

Conversámos. Sobre esta coisa que me apanhou na curva, sobre as aulas e a forma como ele planeia cada aula e que raramente cumpre na totalidade porque deixa a energia fluir e faz os ajustes necessários na altura. Resumindo, tive aquilo que há tanto tempo precisava: uma conversa normal.

E nesta manhã percebi: afinal, até existo! Para um grupo restrito. Que ficou honestamente contente por me receber de volta. Que me acolheu tão bem.

Nenhum deles conseguiu ver o meu sorriso por baixo da máscara à chegada, mas ele estava cá. O Professor Pedro ainda teve oportunidade de o ver quando tirei a máscara na esplanada.

Nenhum deles, desde o Professor Pedro a qualquer uma das minhas colegas, tem a noção do quanto esta manhã me foi tão importante e do bem que me fez.

Voltei para casa com outro ânimo, claro. Moída e com o sono habitual. Mas mais leve. Porque, afinal, existo! E pertenço! Pertenço a um grupo que me recebeu bem em Maio do ano passado quando iniciei esta viagem no Yoga com este Professor. E que, com o passar do tempo, me viram a abrir cada vez mais para o grupo e que, com a evolução desta coisa que me apanhou na curva, souberam acolher-me sempre prontas a ajudar com coisas tão pequenas como “deixa que eu levo!”, fosse o tapete ou a mochila. Para elas, o importante sempre foi ajudar nas mínimas coisas. Sempre lhes agradeci, claro que sim. Mas elas não fazem ideia do quanto lhes sou grata por tudo. E ao Professor Pedro também. Psicólogo de formação, sabe ouvir de outra forma.

Foi uma manhã muito boa. Foi uma manhã muito feliz. Já tinha saudades desta rotina de Sábado de manhã e quinta feira ao final do dia. Só tenho pena de não ser possível haver mais aulas durante a semana. Mas tenho exercícios para fazer em casa indicados pelo Professor Pedro e que, sei, me vão ajudar com o equilíbrio. Só tenho que deixar de ser preguiçosa e começar a mexer-me em casa! Manter as caminhadas para fortalecer as pernas, trabalhar a marcha e o equilíbrio no parque e, de volta a casa, fazer o que foi indicado para, em simultâneo, fortalecer as pernas, alongar o corpo e trabalhar o equilíbrio.

Claro que, à tarde, quando fiquei sozinha em casa, não aguentei e sucumbi ao óbvio: o sono! Assim que me deitei no sofá, com as mantas e a almofada térmica quentinha, ainda tentei manter a conversa com ele. Mas adormeci instantaneamente.

Agora? A noite já roça a madrugada, mas a cama ainda está longe. Porque na minha cabeça está em loop a conversa desta noite com ele. Sobre o facto de eu ser DAS letras, não necessariamente DE Letras, e de ter percebido hoje que escrever, principalmente no éter, é uma espécie de caminho para a imortalidade. Porque “Uma vez na Net, para sempre na Net”. E, lá mais para a frente no tempo, e até já acontece hoje em dia, alguém vai dar um desses tropeções na Internet e acabará, sabe-se lá como ou porquê, vir aqui parar. Como quem me lê na Suécia. E eu não conheço ninguém na Suécia. E vai ficar a saber que por aqui passou alguém que viveu, sofreu, chorou, deu a volta por cima, recuperou, mas que acima de tudo se permitiu sentir. E nunca teve qualquer receio em deixar registado tudo o que sentiu, bom ou mau.

Foi uma conversa com ele com um enorme poder de introspecção. Acho que nem ele se apercebeu disso. Mas a mim deixou-me com a conversa em loop na minha cabeça. Porque eu sempre fui de escrever. Sempre gostei de o fazer, mas não de escrever histórias inventadas. Não. O meu registo de escrita é um registo muito de “Diário“. Que, pelo menos nestes últimos 10 anos, começou como um desafio num momento muito mau e em que eu precisava de reagir. E, de facto, esse desafio que era para durar 100 dias e que eu sempre duvidei que fosse sequer conseguir chegar ao décimo dia, tornou-se uma importante ferramenta terapêutica que me ajudou a superar os piores dos piores dos piores dias que já passei e, afinal, já são mais de 10 anos de escrita diária sem excepção.

A conversa com ele continua aqui em loop na minha cabeça. E, já sei, irá manter-se durante algum tempo. Porque as palavras dele, que também me lê, me fizeram encaixar algumas coisas que já me têm dito sobre o que escrevo. Todas no mesmo sentido das palavras dele. Mas hoje encaixaram de outra forma. E tocaram cá dentro pela primeira vez…

Mas a madrugada insiste em chegar. Está frio. Estou cansada. Moída. Embora com a cabeça a mil e a querer continuar a escrever sobre sabe-se lá o quê agora, os olhos começam a pesar. Por isso, por hoje não vou continuar. Também não há muito mais para dizer sobre hoje. Mas aquela conversa com ele sobre a minha escrita…

Amanhã. Amanhã é outro dia. Agora é preciso descansar. Aquecer. E dormir. Enroscar-me nele, mesmo que ele esteja e não aqui. Não interessa. E depois amanhã logo se vê. Por hoje posso dizer: hoje foi um dia muito feliz.