Daily Archives: 04/10/2024

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Mais um dia igual aos outros. Sair da cama de manhã para o sofá, sair do sofá para o cadeirão. Sair do cadeirão para o sofá. Voltar para o cadeirão. De volta ao sofá, desta vez para me esticar e aconchegar certa de que rapidamente iria adormecer. Não adormeci. Nova ida ao cadeirão. Novo regresso ao sofá. Só para voltar ao cadeirão. Decidir ir à rua beber café depois do jantar. Está a chover. Volto ao sofá. Insisto em ir à rua beber café mesmo que esteja a chover. Já não está. E vou.

Uma hora na esplanada vazia a uma sexta feira à noite. Voltar para casa. Cama? Não me apetece. Regresso ao cadeirão. Preciso de conversar. De viva voz. Com ninguém em particular, apenas com quem quiser conversar comigo. Sobre o quê? Sobre tudo. Sobre nada. Só não converso sobre futebol porque é coisa que não percebo mesmo nada. Conversar sobre o estado do tempo é uma conversa perfeitamente válida.

A minha rotina diária é esta: cadeirão, sofá, cadeirão, sofá, cadeirão, sofá e por aí vai até serem horas de ir dormir. Que hoje já passaram há muito tempo. A noite já roça a madrugada. Mas, cá dentro, uma inquietação que não sei explicar e me prende ao cadeirão. Não gosto de me sentir assim. Nada mesmo.

O que preciso mesmo é de uma voz do outro lado, que me responda, que me questione, que comigo veja o tempo passar. Falar sobre tudo ou falar sobre nada. Desde que de viva voz. Seja ao vivo, seja do outro lado do telefone. Não interessa. Já não me chega a interacção escrita. Já não me é suficiente. Preciso desse momento de viva voz que é profundamente terapêutico e me recorda que, afinal, eu ainda existo. Eu ainda estou cá. Eu ainda sou Eu.

Não admira que, seja no Hospital, no CDP, onde for, quando apanho alguém um bocadinho mais disponível, por norma uma enfermeira, eu fique muito tempo a conversar. Sobre tudo. E tantas vezes sobre nada. Basta sentir um mínimo de disponibilidade do outro lado. E não me calo. Até a minha mãe me dizer que já chega. Porque, afinal, quem está do outro lado, está a trabalhar e eu estou a atrapalhar.

Não é isso que eu quero. Não quero ser aquela que atrapalha. Que não se cala e não deixa os outros trabalhar. Não. Não é isso que eu quero. Mas eu quero e preciso de conversar. De viva voz. Com alguém que tenha disponibilidade e vontade para isso. Porque, não o fazer, faz-me sentir cada vez mais sozinha, cada vez mais inexistente. Mas eu ainda cá estou. Eu ainda sou Eu. Profundamente sozinha. Embora saiba que, na realidade, não o estou. Mas, ao mesmo tempo, estou. E não quero. Não posso. Não me ajuda. Não me faz bem.

Não custa nada conversar com alguém. Pois não? Ou custa assim tanto conversar comigo? Eu já ando suficientemente perdida no meio disto que me apanhou na curva. E fico mais perdida ainda quando me sinto profundamente sozinha. Quase como posta de parte. Numa prateleira qualquer. Onde fico a ganhar pó. E sem qualquer utilidade. Já só falta mesmo sentir que me enfiaram no saco das tralhas para as rifas de uma qualquer quermesse.

Eu só preciso de ter com quem conversar de viva voz. Não peço mais nada que não seja um pouco de tempo para conversar. Para perceber e sentir que sim!, ainda cá estou! Ainda sou Eu! Não estou numa qualquer prateleira a ganhar pó. Não estou no saco das tralhas para as rifas de uma qualquer quermesse.

E, com isto, esta sensação de vazio que trago cá dentro por não ter com quem conversar, a inquietação que sinto e que me incomoda tanto, não só não converso com ninguém como me recuso a sair do cadeirão para ir para a cama.

Estou cansada. Mas não fisicamente. Afinal, não faço nada o dia todo para me cansar… Mas estou cansada mentalmente. Estou cansada emocionalmente. Inquieta, muito. Cansada, demasiado. E, mais uma vez, a minha vontade é deitar a cabeça num colo e chorar. Não vai acontecer, já sei. Há mais de um ano e meio que quero chorar. E não consigo

Eu preciso de conversar com alguém de viva voz! Sem minutos contados. Conversa sem rumo definido. Falar sobre tudo. Falar sobre nada. Dizer disparates quando for para dizer disparates. Falar sério quando for para falar sério. Eu só preciso de conversar com alguém de viva voz. Mais nada…

Acho que não peço muito. Mas fazem-me sentir que peço demasiado…e eu só preciso de conversar com alguém de viva voz. Mais nada…o resto, o reencontrar-me e certificar-me de que não estou posta na prateleira, que não estou no saco das tralhas para as rifas de uma qualquer quermesse, esse resto eu faço.

Eu só preciso de conversar com alguém de viva voz. Mais nada…